sexta-feira, 12 de julho de 2019

Conversa sobre imóveis e renda variável com a Contadora da Bolsa

O arquiteto e escritor Jean Tosetto (quem?) conversa com Alice Porto - a Contadora da Bolsa.
O arquiteto e escritor Jean Tosetto (quem?) conversa com Alice Porto - a Contadora da Bolsa.

Há alguns dias estive na sede da Suno Research em São Paulo e gravei alguns vídeos sobre investimentos, livros e comportamento. O primeiro deles foi publicado no canal da Alice Porto no YouTube.

Alice também é conhecida como a Contadora da Bolsa e tive a oportunidade de ser coautor e editor de seu primeiro livro: "101 Perguntas E Respostas Sobre Tributação Em Renda Variável: Tire suas dúvidas sobre tributação para Bolsa de Valores", disponível como e-book na Amazon, onde até o momento está avaliado com 4,5 de 5 estrelas.

Neste vídeo, nós conversamos sobre outras formas de investimento, desde discos de vinil dos Beatles, passando por carros antigos e livros. Mas o tema central foi o investimento em imóveis, de modo a equilibrar os aportes feitos em renda variável, em função dos ciclos não coincidentes dos mercados imobiliário e financeiro. Confira:


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"Love and Mercy" & uma mercearia

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quarta-feira, 26 de junho de 2019

"Love and Mercy" & uma mercearia

Estava na sala de estar, jogando dominó com minha filha e ouvindo um disco do Brian Wilson gravado no fim dos anos de 1980, quando ele estava afastado dos Beach Boys. O Brian Wilson é um dos gênios musicais mais subestimados da cultura norte-americana. Como ele nunca embarcou no oba-oba da modernidade (afinal de contas, ele acha que não foi feito para estes tempos) o seu devido reconhecimento será tardio. De certo modo, eu me identifico com ele.

A música que abre seu disco solo se chama "Love And Mercy". É linda e até virou nome de filme sobre a vida de Brian (que não é aquele do Monty Python). A gente ouve essa canção uma vez e ela cola na nossa cabeça. "Love And Mercy" significa "Amor e Misericórdia" em português.

Nunca prestei muita atenção em sua letra. Sempre me liguei mais na melodia e foi isso que me inspirou para postar a seguinte imagem e comentário no Instagram:

Fotografia da mercearia publicada no Instagram por Jean Tosetto.

"A fachada desta mercearia não tem logomarca. Não tem telefone. Não tem site ou fanpage. Igualmente não existe um plano de negócios nela. Mas tem uma mesa de bilhar, um balcão com refrigerador, garrafas de tubaína e sanduíches de mortadela servidos em pães franceses. O mais importante: as portas abertas para receber os poucos habitantes da localidade ignorada pelo Waze. Onde muitas pessoas observam apenas uma velha construção, eu imagino uma crônica inteira. Fico pensando no que se passa na cabeça de quem senta no cimento áspero daqueles degraus para ver a tarde de sábado se esvanecer. Ao fitar o rapaz com taco de sinuca em mãos, engato a primeira marcha e vou embora. De certo modo, fui percebido como invasor naquele mundo que gira mais devagar. Um mundo tão perto e tão longe da gente."

Foi uma postagem despretensiosa, como tantas outras que faço sem ouvir os conselhos de especialistas em SEO, marketing digital e toda essa parafernália para atrair seguidores artificialmente. No entanto, para minha surpresa, a mensagem tocou pessoas que sequer conheço pessoalmente e que me deixaram feliz por suas respostas.

Ainda no Instagram o Will Glauber escreveu:

"@walef_m continua acompanhando? Eu sim"

Ao que o Walef respondeu:

"@glauberwill sempre hahaha. O Instagram é como o mundo. Muitos posts são como as grandes metrópoles, cheios de informação junto com aquela euforia e correria. Os seus textos, @jeantosetto, são como viagens ao campo, onde paramos e nos aconchegamos para ler. São palavras que, com o auxílio das imagens, transmitem paz e calmaria, independente do tema. Eu e meu primo @glauberwill gostamos muito de seus textos. Aqui vai o nosso muito obrigado pelas publicações. Grande abraço!"

Como minhas publicações no Instagram vão automaticamente para o meu Facebook, de lá também tive a satisfação de ler a seguinte mensagem do Odersio Martinhão Filho:

"Caro Jean, boa noite. Gostei muito da foto e do que escreveu. Me lembrei do armazém do meu pai em Indaiatuba. Está com ele desde que tinha 18 anos. Hoje, com 86, tem ido pouco e nos últimos meses se ausentou para tratar da saúde. É uma das poucas referências de como se realizava o comércio quando ainda existia os "secos e olhados" nos armazéns. Me desculpe. Não tive a intenção de ser invasivo. Apenas compartilhando uma boa história a partir do seu post."

Ele também encaminhou as seguintes imagens que reproduzo aqui:

Recorte de jornal antigo sobre o mercadinho do José Martinhon em Indaituba.
Recorte de jornal antigo sobre o mercadinho do José Martinhon em Indaituba.

O recorte de jornal mais recente atesta: o Seu Martinhon é um herói da resistência.
O recorte de jornal mais recente atesta: o Seu Martinhon é um herói da resistência.

A mercearia da família do Martinho na Rua Padre Bento Pacheco em Indaiatuba.
A mercearia da família do Martinho na Rua Padre Bento Pacheco em Indaiatuba.

Feliz com a boa acolhida da minha proposição, não sei explicar exatamente como as coisas se conectam. Então fui prestar atenção na letra de "Love & Mercy" e tenho que subscrevê-la: nós precisamos de amor e misericórdia nesta noite, contra a violência e a solidão lá fora.

Ir a uma mercearia ou armazém tradicional (antigo) não deixa de ser um ato de resistência. É bom comprar alimento de alguém que a gente conhece. Este sentimento comunitário fortalece nossa crença na humanidade.

Acho que é isso. Mas não tenho certeza.


P.S.: a fotografia inicial foi tirada no Distrito de Três Pontes em Amparo, no Circuito Paulista das Águas que tanto visito para recarregar as baterias.

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sexta-feira, 21 de junho de 2019

Quem se importa com Pirapora do Bom Jesus?

Um cartão postal sobre Pirapora do Bom Jesus: ainda bem que a imagem eletrônica não tem cheiro.
Um cartão postal sobre Pirapora do Bom Jesus: ainda bem que a imagem eletrônica não tem cheiro.

Uma das manias dos arquitetos convictos é que eles enxergam grandes potenciais em tudo. Em função disso, muitos deles são tratados como sonhadores, utópicos e alienados. Não tem problema. A convicção serve para quê, mesmo?

O que vejo na imagem acima?

O Rio Tietê despoluído, o entorno de Pirapora do Bom Jesus reflorestado e o casario da cidade reformado, colorido e preparado para receber turistas em suas vielas convertidas em atracadouros.

Eles partiriam em balsas de estações em pontos estratégicos de São Paulo. Você ainda poderia trabalhar no JK Iguatemi e ir almoçar na Firenze brasileira.

Isso significa que o Rio Pinheiros também seria despoluído e um novo modal de transporte seria implantado na grande metrópole: o fluvial. Então, o sujeito que mora em Santana de Parnaíba poderia deixar o carro em casa e ir trabalhar de barco na capital, uma vez que não tem metrô ou trem para transportá-lo.

Mas fiquem tranquilos. Isso foi só um delírio. Felizmente temos políticos com os pés no chão para garantir que isso nunca vai acontecer. As prioridades dos políticos são outras: reeleições, cargos maiores, perpetuação no poder.

Meio ambiente? Urbanismo? Planejamento territorial? Isso é conversa de idealista.

Por isso, nunca elejam um arquiteto para nada. Pode ser que ele coloque a cidade ou o estado nos eixos. Vejam o que Jaime Lerner fez por Curitiba e pelo Paraná...

Diante da Igreja Matriz de Pirapora, o cão toma sol sob as bandeiras coloridas das festas juninas.
Diante da Igreja Matriz de Pirapora, o cão toma sol sob as bandeiras coloridas das festas juninas.

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sábado, 1 de junho de 2019

O que investidores de longo prazo podem aprender com Sêneca?

“A morte de Sêneca” (1773). Pintura de Jacques-Louis David (1748-1825) exposta no Musée du Petit-Palais, Paris, França.
“A morte de Sêneca” (1773). Pintura de Jacques-Louis David (1748-1825) exposta no Musée du Petit-Palais, Paris, França.

Viver é uma arte que requer equilíbrio. O mesmo equilíbrio que as empresas precisam demonstrar em seus balanços patrimoniais. Por isso, ler sobre Filosofia pode ser muito útil para quem atua no mercado financeiro. Afinal de contas, investir não é muito diferente de viver.

Se você pudesse escolher outra época para viver, abriria mão do presente? Eu não. Apesar de ter nascido no analógico século 20, convivo muito bem com o mundo digital do século 21. A Internet abriu a possibilidade de pessoas anônimas se expressarem em público. Antigamente – e não faz tanto tempo assim – apenas quem estava no círculo fechado da imprensa, da política e da universidade, tinha voz, embora tudo fosse editado por muito poucos indivíduos.

Não voltaria para um tempo onde não pudesse ouvir discos dos Beatles e dirigir meu carro, por exemplo. Porém, confesso que não seria de todo ruim viver durante o auge do Império Romano, se pudesse caminhar pelas colinas de Roma e cruzar com gente como Cícero, Ovídio e Sêneca.

Quando pensamos em pessoas do passado remoto, temos a tendência de achar que elas eram ignorantes, dado que não conheciam os avanços científicos, médicos e tecnológicos que qualquer cidadão moderno das grandes cidades tem ao seu alcance. Isto não significa que, antigamente, todos eram burros. Pelo contrário. Os pensadores do período clássico estão entre os mais inteligentes de toda a humanidade.

Eles tinham uma grande vantagem sobre nós: não se distraíam com televisão, YouTube, redes sociais e maratonas de séries da Netflix. Eles tinham tempo para pensar sobre a vida. Por isso, alguns de seus livros sobreviveram por milênios e ainda revelam ensinamentos para nós – e inclusive os investidores de longo prazo no mercado de capitais.

O pretor que também era filósofo

Lúcio Anneo Sêneca nasceu em Córdoba, na Espanha, por volta de quatro anos antes de Cristo. Ainda jovem, foi estudar Filosofia em Roma, tornando-se também advogado. Culto, tinha uma relação de amor e ódio com os poderosos da época. Era conselheiro do imperador Calígula, mas o imperador Cláudio o mandou para o exílio, de onde retornou para ser pretor (educador) de Nero, que também seria imperador mais adiante.

Entre tantas funções, Sêneca era questor. Em Roma, os questores eram responsáveis por administrar bens públicos e cobrar impostos, entre outras coisas, pois eram reconhecidamente bons financistas. Sêneca, portanto, era um filósofo que entendia de questões de mercado. Só por esta breve apresentação, todo investidor moderno deveria ler sua obra, da qual se destaca “Sobre a brevidade da vida”.

O título deste livro, cuja edição brasileira de bolso é mais barata que um cappuccino, é inquietante para quem se considera investidor de longo prazo. Como pode existir o longo prazo se a vida é curta? Sim, a vida é breve e precisa ser vivida com sabedoria, mesmo quando se tem a mentalidade de longo prazo em questões financeiras.

Indagações do questor

Separei algumas passagens da lavra de Sêneca para, quem sabe, despertar em você a vontade de ler seus escritos:

“Não temos exatamente uma vida curta, mas desperdiçamos uma grande parte dela. A vida, se bem empregada, é suficientemente longa e nos foi dada com muita generosidade para a realização de importantes tarefas. Ao contrário, se desperdiçada no luxo e na indiferença, se nenhuma obra é concretizada, por fim, se não se respeita nenhum valor, não realizamos aquilo que deveríamos realizar, sentimos que ela realmente se esvai.”

Segue um alerta para aqueles que programam demais a sua aposentadoria, reprimindo em sua juventude um pouco de equilíbrio entre afazeres e prazeres:

“Ouvirás a maioria dizendo: ‘Aos cinquenta anos me dedicarei ao ócio. Aos sessenta ficarei livre de todos os meus encargos’. Que certeza tens de que há uma vida tão longa? O que garante que as coisas se darão como se dispões? Não ter envergonhas de destinar para ti somente resquícios da vida e reservar para a meditação apenas a idade que já não é produtiva?”

Comprar e abraçar? Já fizeram isso antes

Já em “Aprendendo a viver” – uma compilação de cartas de Sêneca para seu amigo Lucílio, o filósofo romano antecipa, em vários séculos, o conceito do Buy and Hold:
Senecião alcançou a riqueza graças a duas qualidades indispensáveis neste domínio: a arte de adquirir e a arte de conservar. Tanto uma coisa como outra era suficiente para torná-lo rico".

Sêneca descreve Senecião como um homem “de uma extrema sobriedade e que administrava da mesma maneira a sua pessoa e fortuna”. Eis uma bela definição para os requisitos de um investidor de valor, que não pensa apenas no crescimento de seu patrimônio, mas considera igualmente o seu crescimento pessoal.

Em seus conselhos para Lucílio, Sêneca deixa para a posteridade palavras que se adéquam aos preceitos da educação financeira: “Em tudo, leva em conta a finalidade das coisas, deixando de lado, portanto, o supérfluo”. E continua:

“O que preferes: ter muito ou ter apenas o suficiente? Aquele que tem muito deseja ter mais, o que prova ser insuficiente o que já possui. Aquele que possui o suficiente obteve o que o rico jamais poderá atingir, ou seja, o fim dos seus desejos.”

A palavra é: parcimônia

Neste ponto, fica clara a influência do filósofo Epicuro no pensamento de Sêneca, que em “Da tranquilidade da alma” revela: “Confesso que tenho um grande amor pela parcimônia”. E o que significa parcimônia? De acordo com o dicionário do oráculo Google: “ação ou hábito de fazer economia, de poupar; economia”.

O parcimonioso Sêneca, assim como seu mestre Epicuro, não fazia questão de luxo e pompa. Para eles se alimentarem, ambos preferiam comidas simples e saborosas, ao invés refeições exóticas e de difícil preparo. Podemos traduzir isso para o nosso tempo como ter um padrão de vida equilibrado e controlado. Uma lição útil para quem busca a independência financeira.

Não por acaso, Sêneca era livre de problemas mundanos, como a falta de dinheiro. O dinheiro e as finanças, a propósito, sequer estavam no foco de suas preocupações. O que interessava para ele era debater o medo da morte e defender a eternidade da alma. Assuntos que, aparentemente, não nos dizem mais respeito, quando já somos perpétuos nos arquivos das redes sociais.

A ética acima de tudo

Então, o que a leitura de suas epístolas pode acrescentar para aqueles que exercem o mais mundano dos ofícios, o de negociar em Bolsa de Valores? (A propósito, muitos investidores e especuladores se sentiriam provocados com tais cartas.) A resposta está em valores éticos e morais que podemos assimilar, dado que são perenes e refletem nossas atitudes em qualquer ramo de atividade.

Como ocorre muitas vezes na História, conciliar o livre pensar com a função de conselheiro de poderosos é a receita para um fim amargo, especialmente quando o livre pensar incomoda os medíocres – o que só se agrava quando os medíocres chegam ao poder. O imperador Nero – aquele que botou fogo em Roma – acusou Sêneca de conspiração, lhe ordenando, sem julgamento, que cometesse suicídio.

Vejam como é bom viver em tempos de Internet, repletos de haters – eles incomodam, mas são inofensivos perto dos tiranos.

De algum modo, Sêneca provou-se imortal. Ele mesmo fazia a recomendação para que a gente se servisse da imortalidade daqueles que vieram antes de nós, lendo seus livros. A Filosofia dos antigos é fonte de sabedoria, que por sua vez, é fonte de prosperidade em vários sentidos.

Sêneca arremata: “O sábio não é considerado indigno ao ser agraciado pelo dom da fortuna. Não ama a riqueza, mas a aceita de bom grado. Permite que entre em sua casa, não a rejeita, desde que ela enseje oportunidades para a virtude”.

De volta ao presente

Como colaborador da Suno Research, agradeço pelo espaço e pela liberdade de tocar em assuntos pouco convencionais na renda variável. Por isso, fico tranquilo em recomendar que você faça sua assinatura hoje mesmo. A nossa noção de valores vai além da abordagem meramente financeira.

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sexta-feira, 17 de maio de 2019

Fittipaldi e a volta por cima

Emerson Fittipaldi em reprodução de imagem da TV ABC.
Emerson Fittipaldi em reprodução de imagem da TV ABC.

O vídeo a seguir é longo, tem 3 horas e 26 minutos. Mas você pode começar a assistir a partir das 3 horas, para ver o final de uma das maiores corridas de todos os tempos, que em 2019 completa 30 anos: as 500 Milhas de Indianápolis, vencidas por Emerson Fittipaldi.

Essa terá sido possivelmente a maior vitória de sua carreira, dentro e fora das pistas. Fittipaldi era bi-campeão mundial de Fórmula 1 quando montou a própria equipe na década de 1970, que lhe dragou as finanças e lhe custou muitos anos longe dos títulos.

Fora da Fórmula 1, Fittipaldi recomeçou do zero, numa pequena equipe da Fórmula Indy. Nas voltas finais das 500 Milhas de 1989 ele trava um duelo com Al Unser Jr., que claramente contava com a torcida do narrador da TV americana.

Unser espremeu Emerson entre seu carro e a grama. Fittipaldi seguiu na pista e Jr. foi parar no muro. O vencedor desce do carro e chora. Foi uma grande volta por cima, como só o esporte pode nos proporcionar.

Quando as coisas ficarem duras para você, reveja este vídeo.

O Senna foi um gênio? Foi. O Piquet foi bom também? Demais. Mas a gente pode aprender muito com Emerson Fittipaldi. A vida dele segue difícil, segundo o noticiário sobre suas dívidas, mas ele já provou ser capaz de superar as adversidades. Ele é verdadeiramente um brasileiro.



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sexta-feira, 10 de maio de 2019

Meu primeiro show: Ultraje a Rigor em Paulínia, 1990

Dois álbuns do Ultraje que não podem faltar na discoteca de um roqueiro brasileiro.
Dois álbuns do Ultraje que não podem faltar na discoteca de um roqueiro brasileiro.

Os fãs do Legião Urbana vão estrilar, e a turma que curte Barão Vermelho também. Mas não tinha para Ira!, Titãs, Paralamas do Sucesso, Lobão e os Ronaldos: quem mandava no Rock brasileiro na década de 1980 era o Ultraje a Rigor. Só o RPM era mais popular, mas eles tocavam música Pop, e não o Rock de verdade, no único momento em que ele teve destaque nas rádios por aqui.

Essa é uma opinião claramente turvada, pois para mim eram os Beatles no céu e Ultraje na terra. Mas tem algo que ninguém pode negar: poucas bandas, no mundo, repetiram o feito de Roger Moreira & Cia: lançar o primeiro disco emplacando 9 das 11 músicas nas paradas de sucesso. Até hoje "Nós vamos invadir sua praia" de 1985, responde por metade do set-list da banda, quando ela se apresenta por aí além dos estúdios do SBT, onde gravam o programa de entrevistas do Danilo Gentili.

Em 1990, porém, o Rock nacional vivia seus estertores no mainstream, embora a gente não soubesse disso. Eu, por exemplo, não sabia de nada: tinha apenas 14 anos, mais espinhas na testa que estrelas no céu, nenhuma namorada e sem chance remota de conseguir uma, meu Verdão não ganhava campeonatos e, para piorar, meus pais me trocaram de colégio.

Saí de uma escola estadual de Paulínia e fui para uma unidade particular em Campinas, que eu detestava, assim como detestava acordar às cinco horas da manhã todos os dias e levar ferro nas provas bimestrais de Matemática. Daí se conclui que o ensino público já estava uma calamidade naquela época, e que hoje tenho vontade de xingar até o fim dos tempos aqueles youtubers que acham bacana acordar de madrugada.

A mudança de escola também me tirou do time de futebol do bairro e perdi o contato diário com meus amigos de antes. Os campineiros me chamavam de caipira, capiau, cabeça dinossauro, Pica-Pau, Calvin, Menino Maluquinho...

Era um magrela, cabeçudo e tinha cabelo arrepiado, mas sobrevivi. Somente anos depois a TV veio com essa história de bullying. Eu resolvia meus problemas na porrada mesmo, e também sabia falar mais palavrões que os demais garotos da sala (o lado bom de jogar bola contra a turma do Morro Alto). Eu enfiava a mãe deles na conversa em todas as provocações que recebia.

Minha puberdade foi complicada. O que aliviava para o meu lado era poder colocar um disco dos Beatles na vitrola, todas as noites. O Ultraje a gente ouvia nas rádios mesmo. Minha favorita era a Rádio União. Os locutores sabiam os nomes do meu irmão mais velho e da turma dele, que acabou me adotando.

Nas férias de inverno daquele ano a gente entrou para uma equipe de gincana, que só tinha perdedores, como nós. A Prefeitura de Paulínia promovia jogos recreativos entre os jovens da cidade. Era divertido. Ficamos em último lugar, mas meu irmão ganhou algumas garotas. Para ele não tinha tempo ruim. Uma namoradinha no Baile do Ridículo e mais uma no Baile Havaiano. Outra coisa que me aliviava: conversar com ele antes de dormir.

Para o último dia de férias, a Prefeitura de Paulínia promoveu o grande show do ano na cidade: Ultraje a Rigor! A apresentação seria no domingo de noite e foi no domingo de tarde (encerrando o mês de junho) que descobrimos que o ingresso era uma lata de óleo de soja para caridade. Detalhe: o comércio não abria de domingo, só a banca de jornais (até meio dia) e uma farmácia de plantão.

Toca eu e o Lô (de louco) bater pernas nas ruas do centro, batendo palmas e tocando campainhas nas casas, para pedir uma lata de óleo de soja. A gente ouviu muitos "nãos". Estava anoitecendo. Então resolvi correr para a casa da minha vó. A Vó Hertha que nunca chamei de vovó. Ela nos arranjou as latas de óleo e mais: blusas de lã, pois estava esfriando rapidamente.

A minha blusa era verde e tinha furos nos cotovelos, pois minha vó usava ela para capinar no quintal da casa dela, que me colocou um chapéu de palha também. O tiziu aqui parecia um boia fria. Descemos correndo as ruas do Jardim Calegaris até o campão do centro, que hoje é o Estádio Municipal.

O gramado já estava cheio, mas eu queria ficar bem perto do palco. Só conseguimos isso ficando na frente de uma enorme caixa de som, no lado esquerdo do palco, para quem estava na plateia. Deu tempo de ver o show começar. O primeiro da minha vida.

 "Nossa, ainda vou ser feliz nesta vida" - pensei.

O Ultraje ainda tinha sua formação basicamente original e a banda estava promovendo seu terceiro álbum. Os sucessos vieram um atrás do outro: "Rebelde sem causa", "Mim quer tocar", "Zoraide", Ciúme", "Inútil", "Eu gosto de mulher"...

Energia emanando do palco e um som de estourar os tímpanos. Nem consegui prestar atenção na menina do lado, de quem gostava bastante na sétima série. Sabia que não poderia estragar aquela noite levando um fora dela.

Lembro de duas cenas marcantes naquela apresentação: num solo de bateria o Leospa quase entrou em transe, alternando as batidas com os braços salientes numa camisa cavada, ele olhou para cima e depois para dentro de sua mente. Só ficou o branquinho dos olhos. Quem não curte Rock não entende isso.

O Roger não era o guitarrista principal do conjunto. Ele fazia, e ainda faz, a guitarra base, como o John Lennon dos Beatles. Numa das músicas uma corda da sua guitarra estourou. Ele ficou olhando de um lado para o outro no braço do instrumento, procurando uma alternativa para seguir tocando, até que encaixou os acordes nas cordas mais baixas. Pouca gente percebeu e ele continuou cantando. Um profissional. Acabou a música e trocou de guitarra.

O que é bom dura pouco e depois do show ainda tinha que voltar para casa, na zona rural. Pegamos o último ônibus coletivo da AVPP (Auto Viação Progresso de Paulínia, que a gente chamava de "A Verdadeira Porcaria de Paulínia", de sacanagem). Estava lotado e descemos no ponto final. As últimas luzes das casas da periferia estavam se apagando. Já tinha gente dormindo para começar outra semana de trabalho.

Não consegui dormir. O zumbido dos infernos nos ouvidos não deixava. Foi minha primeira ressaca. Pisquei o olho e o despertador tocou. Primeiro dia de aula. Que droga. Só queria voltar para casa e dormir até o dia seguinte. Mas a lembrança do show ficou. Era muita vibração para ignorar. E depois disso fui em vários espetáculos de Rock. E vou continuar indo.

Os anos de 1990 chegaram e o Rock foi sendo jogado para escanteio, para o canto extremo do dial. No seu lugar vieram a Lambada, o Sertanejo, o Pagode, o Forró, o Funk e essas coisas maravilhosas e muito rentáveis quem vem da terra do arroz com pequi.

Quando me formei em 1999, um dos primeiros CDs que comprei com o dinheiro do meu trabalho foi "18 anos sem tirar" do Ultraje a Rigor, que naquela altura do campeonato tinha passado por várias formações e seguia tocando nos circuitos alternativos. Nunca mais a banda estourou um grande sucesso novamente, não nos parâmetros anteriores. Para mim isso não é problema.


O problema é que no Brasil os músicos são criticados mais por suas posturas políticas do que por suas músicas. Então o Chico Buarque não é cobrado por um grande sucesso recente, mas para os bacaninhas descolados e lacradores o Roger é apenas um cara decadente que foi tocar num talk show de um humorista de direita.

Parem com isso! O Ultraje a Rigor não são os Beatles do Brasil, mas eles são os Beach Boys - o que é uma honra do caramba. Desdenham do Roger do mesmo modo que ignoram o talento do Brian Wilson, por causa de uma banda de Rock com um nome despretensioso.

Mas por falar em talk show, quem nunca sonhou em um dia ser entrevistado num programa como este? Se um dia o "The Noite" me chamasse (não vai acontecer) eu faria questão de agradecer o Roger pessoalmente. Tentaria encontrar minha fita K-7 do Ultraje, que escutava no Fusca a caminho da faculdade, para pedir um autógrafo na capinha dela, que eu mesmo desenhei. Então diria que a história música da brasileira será passada a limpo e que ele terá seu lugar de direito restabelecido.

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sábado, 13 de abril de 2019

O pessimismo como estratégia de investimento

Busto de Epicuro exposto no Museu Britânico em Londres.
Busto de Epicuro exposto no Museu Britânico em Londres.

A Bolsa de São Paulo está rompendo a barreira histórica dos 100 mil pontos e mais de um milhão de pessoas físicas cadastradas em seus bancos de dados. Cenário ideal para incentivar investidores novatos e otimistas. Mas não seria melhor ser pessimista nestas horas?

O século 21 chegou feito uma bandeira amarela numa corrida das 500 milhas de Indianápolis, embaralhando os retardatários da prova com os competidores mais preparados. No YouTube autoridades colegiais nascem diariamente falando sobre assuntos complexos e obtendo mais audiência do que doutores acostumados a escrever, mas sem traquejo para falar.

Hoje qualquer pessoa pode ter o seu canal de comunicação, angariar seguidores e seguir muita gente. O acesso à informação foi democratizado na enésima potência, mas o acesso ao conhecimento ainda não acompanhou este processo, pois são tantos os estímulos que não sabemos precisamente em quem prestar atenção.

De certo, muita gente não tem nada de novo para acrescentar e apenas reproduz o que outras pessoas já disseram. Este talvez seja um critério para eleger quem são as autoridades de fato: saber quantas pessoas repercutem o que estes autores aparentemente mais destacados afirmam.

Outro caminho, mais conservador e menos influenciado pelo comportamento de manada, é recorrer aos clássicos, desde os filósofos da Grécia Antiga, passando por pensadores do Império Romano e chegando ao Iluminismo: Platão, Sócrates, Epicuro, Sêneca, Cícero, Voltaire, Descartes e Schopenhauer, só para citar alguns.

Nenhum deles conheceu as modernas Bolsas de Valores, embora se saiba que Descartes ganhou dinheiro deste modo, na Bolsa embrionária de Amsterdam, em pleno século 17. Porém, muito do que estes autores imortais produziram pode ser traduzido com sucesso para o ambiente do mercado financeiro e para o amadurecimento da mentalidade do investidor.

O tripé da felicidade

Epicuro, por exemplo, viveu três séculos antes de Cristo e ocupou sua vida tratando da busca pela felicidade, que para ele poderia ser alcançada através de um tripé que consistia numa vida bem analisada, a companhia de amigos sinceros e leais, e na liberdade. Liberdade que se baseava inclusive na independência financeira, não no sentido da obtenção da riqueza pela riqueza, mas no ajuste do padrão de vida de modo a não depender de questões políticas e econômicas regidas por personagens tiranos.

Quem investe no mercado de capitais e gosta de ler, já ouviu falar de autores como Taleb e Damodaran. O primeiro é conhecido por sua abordagem sobre o caos e pela necessidade de ser antifrágil para se proteger dos “cisnes negros”. O segundo é o guru do Valuation e do manejo de investimentos.

Logicamente a leitura de seus livros é sempre válida, mas há outros autores que merecem ser conhecidos. Entre eles está Alain de Botton. Já tratamos da resenha de um de seus livros no site da Suno Research: “Desejo de status”. Ele não aborda diretamente as questões comportamentais de investidores no mercado financeiro, mas como catalisador de autores clássicos da História, podemos tirar valiosas lições de seu discurso.

O pessimismo segundo Botton

Alain de Botton prega que as pessoas devem ser mais pessimistas. Para ele, “o otimismo é a maior falha do mundo moderno”.  No entanto, o pessimismo a que se refere o filósofo não é aquele relacionado com a alimentação de pensamentos negativistas, mas tão somente aquele que combate o excesso de expectativas, pois são expectativas não realizadas as maiores causadoras das frustrações para as pessoas.

Por exemplo:

“Vou cursar Economia na melhor faculdade de São Paulo e depois terei um ótimo emprego.”

“Vou namorar aquela pessoa e em breve ela vai se casar comigo.”

Pode ser que essas coisas não aconteçam e isso seria normal. Mas o otimista talvez pense que isso terá sido um grande azar e que não deveria ter acontecido come ele. Grandes expectativas frustradas causam grandes estragos emocionais.

O espirro

Suponha que alguém espirrou na rua. Se for um otimista, ele poderá pensar:

“Foi só um espirro. Tem muita poeira nesta calçada.”

Já se for um pessimista, o pior será esperado:

“Será que vou ficar gripado e perder três dias de trabalho? Vou adiantar alguns compromissos para esta semana ainda hoje.”

No dia seguinte o sujeito ficou resfriado. Como otimista ele ficaria chateado. Mas o pessimista conclui:

“Oba, foi só um resfriado. Posso trabalhar. Vou sarar mais rápido.”

Como esta lógica funciona na Bolsa de Valores?

Estamos no primeiro semestre de 2019, numa encruzilhada histórica no Brasil. Mais uma vez o Congresso discute a Reforma da Previdência. Como um otimista convicto pode reagir a isto?

“A Reforma será aprovada integralmente. A Bolsa vai subir feito um foguete. Vou comprar todas as ações que puder agora.”

E para o pessimista, como seria sua visão?

“Esta reforma não sai de jeito nenhum. É questão de tempo para que os investidores estrangeiros comecem a tirar dinheiro daqui. A Bolsa vai despencar. Como as ações das melhores empresas ficarão mais baratas, vou dividir meus aportes em ativos de renda variável e títulos resgatáveis de renda fixa, para poder comprar de baciada quando os demais estiverem desesperados para vender.”

Provavelmente não vai acontecer nem uma coisa nem outra (podem me cobrar no futuro sobre isso). A Reforma da Previdência não será aprovada integramente, em tempo ágil, e nem cancelada. Podem ocorrer atrasos e uma Reforma modificada que sustente o cenário brasileiro por mais alguns anos. Os detalhes deste procedimento são imprevisíveis, mas qualquer coisa que acontecer no meio do caminho vai beneficiar o investidor pessimista, e não o otimista demais.

Precaução, canja de galinha e Rock

De fato, a Bolsa de São Paulo está num momento que favorece os otimistas: beirando os 100 mil pontos e ultrapassando um milhão de CPFs cadastrados – um recorde histórico. Tem muita gente empolgada mergulhando de cabeça na renda variável. É questão de tempo para a frustração pegar muitos de surpresa. Mas os poucos pessimistas seguem firmes, esperando pelo pior, uma vez que qualquer coisa diferente disso será lucro.

Epicuro cultivava hábitos simples e se vestia sem pompas. A comida que o alimentava era saudável, embora pouco sofisticada, mas ele fazia questão de fazer as refeições entre amigos. Quando lhe ofereciam um talho de queijo, o presente era recebido como um banquete. O mestre de Alain de Botton tinha poucas expectativas: se fosse um investidor moderno na Bolsa de Valores, teria grandes chances de sucesso.

Não temos mais a maioria de seus 300 livros para ler. Seus escritos se perderam com os milênios. Mas podemos ouvir um Pop Rock para compensar. Um dos grandes sucessos do Muse, “Starlight”, trata justamente disso. No refrão eles cantam:


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