sexta-feira, 29 de abril de 2022

Palavras sobre livros

Um livro é um presente que pode ser aberto várias vezes.
Um livro é um presente que pode ser aberto várias vezes.

Quase ninguém vive de escrever livros no Brasil, mas muitos vivem para escrevê-los. Dedicam tempo além do trabalho convencional e usam recursos próprios para bancar pequenas tiragens. São pessoas admiráveis. De vez em quando uma ascende para uma condição mínima de reconhecimento.

Volta e meia sou procurado por pessoas que estão escrevendo seu primeiro livro. Já passei por isso e, há dez anos, não havia alguém que pudesse me aconselhar.

Queria poder ajudar todos, mas isso é impossível. Então, repito alguns breves conselhos:

- Para escrever bem é preciso ler, bastante.

- Um livro não pode ser escrito com foco em retorno financeiro. É como um esporte radical, que precisa ser patrocinado.

- As grandes editoras desconhecem o potencial dos novatos. Ser recusado por elas não é um demérito.

- Com a Internet, escrever livros sob demanda ficou viável. Neste sentido, uma bela iniciativa no Brasil é o Clube de Autores.

- Publicar um livro primeiramente como e-book é um caminho inteligente. A Amazon está aí para ajudar.

- Na dúvida, contrate um serviço de revisão de textos e de leitura crítica. Eles são mais acessíveis do que muita gente pensa.

- O mesmo se aplica ao capista. Uma boa capa pode impulsionar um livro.

- O melhor de gostar de ler - e escrever - livros, é que você desenvolve grandes amizades ao longo dos anos. Essa é a melhor parte.

Portanto, insista.

* * *

Fui a uma grande livraria de Shopping. Notei que há uma seção nova só para influencers. Percebi também que os livros de Filosofia, impressos em formatos pequenos com preços descontados, ficam no canto oposto da loja. E as biografias dos bacanas na vitrine? Todas com capas cinzas.

Até consigo imaginar o fotógrafo no estúdio orientando o biografado:

"Você assistiu Mad Men? Então, faz cara de Don Draper para mim."

Click!

"Peraí que não deu certo. Faz o seguinte: olha para o chão em diagonal e dá um sorriso de Colgate."

Se você ficar famoso um dia, me prometa uma coisa hoje mesmo: você não vai cair nesses clichês, OK? Senão eu não compro seu livro.

* * *

O trabalho de um autor de livros consiste em falar pouco, caminhar muito, observar muito, ouvir muito, anotar muito, ler muito, estudar muito, refletir muito e escrever apenas o necessário.

Para Ignácio de Loyola Brandão, escrever é como selecionar feijões separando as pedrinhas.

Ele é, para mim, o maior escritor brasileiro vivo.

* * *

Já aconteceu com você? Ter uma ideia fantástica, um pensamento original? Anos depois você lê um livro de filosofia e percebe que alguém já escreveu sobre isso há mais de mil anos. Pois tem autor pós-moderno que vive de requentar essas ideias sem citar as fontes - poucos se tocam.

Por isso, na minha fila de leituras, sempre passo os clássicos na frente. Estes livros nos livram dos ingênuos, dos blefadores e dos embusteiros. Citar fonte, sempre que for necessário, é dever de todo escritor honesto. Está cada dia mais difícil acrescentar uma vírgula que seja na história do pensamento humano.

* * *

A inflação está aí. As reportagens mostram os aumentos sucessivos nos preços dos combustíveis. O supermercado está cada vez mais caro. Muita coisa está mais cara. Mas você já ouviu alguém reclamar que os livros estão mais caros? Pelo contrário. Os livros estão sempre do seu lado.

Duas maneiras muito eficientes para empregar bem seu dinheiro e se proteger da inflação: a primeira é investir com inteligência via Bolsa de Valores. A segunda é comprar - e ler - bons livros.

O conhecimento que você aprende neles nem a inflação pode corroer.

E até para abrir o Home Broker, é bom você abrir um livro antes, como os livros da Suno editados pela CL-A, por exemplo.

Pessoalmente, trabalho duro todos os dias para que cada vez mais pessoas tenham acesso a uma boa leitura.

Os livros me trouxeram até aqui. Retribuir é o mínimo que posso fazer por eles.

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sábado, 5 de março de 2022

A felicidade está sendo ignorada

"No Velódromo" (1912), pintura de Jean Metzinger (1883-1956) pertencente ao acervo de Peggy Guggenheim Collection em Veneza, Itália.
"No Velódromo" (1912), pintura de Jean Metzinger (1883-1956) pertencente ao acervo de Peggy Guggenheim Collection em Veneza, Itália.

Os grandes filósofos e poetas da Antiguidade viviam num mundo rudimentar que os forçava a perseguir a felicidade com as poucas ferramentas que tinham em mãos, numa Europa que ainda não havia descoberto as Américas e as grandes ilhas da Oceania. 

Deste modo, Diógenes pregava a completa renúncia aos bens materiais, na companhia de seus fiéis companheiros, os cães. Epícuro valorizava a força da amizade, visando compartilhar momentos efêmeros de reflexão sobre a vida. Sêneca pregava o cultivo das virtudes, como lavouras onde eventualmente as flores - os prazeres - poderiam colorir o dia. Já Ovídio se ocupava dos segredos da sedução. 

Todos, à sua maneira, nos legaram ingredientes para constituir nossa receita individual para cozinhar refeições de felicidade, pois a gente sabe que ela nunca será plena e contínua, dado que nossa fome a respeito dela logo nos encontra, assim que levamos o prato até a pia.

Já imaginou se estes pensadores pudessem viajar no tempo para ter contato com as invenções, descobertas e intercâmbios de culturas que enriqueceram o velho continente?

Será que Diógenes abriria mão de suas renúncias, para arranjar um emprego e ter dinheiro para comprar ração para seus cães, fora as consultas regulares com os veterinários? Os cães estão cada vez mais exigentes: vestem coletes de lã, são tosados a cada quinze dias e até festejam aniversários. Muitas pessoas, hoje em dia, se sentem felizes apenas quando voltam para casa no fim do dia e encontram seus cães esperando no rodapé da porta do apartamento.

Epícuro era chegado numa cumbuca de repolhos. Consegue imaginar ele saboreando um pedaço de pizza napolitana? Isso seria impossível no seu tempo, pois o tomate é um fruto originário da América Latina, sendo muito apreciado no México. Somente depois de 1500 seu sabor encantou os europeus, encontrando no sul da península itálica uma aclimatação perfeita. Você conhece alguém que fica triste saboreando uma Margherita?

Já viu uma criança chorar por ser obrigada a comer uma porção de batatas fritas? Pois as batatas também se originaram nas Américas, mais precisamente na Cordilheira dos Andes, entre a Bolívia e o Peru. Os conquistadores espanhóis não levaram apenas quantidades imensas de ouro para a Europa, mas também o cultivo das batatas. Quem liga para uma salada de repolho servida em talheres de ouro, quando pode besuntar os dedos comendo filetes de batatas? Tudo bem, é um momento de felicidade com sentimento de culpa, mas ainda assim é um momento de felicidade.

E se Epícuro sorvesse uma xícara de cappuccino numa mesinha da Piazza Navona em Roma, na companhia de Sêneca? Como cada um reagiria à mistura de leite com café e chocolate? O leite já era conhecido deles nos tempos antigos, mas o café, cultivado primeiramente na Etiópia, só teve sua primeira loja na Europa em 1495, na cidade de Constantinopla, conhecida atualmente como Istambul. Já o chocolate, feito a partir da amêndoa fermentada e torrada do cacau, é mais um alimento que surgiu na América, só encantando os europeus por volta de 1600. Café. Chocolate. Consegue imaginar sua vida sem isso? Nem estamos falando da felicidade em si mesma.

Sêneca se deliciaria com duas invenções: a imprensa de Gutenberg, desenvolvida por volta de 1430, que veio a baratear e difundir a produção e distribuição de livros; e o fonógrafo inventado em 1877 por Thomas Edison, aperfeiçoado por Alexander Graham Bell. Quem aprende a gostar de ler, sabe o prazer que isso significa. A leitura de um bom livro é uma fonte intermitente de felicidade. Poder ouvir um disco dos Beatles, mesmo tendo perdido a chance de ir a um porão de Liverpool, é igualmente uma felicidade em forma de Long Play.

Consegue conceber a cena de Ovídio aprendendo a tocar guitarra com George Harrison? Poemas inteiros seriam escritos sobre a arte de emular a beleza da mulher, enquanto se dedilha uma Rickenbacker de 12 cordas. Paul McCartney ficaria com inveja e logo trataria de compor "Here, There and Everywhere".

Nem estou falando de viajar de carro conversível por uma estrada a beira mar, num entardecer de verão, pois isso é algo inalcançável para a maioria das pessoas. Mas aqueles que se recusam a pedalar uma bicicleta não sabem o que estão perdendo. Se tem um produto que deveria ser subsidiado por todos os governos, com isenção de impostos e linhas de crédito facilitado, são as bicicletas. Em cada casa deveria ter pelo menos uma. 

Fazer o sangue circular, enquanto você gira os pedais com suas pernas e comanda o guidão com seus braços, é uma excelente preparação para ter uma conversa instrutiva com alguém mais culto. Como seriam chamados os peripatéticos se, ao invés de caminhar com Aristóteles pelo entorno do Liceu, em Atenas, eles pudessem pedalar junto com ele por estradas de cascalho, entre campos de frondosas oliveiras?

Olhe para o seu lado. Veja quanta felicidade está sendo desperdiçada, nesse exato instante. A gente nem falou da máquina fotográfica, do cinema, de Charles Chaplin, de Sophia Loren. Quem está roubando a felicidade de nós? O espelho, o telefone celular, as redes sociais, o dinheiro, as ambições, os vícios? 

As bombas russas?

Os átimos de felicidade estão aí. Temos muito mais ferramentas e conhecimento tecnológico do que os antigos para capturar essas partículas de alegria. Entretanto, por querer sempre mais, a gente não dá valor para tudo de bom que já conquistamos.

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sábado, 26 de fevereiro de 2022

Anotações de uma guerra em curso

A bandeira presidencial da Rússia, com brasão central.
A bandeira presidencial da Rússia, com brasão central.

Estamos em fevereiro de 2022, prestes a completar dois anos da eclosão da Pandemia do Coronavírus em escala global, com a derrubada dos mercados de capitais. Após a sequência de vacinações combinada com os efeitos menos nocivos da variante Ômicron, o mundo começava a vislumbrar não um retorno à normalidade antiga, mas a um novo tempo de relativa retomada das atividades convencionais.

Porém, esqueceram de combinar com os russos. Esquecerem de perguntar o que se passa na mente estrategista de Vladimir Vladimirovitch Putin, o presidente formal da Rússia, em verdade um ditador obcecado pela ideia de recolocar sua nação no centro das atenções, reservando para ele mesmo um lugar na História. Inocentes ucranianos estão pagando com suas vidas o preço dessa megalomania.

Obviamente estamos atônitos. Nesse momento é muito difícil, ao menos para mim, estruturar um texto com começo, meio e fim. Os historiadores vão precisar da algumas décadas para fazer isso em seus livros e teses. Tudo que posso oferecer são fragmentos de um diário com páginas faltando. As redes sociais nos induzem a isso: pensar de forma fragmentada. Sinais de um tempo líquido em franca evaporação.

A seguir apresento minhas breves observações sobre o tema. Os parágrafos iniciais (em negrito) de cada data foram postados no Twitter e os comentários complementares no Instagram.

14 de fevereiro de 2022

O brasão da antiga bandeira da Rússia traz uma águia com duas cabeças: uma voltada para o Ocidente e outra voltada para o Oriente. Não se trata apenas de um símbolo, mas de uma sina: o papel da Rússia na História é ser a fiel da balança entre opostos. Putin é um czar pós-moderno.

Se a OTAN não ceder em alguns pontos para evitar uma invasão russa na Ucrânia, a possível consolidação de uma aliança de Putin com o Partido Comunista Chinês seria uma guinada histórica sem precedentes.

24 de fevereiro de 2022

A Rússia está comendo a Ucrânia pelas beiradas, enquanto os burocratas da ONU e da OTAN fazem reuniões protocolares. De um lado temos Putin, homem talhado para ser um imperador pós-moderno. Do outro estão presidentes e primeiros ministros que mais parecem síndicos de condomínios.

E a China assiste tudo de camarote.

25 de fevereiro de 2022

O Império Romano foi cristianizado quando Constantino estava no poder. Ele também fundou Constantinopla, para onde o Império se mudou com a chegada dos bárbaros em Roma. Os mouros expulsaram os ortodoxos de Constantinopla e eles foram para Moscou. Putin é um herdeiro dessa meada.

As motivações para a invasão da Rússia na Ucrânia são bem mais complexas do que a mídia está abordando. É preciso entender um contexto histórico milenar que inclui a influência da religião na política. Putin quer seu lugar na História com H maiúsculo feito Alexandre, o Grande, Júlio César e Napoleão Bonaparte. Para fazer frente aos seus delírios de conquistador, precisamos da liderança de alguém como Churchill. Infelizmente Biden não reúne os atributos necessários para cumprir este papel. Porém, Putin não vai parar na Ucrânia. Ele vai avançar até o fim de seus dias, pois se preparou a vida inteira para isso.

27 de fevereiro de 2022

O Brasil é um país periférico na geopolítica mundial. Isso significa que nossos principais problemas são de ordem interna, e as soluções também. A gente não acorda com a ameaça de levar bombas que caem do céu. Nossos inimigos estão entre nós: a corrupção e a ineficiência estatal.

Enquanto russos e ucranianos guerreiam em solo europeu, descendentes de russos e ucranianos convivem em harmonia no interior do Paraná.

Em São Paulo, um judeu pode almoçar num restaurante sírio-libanês e tudo bem.

Aqui, coreanos e chineses podem sentar na mesma arquibancada e torcer por um time criado por imigrantes italianos.

O Brasil é um ótimo lugar para investir. Nossas torres de transmissão de energia não são alvos de mísseis. Os empreendimentos imobiliários financiados por FIIs por intermédio de CRIs igualmente não correm risco de ruína por causa de tanques de guerra desgovernados.

Mas temos que fazer a lição de casa, mediante a renovação da classe política no Congresso.

Não é um processo rápido e fácil, mas necessário.

Se tivermos pautas reformistas para destravar as amarras do nosso desenvolvimento empresarial, a gente voa, pois já andamos para frente mesmo diante das dificuldades habituais como a burocracia e a alta carga de impostos.

Temos que fazer isso democraticamente, sem esperar por um salvador da pátria, pois isso seria dar brecha para a imposição da autocracia no Brasil.

01 de março de 2022

Putin é um autocrata a favor da mão pesada do Estado sobre o país. Com isso ele agrada esquerdistas radicais. Mas ele também prega o conservadorismo nos costumes, ganhando a simpatia da direita extrema. Ainda que muitos neguem, há quem defenda Putin, que segue sem um antagonista.

O líder da Rússia pode perder a guerra militar e econômica, mas seguirá dando as cartas no campo ideológico, minando o Ocidente por dentro, que por sua vez abriu mão de um de seus pilares fundamentais, ao permitir o processo de "secularização" da sua sociedade.

De certo modo, os conflitos bélicos resgatam sentimentos outrora considerados anacrônicos, como o patriotismo. Neste sentido uma nova Guerra Fria, iniciada logo após uma trégua na Ucrânia, dividiria o mundo outra vez, num golpe contra o globalismo.

São questões em aberto. Só o tempo trará as respostas.

Continua?

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segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

O último aplauso

O corredor central do cemitério de Caçapava.
O corredor central do cemitério de Caçapava.

Numa família com tantos tios, tias, primos e primas, seria ingenuidade pensar que ninguém seria vitimado pela Pandemia. Alguns parentes foram contaminados pelo vírus que veio do Oriente, mas foi batizado com nome científico e sobrenome alusivo às letras gregas. Coitado dos gregos: legaram tanta cultura ao mundo e o mundo agradece nomeando pragas globais com expressões como "Delta" e "Ômicron". Sim, meus primos mais jovens sobreviveram à essa tal de "Ômicron", pois pega mal, muito mal, dizer que o vírus saiu de um certo laboratório secreto, localizado para lá das muralhas que podem ser vistas da Lua.

Dois anos de trincheira, de distanciamento social, de uso de máscaras, de mãos besuntadas com álcool em gel. Bastou um vacilo. Uma visita de alguém que se pensava são, e os primeiros sintomas logo apareceram. Para alguém de idade avançada e corpo debilitado, as vacinas são apenas um alento psicológico, um motivo a mais para se desarmar. Rendido, prostrado, meu tio Gijo foi para o hospital. A intubação foi apenas uma sentença de morte antecipada, ao menos para mim.

No domingo de manhã o telefone tocou logo cedo.

- Seu tio Gijo acaba de falecer.

- Avisa o pai que estou passando aí.

Logicamente, não foi um diálogo tão curto, mas poupemos os amigos dos detalhes. Estava chovendo muito e me ofereci para dirigir por 180 quilômetros, para que pelo menos alguém da nossa casa pudesse dar um último adeus para o irmão mais velho da família.

O frentista do posto de combustíveis, a cobradora do pedágio, a garçonete do Frango Assado de Jacareí, o moço que encheu dois copos de plástico com suco de milho: ninguém sabia que meu tio Gijo tinha morrido. Seguiam suas vidas normalmente, como aliás todos devemos fazer, depois de cumprir o luto. Mas é difícil sustentar um ar de normalidade em dias assim, considerando que ninguém tinha obrigação de saber que alguém tão querido já não estava mais entre nós, afinal de contas, o plantão da Rede Globo não avisou nada.

Meu tio não era de uma escola de samba, nem da Academia Brasileira de Letras. Ele não tinha canal no YouTube e não emitia opiniões contra este ou aquele político. Não cantava funk, nem rap. A única coisa que lacrou em sua longa carreira foram envelopes do banco onde trabalhava. O presidente não vai tuitar lamentando a sua morte. Os caracteres do Jornal Nacional não subirão em silêncio ao fim da edição. Não veremos depoimentos, gravados por webcans, de atrizes ou universitários que o idolatravam. Não importa. Era o tio Gijo para mim. O irmão do meu pai. Quem sabe era, e ainda é, uma alma para Deus.

Para Deus não existe gente anônima.

O tio Gijo era uma pessoa culta. Sua inteligência só não era maior que sua generosidade. Sua alma, embora levíssima, estava aprisionada num corpo cansado e fragilizado depois de mais de oito décadas. Quantos anos a Covid lhe roubou? Dois? Cinco? Dez? Não dá para saber. Porém, seriam anos de sofrimento e de dependência de terceiros em tempo integral. Então, ironicamente, a Covid teria lhe prestado um favor. 

Este era o meu sentimento: de que ele estava aliviado, voltando para a Luz enquanto ainda estamos aqui para cumprir nossas missões. Foi assim que guiei pelas rodovias Dom Pedro e Dutra, atravessando três aquaplanagens, segurando o carro nos braços enquanto o céu chorava cântaros que provocaram sérios danos em várias cidades do estado.

Não houve velório. O caixão estava fechado e veio direto da funerária para a sepultura. Ali se encontravam poucas pessoas para testemunhar o fechamento da gaveta de concreto, durante uma janela de clima tolerável, com chuviscos aleatórios. Enquanto o coveiro cimentava as bordas da tampa, reuni coragem para dizer as seguintes palavras:

- O tio Gijo foi um homem honesto. Ele ajudou muita gente. Se teve alguém que ele prejudicou, foi apenas ele mesmo. Ele honrou a memória do vô Anibal. Ele honrou a memória da vó Ana. Agora chegou a nossa vez de honrar a memória dele, cujo espetáculo que foi sua vida se encerra hoje. E, enquanto a cortina do teatro vai descendo, só me resta pedir uma salva de palmas.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

A coleção de livros da Suno

Oito livros da Suno que merecem integrar sua biblioteca.
Oito livros da Suno que merecem integrar sua biblioteca.

Se você reparar bem, as coisas boas da vida não dão sopa por aí. Saia para caminhar por sua cidade: você enxerga mais ordem ou caos? Seja sincero ao observar o que as pessoas fazem no trânsito, especialmente num país como o Brasil, onde ciclistas pedalam no meio da rua e carros estacionam nas ciclovias, por exemplo. Para encontrar um pouco de ordem é preciso procurar onde as regras são respeitadas.

O mesmo se aplica para a felicidade. As pessoas nas calçadas, em dias de chuva, não saem dançando por aí, cantando umas para a outras. Isso só acontecia nos filmes antigos de Hollywood. O que mais vemos nas praças são transeuntes com faces angustiadas enquanto caminham apressadamente, a demonstrar que o modo padrão, no qual a realidade se apresenta, é baseado no sofrimento e não no prazer. A felicidade, se existe, precisa ser buscada.

A liberdade precisa ser buscada também. Paz de espírito, saúde... as melhores coisas da vida exigem cuidados, pois não são oferecidas em cada esquina. Cabe a cada um a iniciativa para atingir esse estado de satisfação, sem cair nas ilusões dos caminhos mais fáceis e largos.

Com os livros acontece algo semelhante. Os melhores livros precisam ser procurados. Você não tropeça neles quando entra numa loja de conveniência num posto de combustíveis de beira de estrada. Eles não estão nas vitrines das grandes livrarias, mas muitas vezes escondidos nos corredores dos fundos.

Por alguma razão, os melhores leitores não são como peixes capturados por redes de arrasto. Eles tão pouco mordem iscas nos pesque-e-pagues da vida. Os melhores leitores também precisam ser buscados. Quando bons leitores se encontram com bons livros, a felicidade vem junto e o mundo passa a fazer sentido. Passa a ter alguma ordem ou, no mínimo, uma proteção para o caos.

Bons livros libertam bons leitores em vários sentidos e todo esforço para fazer eles se encontrarem é válido. A CL-A Editora acredita que os livros da Suno se enquadram nesta categoria e está fazendo sua parte para facilitar a busca dos melhores leitores: aqueles que sabem que um bom livro é um bom investimento.

Os livros da Suno tratam justamente sobre os investimentos, no aspecto diretamente relacionado com o mercado financeiro. Sabemos que os ativos das Bolsas de Valores não possuem as soluções para grande parte dos problemas da humanidade, mas certamente as empresas e fundos fazem parte do time que trabalha neste sentido. Por isso, os livros da Suno são escritos por alguns dos melhores analistas do Brasil e editados por gente apaixonada o suficiente para, além de entregar o seu melhor, se entregar por inteiro a este nobre ofício.

Agora, por um desconto realmente amigável, você pode encomendar oito livros impressos da Suno, reunidos numa coleção para enriquecer a sua biblioteca, além de enriquecer o seu repertório intelectual numa área cada vez mais essencial para todos aqueles em idade ativa.

Já tem os livros da Suno? Que bom! Considere dar esta coleção de presente para alguém especial.

Sua busca terminou. Clique no link a seguir para ter certeza disso:

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Os Ecos na Pandemia captados por Jaime Troiano

A Suno também é uma casa publicadora de livros

O Pedal

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quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

Algumas palavras sobre o metaverso


No mundo real, agradeça por ser impossível provar a existência de Deus, pois o suporte para o seu livre arbítrio vem disso. Mas em cada metaverso há um programador, um criador, um dono querendo ser onipotente e onisciente. Logo, não pense que você pode ser o que quiser num metaverso.

Se existe um Deus no universo físico, ele não está interessado em vender seus dados para quem quiser pagar mais. Cuide bem de seus dados e, se você acredita, cuide bem de sua alma, que está ansiosa para experimentar as dores e os prazeres da vida real, enquanto habita em seu corpo.

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Ideais e ilusões

A Super Lua da Quarentena

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sexta-feira, 19 de novembro de 2021

O sinal do tempo e do trabalho

Não sabemos quanto tempo nos resta.
Não sabemos quanto tempo nos resta.

 

Amigos, escrevi o texto a seguir em meu perfil do Facebook, em 19 de novembro de 2014. Portanto, há sete anos. Considerando que seu teor continua válido, republico o breve artigo neste blog para alertar os arquitetos mais jovens sobre a importância de dar valor para o tempo e para o trabalho.

"

Tem certas coisas que você só aprende na prática, pois dificilmente os profissionais mais tarimbados no mercado passam parte de seu valioso tempo ensinando os mais jovens. Nem sempre os professores da faculdade, que são pagos para fazer isso, possuem vivência no mercado para tanto.

Pessoalmente, gostaria de ter uma bola de cristal para evitar os sujeitos "curiosos". Eles vão ao seu escritório repleto de perguntas, mas se recusam a passar dados minimamente necessários para você elaborar uma proposta formal. No começo da minha carreira eu perdia muito tempo com gente assim.

Eles querem saber a melhor posição da garagem, como dispor as suítes no segundo pavimento, coisas do tipo. As vezes eles dão toda a pinta que já estão fechados com você. Pronto, mesmo sem entregar qualquer desenho, você deu de bandeja todas as diretrizes de um projeto.

Então, passa um ou dois dias e o telefone toca: é o marido (ou a esposa) da pessoa que lhe sabatinou anteriormente (nunca é a mesma pessoa).

- Sabe o que é, nós não vamos mais construir...

Ou:

- Nós fechamos com outro escritório...

Nessas horas fico matutando se falei alguma coisa errada, mas geralmente chego à conclusão de que entreguei informação e tempo para alguém que simplesmente estava fazendo um leilão invertido.

Por isso, há alguns anos adotei a política nada simpática do sinal: um pequeno valor de entrada antes mesmo de fazer o primeiro estudo. Se o contratante em potencial se recusa a pagar este sinal, isto significa que ele não valoriza o seu trabalho, ou não está realmente interessado em seus serviços.

Os eventuais dissabores que ocorrem em meu ofício (que não, não é um mar de rosas glamouroso que as revistas de matérias pagas atestam) ocorrem sempre que abro mão deste procedimento estritamente profissional.

Deixo como exemplo outro telefonema, de alguém que desejava regularizar uma casa já construída. Respondi que não poderia falar em orçamento sem uma visita técnica prévia, e que ela teria o custo similar ao de uma consulta com um advogado (com a clara diferença de que advogados não atendem em domicílio).

A senhora disse que ia pensar melhor e que me retornaria depois. Logicamente isso não aconteceu, mas ao menos poupei meu tempo para dedicar-me a um projeto especial, daqueles que a gente não pode contar antes da hora, até que dê tudo certo.

E aí a gente também vira um "curioso", mas no bom sentido, quando buscamos informações e soluções técnicas para resolver algo absolutamente novo para nós.

De meu lado, respeito o tempo dos outros. Por isso perguntei para um especialista num assunto abordado em um dos aspectos do meu trabalho, quanto ele cobraria para revisar alguns desenhos que realizei.

Ele não quis cobrar nada e ainda me deu uma aula inesquecível. 

Neste momento percebi o quanto este mestre valorizava a nossa amizade.

"

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Como montar uma equipe para construir ou reformar

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