quinta-feira, 8 de agosto de 2019

É feliz quem vende a felicidade?

Máscaras de teatro retratadas em mosaico de autor desconhecido do Século II, expostas no Palazzo Nuovo de Roma, Itália.
Máscaras de teatro retratadas em mosaico de autor desconhecido do Século II, expostas no Palazzo Nuovo de Roma, Itália.

Todo dia de manhã faço uma breve varredura pelos meus sites favoritos, dentre eles o YouTube. Como trabalho com produção de conteúdo voltado para a educação financeira, com foco em renda variável, os robôs do Google ficam me sugerindo vídeos de pessoas que são consideradas influenciadoras digitais na área de investimentos.

Como boa parte delas, aparentemente, já esgotou o assunto sobre finanças e dados fundamentais da área que as projetaram para a notoriedade, elas estão partindo para dar conselhos diversos sobre saúde, comportamento e até decoração de interiores.

Na maioria das vezes leio os títulos dos vídeos e passo reto, mas alguns chamam tanta atenção que sinto a tentação de assistir. Então descubro, pela ótica de tais mestres da comunicação de massa, que sou um dinossauro do Século XX.

Vejamos: moro em casa própria e, na falta de um carro, tenho dois. Que absurdo! E o pior: não acordo às cinco da manhã e tomo banhos de mais de dois minutos.

Em suma: se a humanidade acabar, serei um dos culpados. No mínimo, estou condenado a ser pobre e infeliz. É isso mesmo? Acho que não.

Sobre ter casa própria, já dediquei artigos sobre o tema. Um deles está publicado neste link, de modo que não vou repetir argumentos sobre este ponto, salvo lembrar que não é pecado desejar e possuir um teto.

Afirmei que morar sob o próprio teto não é pecado: não afirmei que não é caro. Minha casa custou muito caro. Não me refiro aos materiais de construção, pois estes foram comprados mediante pesquisas de preço e qualidade. Minha casa custou caro, pois ela atrasou meu processo de busca pela independência financeira.

Já fui solteiro, já tive 15 quilos a menos e muito mais cabelos. Na primeira década do Século XIX estava construindo uma casa para vender. O ciclo do mercado imobiliário, na minha cidade, estava escalando os picos mais altos. As margens de retorno eram excelentes. Porém, no meio do caminho, decidi casar e que não ia começar um matrimônio pagando aluguel.

Sabia que isso ia atrasar meu lado financeiro. Mas quem consegue ser racional o tempo todo? Eu não consigo. Foi uma escolha difícil. Quem não fez as suas? Pergunte para o Morrissey, que tocava com os Smiths.

Quando levei minha noiva até a loja de móveis, para escolher um sofá, vi os olhos dela brilhando. Eu é que não ia estragar o momento, bolando uma estante com blocos de cimento e tábuas aproveitadas de pallets. Está aí uma dica de vídeo para quem ganha dinheiro ensinando o pão-durismo para os desavisados.

Quando nasce uma criança, é aí que o bicho pega. O vira-lata manso vira um leão, para não faltar nada em casa. Se você fizer as contas, você não coloca filhos no mundo. Então, tem horas que a gente simplesmente não deve fazer contas. Dane-se quem prega o contrário.

Se você é pai ou mãe, você voltaria no tempo em que não tinha filhos, para mudar o rumo da sua vida?

Além da casa, outras coisas que custam caro para manter são os meus carros. Quer arranjar briga comigo? Então me peça para vender um deles. Para quê dois carros? Um já basta. Não precisa nem de um. Anda de Uber. Meu, vai tomar banho.

Você acha que não sei que combustível, seguro, IPVA e oficina são drenos no meu orçamento? Mas quem vai me levar para os lugares que desejo conhecer? Um motorista de Uber, que nem torce pelo meu time? Não! Eu quero dirigir. Quero levar minha família junto, ouvindo clássicos do Rock sem que um motorista fique ouvindo nossa conversa.

Numa dessas viagens meu carro enguiçou. Tive que ir para o acostamento. Minha suspeita se confirmou quando chegou o socorro-mecânico: o alternador tinha ido para o espaço. A princípio, fiquei muito chateado, esperando o guincho chegar. Então embarcamos na caminhonete da seguradora e minha filha pequena achou aquilo o máximo.

Trocando umas ideias com o funcionário terceirizado da seguradora, pensei comigo mesmo: “Caramba, não posso reclamar. Estou passeando num domingo e o cara fazendo plantão”. Vamos ver a situação em perspectiva: meu carro estragou e o sujeito ganhou seu dia.

O mecânico que consertou o alternador também ganhou seu dia – talvez sua semana. Gastei 18 cotas do meu fundo imobiliário favorito para arrumar o veículo. Ou seja: deixei de comprar as 18 cotas, que até o fim dos tempos deixarão de colocar cerca de R$ 195 no meu bolso, a cada ano. Quase dois mangos por década e a gente nem considerou os juros compostos, para o remorso não aumentar.
E daí? Terei que trabalhar ainda mais para repor essa perda.

Fora que, para buscar o carro arrumado, tive que me ausentar do escritório. Se não tivesse carro, isso não teria acontecido. Então, não teria visitado meus pais fora de hora, pois eles moram perto da oficina. Faça contas para tudo e veja o que fará falta lá na frente. Não estou me referindo ao dinheiro.

Por vezes, penso nessas coisas tomando banho. É por isso que não conto o tempo sobre o ralo. Quanto pode render uma boa ideia concebida durante uma chuveirada quente? Muito mais do que a pretensa economia de um banho de dois minutos, conforme a youtuber recomenda.

Sinceramente? Se você trabalha doze horas por dia ou pega ônibus, trem e metrô para ir e voltar do trabalho, você merece um banho de cinco minutos. Dez minutos, que seja. Aceite tomar banhos de dois minutos e vão pedir para você tomar banho dia sim e dia não.

É a mesma história de acordar às cinco da manhã. Se você não pega ônibus, trem e metrô para ir trabalhar, você não precisa acordar tão cedo. Ou acorde, se o seu relógio biológico assim permitir. Aceitar isso como regra imposta não me parece algo inteligente.

Veja bem, não quero arranjar treta com esses youtubers. Quem sou eu perto deles, não é mesmo? Eles falam coisas que muita gente precisa ouvir. Só estou defendendo que devemos ter senso crítico. Questionar antes de assimilar – ou não – o conteúdo.

Então, se disserem para você fazer caminhadas diárias de 40 minutos, sem conversar com seu colega, pois isso prejudica o ritmo da respiração, vai lá e converse com ele. Será mais saudável. Ou caminhe sozinho, para não entrar em conflito.

Se pedirem para você reduzir o consumo de carboidratos, não deixe de comer pizza de vez em quando. O que pesa mais: perder uns quilos ou perder contato com aqueles amigos que você só vê numa pizzaria? Será que dá para dar umas boas risadas comendo alface e tomando água? Quem consegue fazer isso que me ensine, por favor.

Gosto de aprender. O tempo todo. Mas não faço isso dependendo apenas de vídeos no YouTube. A gente aprende com os clientes, com os chefes, com os patrões e inclusive com os estagiários da vida. Aprendemos batendo perna na rua, vendo bons filmes, boas peças de teatro e, sobretudo, lendo bons livros – os chamados clássicos.

Ou você pensa que Benjamin Graham, autor de “O investidor inteligente”, seria popular no YouTube? Se Van Gogh vivesse entre nós, ele seria ainda mais depressivo com essa história de mídias sociais. Aposto um alternador de Alfa Romeo nisso.

O que vejo nas mídias sociais, principalmente na área onde trabalho, são pessoas ganhando fama – e dinheiro – construindo personagens. Isso fica claro pelo uso de apelidos. Estas pessoas, de certo modo, acabam se tornando escravas das próprias personagens. Um vídeo novo por dia, uma mania nova por dia, um mandamento novo por dia.

Então, se tem algo que é mais caro do que uma casa ou um carro para manter, é a forja de uma personagem.

Vender felicidade custa caro.



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O colecionador de ativos
A Fazenda Benedetti de Amparo
Conversa sobre imóveis e renda variável com a Contadora da Bolsa

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sábado, 20 de julho de 2019

O colecionador de ativos financeiros

The Spirit: personagem criado por Will Eisner em 1940.
The Spirit: personagem criado por Will Eisner em 1940.

Você vai até a lanchonete famosa e a criança pede um mini lanche alegre, que vem com um brinquedinho para colecionar. O marketing sabe explorar essa vontade natural das pessoas para juntar coisas. Que bom seria se as pessoas fossem mais incentivadas a colecionar ações.

As crianças que estão crescendo com tablets nas mãos talvez não se interessem muito por colecionar gibis. Porém, quando eu era garoto no ainda analógico mundo do século XX, as histórias em quadrinhos faziam parte do meu universo. Credito à estas revistinhas meu gosto pela leitura, que só aumenta a cada dia.

Naquele tempo não tinha fixação por um personagem. Quando meu pai ia até a banca para comprar o jornal de domingo, ele me deixava escolher algum gibi e, assim, minha pequena coleção foi aumentando. Tenho até hoje a primeira história de Wolverine publicada no Brasil, numa revista do Incrível Hulk. E esqueçam: ela não está à venda.

Só havia um problema com meus gibis do Batman e do Homem Aranha: não tinha como comprar mais o número 1 e eu queria fazer uma coleção desde o começo. Então, um dia, a Editora Abril relançou as antigas histórias do Spirit, personagem do genial Will Eisner, que circulou originalmente em cadernos semanais dos jornais americanos dos anos de 1940 e 1950.

Will Eisner, para quem não sabe, é considerado o criador das novelas gráficas, sendo o primeiro artista a defender que as histórias em quadrinhos poderiam ser também produções literárias para adultos. Suas perspectivas e o domínio das luzes e sombras nas suas ambientações serviram de inspiração para o cinema noir daquele período.

A longa espera

Enfim, pela primeira vez eu tinha que esperar um mês inteiro para comprar um gibi novo do Spirit. Eram tempos de inflação e sempre o preço de capa aumentava. Ia para a escola com o dinheiro contado para comer um lanche e abria mão dele para poder garantir meu exemplar antes dele esgotar na banca. Passava o dia com balas de canela no estômago, mas voltava para casa com mais um gibi para minha coleção.

Como era de se esperar, a revista não durou muito tempo: menos de um ano e meio. Ela não vendia bem e o pior: não tinha anunciantes. A garotada da época só queria saber da Mônica, do Mickey e do Pato Donald. Spirit não tinha liquidez, mas naquela época eu não sabia o que era isso.

Paralelamente, estava fazendo outra coleção, que me exigia ainda mais paciência. A cada Natal e aniversário eu pedia de presente para os meus pais um disco de vinil dos Beatles. Levei mais de sete anos para completar a coleção, que para mim cobre os álbuns oficiais de estúdio e a coletânea "Past Masters", que reúne os Singles que não entraram nos Long Plays – LPs.

Novamente, eu não sabia, mas estava exercitando a disciplina e paciência, que seriam muito úteis, tempos depois. Disciplina para focar nos discos dos Beatles – e não do Ultraje a Rigor ou Queen, que faziam sucesso na época. E paciência para esperar o próximo Natal. Quando chegava a véspera, batia uma indecisão na hora de escolher o próximo álbum na loja de discos – prazer que os mais jovens não vão conhecer. Como era bom ouvir um disco dos Beatles pela primeira vez.

Controlando a ansiedade

Completar uma coleção tem o lado bom e o lado ruim. O lado bom é que acaba a ansiedade pela próxima aquisição. O lado ruim é que a gente sente falta dela e logo procura outra coleção para fazer. É neste caso que algumas pessoas se perdem e o saudável hábito de colecionar vira uma obsessão – um vício.

Felizmente, não me perdi nisso. Cresci e continuei fazendo pequenas coleções. Comecei tardiamente a comprar CDs do Oasis. Já tinha a própria renda e não precisava mais esperar pela boa vontade dos pais. Porém, estipulei uma condição para mim mesmo: só compraria um CD do Oasis depois que fechasse um projeto novo.

Foi mais rápido fazer esta coleção, mas tem um detalhe importante. Importante não, fundamental: minha namorada. Eu fechava um trabalho novo e saia com ela para comemorar. Na hora de comprar um CD para mim, no Shopping, comprava um CD para ela também.

O gosto dela era mais sortido: A-ha, Alphaville, Pretenders, Keane e um tal de Air Supply. Prova de amor – e de suplício – é ouvir um CD do Air Supply no carro, com sua namorada, sem fazer cara de desespero, só para agradar ela.

Cuidados distribuídos

Meu automóvel também não era convencional: um MP Lafer 1974. Por muitos anos foi meu único veículo. Quando parava num posto de combustíveis, era comum perguntarem se eu colecionava carros antigos. Bem que eu queria, mas esse é o tipo de brinquedo caro para comprar e para manter.
No entanto, ao frequentar encontros de carros antigos, a gente acaba conhecendo grandes colecionadores. Tem gente que coleciona marcas diversas, ao passo que outros compram carros de apenas uma fabricante.

Certa vez conversei com um colecionador de Studebaker. Perguntei se a mulher dele não tinha ciúmes dos veículos. Ele disse que não, pois cuidava da família ainda melhor que de suas máquinas. Ele era empresário também. Dos mais competentes.

Notei que, quando uma coleção não vira motivo de brigas na família, ela serve de incentivo para a pessoa ser ainda melhor no seu trabalho. Só assim poderá deixar sua família amparada, liberando o suporte para cuidar de seus objetos de afeição.

Colecionar o que vale a pena

De minha parte, parei de colecionar gibis há muitos anos. A revolução digital acabou com as lojas de discos. Bob Dylan e David Bowie dançaram: não vou mais colecionar discos deles. Ouço tudo de graça no Deezer. Pobre Deezer: ainda não assinei o serviço deles e continuo ouvindo propaganda entre as músicas.

Porém, como fui inoculado com o vírus de colecionador, resolvi começar uma coleção de ativos financeiros: ações de empresas pagadoras de dividendos e cotas de fundos imobiliários. Que maravilha. Esse é o tipo de coleção que você começa sem previsão de completar. Sempre tem algo a mais para você buscar. E o melhor: a coleção de ativos que geram renda passiva adicionam os juros compostos que fazem a própria coleção aumentar mais rapidamente.

Fico esperando aquele dia do mês, quando terei dinheiro para comprar mais um ativo. Não numa banca de jornal. Não numa loja de discos. Mas na Bolsa de Valores, via Home Broker. Qual ação comprar da próxima vez? Ou será que vamos completar aquela centena de cotas de um fundo imobiliário? E assim vamos enchendo as prateleiras virtuais.

Perfil equilibrado

Você pode perguntar se minha esposa não sente ciúme das minhas ações. Responderei que não, pois as ações são delas também. Além disso, me esforço para cumprir com outras obrigações do casamento – e não são poucas. Quando nasce uma criança, elas só aumentam.

Disciplina, paciência e atenção com a família. Conceitos que um colecionador experiente leva em conta para continuar sua busca infinita por novos componentes.

A grande vantagem de colecionar ativos financeiros é que eles não ocupam espaço em casa, nas gavetas das escrivaninhas e nos nichos da estante da sala. Naquela hora do mês para efetuar uma nova compra, a gente dá uma espiada na custódia da corretora, para tirar pó dos ativos mais antigos e para lustrar os novos rendimentos.

De todas as coleções que já comecei, a de ativos financeiros está sendo uma das mais prazerosas, numa disputa acirrada com os livros de bolso dos grandes filósofos da História. Estes livros de bolso são baratinhos, mas carregam valores de primeira grandeza.

Complete sua coleção

Porém, deixei a melhor coleção de todas para o final. Trata-se da coleção de livros da Suno Research. Já fez sua assinatura? Então não perca tempo.

Obviamente, minha opinião é suspeita, pois estou trabalhando para aumentar esta coleção paulatinamente. Ela começou com o “Guia Suno Dividendos” e dobrou com o “Guia Suno de Contabilidade para Investidores”. Escrevi estes livros em parceria com o Tiago Reis.

Depois veio o “Guia Suno Fundos Imobiliários” que editei para o Marcos Baroni e o Danilo Bastos. Já o “101 Perguntas e Respostas para Investidores Iniciantes” foi escrito por Tiago Reis e Felipe Tadewald.

Finalmente trabalhei com a Alice Porto, a Contadora da Bolsa, para lançar “101 Perguntas E Respostas Sobre Tributação Em Renda Variável”. Mas a coleção não para por aí. Já estamos empenhados em novos lançamentos nos próximos meses. Você não perde por esperar.

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sexta-feira, 12 de julho de 2019

Conversa sobre imóveis e renda variável com a Contadora da Bolsa

O arquiteto e escritor Jean Tosetto (quem?) conversa com Alice Porto - a Contadora da Bolsa.
O arquiteto e escritor Jean Tosetto (quem?) conversa com Alice Porto - a Contadora da Bolsa.

Há alguns dias estive na sede da Suno Research em São Paulo e gravei alguns vídeos sobre investimentos, livros e comportamento. O primeiro deles foi publicado no canal da Alice Porto no YouTube.

Alice também é conhecida como a Contadora da Bolsa e tive a oportunidade de ser coautor e editor de seu primeiro livro: "101 Perguntas E Respostas Sobre Tributação Em Renda Variável: Tire suas dúvidas sobre tributação para Bolsa de Valores", disponível como e-book na Amazon, onde até o momento está avaliado com 4,5 de 5 estrelas.

Neste vídeo, nós conversamos sobre outras formas de investimento, desde discos de vinil dos Beatles, passando por carros antigos e livros. Mas o tema central foi o investimento em imóveis, de modo a equilibrar os aportes feitos em renda variável, em função dos ciclos não coincidentes dos mercados imobiliário e financeiro. Confira:


Veja também:

Guia Suno Dividendos é apresentado no programa Fundamente-se do InfoMoney
A Suno também é uma casa publicadora de livros
"Love and Mercy" & uma mercearia

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quarta-feira, 26 de junho de 2019

"Love and Mercy" & uma mercearia

Estava na sala de estar, jogando dominó com minha filha e ouvindo um disco do Brian Wilson gravado no fim dos anos de 1980, quando ele estava afastado dos Beach Boys. O Brian Wilson é um dos gênios musicais mais subestimados da cultura norte-americana. Como ele nunca embarcou no oba-oba da modernidade (afinal de contas, ele acha que não foi feito para estes tempos) o seu devido reconhecimento será tardio. De certo modo, eu me identifico com ele.

A música que abre seu disco solo se chama "Love And Mercy". É linda e até virou nome de filme sobre a vida de Brian (que não é aquele do Monty Python). A gente ouve essa canção uma vez e ela cola na nossa cabeça. "Love And Mercy" significa "Amor e Misericórdia" em português.

Nunca prestei muita atenção em sua letra. Sempre me liguei mais na melodia e foi isso que me inspirou para postar a seguinte imagem e comentário no Instagram:

Fotografia da mercearia publicada no Instagram por Jean Tosetto.

"A fachada desta mercearia não tem logomarca. Não tem telefone. Não tem site ou fanpage. Igualmente não existe um plano de negócios nela. Mas tem uma mesa de bilhar, um balcão com refrigerador, garrafas de tubaína e sanduíches de mortadela servidos em pães franceses. O mais importante: as portas abertas para receber os poucos habitantes da localidade ignorada pelo Waze. Onde muitas pessoas observam apenas uma velha construção, eu imagino uma crônica inteira. Fico pensando no que se passa na cabeça de quem senta no cimento áspero daqueles degraus para ver a tarde de sábado se esvanecer. Ao fitar o rapaz com taco de sinuca em mãos, engato a primeira marcha e vou embora. De certo modo, fui percebido como invasor naquele mundo que gira mais devagar. Um mundo tão perto e tão longe da gente."

Foi uma postagem despretensiosa, como tantas outras que faço sem ouvir os conselhos de especialistas em SEO, marketing digital e toda essa parafernália para atrair seguidores artificialmente. No entanto, para minha surpresa, a mensagem tocou pessoas que sequer conheço pessoalmente e que me deixaram feliz por suas respostas.

Ainda no Instagram o Will Glauber escreveu:

"@walef_m continua acompanhando? Eu sim"

Ao que o Walef respondeu:

"@glauberwill sempre hahaha. O Instagram é como o mundo. Muitos posts são como as grandes metrópoles, cheios de informação junto com aquela euforia e correria. Os seus textos, @jeantosetto, são como viagens ao campo, onde paramos e nos aconchegamos para ler. São palavras que, com o auxílio das imagens, transmitem paz e calmaria, independente do tema. Eu e meu primo @glauberwill gostamos muito de seus textos. Aqui vai o nosso muito obrigado pelas publicações. Grande abraço!"

Como minhas publicações no Instagram vão automaticamente para o meu Facebook, de lá também tive a satisfação de ler a seguinte mensagem do Odersio Martinhão Filho:

"Caro Jean, boa noite. Gostei muito da foto e do que escreveu. Me lembrei do armazém do meu pai em Indaiatuba. Está com ele desde que tinha 18 anos. Hoje, com 86, tem ido pouco e nos últimos meses se ausentou para tratar da saúde. É uma das poucas referências de como se realizava o comércio quando ainda existia os "secos e olhados" nos armazéns. Me desculpe. Não tive a intenção de ser invasivo. Apenas compartilhando uma boa história a partir do seu post."

Ele também encaminhou as seguintes imagens que reproduzo aqui:

Recorte de jornal antigo sobre o mercadinho do José Martinhon em Indaituba.
Recorte de jornal antigo sobre o mercadinho do José Martinhon em Indaituba.

O recorte de jornal mais recente atesta: o Seu Martinhon é um herói da resistência.
O recorte de jornal mais recente atesta: o Seu Martinhon é um herói da resistência.

A mercearia da família do Martinho na Rua Padre Bento Pacheco em Indaiatuba.
A mercearia da família do Martinho na Rua Padre Bento Pacheco em Indaiatuba.

Feliz com a boa acolhida da minha proposição, não sei explicar exatamente como as coisas se conectam. Então fui prestar atenção na letra de "Love & Mercy" e tenho que subscrevê-la: nós precisamos de amor e misericórdia nesta noite, contra a violência e a solidão lá fora.

Ir a uma mercearia ou armazém tradicional (antigo) não deixa de ser um ato de resistência. É bom comprar alimento de alguém que a gente conhece. Este sentimento comunitário fortalece nossa crença na humanidade.

Acho que é isso. Mas não tenho certeza.


P.S.: a fotografia inicial foi tirada no Distrito de Três Pontes em Amparo, no Circuito Paulista das Águas que tanto visito para recarregar as baterias.

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sexta-feira, 21 de junho de 2019

Quem se importa com Pirapora do Bom Jesus?

Um cartão postal sobre Pirapora do Bom Jesus: ainda bem que a imagem eletrônica não tem cheiro.
Um cartão postal sobre Pirapora do Bom Jesus: ainda bem que a imagem eletrônica não tem cheiro.

Uma das manias dos arquitetos convictos é que eles enxergam grandes potenciais em tudo. Em função disso, muitos deles são tratados como sonhadores, utópicos e alienados. Não tem problema. A convicção serve para quê, mesmo?

O que vejo na imagem acima?

O Rio Tietê despoluído, o entorno de Pirapora do Bom Jesus reflorestado e o casario da cidade reformado, colorido e preparado para receber turistas em suas vielas convertidas em atracadouros.

Eles partiriam em balsas de estações em pontos estratégicos de São Paulo. Você ainda poderia trabalhar no JK Iguatemi e ir almoçar na Firenze brasileira.

Isso significa que o Rio Pinheiros também seria despoluído e um novo modal de transporte seria implantado na grande metrópole: o fluvial. Então, o sujeito que mora em Santana de Parnaíba poderia deixar o carro em casa e ir trabalhar de barco na capital, uma vez que não tem metrô ou trem para transportá-lo.

Mas fiquem tranquilos. Isso foi só um delírio. Felizmente temos políticos com os pés no chão para garantir que isso nunca vai acontecer. As prioridades dos políticos são outras: reeleições, cargos maiores, perpetuação no poder.

Meio ambiente? Urbanismo? Planejamento territorial? Isso é conversa de idealista.

Por isso, nunca elejam um arquiteto para nada. Pode ser que ele coloque a cidade ou o estado nos eixos. Vejam o que Jaime Lerner fez por Curitiba e pelo Paraná...

Diante da Igreja Matriz de Pirapora, o cão toma sol sob as bandeiras coloridas das festas juninas.
Diante da Igreja Matriz de Pirapora, o cão toma sol sob as bandeiras coloridas das festas juninas.

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sábado, 1 de junho de 2019

O que investidores de longo prazo podem aprender com Sêneca?

“A morte de Sêneca” (1773). Pintura de Jacques-Louis David (1748-1825) exposta no Musée du Petit-Palais, Paris, França.
“A morte de Sêneca” (1773). Pintura de Jacques-Louis David (1748-1825) exposta no Musée du Petit-Palais, Paris, França.

Viver é uma arte que requer equilíbrio. O mesmo equilíbrio que as empresas precisam demonstrar em seus balanços patrimoniais. Por isso, ler sobre Filosofia pode ser muito útil para quem atua no mercado financeiro. Afinal de contas, investir não é muito diferente de viver.

Se você pudesse escolher outra época para viver, abriria mão do presente? Eu não. Apesar de ter nascido no analógico século 20, convivo muito bem com o mundo digital do século 21. A Internet abriu a possibilidade de pessoas anônimas se expressarem em público. Antigamente – e não faz tanto tempo assim – apenas quem estava no círculo fechado da imprensa, da política e da universidade, tinha voz, embora tudo fosse editado por muito poucos indivíduos.

Não voltaria para um tempo onde não pudesse ouvir discos dos Beatles e dirigir meu carro, por exemplo. Porém, confesso que não seria de todo ruim viver durante o auge do Império Romano, se pudesse caminhar pelas colinas de Roma e cruzar com gente como Cícero, Ovídio e Sêneca.

Quando pensamos em pessoas do passado remoto, temos a tendência de achar que elas eram ignorantes, dado que não conheciam os avanços científicos, médicos e tecnológicos que qualquer cidadão moderno das grandes cidades tem ao seu alcance. Isto não significa que, antigamente, todos eram burros. Pelo contrário. Os pensadores do período clássico estão entre os mais inteligentes de toda a humanidade.

Eles tinham uma grande vantagem sobre nós: não se distraíam com televisão, YouTube, redes sociais e maratonas de séries da Netflix. Eles tinham tempo para pensar sobre a vida. Por isso, alguns de seus livros sobreviveram por milênios e ainda revelam ensinamentos para nós – e inclusive os investidores de longo prazo no mercado de capitais.

O pretor que também era filósofo

Lúcio Anneo Sêneca nasceu em Córdoba, na Espanha, por volta de quatro anos antes de Cristo. Ainda jovem, foi estudar Filosofia em Roma, tornando-se também advogado. Culto, tinha uma relação de amor e ódio com os poderosos da época. Era conselheiro do imperador Calígula, mas o imperador Cláudio o mandou para o exílio, de onde retornou para ser pretor (educador) de Nero, que também seria imperador mais adiante.

Entre tantas funções, Sêneca era questor. Em Roma, os questores eram responsáveis por administrar bens públicos e cobrar impostos, entre outras coisas, pois eram reconhecidamente bons financistas. Sêneca, portanto, era um filósofo que entendia de questões de mercado. Só por esta breve apresentação, todo investidor moderno deveria ler sua obra, da qual se destaca “Sobre a brevidade da vida”.

O título deste livro, cuja edição brasileira de bolso é mais barata que um cappuccino, é inquietante para quem se considera investidor de longo prazo. Como pode existir o longo prazo se a vida é curta? Sim, a vida é breve e precisa ser vivida com sabedoria, mesmo quando se tem a mentalidade de longo prazo em questões financeiras.

Indagações do questor

Separei algumas passagens da lavra de Sêneca para, quem sabe, despertar em você a vontade de ler seus escritos:

“Não temos exatamente uma vida curta, mas desperdiçamos uma grande parte dela. A vida, se bem empregada, é suficientemente longa e nos foi dada com muita generosidade para a realização de importantes tarefas. Ao contrário, se desperdiçada no luxo e na indiferença, se nenhuma obra é concretizada, por fim, se não se respeita nenhum valor, não realizamos aquilo que deveríamos realizar, sentimos que ela realmente se esvai.”

Segue um alerta para aqueles que programam demais a sua aposentadoria, reprimindo em sua juventude um pouco de equilíbrio entre afazeres e prazeres:

“Ouvirás a maioria dizendo: ‘Aos cinquenta anos me dedicarei ao ócio. Aos sessenta ficarei livre de todos os meus encargos’. Que certeza tens de que há uma vida tão longa? O que garante que as coisas se darão como se dispões? Não ter envergonhas de destinar para ti somente resquícios da vida e reservar para a meditação apenas a idade que já não é produtiva?”

Comprar e abraçar? Já fizeram isso antes

Já em “Aprendendo a viver” – uma compilação de cartas de Sêneca para seu amigo Lucílio, o filósofo romano antecipa, em vários séculos, o conceito do Buy and Hold:
Senecião alcançou a riqueza graças a duas qualidades indispensáveis neste domínio: a arte de adquirir e a arte de conservar. Tanto uma coisa como outra era suficiente para torná-lo rico".

Sêneca descreve Senecião como um homem “de uma extrema sobriedade e que administrava da mesma maneira a sua pessoa e fortuna”. Eis uma bela definição para os requisitos de um investidor de valor, que não pensa apenas no crescimento de seu patrimônio, mas considera igualmente o seu crescimento pessoal.

Em seus conselhos para Lucílio, Sêneca deixa para a posteridade palavras que se adéquam aos preceitos da educação financeira: “Em tudo, leva em conta a finalidade das coisas, deixando de lado, portanto, o supérfluo”. E continua:

“O que preferes: ter muito ou ter apenas o suficiente? Aquele que tem muito deseja ter mais, o que prova ser insuficiente o que já possui. Aquele que possui o suficiente obteve o que o rico jamais poderá atingir, ou seja, o fim dos seus desejos.”

A palavra é: parcimônia

Neste ponto, fica clara a influência do filósofo Epicuro no pensamento de Sêneca, que em “Da tranquilidade da alma” revela: “Confesso que tenho um grande amor pela parcimônia”. E o que significa parcimônia? De acordo com o dicionário do oráculo Google: “ação ou hábito de fazer economia, de poupar; economia”.

O parcimonioso Sêneca, assim como seu mestre Epicuro, não fazia questão de luxo e pompa. Para eles se alimentarem, ambos preferiam comidas simples e saborosas, ao invés refeições exóticas e de difícil preparo. Podemos traduzir isso para o nosso tempo como ter um padrão de vida equilibrado e controlado. Uma lição útil para quem busca a independência financeira.

Não por acaso, Sêneca era livre de problemas mundanos, como a falta de dinheiro. O dinheiro e as finanças, a propósito, sequer estavam no foco de suas preocupações. O que interessava para ele era debater o medo da morte e defender a eternidade da alma. Assuntos que, aparentemente, não nos dizem mais respeito, quando já somos perpétuos nos arquivos das redes sociais.

A ética acima de tudo

Então, o que a leitura de suas epístolas pode acrescentar para aqueles que exercem o mais mundano dos ofícios, o de negociar em Bolsa de Valores? (A propósito, muitos investidores e especuladores se sentiriam provocados com tais cartas.) A resposta está em valores éticos e morais que podemos assimilar, dado que são perenes e refletem nossas atitudes em qualquer ramo de atividade.

Como ocorre muitas vezes na História, conciliar o livre pensar com a função de conselheiro de poderosos é a receita para um fim amargo, especialmente quando o livre pensar incomoda os medíocres – o que só se agrava quando os medíocres chegam ao poder. O imperador Nero – aquele que botou fogo em Roma – acusou Sêneca de conspiração, lhe ordenando, sem julgamento, que cometesse suicídio.

Vejam como é bom viver em tempos de Internet, repletos de haters – eles incomodam, mas são inofensivos perto dos tiranos.

De algum modo, Sêneca provou-se imortal. Ele mesmo fazia a recomendação para que a gente se servisse da imortalidade daqueles que vieram antes de nós, lendo seus livros. A Filosofia dos antigos é fonte de sabedoria, que por sua vez, é fonte de prosperidade em vários sentidos.

Sêneca arremata: “O sábio não é considerado indigno ao ser agraciado pelo dom da fortuna. Não ama a riqueza, mas a aceita de bom grado. Permite que entre em sua casa, não a rejeita, desde que ela enseje oportunidades para a virtude”.

De volta ao presente

Como colaborador da Suno Research, agradeço pelo espaço e pela liberdade de tocar em assuntos pouco convencionais na renda variável. Por isso, fico tranquilo em recomendar que você faça sua assinatura hoje mesmo. A nossa noção de valores vai além da abordagem meramente financeira.

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sexta-feira, 17 de maio de 2019

Fittipaldi e a volta por cima

Emerson Fittipaldi em reprodução de imagem da TV ABC.
Emerson Fittipaldi em reprodução de imagem da TV ABC.

O vídeo a seguir é longo, tem 3 horas e 26 minutos. Mas você pode começar a assistir a partir das 3 horas, para ver o final de uma das maiores corridas de todos os tempos, que em 2019 completa 30 anos: as 500 Milhas de Indianápolis, vencidas por Emerson Fittipaldi.

Essa terá sido possivelmente a maior vitória de sua carreira, dentro e fora das pistas. Fittipaldi era bi-campeão mundial de Fórmula 1 quando montou a própria equipe na década de 1970, que lhe dragou as finanças e lhe custou muitos anos longe dos títulos.

Fora da Fórmula 1, Fittipaldi recomeçou do zero, numa pequena equipe da Fórmula Indy. Nas voltas finais das 500 Milhas de 1989 ele trava um duelo com Al Unser Jr., que claramente contava com a torcida do narrador da TV americana.

Unser espremeu Emerson entre seu carro e a grama. Fittipaldi seguiu na pista e Jr. foi parar no muro. O vencedor desce do carro e chora. Foi uma grande volta por cima, como só o esporte pode nos proporcionar.

Quando as coisas ficarem duras para você, reveja este vídeo.

O Senna foi um gênio? Foi. O Piquet foi bom também? Demais. Mas a gente pode aprender muito com Emerson Fittipaldi. A vida dele segue difícil, segundo o noticiário sobre suas dívidas, mas ele já provou ser capaz de superar as adversidades. Ele é verdadeiramente um brasileiro.



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