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domingo, 23 de novembro de 2025

Sobre bandas de rock e irmãos

Uma multidão acompanha o show do Oasis em São Paulo.
Uma multidão acompanha o show do Oasis em São Paulo.

Nasci em 1976 e passei os anos 80 ouvindo Beatles. Ganhei o primeiro disco de vinil aos sete anos de idade e completei a coleção original deles (com os discos dos anos 60) aos 14. Mas os Beatles se separaram em 1970, então não tive a chance de vê-los ao vivo.

Entre a adolescência e a juventude da fase adulta, senti que precisava sintonizar algo de meu tempo e curtir sons da minha época. Para quem gostava de Beatles nos anos 90, seria natural se acostumar com o som do Oasis, mas a primeira banda que capturou meus ouvidos foi The Verve. Passei os primeiros meses da carreira de arquiteto ouvindo The Verve noites adentro, sozinho na edícula da casa de meus pais, desenhando os primeiros projetos.

Pouca gente no Brasil conhece o conjunto The Verve a ponto de saber que seu vocalista e poeta pós-moderno se chama Richard Ashcroft, um gênio subestimado de nosso tempo.

Depois, sim, veio o interesse pelos Oasis, com a vantagem de que eles faziam excursões pela América Latina, de vez em quando. Já crescidinho e com algum dinheiro no bolso, fui a um show deles em 2005, no estacionamento do Credicard Hall, nas margens do Rio Pinheiros em São Paulo. Choveu naquela noite. Eu não sabia, mas semanas depois conheceria minha esposa. Foi um período de transição na minha vida.

Em 2009 fui ao segundo show do Oasis, no estacionamento do Parque Anhembi, nas margens do Rio Tietê em São Paulo. Choveu naquela noite. Minha afilhada e um primo estavam comigo. Já sabia que semanas depois estaria casado. O que não sabia é que os irmãos Noel e Liam Gallagher brigariam nos bastidores de um show em Paris e acabariam com o Oasis "para sempre". 

Esse "para sempre" durou 16 anos. Se a mulher do Lennon se casou com ele e separou os Beatles, a mulher do Noel se separou dele e reuniu o Oasis...

Agora, em 2025, fui ao terceiro show do Oasis, no estádio do Morumbi em São Paulo. Choveu só na estrada, que bom. Minha afilhada, já casada, foi comigo de novo. O marido dela também. Minha irmã e o filho dela (meu afilhado) também. Minha esposa e minha filha, que herdou o gosto pelo Oasis, também. Alugamos uma van. Fui no banco da frente, conversando com o motorista, que vou chamar de Cláudio. Não sei o que acontecerá nas próximas semanas, salvo que completarei 50 anos. A juta do barril: meio século! Assim, cada show do Oasis que assisti foi um marcador de passagens importantes da minha trajetória.

A abertura foi conduzida por Richard Ashcroft, aquele mesmo do The Verve. Subitamente me senti com 23 anos de novo, ouvindo seus clássicos (para mim são clássicos) lá do anel superior da arquibancada. Ele tinha cerca de 4 milímetros de altura para mim, mas o som falou alto, bem alto, nos ouvidos. 

A plateia não se empolgou muito até o momento de tocar "Bitter Sweet Symphony", um dos hinos da juventude dos anos 90. Quis pedir desculpas para ele, que merecia aplausos mais efusivos. Mas a turma estava lá para por causa do Oasis.

Quando eles subiram no palco... que estrondo! As arquibancadas começaram a chacoalhar. O grito da multidão foi quase ensurdecedor. Os irmãos Gallagher simularam gestos de cumplicidade, mas logo ficou claro que estavam ali de modo profissional, sobretudo. E que profissionais! Entregaram um rock despido de superproduções. Logicamente, os telões funcionaram bem como suporte para quem estava lá no fundo, mas o som ao vivo deles guardava aquela crueza que fazia sentido nas bandas tradicionais de rock.

Ao todo eles executaram o equivalente a dois álbuns repletos de grandes sucessos, incluindo "Live Forever", "Masterplan" e "Wonderwall". Foram duas horas de espetáculo que valeram o ingresso. Porém, ao final da apresentação, a banda não se juntou na frente do palco. Cada um foi embora por um canto após tímidos abraços e cumprimentos.

Um show de rock não é só o que acontece no palco. Tem o antes e o depois. O antes com a chegada no estádio, deixando a visão se acostumar com o colosso de concreto e com o povo se aglutinando aos poucos. Tem a cumplicidade momentânea com os estranhos que sentam ao nosso redor. A família que veio do Nordeste, a balzaquiana que mora a apenas cinco quilômetros do estádio. O casal que não parava de fumar os cigarrinhos do capiroto, uns metros para baixo, sem que alguém os incomodasse.

Na saída do espetáculo, aquele mundaréu de gente caminhando, ainda em transe, pelas ruas e avenidas do entorno, até que vem o alívio de avistar a van estacionada no lugar combinado.

O Cláudio, motorista da noite, é gente fina "pra caramba". Fui cutucando ele de leve e tirando insights de sua biografia. Seu pai era pernambucano e sua mãe era mineira. Eles fugiram para São Paulo, pois os pais dela eram contra o casamento. Tiveram cinco filhos, o Cláudio e quatro irmãs. O Cláudio começou a carreira em São Paulo, mas se mudou para o interior junto com a fábrica da empresa multinacional, onde trabalhava. Lá ele construiu uma bela casa com piscina e, muito anos depois, se aposentou.

O Cláudio voltou a trabalhar, como motorista de van, para completar o dinheiro da mensalidade da faculdade da filha caçula e da parcela do carro que deu para ela. Paizão! Que anda de moto estradeira quando a agenda permite.

Ele disse que a família se reúne em sua chácara durante o Natal. Alguns vão dormir na casa da irmã que mora ali perto, a única com quem ele não se entende muito bem, por causa de uma herança. O dinheiro que reuniu os irmãos Gallagher depois de 16 anos estremeceu a relação do Cláudio com sua irmã.

Falei para ele deixar tudo isso de lado, pois queria muito ter a chance de abraçar meu irmão novamente. Ele perguntou o que aconteceu. Consegui explicar, sem engasgar, que foi um acidente de carro. Depois de muitos anos a gente consegue conversar sobre isso como se fosse algo que aconteceu com a família dos outros.

Então, o portal mágico que congrega almas avisou que ia se fechar. Chegamos em nossa cidade. Algo me dizia que o Cláudio se entenderia com a irmã dele. Acho que os irmãos Gallagher seguirão com as rusgas acobertadas deles e vou continuar sentindo saudades do meu irmão.

Também acho que nunca mais verei o Richard Ashcroft de novo. Nem o Cláudio. Mas lembrarei deles com pesos semelhantes naquela pasta sobre o show de reunião do Oasis em São Paulo, quando saboreei sanduíches de peito de frango desfiado com maionese, que minha irmã fez com tanto capricho para todos que toparam ir comigo passar uns perrengues recompensadores.

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segunda-feira, 31 de março de 2025

Agora é oficial: somos italianos de segunda classe

Um Tosetto dando a cara a tapa.
Um brasiliano dando a cara a tapa.

Você não tem obrigação de me conhecer, então me apresento: meu nome é Jean Tosetto, sou um arquiteto que se tornou escritor. Pelo meu sobrenome - e pelo idioma destas palavras - você pode deduzir que sou descendente de italianos que migraram para o Brasil. Sim, sou bisneto de italianos e austríacos por parte de pai, e bisneto de alemães e poloneses por parte de mãe. Porém, meu sangue é bem misturado. Nele você encontrará gotas do sangue de portugueses, africanos, nativos do Brasil, russos e ucranianos. Logo, eu só poderia ser brasileiro.

Porém, aprendi a amar a Itália desde pequeno. Meu avô paterno era torcedor do Palestra Itália e se tornou torcedor do Palmeiras em 1942, quando o ditador Getúlio Vargas publicou um decreto que, em resumo, considerava os cidadãos do chamado Eixo como inimigos da pátria. Deste modo, padeceram incontáveis italianos, alemães e japoneses, que viviam no Brasil e foram proibidos de falar a língua mãe em público. Empresários do Eixo tiveram que entregar seus negócios para administradores brasileiros, e associações esportivas e culturais, cujas denominações faziam referência aos países da tríade conhecida como Roberto (Roma, Berlim e Tóquio), tiveram que abrasileirar seus nomes ou desaparecer.

Eram os anos difíceis da Segunda Guerra Mundial. Mais difíceis para uns do que para outros. Meu bisavô italiano, de quem carrego o sobrenome Tosetto, perdeu a safra de laranja de seu sítio em 1942, pois o decreto de Getúlio Vargas desencadeou uma onda de ódio e preconceito contra imigrantes que vieram da Itália, Alemanha e Japão. Nenhum brasileiro comprou laranjas do meu bisavô italiano naquela safra, quando ele já contava com 77 anos de idade.

Porém, um brasileiro comprou o sítio por um valor abaixo do mercado. Meu bisavô passou os últimos anos de sua vida morando numa pequena casa no centro de Caçapava, recebendo o apoio de seus filhos. E ficou por isso mesmo: ninguém fala em dívida histórica com os imigrantes que escolheram viver no Brasil e pagaram um preço altíssimo apenas por terem nascido num país que, décadas depois, foi considerado um inimigo de Guerra.

Esse foi o prêmio que meu bisavô recebeu por ter acreditado que faria a América no Brasil, onde viveu por mais de meio século e, ainda assim, foi considerado persona non grata no país, por causa de um decreto de Vargas. Ele nasceu no Vêneto, em 1865, durante o período da unificação da Itália (1861 - 1871). Porém, ao contrário do que dizem por aí, ele não ganhou um palmo sequer de terra aqui no Brasil, mas comprou um sítio no interior de São Paulo com suas próprias economias, assim como tantos outros imigrantes italianos que vieram para cá no fim do século XIX e começo do século XX.

Já contei um pouco sobre mim e sobre meu avô e bisavô Tosetto. Preciso contar um pouco sobre meu pai. Em 1998 ele bancou minha viagem de estudos para a Itália, onde aprendi sobre a arquitetura renascentista e a arte em geral, visitando Roma, Firenze, Siena, Veneza. Mântua e Milão. Bem antes disso ele já falava, na mesa de jantar - sempre que o Jornal Nacional noticiava um caso de corrupção na política brasileira - que éramos descendentes de italianos e que tínhamos direito à cidadania italiana.

Meu pai começou a estudar o assunto, pois sempre foi um autodidata para estações de rádio amador, montagem de computadores e aprimoramentos de processos industriais. No começo dos anos 2000, apoiado por uma pesquisa prévia realizada por suas primas, que fizeram um trabalho de resgate da história da família e retificaram documentos importantes, ele foi atrás das certidões restantes de nossos antepassados: de batismo para os mais antigos (que valiam como certidões de nascimento), de casamento e de óbito de toda a linhagem direta da família.

Meu pai escreveu para o pároco de Noventa Vicentina, comuna onde meu bisavô nasceu. O padre localizou a certidão de batismo dele e, gentilmente, respondeu para o meu pai que, então, passou a traduzir os documentos brasileiros com ajuda de um patronato na cidade de Campinas. Tirando o auxílio desse patronato, meu pai fez tudo praticamente sozinho. Ele não contratou advogados ou assessorias especializadas. Levou anos para juntar a documentação e fez o protocolo para o reconhecimento da cidadania italiana no Consulado de São Paulo, em 2005. Ao todo, meu pai beneficiou 45 membros da família Tosetto.

Nós esperamos mais de dez anos na fila, até que o Consulado de São Paulo agendou a entrega final de documentos, já em meados de 2016. Para não se atrasar no dia, ele se hospedou num hotel da Avenida Paulista, a poucas quadras da Estação Paraíso. Fui com ele e testemunhei a data histórica para nossa família. Aquele foi um dos dias mais felizes das nossas vidas, quando a atendente do Consulado disse que tudo estava certo e que seria questão de algumas semanas para recebermos uma correspondência pelos Correios, formalizando o reconhecimento das nossas cidadanias.

Desde então, estive novamente no Consulado da Itália em São Paulo mais três vezes. A primeira com meu pai, que tinha procuração para representar alguns parentes na entrega de seus respectivos documentos. A segunda para solicitar o passaporte e a terceira para a naturalização da minha esposa, num processo que levou mais de quatro anos. Em todas as ocasiões, vestimos nossa melhor roupa: terno, calça social e sapato de couro. Desse modo, sempre fui tratado com respeito no Consulado, mesmo não sendo fluente na língua italiana. Entretanto, falei algumas palavras como:

- Buon giorno!

- Per favore...

- Grazie.

Mesmo quando tive o pedido do meu passaporte negado (pois faltava atualizar uma comprovação de endereço que estava em minhas mãos, mas tinha que ser enviada por carta registrada) fui tratado com educação, ao contrário do que ouvimos dizer por aí, que os funcionários do Consulado são grosseiros com os brasileiros.

Entretanto, vi uma senhorita levar um bela descompostura, bem na minha frente. Também pudera: ela foi ao Consulado vestindo moletom e pantufas. Deve ter falado alguma coisa que a atendente não gostou. Vi outras cenas e ouvi conversas que me fazem reconhecer que sim, existem brasilianos que não falam em "cidadania italiana", mas simplesmente em "tirar o passaporte". 

Portanto, é verdade: existem brasilianos que não querem saber da arquitetura e da arte renascentista da Itália, não querem saber quem é Da Vinci, Michelangelo, Alberti, Rafael, Brunelleschi, Dante. Eles estão mais interessados em ver Donald, Mickey e Pateta na Disneylândia, mas não querem chegar lá com o passaporte brasileiro, que exige visto por parte dos norte-americanos.

Por ironia do destino, fiz um projeto residencial para um casal italiano, cuja esposa trabalhava no Consulado de São Paulo. Eles vibraram quando descrevi os brasilianos que chegavam no Consulado tratando os funcionários como tratam qualquer um na rua, com aquela empáfia do "você sabe com quem está falando?"

Infelizmente nós, os brasilianos que realmente temos a Itália no coração, estamos pagando por aqueles que desejam apenas uma caderneta de papel com um brasão rebuscado. Querem o passaporte europeu, mais do que o italiano. Entretanto, o governo italiano, ao invés de aprimorar o procedimento para o reconhecimento da cidadania italiana, prefere tratar todos os descendentes de italianos, do Brasil e de outros países, como meros parasitas, para não usar um termo mais forte.

A maioria dos brasilianos é gente bem estabelecida no Brasil, sem a necessidade de usar os serviços de educação e saúde em solo italiano. Porém, todos na visão de Meloni e Tajani, ministros de uma Itália que se apequena a cada dia, são usurpadores em potencial dos recursos italianos. Para eles, o direito à cidadania em função do sangue, e não do solo, tem limite geracional. No entendimento deles, apenas filhos e netos de italianos nascidos nas Itália terão o direito ao reconhecimento da cidadania italiana. Então, danem-se os italianos bisnetos da diáspora.

Desse modo, sou um cidadão italiano, bisneto brasileiro de italiano nascido em solo italiano. Minha esposa é italiana e nossa filha é italiana. Mas se tivermos mais um filho ou se ganharmos netos no futuro, eles não serão mais italianos. Ou seja: Meloni e Tajani querem colocar prazo de validade na qualidade do sangue das pessoas. É isso que o decreto deles, de março de 2025, significa, pelo menos até que o parlamento italiano se manifeste.

Assim, eles não estão arranjando briga comigo. Afinal de contas, agora sou um italiano de segunda classe. Mas eles estão comprando bronca com o legado do apóstolo Paulo de Tarso e do jurista Marco Túlio Cícero, defensor máximo da República Romana, da qual a República Italiana é herdeira cultural e histórica.

O Ocidente é o Ocidente em função de São Paulo, nascido em Tarso, na atual Turquia, e não na península itálica. Porém, além de judeu, São Paulo era cidadão romano, por direito de sangue e não de solo. Acompanhe a seguinte passagem, de Atos dos Apóstolos, capítulo 22:

"25) Enquanto o amarravam a fim de açoitá-lo, Paulo disse ao centurião que ali estava: "Vocês têm o direito de açoitar um cidadão romano sem que ele tenha sido condenado? "

26) Ao ouvir isso, o centurião foi prevenir o comandante: "Que vais fazer? Este homem é cidadão romano".

27) O comandante dirigiu-se a Paulo e perguntou: "Diga-me, você é cidadão romano? " Ele respondeu: "Sim, sou".

28) Então o comandante disse: "Eu precisei pagar um elevado preço por minha cidadania". Respondeu Paulo: "Eu a tenho por direito de nascimento".

29) Os que iam interrogá-lo retiraram-se imediatamente. O próprio comandante ficou alarmado, ao saber que havia prendido um cidadão romano."

Salientando: São Paulo de Tarso era cidadão romano por direito de nascimento. Por isso, ele pôde apelar para Cesar ao ser acusado de corromper as crenças de seu tempo e, por isso, foi levado à Roma. E por isso, cada município brasileiro e italiano tem ao menos uma igreja cristã na principal praça da cidade.

E o que dizer de Cícero, que relatou o Sonho de Cipião, um capítulo fundamental para compreendermos a cultura italiana que permitiu ao cristianismo se difundir para o mundo a partir de Roma? Segue uma passagem atribuída por Cícero ao bravo militar romano:

"E ao olhar para todos os lados, vi outras coisas transcendentalmente gloriosas e maravilhosas. Havia estrelas que nunca vemos daqui de baixo, e todas as estrelas eram imensas, muito além do que jamais imaginamos. A menor delas era aquela que, mais distante do céu e mais próxima da Terra, brilhava com uma luz emprestada. Mas os globos estrelados superavam em muito a Terra em magnitude. Na verdade, a própria Terra me pareceu tão pequena que me fez sentir vergonha de nosso império, que era um mero ponto em sua superfície."

Está na hora de Meloni e Tajani relerem o Sonho de Cipião. A Itália, geograficamente, ocupa uma pequena porção do universo, mas a cultura italiana tem poder para abraçar o mundo, embora este mundo seja apenas mais uma esfera a girar num sistema muito maior do que podemos conceber. Então, limitar o direito de cidadania ao neto de quem nasceu na península itálica é diminuir uma nação em termos históricos, algo muito mais importante do que o aspecto geográfico. Assim, a história vai ignorar a geografia e colocar Meloni e Tajani no mesmo panteão de Vargas, que encerrou sua vida disparando uma pistola contra o próprio peito.

O que resta para nós, cidadãos de segunda classe? Honrar a memória e o esforço dos nossos antepassados. Pouco importa se eles eram italianos, poloneses, africanos ou nativos do Brasil. Nossa família vem acima das pátrias, pois as pátrias, vilipendiadas por ocupantes transitórios do poder, já nos desampararam outras vezes. Porém, numa família honrada, pais cuidam de seus filhos e filhos acolhem seus pais quando chega a adversidade. Sempre foi assim e será assim que sobreviveremos aos desgostos provocados pelas convenções passageiras de gente que se acha mais importante do que os outros.

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domingo, 5 de janeiro de 2025

Como nasce uma carta? (Quatro atos)

Carta para ficar bem - por Jean Tosetto
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I - No ano que passou, minha esposa perdeu um primo aos 48 anos. Minha idade. Ele era magro e forte, ativo. Teve uma parada cardíaca. Deixou esposa e filhos. "Pode acontecer com qualquer um, inclusive comigo" - pensei.

II - Um meliante tentou invadir nossa casa, sem sucesso. Mas danificou portas e janelas e literalmente depredou meu carro antigo e importado. Quando o vizinho alertou isso pelo telefone, imaginei que ficaria transtornado ao ver os estragos. Mas não, "são apenas coisas, ainda bem que ninguém se feriu, vamos arrumar tudo".

III - Minha esposa e filha foram viajar com meus sogros. Pela primeira vez em 15 anos de casamento, passei uma semana sozinho, trabalhando de dia e conversando comigo mesmo de noite, ouvindo os próprios pensamentos sobre a vida e como ela poderia ser de agora em diante. Como seria se estas ausências fossem para sempre?

IV - Veio o recesso de fim de ano na empresa. O dinheiro do passeio foi gasto para arrumar a casa e o carro, que só tem seguro para terceiros. Metódico, não ia desfalcar nossa reserva de emergências só para atender o impositivo social de fornecer algumas fotos em lugares exóticos aos amigos e parentes. "Vou aproveitar a folga para escrever uma carta para minha filha".

E assim nasceu a "Carta para ficar bem". Trata-se de um documento onde condensei boa parte daquilo que pretendia contar para minha filha ao longo dos anos, vislumbrando que posso não ter essa chance. Escrevi sobre escola, faculdade, carreira, namoro, casamento, filhos, amigos, viagens, saúde, casa. Terminei transmitindo minha visão de mundo e o que pode existir além dele.

Foi uma carta para minha filha, tanto que usei na capa um desenho que ela fez aos cinco anos. Porém, é uma carta aberta. Tanto que a disponibilizei como um e-book publicado na Amazon. Fica o convite para você ler e eventualmente me responder.

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quinta-feira, 4 de abril de 2024

A casa amarela de Caçapava

"O que falar das pedras filetadas que adornam as empenas nas extremidades desse espaço de transição do exterior para o interior da casa?"

A Tia Marta fez 80 anos e sua festa de aniversário reuniu quase toda a família em Caçapava, distante 180 km de casa. Invertendo os papéis, levei meus pais, ao invés de ir com eles pela estrada afora.

Ainda assim, feito uma criança, não consegui ficar quieto, sentado numa mesa comprida, ouvindo histórias de gente que vi poucas vezes nos últimos anos.

Quando fico muito parado, meus pensamentos começam a acelerar. Aí preciso caminhar para colocar eles de volta na cadência. Assim, fui praticar um dos meus esportes prediletos: bater perna pelas ruas da cidade.

Perto da Matriz, vi essa casa amarela. O povo passa batido na frente dela e não se toca da elegância do projeto, provavelmente da década de 1960, quando ser requintado não significava estar algemado com a ostentação.

É uma casa simples, concordo, mas reparem na laje sobre o alpendre da sala, que se converte em abrigo de passagem para o carro da família. Ela não é plana, mas composta por um vértice bem suavizado, que coleta a água da chuva e a descarrega numa das quatro pilastras de ferro fundido, que ocupam o lugar do que seria um pilar de concreto robusto hoje em dia. Água que vai direto para a guia da calçada. Reparou nisso, também? E o que falar das pedras filetadas que adornam as empenas nas extremidades desse espaço de transição do exterior para o interior da casa?

Fiquei imaginando quantos netos já jogaram bola ali naquele corredor que liga o portão da rua até a edícula dos fundos.

O garotinho marca um gol chutando a bola de plástico com força, fazendo um "borolóing" na porta de enrolar da garagem que protege um Gordini - ou seria um DKW?

Mas ao invés de comemorar, ele leva uma bronca geral do vô, que tentava ler o Estadão no domingo de manhã, antes da macarronada.

A vó só ficava brava quando uma bola roçava no vaso com os hibiscos.

E quando a filha caçula saía para passear no sábado de noite? Os pais só dormiam quando escutavam o ruído do trinco encaixando na fechadura do portão.

Tenho que voltar para a festa. Perguntam por onde andei, pois estavam me esperando para tirar uma foto com todos os sobrinhos. Eles não jogam mais bola e não levam mais broncas - também não fotografam as casas singelas por aí.

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terça-feira, 26 de março de 2024

Sobre dirigir um carro de madrugada

"Naquela ocasião, a lua cheia iluminou a janela traseira do veículo. No momento, passava a marcha quando começou a tocar "The man who sold the world". A chuva fina trazia um frio cortante para dentro da cabine."
"Naquela ocasião, a lua cheia iluminou a janela traseira do veículo. A chuva fina trazia um frio cortante para dentro da cabine."

Depois do quarto dia de uma onda de calor, as paredes da casa esquentam tanto que nem de madrugada elas se resfriam.

Também de madrugada a nossa vigília se converteu em consciência quando ouvimos um carro ainda longe, atritando seus pneus de borracha contra os remendos do asfalto da rua.

Quem está dirigindo nesse horário?

Vou até a cozinha tomar um copo d'água. Nem precisamos acender a luz, pois a companhia trocou as lâmpadas incandescentes dos postes por outras em LED.

Agora, na sala de estar, se não fechar a cortina, não dá para cochilar no sofá, onde os feixes de luz daquele carro que se aproxima nos aflora a lembrança de um tempo onde ouvíamos Nirvana no toca-fitas do velho Fusca azul.

Os amigos da faculdade organizaram uma festa numa chácara em Santa Bárbara D'Oeste, mas me senti deslocado. Nunca fui bom para me enturmar e fui embora mais cedo, mesmo com a insistência dos anfitriões para ficar.

No fundo, eu queria mesmo era dirigir meu carro, sozinho, no meio da noite, pela estrada quase deserta.

Naquela ocasião, a lua cheia iluminou a janela traseira do veículo. No momento, passava a marcha quando começou a tocar "The man who sold the world". A chuva fina trazia um frio cortante para dentro da cabine.

Só conseguia pensar que nunca venceria a minha timidez e dizer para aquela garota que faria tudo por ela. E algo me dizia que, cedo ou tarde, nunca mais a veria novamente.

Chegando na cidade, passei por um bairro residencial. Observava as casas e imaginava que haviam famílias dormindo ali. Quantos caras, como eu, encontraram garotas legais e se casaram com elas? Mas onde estaria a minha futura esposa?

Levaria anos para conhecê-la. Muito depois de fazer teatro amador para combater aquela timidez que eu sabia que deveria combater, até para sobreviver no mercado de trabalho.

Então, voltei para a cama. Passei pela porta do quarto da minha filha. Como ela consegue dormir com esse calor? Como ela é bonita... A espera valeu a pena.

Agora sou aquele pai de família.

Entretanto, antes de fechar os olhos novamente, sabia que parte de mim ainda estava naquele Fusca, correndo atrás de algo que nunca sei o que é. Talvez seja uma fome de viver intensamente.

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quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

Setas Para Lugar Nenhum

"Setas Para Lugar Nenhum": publicação independente de Anibal H. Tosetto.
"Setas Para Lugar Nenhum": publicação independente de Anibal H. Tosetto.

Meu pai começou a trabalhar cedo, ainda na puberdade. Por ter trabalhado em indústrias químicas por décadas, ele também se aposentou cedo, aos 50 anos.

Autodidata, montou tempos depois uma assistência técnica para montagem e manutenção de computadores. Os dissabores de lidar com certos tipos de clientes o fizeram crer que não tinha perfil para seguir como prestador de serviços. Em primeiro lugar, ele não precisava disso. Em segundo lugar, o prazer de fazer uma máquina funcionar era consumido pelos eventuais calotes. Resultado: ele alugou o imóvel ao invés de trabalhar nele, mas nunca ficou sem fazer nada.

Ao longo dos anos desenvolveu o hábito de escrever acrósticos, que são poemas cujos títulos são espelhados nas iniciais dos versos. Ele compartilhava suas criações por e-mail e também em forma de comentários nos blogs que seguia sobre assuntos políticos.

Passei a recomendar que ele lançasse o próprio blog ou quem sabe escrevesse um livro - algo que sempre refutou.

Porém, depois de me ver publicar os primeiros livros, de forma independente e depois pela Suno, acredito que ele se animou um pouco.

Antes disso, resolveu investir em fundos imobiliários, também por minha influência. Começou sua carteira depois de completar 70 anos de idade.

Finalmente, aos 76, meu pai finalizou seu primeiro livro. "Setas Para Lugar Nenhum" é uma coletânea de seus acrósticos premonitórios e crônicas sobre as mazelas da política brasileira. Sua façanha foi conseguir desagradar eleitores da esquerda e da direita, apenas para agradar a si mesmo e a quem cultiva o livre pensar, libertando-se das reações dogmáticas sugestionadas por ideologias vazias.

Ele perguntou se eu poderia ajuda-lo na revisão e edição da obra, profissionalmente. Respondi que não seria uma boa ideia e que seria melhor chamar a Vera Zanelato, irmã dele e minha tia. Sem o peso do compromisso, pude dar alguns palpites na elaboração da obra.

Sou um filhote coruja, pois gostei do resultado. A tiragem é pequena e restrita para alguns amigos e familiares, mas tudo bem.

Agora quero convencer meu pai a escrever um livro de causos das famílias dele e da minha mãe. São histórias que merecem o registro para filhos e netos.

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quarta-feira, 10 de maio de 2023

Rita Lee é dona de uma das minhas primeiras lembranças


Eu devia ter uns três anos de idade. Estava no banco de trás do Fusca branco dos meus pais. Meu pai estava ao volante. Minha mãe ao lado, segurava uma câmera de filme Super 8. Meu irmão mais velho estava ao meu lado esquerdo, sem cinto de segurança, com apenas seis ou sete anos. Minha irmã caçula do outro lado. Eu era o filho do meio, então sentava no meio do banco traseiro.1979? Acredito que sim.

O rádio embutido no painel de metal era preto, com dois grandes botões e umas teclas sob o dial. A gente estava chegando em Campinas, passando pela fábrica de biscoitos da Triunfo. Quando ouço a palavra "Campinas", me vem a imagem desse radinho, que estava tocando uma música estranha, que eu não entendia nada.

Anos depois descobri que se tratava de "Mania de Você", de Rita Lee. A música tocava várias vezes ao dia. No consultório da dentista, uma morena alta e magra, havia uma caixa de madeira com dominós, na sala de espera. Eu brincava com eles como se fossem carrinhos num estacionamento. No som ambiente as palavras e a melodia de Rita Lee eram gravadas em minha cuca, no alto de um prédio da Avenida Francisco Glicério, perto da Catedral de Campinas.

A dentista era bonita e muito simpática. Foi atenciosa comigo. Mais do que isso: carinhosa. Lembro do bocão aberto, de olhar para o teto e para o nada, ao mesmo tempo. "Nada melhor do que não fazer nada..." - Rita Lee entrou na minha cabeça desde cedo, pela minha boca e pelos meus ouvidos. Ela tinha a idade do meu pai. Apenas três dias de diferença.

Meu pai, porém, levou uma vida completamente diferente. Enquanto Rita Lee e os Mutantes passeavam de Buggy, meu pai servia o exército. Enquanto Rita Lee se separava dos Mutantes, meu pai se casava com minha mãe. Enquanto Rita Lee fazia sucesso com a banda Tutti Frutti, meu pai trabalhava no turno da noite, numa fábrica. Minha mãe fazia tudo em casa.

Um dia, já na faculdade, comprei um disco dos Mutantes. Mostrei para o meu pai, que disse: "Esses playboyzinhos copiavam os Beatles". Sim, mas eram tão bom quanto eles.

Como sempre, nunca estamos preparados para um partida. Nunca cheguei perto da Rita Lee, mas seu passamento reavivou lembranças que estavam sendo apagadas em minha mente. O que me assusta, porém, é que a geração dos meus pais começou a ir embora. Para sempre. E nós, que ficaremos por aqui por mais algum tempo, o que vamos fazer? Vamos desafiar as convenções da sociedade? Vamos aguentar o tranco de trabalhar duro para pagar as contas e criar nossos filhos?

Sinto que a geração anterior foi muito mais adulta, rebelde, resistente e intensa do que a nossa. Isso me angustia.

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sábado, 19 de novembro de 2022

A vida como ela pode ser


Em outubro de 1972 meus pais se casaram numa igreja protestante no bairro de Indianópolis, São Paulo. Naquela época, os casamentos eram mais simples. Não havia tanta preparação, com tanta antecedência e tanta pompa.

Logo depois da Lua de Mel, passada na roça do Rio Grande do Sul, para prestigiar os parentes que não puderam comparecer ao ato religioso, eles se mudaram para o interior paulista, onde começaram a construir uma vida e uma família, juntos.

Meio século se passou. Bodas de Ouro. Incrível. Imaginei que meus pais fariam um grande evento para comemorar. Eles mereciam. Quem sabe uma nova cerimônia no altar, com uma festa num buffet - essas coisas que os mais jovens se empenham para poder eternizar um rito de passagem.

No entanto, eles apenas comunicaram que fariam um almoço na varanda da casa, para os parentes mais próximos. "Não pode ser" - pensei. Já fizemos vários almoços corriqueiros naquela varanda, inclusive sem motivos especiais. 

Mas eles decidiram assim: comemorar suas Bodas de Ouro do mesmo jeito que fizeram para manter uma união tão duradoura. Nesta receita não teve nada de pompa, mas teve uma boa dose de austeridade e resiliência - palavra cujo significado tivemos que aprender na prática, pouco antes das Bodas de Prata.

(...)

"Tudo bem, será um almoço simples, mas vou fazer uma surpresa para todos" - matutei comigo. Liguei para o meu amigo Eduardo Furtado, saxofonista com todas as notas. Amigo não é necessariamente aquela pessoa com quem conversamos todos os dias, mas é aquela pessoa que nos acolhe quando mais precisamos.

A gente precisava de um momento de arte numa data tão importante. Através da arte conseguimos expressar aquilo que as palavras e os clichês não conseguem entregar. A música, em especial, condensa os sentimentos mais autênticos numa linguagem universal. A boa música gera empatia entre as pessoas e, com isso, promove a comunhão que tanto precisamos para suportar este mundo cada vez mais árido.

Então, o Eduardo chegou em nosso cantinho, sem avisar. Os sons harmônicos foram ganhando volume, conforme ele caminhava pelo quintal, até que ele surgiu para todos, tirando lágrimas até dos tios mais turrões, acostumados a lidar com a dureza do cotidiano. Passado o impacto inicial, porém, alguns se voltaram para seus botões.

Se para alguns, o momento foi uma catarse, para outros, pareceu um almoço em churrascaria. É assim que funciona e tudo bem. Não é todo mundo que tem os receptores mentais ajustados para perceber a arte fluindo no ambiente. Um artista deve saber lidar com isso: enquanto alguns apreciam seu empenho, outros seguem conversando sem perceber que a vida escorre pela ampulheta.

De minha parte, estive no grupo majoritário, que se emocionou de verdade. Quando meus pais se casaram, não teve música ao vivo, mas em suas Bodas de Ouro, sim. Então, preciso agradecer ao Eduardo, que é um artista de primeira grandeza, pois traz em sua alma a sensibilidade para executar as mais belas melodias.

O registro desse momento, em vídeo, foi feito de forma amadora. Foi o preço que paguei por ter guardado segredo sobre a surpresa. Deveria ter pensado nisso antes, mas creio que a espontaneidade compensou a falta de planejamento, dado que minha esposa gravou um átimo da vida - não como ela é, mas como ela pode ser.

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segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

O último aplauso

O corredor central do cemitério de Caçapava.
O corredor central do cemitério de Caçapava.

Numa família com tantos tios, tias, primos e primas, seria ingenuidade pensar que ninguém seria vitimado pela Pandemia. Alguns parentes foram contaminados pelo vírus que veio do Oriente, mas foi batizado com nome científico e sobrenome alusivo às letras gregas. Coitado dos gregos: legaram tanta cultura ao mundo e o mundo agradece nomeando pragas globais com expressões como "Delta" e "Ômicron". Sim, meus primos mais jovens sobreviveram à essa tal de "Ômicron", pois pega mal, muito mal, dizer que o vírus saiu de um certo laboratório secreto, localizado para lá das muralhas que podem ser vistas da Lua.

Dois anos de trincheira, de distanciamento social, de uso de máscaras, de mãos besuntadas com álcool em gel. Bastou um vacilo. Uma visita de alguém que se pensava são, e os primeiros sintomas logo apareceram. Para alguém de idade avançada e corpo debilitado, as vacinas são apenas um alento psicológico, um motivo a mais para se desarmar. Rendido, prostrado, meu tio Gijo foi para o hospital. A intubação foi apenas uma sentença de morte antecipada, ao menos para mim.

No domingo de manhã o telefone tocou logo cedo.

- Seu tio Gijo acaba de falecer.

- Avisa o pai que estou passando aí.

Logicamente, não foi um diálogo tão curto, mas poupemos os amigos dos detalhes. Estava chovendo muito e me ofereci para dirigir por 180 quilômetros, para que pelo menos alguém da nossa casa pudesse dar um último adeus para o irmão mais velho da família.

O frentista do posto de combustíveis, a cobradora do pedágio, a garçonete do Frango Assado de Jacareí, o moço que encheu dois copos de plástico com suco de milho: ninguém sabia que meu tio Gijo tinha morrido. Seguiam suas vidas normalmente, como aliás todos devemos fazer, depois de cumprir o luto. Mas é difícil sustentar um ar de normalidade em dias assim, considerando que ninguém tinha obrigação de saber que alguém tão querido já não estava mais entre nós, afinal de contas, o plantão da Rede Globo não avisou nada.

Meu tio não era de uma escola de samba, nem da Academia Brasileira de Letras. Ele não tinha canal no YouTube e não emitia opiniões contra este ou aquele político. Não cantava funk, nem rap. A única coisa que lacrou em sua longa carreira foram envelopes do banco onde trabalhava. O presidente não vai tuitar lamentando a sua morte. Os caracteres do Jornal Nacional não subirão em silêncio ao fim da edição. Não veremos depoimentos, gravados por webcans, de atrizes ou universitários que o idolatravam. Não importa. Era o tio Gijo para mim. O irmão do meu pai. Quem sabe era, e ainda é, uma alma para Deus.

Para Deus não existe gente anônima.

O tio Gijo era uma pessoa culta. Sua inteligência só não era maior que sua generosidade. Sua alma, embora levíssima, estava aprisionada num corpo cansado e fragilizado depois de mais de oito décadas. Quantos anos a Covid lhe roubou? Dois? Cinco? Dez? Não dá para saber. Porém, seriam anos de sofrimento e de dependência de terceiros em tempo integral. Então, ironicamente, a Covid teria lhe prestado um favor. 

Este era o meu sentimento: de que ele estava aliviado, voltando para a Luz enquanto ainda estamos aqui para cumprir nossas missões. Foi assim que guiei pelas rodovias Dom Pedro e Dutra, atravessando três aquaplanagens, segurando o carro nos braços enquanto o céu chorava cântaros que provocaram sérios danos em várias cidades do estado.

Não houve velório. O caixão estava fechado e veio direto da funerária para a sepultura. Ali se encontravam poucas pessoas para testemunhar o fechamento da gaveta de concreto, durante uma janela de clima tolerável, com chuviscos aleatórios. Enquanto o coveiro cimentava as bordas da tampa, reuni coragem para dizer as seguintes palavras:

- O tio Gijo foi um homem honesto. Ele ajudou muita gente. Se teve alguém que ele prejudicou, foi apenas ele mesmo. Ele honrou a memória do vô Anibal. Ele honrou a memória da vó Ana. Agora chegou a nossa vez de honrar a memória dele, cujo espetáculo que foi sua vida se encerra hoje. E, enquanto a cortina do teatro vai descendo, só me resta pedir uma salva de palmas.

domingo, 31 de janeiro de 2021

Peço licença para falar do Palmeiras

 

Máscara com o escudo do Palmeiras: dupla proteção.
Máscara com o escudo do Palmeiras: dupla proteção.

Em primeiro lugar, quero deixar claro que há muitos anos não acredito mais no futebol como um esporte decidido apenas dentro de campo. Em segundo lugar, declaro ser palmeirense em nome de um garoto que foi fanático pelo clube e por causa de parentes e amigos que seguem torcendo pelo Verdão. Em terceiro lugar, dentro do meu ceticismo agnóstico em torno do futebol, trato de comemorar os títulos que o Palestra ganha, porém, quando o time perde, foram apenas os jogadores que perderam. Neste concerto, minha chama pelo escrete esmeraldino se reacende de tempos em tempos, mas nunca apaga.

O Palmeiras me fez sofrer muito na infância. Nasci em 1976. A primeira vez que chorei por causa do time, foi quando ele perdeu a final do Campeonato Paulista para a Inter de Limeira, em 1986. Foi a primeira vez que levei uma bronca de meu pai por causa disso, embora ele também tenha sofrido com o resultado.

No ano seguinte, Zetti era o goleiro. Mais de mil minutos sem levar um gol. Perdemos a semifinal para o São Paulo, num frango antológico do meu ídolo. Um tal de Neto cobrou uma falta de longe e a bola passou entre as pernas do arqueiro, que jogava de camisa azul e meias brancas. É muito complicado para uma criança ver seu herói falhar. Mas é bonito quando ela aprende a perdoar o ser humano. Nisso, o futebol ensina bons valores.

Em 1988, já no Campeonato Brasileiro, Zetti estava no Maracanã quando Bebeto, do Flamengo, lhe quebrou a perna num acidente de trabalho. O atacante Gaúcho entrou no gol e, após o Mengão igualar o placar, a decisão da partida foi para os pênaltis. Epicamente, Gaúcho defendeu duas cobranças e deu a vitória para o Palmeiras, mas o título ficou distante.

Com Leão de treinador em 1989, o Verdão ganhou a Taça dos Invictos no Paulistão daquele ano. Porém, em função de um regulamento esdrúxulo, bastou uma derrota para o Bragantino, por vexaminosos 3 a 0, para ficarmos de fora das finais. Mais um dia de choro. Isso se repetia duas vezes por ano, bem como as broncas de meu pai.

Em 1992, o Palmeiras que aprendi amar por causa do meu pai e do meu avô, acabou. Começou a era da cogestão com a Parmalat, a patrocinadora que revolucionou o futebol no Brasil. O gerente Brunoro montou um timaço comandado por Zinho, Evair e Edmundo, chamando Luxemburgo para segurar as coleiras das feras.

Final do Paulistão de 1993 contra o Corinthians. No primeiro jogo, Viola marca para o Timão e imita o porco na beira do gramado. Mais um ano na fila? O décimo sétimo? Não. Teve lavada de alma na semana seguinte: 4 a 0 para o Palestra. Um dos dias mais felizes da minha vida, por causa da comemoração.

Meu irmão foi dirigindo o Fiat Prêmio do nosso pai. Sentei no batente da janela do passageiro, com os braços para cima, tomando vento no rosto até chegar na avenida central da cidade. Um engarrafamento para dar vazão a uma multidão de palmeirenses. Incontáveis sofredores que saíram do armário para sentir orgulho sem culpa, depois de tantos anos.

Tem jornalista que prega o fim dos campeonatos estaduais. Vão se ferrar, seus vendilhões do esporte bretão, que copiam tudo que os europeus fazem.

Não vi o Palmeiras-Parmalat ser campeão brasileiro de 1993. Só comemorei. Naquele dia aconteceu a festa do casamento do meu irmão, na roça. Não havia televisão por perto. Só um radinho de pilha. Mas foi igualmente inesquecível.

Por uns tempos, a rotina de choros semestrais se inverteu: fomos bicampeões paulistas e brasileiros. Mas eu não era mais criança. O futebol já não tinha tanta graça quando você entra para a faculdade e começa a se interessar por outras coisas. Outras emoções, bem mais intensas.

No meio do caminho, teve a Copa de 1994, nos Estados Unidos, que o Brasil ganhou da Itália nos pênaltis, depois de um 0 a 0 que a crônica esportiva demorou para talhar como um jogo horrível. Mais festa no centro da cidade - um dia depois da minha afilhada nascer. Fui conhecê-la no hospital depois de atravessar o centro da cidade coalhado de palmeirenses se abraçando com corintianos, sãopaulinos, santistas, bugrinos e pontepretanos. Todos bêbados.

O Brasil tinha tudo para repetir a dose em 1998, na Copa da França. Quando saiu o sorteio das chaves e a tabela do certame foi divulgada, comentei na sala de aula que aquele campeonato estava desenhado para o Brasil chegar na final e perder para a própria França. Riram de mim. Não havia celular e redes sociais para registrar eletronicamente aquela previsão que se confirmou em cada detalhe, exceto pelas convulsões do Ronaldo Fenômeno de Marketing, que ainda assim jogou os 90 minutos, em tese, por imposição da Nike, a patrocinadora do uniforme da seleção.

Naquele ponto, parei de acreditar no futebol. Foi uma epifania ao contrário.

Desde então, apenas venho fazendo de conta que o esporte é só esporte, e não um espetáculo televisivo que movimenta (e lava) milhões de dólares a cada temporada, com atletas medianos recebendo salários astronômicos repartidos com empresários, advogados e assessores de imprensa, com um bando de espertos falando obviedades em mesas redondas e fazendo merchandising, promovendo polêmicas vazias e personagens vazios.

Então, o Palmeiras resolve avançar na Taça Libertadores da América e nos vemos forçados a torcer pelo time, pois a afilhada que perdeu os pais precocemente já tem capacidade de guardar memórias e pensamos que é bonito falar do Papai Noel para ela. O time progride de fase até chegar à final, com Felipão Scolari no banco, dando patadas na imprensa, e um goleiro torcedor com nome de santo: Marcos.

São Marcos das mãos de ouro e dos pés de barro, que é eleito o melhor jogador das Américas e falha na decisão do Intercontinental contra o Manchester United. São Marcos que é roubado pelo juiz de forma escancarada na final da Libertadores de 2000 contra o Boca Juniors (que não assisti pois estava em outro casamento, na periferia de Piracicaba, invadindo a cozinha do buffet para ouvir as cobranças de pênaltis pelo rádio, para ouvir a banda do baile tocar o hino do Corinthians na sequência, para sentar sozinho no meio fio da praça e prometer novamente que nunca mais iria me importar com o futebol).

São Marcos que pega tudo na Copa de 2002. A Copa que o Rivaldo serviu de bandeja para o Ronaldo Fenômeno de Marketing se consagrar. São Marcos que afunda com o Verdão para a segunda divisão e que dá a volta por cima nas narrações empolgantes de Luciano do Valle, contra o Marília, contra o Sport, contra (e com) o Botafogo. São Marcos que merece o nosso respeito.

A Parmalat foi embora e o Palmeiras acaba mais uma vez, quando a diretoria decide demolir o Estádio Palestra Itália para dar lugar a uma arena super moderna. Levo minha afilhada no jogo de despedida do velho campo, contra o Boca Juniors, cujos zagueiros dão carrinho de cabeça na bola, em pleno amistoso, mas que jogam com o freio de mão puxado contra o Corinthians em outra final de Libertadores. O Boca Juniors da Nike, contra o Corinthians da Nike, que tem um torcedor profissional, o Ronaldo Fenômeno de Marketing da Nike.

A Nike é para o Corinthians o que a Parmalat foi para o Palmeiras. Para o bem a para o mal.

Já não me importei com a segunda queda do Palmeiras para a segunda divisão. Muito menos com a goleada sofrida pelo Brasil contra a Alemanha na Copa de 2014. A Copa dos estádios superfaturados e dos elefantes brancos subaproveitados. Tudo chancelado pela FIFA, que se recusa a reconhecer o título mundial do Palmeiras de 1951, cuja taça foi entregue por Jules Rimet, fundador da FIFA.

O Palmeiras de estádio novo e patrocinador novo, volta a ganhar títulos nacionais. O mais triste de todos foi o Brasileirão de 2016, apagado pela tragédia da Chapecoense, que comoveu o mundo. O dinheiro que jorra nos bolsos de jogadores, dirigentes, empresários e jornalistas que fazem merchandising, faltou para o piloto-dono do avião completar o tanque de combustível

Nem a pane seca de um avião. Nem o incêndio do Ninho do Urubu. Nem a Pandemia do Coronavírus. Nada interrompe o futebol.

Em 2020, voltei a chorar por causa do Palmeiras. Em casa, sozinho, vendo pela TV o Verdão contra seu eterno rival. Dentro do meu ceticismo agnóstico perante o futebol, não torço contra o Corinthians. Tenho amigos corintianos. Minha mãe é corintiana. Mas quando o Patrick de Paula estufou as redes na derradeira cobrança de pênaltis da final do Paulistão (sempre Paulistão) contra o gigante Cássio, tornei-me fã dele e agradeci ao futebol por permitir sua ascensão social. Quis, mesmo, que ele pudesse se tornar um torcedor do Palmeiras e que ficasse no time por muitos anos.

Não deveria deixar o futebol mexer com minhas emoções desse jeito. Então, caí em prantos ao constatar que meu irmão não estava mais na sala. Que não poderíamos mais sair de carro para fazer aquela doce farra de campeões. Que, enquanto jogadores erguiam a taça diante de arquibancadas vazias, havia gente morrendo em UTIs lotadas.

A dose se repetiu na final da Libertadores de 2020, jogada em 2021 contra o Santos no Maracanã. A imprensa carioca e flamenguista se juntou com a imprensa paulista e corintiana para massacrar a qualidade do jogo, como se não estivesse em campo os maiores campeões brasileiros se respeitando mutuamente, sentindo um medo enorme de deixar escapar o título mais importante de suas histórias recentes.

O empate sem gols tinha tudo para se arrastar até a prorrogação. Tudo indicava mais uma decisão por cobrança de pênaltis - o que seria ótimo para o SBT catapultar sua audiência, que há mais de 15 anos não era tão alta. Não é só esporte. É dinheiro. É publicidade. Mas nisso o canal fez um ótimo trabalho. Teo José, como locutor esportivo e promotor do show, é competente e sabe vender emoções.

Esse jogo não era para acontecer. Não neste cenário de guerra. Mas aconteceu e trouxe um pequeno alento para milhões de palmeirenses. Muitos fanáticos, alguns céticos e alguns que aprenderam a praticar o autoengano.

Fiquei com dó do técnico Cuca. Não merecia ser expulso. Fiquei com dó do Santos. Não merecia perder. Então, antes do encerramento do ato, quando as cortinas já estavam baixando para dar lugar ao interlúdio, Rony cruzou na área e Breno subiu no segundo andar para marcar, de cabeça, o gol do título.

Sozinho na sala, soltei um berro. Minha esposa correu para ver o que aconteceu. Sentei minha filha no colo e pedi para ela ver a chuva de papel picado na tela.

- Preste atenção nisso, pois não vai acontecer de novo, tão cedo.

Para todos os efeitos, Papai Noel existe e minha filha será palmeirense.

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Crepúsculo de jogo

O Brasil de verdade não joga mais

Textos sobre o Palmeiras em JeanTosetto.com

sábado, 23 de fevereiro de 2019

O Pico do Gavião entre Andradas (MG) e Águas da Prata (SP)

A pedida do domingo era almoçar no restaurante da Casa Geraldo, produtora de vinhos de mesa em Andradas, no sul de Minas Gerais. Depois de comer como um pedreiro, você se sente na Toscana por alguns instantes. Estava quente: mais de 30 graus Celsius, mas a brisa que vinha das nuvens prenunciava pancadas de chuvas.
A pedida do domingo era almoçar no restaurante da Casa Geraldo, produtora de vinhos de mesa em Andradas, no sul de Minas Gerais. Depois de comer como um pedreiro, você se sente na Toscana por alguns instantes. Estava quente: mais de 30 graus Celsius, mas a brisa que vinha das nuvens prenunciava pancadas de chuvas.

A gente fez de conta que não ia chover, pois queríamos conhecer o Pico do Gavião, acessível por uma estrada de terra que parte da ligação entre Andradas e Poços de Caldas. Os primeiros quilômetros são tranquilos entre os eucaliptais.
A gente fez de conta que não ia chover, pois queríamos conhecer o Pico do Gavião, acessível por uma estrada de terra que parte da ligação entre Andradas e Poços de Caldas. Os primeiros quilômetros são tranquilos entre os eucaliptais.

Porém, a estrada logo ficou sinuosa e esburacada, com aclives e declives acentuados. Começou a chuviscar. Isso elevou o nível de água de um córrego que cruza o caminho sem ponte. Ainda bem que nosso carro tinha suspensão mais elevada. Ainda assim a água molhou as borrachas das portas.
Porém, a estrada logo ficou sinuosa e esburacada, com aclives e declives acentuados. Começou a chuviscar. Isso elevou o nível de água de um córrego que cruza o caminho sem ponte. Ainda bem que nosso carro tinha suspensão mais elevada. Ainda assim a água molhou as borrachas das portas.

A chegada no Pico do Gavião compensou os momentos de tensão. O lugar oferece ampla visão das cidades da região lá embaixo, como Mogi Guaçu e São João da Boa Vista, no Estado de São Paulo. A temperatura despencou para 18 graus naquele momento.
A chegada no Pico do Gavião compensou os momentos de tensão. O lugar oferece ampla visão das cidades da região lá embaixo, como Mogi Guaçu e São João da Boa Vista, no Estado de São Paulo. A temperatura despencou para 18 graus naquele momento.

O Pico do Gavião é uma propriedade particular. Há cobrança de ingresso para os carros que vão até lá. Mas o local conta com sanitários, lanchonete e alguns espaços de contemplação da exuberante paisagem, onde a paz e a mansidão acalmam as pessoas.
O Pico do Gavião é uma propriedade particular. Há cobrança de ingresso para os carros que vão até lá. Mas o local conta com sanitários, lanchonete e alguns espaços de contemplação da exuberante paisagem, onde a paz e a mansidão acalmam as pessoas.

Como o clima estava instável naquele dia, poucos esportistas estavam no Pico do Gavião, que tem uma plataforma de salto para Asas Deltas e de onde praticantes de Paraglider e Parapente também alçam voos. Tentei registrar uma decolagem, mas o sujeito se virou para mim, cancelando a partida.
Como o clima estava instável naquele dia, poucos esportistas estavam no Pico do Gavião, que tem uma plataforma de salto para Asas Deltas e de onde praticantes de Paraglider e Parapente também alçam voos. Tentei registrar uma decolagem, mas o sujeito se virou para mim, cancelando a partida.  

Ele viu meus cabelos eriçados e desistiu de voar. A explicação era que o céu estava descarregando eletricidade estática e que isso pode ocasionar choques em pleno voo, fora que os cabelos, quando ficam eriçados repentinamente, indicam a grande possibilidade de um raio cair por perto. Vivendo e aprendendo.
Ele viu meus cabelos eriçados e desistiu de voar. A explicação era que o céu estava descarregando eletricidade estática e que isso pode ocasionar choques em pleno voo, fora que os cabelos, quando ficam eriçados repentinamente, indicam a grande possibilidade de um raio cair por perto. Vivendo e aprendendo. 

Na hora de ir embora, optamos por descer pelo caminho até Águas da Prata, já no Estado de São Paulo, para evitar cruzar o riacho sem ponte novamente. Era um percurso mais longo: 17 quilômetros de terra contra 11 do percurso de ida. Mas o visual da zona rural enchia os olhos. Parecíamos transitar por um grande jardim.
Na hora de ir embora, optamos por descer pelo caminho até Águas da Prata, já no Estado de São Paulo, para evitar cruzar o riacho sem ponte novamente. Era um percurso mais longo: 17 quilômetros de terra contra 11 do percurso de ida. Mas o visual da zona rural enchia os olhos. Parecíamos transitar por um grande jardim.

O tempo abria janelas de sol e lindas paisagens se revelavam. Depois de guiar escorregando no estreito leito carroçavel, entre barrancos e penhascos, avistei esta linda capelinha. Estacionei o carro e deixei a adrenalina baixar. É um prazer encontrar pequenas edificações de arquitetura vernacular escondidas no interior do Brasil.
O tempo abria janelas de sol e lindas paisagens se revelavam. Depois de guiar escorregando no estreito leito carroçavel, entre barrancos e penhascos, avistei esta linda capelinha. Estacionei o carro e deixei a adrenalina baixar. É um prazer encontrar pequenas edificações de arquitetura vernacular escondidas no interior do Brasil.

Hoje você desliza os dedos em alguns comandos de aplicativos na tela de seu smartphone, e entregam tudo na sua casa: de comida japonesa até automóveis. Mas houve um tempo no qual as pessoas tinham que percorrer quilômetros em estradas de terra para se abastecer com itens básicos nos armazéns das roças. Farinha de fubá, banha de porco, grãos de café, panos para remendar velhas calças. Ainda hoje gosto de passear pelo campo, em busca de armazéns escondidos. Não para me abastecer de coisas materiais, mas para me abastecer de inspiração. Ainda não inventaram um aplicativo que te entrega isso na sua porta.
Hoje você desliza os dedos em alguns comandos de aplicativos na tela de seu smartphone, e entregam tudo na sua casa: de comida japonesa até automóveis. Mas houve um tempo no qual as pessoas tinham que percorrer quilômetros em estradas de terra para se abastecer com itens básicos nos armazéns das roças. Farinha de fubá, banha de porco, grãos de café, panos para remendar velhas calças. Ainda hoje gosto de passear pelo campo, em busca de armazéns escondidos. Não para me abastecer de coisas materiais, mas para me abastecer de inspiração. Ainda não inventaram um aplicativo que te entrega isso na sua porta.

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sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Stan Lee e os gibis do Homem Aranha

As revistinhas do Homem Aranha ainda estão guardadas numa caixa de papelão.
As revistinhas do Homem Aranha ainda estão guardadas numa caixa de papelão.

Crianças não gostam de mudanças drásticas. Em 1984, tinha meus incríveis oito anos de idade e morava numa casa de esquina perto da escola Mascarenhas, para onde ia caminhando logo cedo, junto com os colegas que moravam na mesma rua ou em ruas paralelas.

Um dia meus pais sismaram de mudar para uma chácara, no distante bairro do João Aranha. Mudei também de escola e perdi contato com minha turma. Até fazer novas amizades demorou um pouco, mas uma das poucas vantagens que percebi naqueles dias era que estudaria de tarde. Ou seja: teria tempo de ver desenhos animados que só passavam de manhã.

A Record não pegava mais em Paulínia naquela época, então não dava mais para torcer por Speed Racer. Mas a Globo apresentava o desenho do Homem Aranha, que logo tornou-se meu herói favorito.

Nos domingos de manhã meu pai gostava de ir até a banca de jornais do centro para comprar o Estadão, ou o Correio Popular, ou os dois. Íamos juntos, pois era uma viagem. Entre João Aranha e Paulínia havia poucas casas no Jardim Planalto e no Alto de Pinheiros. O resto do percurso era repleto de canaviais e pastagens.

Além de comprar jornais, meu pai nos dava gibis de presente. Meu irmão gostava do Tio Patinhas e do Pato Donald. Minha irmã preferia Mônica e Cascão. Em novembro de 1984 pela primeira vez escolhi uma revistinha do Homem Aranha. Era o número 17 da Editora Abril. Ali começava uma pequena coleção de gibis de super-heróis.

O Homem Aranha dos gibis era diferente do personagem mostrado no desenho animado. Na TV Peter Parker era um cara bem resolvido, sendo amigo da Mulher de Fogo (esqueci o nome correto) e do Homem de Gelo. Porém, nas revistas em quadrinhos ele tinha seus problemas com os estudos, com as namoradas e com a falta de grana.

Para um garoto de quase nove anos isso era novidade e logicamente fui influenciado pela leitura recorrente. Peter Parker era aplicado nos estudos e eu também queria ser. Ele era bom de Ciências e ajudava o professor no laboratório da universidade. Achava aquilo o máximo e queria ser fotógrafo de jornal também. Até hoje quero.

Somente alguns anos depois notei que o Homem Aranha era uma criação de Stan Lee, em parceria com Steve Ditko. Nas revistas da Marvel publicavam algumas cartas dele, que tinha um jeito bem humorado de escrever, e eu também queria ser assim.

Logo me interessei por outros tipos de histórias em quadrinhos. Meu pai me comprava álbuns do Tintim. O tio Gijo me deu dois livros de luxo do Príncipe Valente, e o tio Dário me presenteou com a coleção quase completa do Asterix. Adorava aqueles quadrinhos e quando conheci o personagem The Spirit, de Will Eisner, fui levado para as Graphic Novels, e daí para os livros.

Se você perguntar se ainda leio gibis, responderei que raramente folheio algum. Quando os personagens da Marvel chegaram no cinema, fazendo de Stan Lee um sujeito cada vez mais rico, cheguei a ver os primeiros filmes, mas perdi a paciência com essas coisas, embora não renegue a importância que este universo de personagens teve em minha formação.

Com a notícia do passamento de Stan Lee, ao 95 anos de idade, uma porção de boas memórias aflorou em minha mente. O que me deixa contente é que ele continua me inspirando. O descendente de judeus romenos trabalhou desde cedo numa editora de histórias em quadrinhos. Seu sonho, no entanto, era ser dramaturgo e escritor de literatura séria.

Beirando os quarenta anos de idade, Stan Lee estava descontente com sua carreira e pensava em abandonar seu ofício, pois a empresa onde trabalhava, a Marvel, estava com as vendas de revistas decaindo.

Foi então que, num gesto de "tudo ou nada", ele pediu a liberdade para criar personagens nos quais realmente acreditava. Isso foi no começo da década de 1960, quando o sucesso do Quarteto Fantástico bancou a nova postura de Stan Lee, que criou também Hulk, Thor, Homem de Ferro, X-Men, entre tantos outros - além, é claro, do Homem Aranha.

Se sua carreira decolou tardiamente nos gibis, somente beirando os 60 anos de idade Stan Lee ganhou espaço na televisão, com as séries de Hulk e Homem Aranha. Mas o melhor ainda estava por vir, com a explosão dos seus personagens nos cinemas, onde o quadrinista cansou de fazer pontas, já ultrapassando os 70 anos de idade. Desde então ele diminuiu seu ritmo de trabalho, mas nunca se aposentou.

De todos os personagens que Stan Lee criou, talvez o maior deles foi ele mesmo.

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Ora bolas de gude

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sábado, 13 de outubro de 2018

Nossa Tita se foi...

Tita, a nossa calopsita, eternizada nos traços de uma menina de cinco anos.
Tita, a nossa calopsita, eternizada nos traços de uma menina de cinco anos.

Já contei sobre a Tita, a nossa calopsita? No primeiro texto que dediquei para ela, já antecipava um dia triste que certamente chegaria:

"Será muito difícil se um dia ela nos deixar. Ela toma conta de nossa casa sempre que saímos juntos. A Tita faz parte da nossa família."

Infelizmente este dia chegou com um agravante: a Tita não morreu por causa da idade, mas foi vítima de um gato.

Contando assim parece algo trivial, mas não imaginava que ficaria com um nó apertado na garganta para relatar isso. Foi um descuido nosso. Há dois dias deixamos a gaiola dela na garagem por um breve momento, para um banho de sol, pois o local é aberto para o nosso quintal. Um gato, que apareceu recentemente na vizinhança e passou a rondar nossas portas e janelas, se aproximou e - isso é tudo que deduzimos - lhe atacou pelas grades.

Bastou uma patada. O gato arranhou a Tita por baixo de sua asa direita, lhe arrancando algumas penas e provocando um sangramento que logo estancou. Assim que percebemos o ocorrido, levamos a gaiola de volta para dentro de casa.

Aparentemente tinha sido apenas um susto. Mas no dia seguinte ela parou de cantar. E hoje cedo estava no piso da gaiola, tentando respirar estufando o peito rapidamente. Concluí que ela estava sofrendo uma embolia pulmonar e pressenti que seria seu último dia.

Chamamos o veterinário, mas só deu tempo dele acompanhar seu último suspiro. Eu a enterrei ao lado de uma roseira que transplantei para o nosso jardim. Coloquei seixos brancos sobre sua cova, para demonstrar algum respeito.

A Tita gostava das bandas que eu gosto: Beatles, Oasis, Kinks. Eu assobiava "Waterloo Sunset" para ela, que vinha no canto da gaiola e me acariciava na bochecha. Encostava seu bico em meu nariz também. Assobiávamos juntos. Eu repetia suas frases e depois ela tentava me copiar também. E não fazia isso com mais ninguém.

Certa vez coloquei "Across The Universe" para tocar e ela assobiou de alegria.

Isso nunca mais vai acontecer.

"É só uma calopsita" - você pode pensar. Mas quem já colou cartaz de procura por um animal de estimação perdido sabe do que estou tratando. A gente não se importa muito com a dor dos outros, até que acontece conosco.

A gente deixava a porta da lavandeira aberta quando almoçava e jantava. Ela nos espiava pela diagonal do campo de visão para a sala de jantar e ia comer sua ração também. Ela adorava alface. Quando o potinho do alface estava vazio, ela assobiava com a cabeça dentro dele.

Ironicamente, na última semana de vida dela, eu estava conversando com minha esposa sobre os etruscos, o primeiro povo que ocupou a região onde hoje é Roma. Nossos antepassados construíam verdadeiras casas no lugar das sepulturas sob o solo. Pinturas nas paredes encontradas atestavam que animais de estimação também eram retratados. Para os etruscos, os pets também teriam uma vida após a morte, quem sabe num Paraíso.

Então me levantei da mesa, fui até a Tita e disse para ela:

- Espero que o Papai do Céu leve você para o Paraíso um dia. Lá você não será mais caolha e não ficará presa numa gaiola. Poderá voar pelos campos de flores e quem sabe voltar para perto de nós.

Vendo tudo em perspectiva sei que nós, seres humanos, somos minúsculos diante da grandeza de tudo que está abaixo do Firmamento. Mas se a gente se importa tanto com uma simples calopsita, talvez nós também sejamos especiais para alguém que nos observa sobre uma grande redoma invisível.

Se este alguém estiver lendo isso, ou ouvindo nossos pensamentos, peço que cuide de nossa Tita.

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