sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Onda especulativa avança sobre os fundos imobiliários

Henry Matisse (1869-1954), “La Danse” (1909~1910), pintura do acervo do State Hermitage Museum, em São Petesburgo, Rússia.
Henry Matisse (1869-1954), “La Danse” (1909~1910), pintura do acervo do State Hermitage Museum, em São Petesburgo, Rússia.

Junto com a crescente popularidade dos fundos imobiliários no Brasil, está crescendo também a variação dos perfis de seus investidores, outrora defensivos e conservadores, agora acompanhados de agentes mais agressivos. Estamos diante de uma mudança de paradigmas.

Por Jean Tosetto *


A população brasileira aos poucos vai descobrindo a Bolsa de Valores de São Paulo e o potencial de retorno da renda variável, após um longo período de redução e estabilidade da taxa básica de juros da economia do país.

A Selic, que estava em 14,25% em setembro de 2016, caiu para apenas 6,5% em março de 2018 e vem se mantendo neste patamar desde então, pelo menos até junho de 2019. Neste período inferior a três anos, o número de pessoas físicas que operam na B3 saltou de 556 mil para mais de um milhão de investidores.

Esta marca histórica se explica pela perda de atratividade da renda fixa aliada com a multiplicação de agentes promotores dos benéficos da renda variável, desde educadores financeiros até casas de pesquisas sobre ativos do mercado financeiro. Ainda assim, estamos tratando de apenas meio por cento da população brasileira.

Por mais impressionantes que sejam os retornos das ações de empresas e cotas de fundos imobiliários, a maioria dos brasileiros economicamente ativos sequer consegue poupar parte da renda mensal. Aqueles que o fazem sentem receio do mercado de capitais. Entre os fatores de risco, que esse contingente, reconhece estão a volatilidade das cotações e o caráter especulativo que faz a Bolsa parecer um cassino.

Fundos imobiliários e portos seguros

Para combater esta imagem distorcida que muitos enxergam quando se lembram da Bolsa de São Paulo, existe uma porta de entrada para o ambiente da renda variável: são os fundos de investimentos imobiliários – FIIs. Eles foram criados para gerar renda passiva através do mercado imobiliário, por meio de empreendimentos físicos e de papéis relacionados com financiamentos para o setor.

Inicialmente, ainda no fim da década de 1990, os FIIs tinham baixa liquidez. Com o passar dos anos, este problema foi sendo resolvido na medida em que o mercado ganhava novos investidores, geralmente de perfis mais defensivos e conservadores, interessados na menor volatilidade das cotações frente ao sobe e desce das ações de empresas de capital aberto.

Na segunda década do século 21, os fundos imobiliários atingiram um patamar de equilíbrio entre liquidez razoável, volatilidade moderada e previsibilidade de geração de renda passiva com retorno acima da inflação. Por um bom tempo, estes eram alguns dos principais argumentos para convencer alguém a ingressar na Bolsa de São Paulo.

O triplo de investidores em três anos

Em 2016 os FIIs contavam com cerca de 80 mil investidores com CPFs cadastrados na B3. Naquela época, como você poderia convencer alguém a investir neles?

Simples: alegando que os fundos de tijolos pagavam rendimentos (partilha de aluguéis) que ganhavam facilmente dos aluguéis convencionais, da caderneta de poupança e inclusive do Tesouro Selic. Já os fundos de papéis davam retornos mais atraentes do que as LCIs e CRIs disponíveis para investidores individuais nas plataformas das corretoras e dos bancos.

O objetivo de comprar fundos imobiliários era centrado na geração de renda passiva, ganhando de brinde “alguma” valorização das cotas. Investidores conservadores até torciam para que as cotas se mantivessem estáveis, assim eles poderiam seguir comprando mais ativos, aumentando paulatinamente a renda passiva mensal a ser reinvestida.

Chegamos ao mês de junho de 2019 com o triplo de investidores em fundos imobiliários, em relação a 2016. A escalada de preços tomou conta de grande parte dos FIIs negociados na Bolsa de São Paulo. Muitos comemoram o aquecimento deste tipo de mercado, menos o investidor pequeno que mira na renda passiva.

Alto preço gera baixo retorno

Quando a cota de um fundo de tijolo aumenta muito, o retorno relacionado ao pagamento de dividendos – proporcional ao preço da cota – diminui, ou seja: comprar as cotas com o pensamento de longo prazo, centrado na obtenção de renda passiva, deixa de fazer sentido. O mesmo raciocínio se aplica aos fundos que operam com papéis relacionados aos financiamentos do mercado imobiliário.

Como sabemos que um fundo imobiliário está caro? Justamente ao observar a taxa de retorno do rendimento – também como conhecida como Dividend Yield – e comparar ela com benchmarks importantes, como a própria taxa Selic, o IPCA e a média dos alugueis convencionais, além do CDI, que é mais recorrente entre analistas profissionais.

Neste cenário só tem um tipo de fundo que está conseguindo manter a renda mensal atrativa, aliada com certa paridade entre preço e valor patrimonial da cota: são os fundos de fundos – FOFs.

Carros na jamanta

Os FOFs são fundos imobiliários que investem em cotas de outros fundos imobiliários. Eles repassam para os cotistas a divisão dos rendimentos obtidos com fundos de tijolos e fundos de papéis presentes em suas carteiras. Os FOFs podem ser um ótimo modo de iniciar os investimentos em renda variável com boa diversificação.

Porém, como os FOFs conseguem entregar um rendimento mensal acima do verificado pelos rendimentos dos outros tipos de fundos, se os FOFs investem justamente neles? A resposta é que os fundos de fundos promovem giro de carteira, ou seja: eles vendem cotas de outros fundos com lucros, pagam os impostos e dividem a diferença com seus cotistas.

Veja o paradoxo: o investidor de perfil conservador e defensivo é orientado para fazer pouco giro de carteira e para focar no rendimento mensal do FII ao invés da valorização especulativa das suas cotas. Porém, ao comprar cotas de FOFs ele estará indiretamente praticando o contrário dos seus princípios.

A ciranda dos prédios

Os gestores dos fundos de fundos estão fazendo Swing Trade para garantir os bons rendimentos para os seus cotistas. No entanto, estes rendimentos não estão baseados apenas nas atividades intrínsecas do mercado imobiliário, mas estão sendo turbinados por práticas especulativas que seguem a regra de “comprar na baixa para vender na alta”.

Se o pequeno investidor sabe que determinado FII está caro, pois o retorno em forma de dividendos está relativamente baixo (em alguns casos perdendo até para a caderneta de poupança), o que explicaria o fato deste ativo continuar valorizando ao longo do tempo? Simples: existem FOFs e grandes especuladores comprando e vendendo cotas sem parar. Se o pequeno investidor opera com dois a três mil reais por mês, ele nada pode fazer em relação aos milhões que os demais agentes do mercado (entre eles os gestores dos FOFs) estão girando na Bolsa.

Como resultado, aos poucos o pequeno investidor, interessado nos fundamentos dos FIIs para gerar renda passiva, não terá mais condições de aportar diretamente nos ativos em que acredita, mas terá que fazer isso pela figura intermediária do FOF, no qual uma equipe de gestores e analistas profissionais terá uma postura diversa da sua.

Todo cuidado é pouco

Aqui não se trata de afirmar que isto está certo ou errado. Estamos fazendo apenas uma constatação, apontando sinais para que reflexões possam ser feitas por quem se interessa pelo assunto.

No entanto, ao menos temos uma certeza: esta escalada de preços dos fundos imobiliários tradicionais não vai durar para sempre. Cedo ou tarde, um ciclo de queda vai se estabelecer, machucando os desavisados: aqueles que estão ingressando agora no mercado de FIIs animados pela constante valorização de suas cotas, sem se importar com a principal razão de criação deles: a geração de renda passiva através da economia real oriunda do mercado imobiliário.

Vale lembrar que, num cenário de quedas sucessivas das cotações, são justamente os fundos de fundos que tendem a sofrer as maiores perdas, inclusive em seus rendimentos mensais. Razão pela qual, se eles são os mais rentáveis num ciclo de alta, o investidor defensivo não deve concentrar demais a presença dos FOFs em sua carteira, por mais contraditório que isso possa parecer sob as lentes de um momento isolado.

Saiba mais sobre fundos imobiliários

Todos os interessados por FIIs no Brasil já podem contar com vários canais para aprender e se informar sobre esta promissora modalidade de investimentos. Entre os sites se destacam:

A) https://fiis.com.br/conduzido por Rafael Campagnaro.

B) https://www.fundsexplorer.com.br/capitaneado por Jacinto Santos Neto.

Já o Professor Marcos Baroni, da Suno Research, realiza excelentes lives semanais no YouTube. Acompanhe seu perfil no Instagram: https://www.instagram.com/professorbaroni/

O Professor Baroni também escreveu um livro em parceria com o Danilo Bastos: Guia Suno Fundos Imobiliários, disponível em e-book na Amazon: https://amzn.to/2FvW3P9

Para se proteger das oscilações frequentes do mercado financeiro, uma recomendação eficaz é fazer uma assinatura na própria Suno Research, cuja carteira de fundos imobiliários é balanceada para proporcionar renda constante e crescimento contínuo de patrimônio ao longo dos anos:

https://www.sunoresearch.com.br/nossas-assinaturas/

* Publicado originalmente em 24 de junho no grupo da Suno Research no Facebook. O teor deste artigo continua válido em janeiro de 2020.
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sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Se a Bolsa aquece, esfrie a cabeça

Gráfico do IBOV publicado pelo Google em 19/12/2019 às 16:03 horas.
Gráfico do IBOV publicado pelo Google em 19/12/2019 às 16:03 horas.

A Bolsa de São Paulo ingressou em dezembro de 2019 renovando suas máximas históricas. Neste dia 19, o IBOV operava acima dos 114 mil pontos, muito acima dos 40 mil pontos verificados em meados de janeiro de 2016. Nestes quatro anos, a B3 praticamente viu seu índice triplicar. Quem ingressou no mercado de capitais brasileiro neste período, praticamente não tomou conhecimento de quedas acentuadas nas cotações dos ativos.

Neste momento, há quem prevê que a Bolsa está apenas no início de um grande ciclo de alta. Outros recomendam estocar recursos em aplicações de renda fixa para aproveitar um evento de correção nos preços dos papéis – quem sabe uma grande queda. Quem está com o prognóstico correto? Impossível afirmar.

De certo, existem investidores novatos em renda variável colecionando ações e fundos imobiliários que valorizaram fortemente nos últimos meses. É natural que surja a vontade de realizar lucros antes que a festa acabe. Na verdade, este é um grande teste para pretensos investidores de longo prazo, especialmente os adeptos do Value Investing que priorizam a formação de uma carteira focada em renda passiva.

O sujeito acessa o site da sua corretora e observa seu patrimônio inflar dia após dia. O diabinho sentado no ombro esquerdo fica soprando no ouvido:

- Vende tudo, depressa!

Então o anjinho pendurando no ombro direito aconselha:

- Segura firme. Ninguém solta a mão de ninguém.

Ou seria o contrário? Quem é o bonzinho e quem é o malvado nesta história?

Não interessa. Como não interessa o quão quente pode estar a Bolsa de Valores. O investidor que se preza deve pensar sempre com a cabeça fria. Vender ou segurar ativos depende da análise específica de cada um deles.

De acordo com Tiago Reis, fundador da Suno Research e ferrenho defensor do Value Investing e da estratégia dos dividendos, existem três boas razões para um investidor vender uma ação: quando existem melhores oportunidades, quando o preço da ação está sobrevalorizado e o seu Valuation está caro, e quando há perdas de fundamentos e deterioração da geração de caixa da empresa ou fundo imobiliário.

Analisemos estes aspectos sob a ótica de um mercado aquecido, quando as oportunidades ficam mais escassas. Se você fez um ótimo preço médio em um ativo, que em função disso lhe oferece um excelente Dividend Yield, será que vale a pena sair da posição para comprar um ativo que talvez empate sua situação em termos de renda passiva? Será que existe alguma empresa tão boa e barata na Bolsa que justifique o giro de carteira?

Com o mercado de capitais aquecido, é natural que várias empresas ostentem cotações mais elevadas, operando com múltiplos em patamares altos. A pergunta que deve ser feita, neste caso, é:

- Os fundamentos do ativo estão preservados?

Se a resposta for “sim”, não há razão para desfazer a posição no ativo. A decisão mais sensata, neste caso, é interromper os aportes no papel em questão, a fim de não reduzir a porcentagem dos dividendos em relação ao valor alocado na ação.

Se a resposta for “não”, pouco importa se a Bolsa está subindo feito um foguete ou caindo feito uma maçã na cabeça de Newton: com perda de fundamentos e deterioração da empresa ou fundo imobiliário, a venda das cotas de participação no negócio é impositiva.

Neste ponto, reside a dificuldade em identificar um ativo que esteja em princípio de decadência de suas funções primordiais: num mercado de alta exacerbada, até papéis ruins valorizam, fazendo a festa dos especuladores.

Então, deixemos de lado o preço da ação por um instante: é hora de fazer a lição de casa e observar outros parâmetros, como a margem líquida do negócio, o retorno sobre o patrimônio líquido e o endividamento da companhia – lembrando que fundos imobiliários não podem se alavancar no Brasil. Acima de tudo, temos que avaliar a postura dos gestores e suas propostas para manter a saúde das atividades sob suas tutelas.

Todo estudante sabe que fazer a lição de casa não é algo tão difícil, mas pode ser trabalhoso. Porém, quando o estudante é investidor, ele pode contar com a Suno Research, que reúne uma equipe de analistas que produzem relatórios semanais de acompanhamento dos principais ativos listados na Bolsa de Valores. Faça a sua assinatura hoje mesmo:


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sábado, 16 de novembro de 2019

Meia década não é meio século

"O Último Baile (da Ilha Fiscal)" (1905), pintura de Aurélio de Figueiredo (1854-1916) pertencente ao acervo do Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro.
"O Último Baile (da Ilha Fiscal)" (1905), pintura de Aurélio de Figueiredo (1854-1916) pertencente ao acervo do Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro.

O Brasil completou 130 anos de proclamação da República e teve gente que aproveitou a data para pedir a volta da Monarquia.

Vejamos:

Em 2014 o Brasil mergulhou na pior recessão da história da República, da qual ainda não saímos. Isso configura MEIA DÉCADA PERDIDA.

Seria a pior crise econômica da história do país? Não.

O pior período para a economia brasileira foi durante a regência de Dom Pedro II, quando o Brasil teve MEIO SÉCULO XIX PERDIDO. Isso mesmo: até no Brasil Colônia houve mais desenvolvimento.

O Brasil foi o ÚLTIMO país das Américas a proibir o trabalho escravo, o que ocorreu somente em 1888. Essa é uma vergonha de verdade, e não aquela piada do "7 a 1 pra Alemanha".

Portanto, com todos os defeitos que uma República Democrática possa ter, inclusive a eleição eventual de postes e famílias de bossais, ainda é bem melhor do que beijar a mão de gente de sangue azul com a conta corrente no vermelho.

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sábado, 9 de novembro de 2019

O segredo do sucesso revelado para Gabriela Mosmann

Gabriela Mosmann e Jean Tosetto (quem?) na sede da Suno Research em São Paulo.
Gabriela Mosmann e Jean Tosetto (quem?) na sede da Suno Research em São Paulo.

Há alguns meses gravei este vídeo com a Gabriela Mosmann, analista de investimentos da Suno Research que está desenvolvendo uma série para o seu canal do YouTube, denominada "Qual é o segredo". Somente agora a conversa foi publicada, após a gravação de outros episódios.

Como não sou exatamente um executivo do mercado financeiro, respondi a este questionamento de uma forma diferente, temperada pela minha vivência de duas décadas na carreira de Arquitetura e na experiência como autor e editor de livros, que está completando sete anos desde o lançamento de "MP Lafer: a recriação de um ícone".

A Gabriela é uma jovem promissora, que em breve também terá seu primeiro livro publicado. Tive a satisfação de trabalhar com ela, como editor do Guia Suno Fundos de Investimentos, que está em fase final de revisão, aguardando o aval da direção da Suno para ser lançado.

Assista a entrevista com atenção até o final, para poder discordar de mim, se for a sua vontade.


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sábado, 12 de outubro de 2019

Alguns sonhos só se realizam no longo prazo

"Little Nemo in Slumberland". Quadrinhos de Winsor McCay publicados originalmente na virada de 1905 para 1906. Clique na imagem de domínio público para ampliar.
"Little Nemo in Slumberland". Quadrinhos de Winsor McCay publicados originalmente na virada de 1905 para 1906. Clique na imagem de domínio público para ampliar.

Se você não consegue explicar sua decisão para investir num determinado ativo, para alguém com a capacidade de compreensão de uma criança de doze anos, talvez você não deva fazer o aporte. Isto não é uma regra, mas certamente é um bom referencial. Reportar-se para crianças é um dos grandes desafios de qualquer adulto.

A revolução da era digital está sepultando tradições de antigos meios de comunicação. Com o declínio dos jornais impressos, os cadernos dominicais com tiras e histórias em quadrinhos estão desaparecendo sem alarde, para desalento de poucos saudosistas.

Antes dos games e blockbusters invadirem as telas da TV, do computador pessoal e também dos tablets e telefones celulares; as histórias em quadrinhos, popularmente conhecidas como gibis, tinham grande espaço no imaginário da juventude.

Um dos personagens mais representativos dos primórdios das histórias em quadrinhos, antes mesmo deles ganharem títulos em forma de revistas, era o Little Nemo (“Little” do inglês: “Pequeno” e “Nemo” do latim: “Ninguém”) – um garotinho com cerca de seis anos de idade que toda noite tenta alcançar “Slumberland”, a terra dos sonhos.

Criado por Winsor McCay (1871-1934), Little Nemo foi publicado semanalmente entre 1905 e 1913 nos jornais “New York Herald” e “New York American”, ambos pertencentes ao magnata William Randolph Hearst. As histórias voltaram a ser publicadas entre 1924 e 1927, quando a indústria dos quadrinhos já estava bem mais desenvolvida.

Viajando para o futuro

A cada semana os leitores de Little Nemo eram transportados para situações surreais, relacionadas com os sonhos que o personagem tinha durante a noite. Uma das páginas que marcaram a série foi publicada na virada de 1905 para 1906. Na historieta, o Rei de Slumberland, Morpheus, determina ao Velho Pai do Tempo que conduza Little Nemo por um corredor repleto de incontáveis gavetas.

Cada gaveta representava um ano e, dentro dela, haviam números relacionados com a idade que Little Nemo teria no futuro. Ao tocar nos números, o garotinho imediatamente assumia a forma correspondente de seu corpo, de acordo com o ano escolhido. Então, Little Nemo se vê como adolescente e depois como um jovem adulto.

Ao alcançar a meia idade, já pançudo e careca, ele pede ao Velho Pai do Tempo para voltar a ser criança. Então, o sujeito com asas de anjo, portando uma foice, lhe pede que devolva os números, para serem guardados novamente nas gavetas.

Num momento de distração do Velho Pai do Tempo, o garotinho Little Nemo abre a gaveta de 1999. Imediatamente ele se transforma num idoso corcunda, quase cego e mentalmente debilitado. Ele não consegue encontrar o Velho Pai do Tempo para pedir socorro, mas acorda do sonho que virou pesadelo, acudido por sua mãe, como geralmente acontecia toda semana.

Muito além do longo prazo

Que exercício fantástico o artista propõe aos seus leitores, muitos deles crianças ávidas pela manhã dominical repleta de quadrinhos: projetar-se no futuro, com mais de noventa anos de distância. Para o tempo de uma vida, isto representa o longuíssimo prazo.

Winsor McCay tinha apenas uma página para contar uma boa história a cada semana. Imagine se ele pudesse ter várias páginas ao seu dispor para trabalhar com educação financeira? No começo do século XX, esse tema sequer existia, mas poderia ter feito a diferença na vida de milhões de pessoas.

Não precisamos nos reportar para noventa anos no futuro. Se o assunto é a obtenção da independência financeira, podemos falar num prazo de três décadas que, ainda assim, será considerado um longuíssimo prazo para quem tem pressa de enriquecer.

Quem, aos vinte anos de idade, quer fazer um planejamento de vida para estar bem somente aos cinquenta anos? Ocorre que, aos vinte anos, raramente um jovem tem condições de fazer aportes consideráveis no mercado de capitais para acelerar a geração de renda passiva.

Tire sonhos dos papéis – invista em bons papéis

O que os jovens possuem, em abundância, são os sonhos. Nisso, eles não deixam de ser como Little Nemo em busca de Slumberland. Ocorre que, para realizar certos sonhos, os jovens devem adiar certas compras que eles fazem no presente. Somente deste modo eles terão mais recursos poupados para investir no futuro deles.

Quando compramos um lote de ações ou algumas cotas de um fundo imobiliário, é como se estivéssemos escrevendo uma carta para nós mesmos no futuro, confiando ao Velho Pai do Tempo para entregá-la na frente, por ordem do Rei Morpheus.

Todo investidor bem-sucedido tem pelo menos um arrependimento, que é não ter começado a investir mais cedo. Por isso, conversar sobre investimentos e educação financeira com as crianças, dentro da capacidade de entendimento delas, é um compromisso que os pais ou responsáveis deveriam ter com elas.

Por vezes, falta conhecimento para os próprios adultos – uma situação comum e compreensível num país como o Brasil, onde os intervalos comerciais dos horários nobres da TV são ocupados por grandes bancos que contratam um apresentador de reality show para falar de caderneta de poupança.

Porém, a Internet está aí para auxiliar. A Suno Research também. Nós ajudamos você a investir melhor, para que você possa cuidar daqueles que mais podem se beneficiar no longo prazo: as crianças sob sua tutela. 


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sábado, 14 de setembro de 2019

Investindo como um quarteto de Jazz

Capa do álbum “Time Out” (1958) do conjunto “The Dave Brubeck Quartet”, idealizada por Neil Fujita (1921-2010).
Capa do álbum “Time Out” (1958) do conjunto “The Dave Brubeck Quartet”, idealizada por Neil Fujita (1921-2010).

Quem começa a investir no mercado de capitais logo percebe que um dos conselhos mais difundidos neste meio é que bons investidores cultivam o hábito da leitura, que não fica restrita aos relatórios das casas de research e aos balanços financeiros das empresas. Ler bons livros sobre assuntos variados aumenta o repertório cultural de uma pessoa e isso lhe ajuda a tomar melhores decisões de investimento.

Mas podemos ir além, ao pregar que bons investidores devem ouvir boa música. O difícil é definir o que é boa música, uma vez que gostos pessoais interferem nesta questão. Além do mais, nem sempre uma boa música é uma música de sucesso.

As músicas que fazem sucesso, hoje em dia, refletem um esquema mercadológico que também atua em livros de autoajuda: seus autores, cercados por um esquadrão de especialistas em marketing, tentam produzir aquilo que imaginam que queremos ouvir ou ler, e entregam para nós.

Livros e músicas realmente autorais e propositivas são artigos mais raros hoje em dia, embora tentamos fazer a nossa parte.

Porém, fiquemos no tema musical: as atuais músicas que estouram no YouTube e nas rádios são basicamente eletrônicas e artificiais. Usam sintetizadores para tudo e até as apresentações ao vivo usam bases pré-gravadas que encobrem eventuais distorções na execução em palco. É um esquema complexo, como são complexas as fórmulas milagrosas e secretas que volta e meia rondam a cabeça de quem pretende investir para enriquecer rapidamente – embora, no fim das contas, tudo soe parecido.

Ocorre que boas músicas, assim como boas estratégias de investimento, são baseadas em componentes simples que, agregados, resultam em algo sofisticado, prazeroso e compensador. Não há segredos nisso, embora sejam atividades que dependem de muita prática e conciliação de boas notas – ou bons ativos. Tudo isso leva tempo – um longo prazo – para ser alcançado.

Eis os elementos básicos para uma boa estratégia de investimentos que será adequada para a grande maioria dos iniciantes:

A) Geração de excedente de capital através da renda obtida com um ofício.
B) Formação de reservas de capital para emergências e oportunidades através de produtos de renda fixa.
C) Investimento em geração de renda passiva através de aportes em fundos imobiliários.
D) Investimento em crescimento de patrimônio através de aportes em ações de empresas promissoras, que de preferência paguem bons dividendos.

Pronto. Os instrumentos estão aí para serem combinados através do ritmo, da harmonia e da melodia, como num quarteto de Jazz.

Neste ponto, para exemplificar a simbiose de boa música com bons investimentos, vamos eleger “The Dave Brubeck Quartet” como referência. Este quarteto norte-americano de Jazz se formou em 1951 e sua fase áurea durou até 1967, com reuniões esporádicas posteriores. Sua formação clássica era a seguinte:

A) Joe Morello na bateria.
B) Eugene Wright no contrabaixo.
C) Dave Brubeck no piano.
D) Paul Desmond no saxofone alto.

Você não tem obrigação de saber, mas o grande sucesso deste grupo foi composto pelo saxofonista Paul Desmond: “Take Five”, lançado em 1958 no álbum “Time Out”, cuja capa traz uma pintura do artista gráfico Neil Fujita.

Esta música, de quase sete minutos e meio de duração, começa com a bateria de Joe Morello. Trata-se do único instrumento que toca em toda a execução. A bateria representa a renda obtida por um ofício. Então, que o investidor novato não se engane: sem a dedicação a um ofício, dificilmente ele será vencedor no mercado financeiro, especialmente nos primeiros anos.

Na sequência entra o contrabaixo de Eugene Wright. Em nenhum momento este instrumento é o grande destaque da música, mas é ele que ajuda a sustentar o ritmo e a harmonia do conjunto, ofertando proteção (hedge) entre as variações de solo dos demais instrumentos. Sem o contrabaixo, “Take Five” ficaria seca e contrastante demais, repleta de solavancos.

Dave Brubeck adiciona o piano logo em seguida, estabelecendo a toada que será a chave para música como um todo, sem ser o instrumento protagonista da peça. O piano atua como os fundos imobiliários, adicionando renda passiva na composição, preparando a introdução do instrumento que faltava na receita: as ações.

Quando se fala em investimentos na Bolsa de Valores, a associação imediata é feita com as ações de grandes empresas de capital aberto. É como o saxofone no Jazz e “Take Five” é reconhecida entre os entusiastas deste estilo musical pelas inserções do saxofonista Paul Desmond.

Após ouvir a música com atenção, você notará que o saxofone não está presente o tempo todo, mas somente nas fases oportunas. Algo semelhante ocorre no mercado financeiro: quando as ações estão caras demais, está na hora de interromper as compras momentaneamente e observar o que os fundos imobiliários tem a dizer. É o que faz Desmond, quando Brubeck inicia um solo no piano.

“Take Five” não é uma música linear: ela é composta por ciclos, assim como a Economia também é regida por ciclos. Em momentos difíceis, o investidor se apoia exclusivamente no seu ofício, gerando excedente de capital para investir quando as boas oportunidades voltarem. É deste modo que podemos apreciar o solo de bateria de Joe Morello, tocando sozinho no palco, tendo seus três companheiros como testemunhas atentas.

Pois é, a gente precisa se virar nos pratos, nos tambores e nas baquetas, para não deixar o ritmo cair. Novamente, não podemos nos iludir: é a nossa dedicação ao trabalho bem feito que nos sustentará na jornada rumo à independência financeira.

Então, a música recomeça com os demais instrumentos, atingindo o clímax e a conclusão, induzindo que seguirá ecoando em nossas mentes. Quando introjetamos uma boa música, assim como uma boa estratégia de investimentos, em nossas mentes, estamos na verdade fazendo uma programação neurolinguística que nos ajudará por tempo indeterminado.

Posto isso, lhe convido a ouvir “Take Five”. Se você nunca ouviu esta música, confesso minha inveja. Se você já ouviu antes, algo me diz que nunca mais a ouvirá do mesmo jeito.


Boas leituras, boas músicas e bons investimentos!

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sábado, 24 de agosto de 2019

Bolsa, Dinheiro & Rock'n'Roll

Colagem do autor realizada por volta de 1996.
Colagem do autor realizada por volta de 1996.

Se existe um estilo musical ligado ao inconformismo é o Rock’n’Roll, que surgiu entre os jovens rebeldes dos Estados Unidos na década de 1950, mesclando referências de Country, Jazz, Blues, R&B, Soul e Gospel. Músicos como Chuck Berry, Little Richard e Elvis Presley adicionaram uma atitude provocativa nesse caldo cultural, que entornou sobre a primeira geração após a Segunda Guerra Mundial.

Considerado como moda passageira entre os críticos musicais de seus primórdios, o Rock, assim como o capitalismo, foi sobrevivendo às sucessivas crises, incorporando novas referências e se reinventando a cada ciclo. Com o passar das décadas, o Rock deixou de ser música de adolescentes para ser refúgio de inconformistas de várias faixas etárias.

E o que não é um investidor de longo prazo senão um sujeito inconformado? Quem compra ações na Bolsa, de forma sistemática, não está conformado com sua atual condição financeira. O sonho da liberdade, exaltado nos riffs de guitarras elétricas, motiva tanto os roqueiros quanto os investidores.

Livrar-se de um emprego chato, por exemplo, é mote para um bom Rock’n’Roll, assim como é a motivação para alguém que investe com foco na obtenção de renda passiva. Portanto, falar de dinheiro em canções de Rock nunca será uma contradição, como alguns sociólogos sisudos querem fazer crer.

A prova disso é que, ainda nos primeiros acordes do Rock, o dinheiro já figurava inclusive nos títulos de grandes sucessos: “Money (That's What I Want)” foi gravada por Barrett Strong em 1959. Talvez você nunca tenha ouvido falar dele antes, mas os Beatles regravaram esta música em 1963 para concluir um álbum, pouco antes de estourar a Beatlemania nos Estados Unidos. Aqui você confere a versão original deste clássico do Rock:



Mas não fique triste, se você curte Beatles. Deles vamos resgatar uma faixa menos conhecida da banda (como se fosse possível classificar alguma música do quarteto de Liverpool deste modo). De 1969 e do último álbum de estúdio gravado pelos Beatles, “Abbey Road”, destacamos “You Never Give Me Your Money”. Deste modo, fica claro como o Rock evoluiu em apenas dez anos:



Com a chegada da década de 1970 o mundo conheceu o Rock Progressivo, como seus solos de guitarra intermináveis e compositores chegados num papo cabeça. O Rock, como instrumento de contracultura, é contaminado pelo discurso ideológico. Em 1973, Roger Waters compõe “Money” para o oitavo disco do Pink Floyd, “The Dark Side of the Moon”:



Já nos anos de 1980, os hippies eram personagens anacrônicos. No lugar deles entram em cena os yuppies. O termo “YUP” em inglês significa “profissional jovem urbano” e define uma geração mais cética e conservadora que, ao invés de viver sob o slogan de paz e amor, quer mesmo é o progresso material, sem remorsos. O Rock sai das ondas do rádio e invade as telas da MTV com Dire Straits revolucionando a linguagem dos clipes com “Money For Nothing”, de 1985:



No limiar da década de 1990, que para muitos foi a última época na qual o Rock foi um gênero realmente popular, antes de sucumbir para a música eletrônica feita para consumo de massa, os metaleiros australianos do AC/DC emplacam “Moneytalks”, do álbum “The Razors Edge”. Um som para inconformista nenhum botar defeito:



Logicamente, os brasileiros não poderiam ficar de fora. Aqui também se faz Rock’n’Roll – e dos bons. Vamos deixar a política de lado para poder reconhecer o valor de grandes músicos, afinal de contas, quem gosta de boa música escuta de Chico Buarque até Ultraje a Rigor, sem neuras. O primeiro disco deles, de 1985, é antológico: “Nós Vamos Invadir Sua Praia”, de onde pinçamos “Mim Quer Tocar”:



Quer nome de banda mais alinhado com o investidor da Bolsa de São Paulo do que Capital Inicial? E se a gente lembrar que o vocalista se chama Dinho Ouro Preto? Já prestou atenção na letra de “Não Olhe Pra Trás”, de 2008?

Parece que essa música foi escrita para quem comprou ações de uma empresa que pagava ótimos dividendos, mas que subitamente fechou o capital. Confira:

“Nem tudo é como você quer. Nem tudo pode ser perfeito.”

Se você já se cadastrou para receber várias newsletters sobre investimentos, precisa ouvir esta sequência:

“Se o que é errado ficou certo, as coisas são como elas são. Se a inteligência ficou cega de tanta informação.”

E aqui parece um especialista em Valuation cantando:

“Se não faz sentido, discorde comigo, não é nada demais. São águas passadas, escolha uma estrada e não olhe, não olhe pra trás.”

Chega! Você nunca mais vai ouvir esta canção do mesmo jeito:



Não custa lembrar que dinheiro é bom, mas que ficar obcecado por ele não é. A não ser que você queira abrir mão do espírito do Rock’n’Roll para ser uma pessoa muito bem respeitada na sociedade: o perfeito almofadinha que investe na Bolsa, retratado pela banda The Kinks em “A Well Respected Man”, de 1965:



Esta pequena lista de músicas sobre dinheiro não esgota o assunto. Se quiser, deixe nos comentários algum sucesso que ficou de fora. Dinheiro e Rock’n’Roll: quanto mais, melhor.



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