sábado, 14 de setembro de 2019

Investindo como um quarteto de Jazz

Capa do álbum “Time Out” (1958) do conjunto “The Dave Brubeck Quartet”, idealizada por Neil Fujita (1921-2010).
Capa do álbum “Time Out” (1958) do conjunto “The Dave Brubeck Quartet”, idealizada por Neil Fujita (1921-2010).

Quem começa a investir no mercado de capitais logo percebe que um dos conselhos mais difundidos neste meio é que bons investidores cultivam o hábito da leitura, que não fica restrita aos relatórios das casas de research e aos balanços financeiros das empresas. Ler bons livros sobre assuntos variados aumenta o repertório cultural de uma pessoa e isso lhe ajuda a tomar melhores decisões de investimento.

Mas podemos ir além, ao pregar que bons investidores devem ouvir boa música. O difícil é definir o que é boa música, uma vez que gostos pessoais interferem nesta questão. Além do mais, nem sempre uma boa música é uma música de sucesso.

As músicas que fazem sucesso, hoje em dia, refletem um esquema mercadológico que também atua em livros de autoajuda: seus autores, cercados por um esquadrão de especialistas em marketing, tentam produzir aquilo que imaginam que queremos ouvir ou ler, e entregam para nós.

Livros e músicas realmente autorais e propositivas são artigos mais raros hoje em dia, embora tentamos fazer a nossa parte.

Porém, fiquemos no tema musical: as atuais músicas que estouram no YouTube e nas rádios são basicamente eletrônicas e artificiais. Usam sintetizadores para tudo e até as apresentações ao vivo usam bases pré-gravadas que encobrem eventuais distorções na execução em palco. É um esquema complexo, como são complexas as fórmulas milagrosas e secretas que volta e meia rondam a cabeça de quem pretende investir para enriquecer rapidamente – embora, no fim das contas, tudo soe parecido.

Ocorre que boas músicas, assim como boas estratégias de investimento, são baseadas em componentes simples que, agregados, resultam em algo sofisticado, prazeroso e compensador. Não há segredos nisso, embora sejam atividades que dependem de muita prática e conciliação de boas notas – ou bons ativos. Tudo isso leva tempo – um longo prazo – para ser alcançado.

Eis os elementos básicos para uma boa estratégia de investimentos que será adequada para a grande maioria dos iniciantes:

A) Geração de excedente de capital através da renda obtida com um ofício.
B) Formação de reservas de capital para emergências e oportunidades através de produtos de renda fixa.
C) Investimento em geração de renda passiva através de aportes em fundos imobiliários.
D) Investimento em crescimento de patrimônio através de aportes em ações de empresas promissoras, que de preferência paguem bons dividendos.

Pronto. Os instrumentos estão aí para serem combinados através do ritmo, da harmonia e da melodia, como num quarteto de Jazz.

Neste ponto, para exemplificar a simbiose de boa música com bons investimentos, vamos eleger “The Dave Brubeck Quartet” como referência. Este quarteto norte-americano de Jazz se formou em 1951 e sua fase áurea durou até 1967, com reuniões esporádicas posteriores. Sua formação clássica era a seguinte:

A) Joe Morello na bateria.
B) Eugene Wright no contrabaixo.
C) Dave Brubeck no piano.
D) Paul Desmond no saxofone alto.

Você não tem obrigação de saber, mas o grande sucesso deste grupo foi composto pelo saxofonista Paul Desmond: “Take Five”, lançado em 1958 no álbum “Time Out”, cuja capa traz uma pintura do artista gráfico Neil Fujita.

Esta música, de quase sete minutos e meio de duração, começa com a bateria de Joe Morello. Trata-se do único instrumento que toca em toda a execução. A bateria representa a renda obtida por um ofício. Então, que o investidor novato não se engane: sem a dedicação a um ofício, dificilmente ele será vencedor no mercado financeiro, especialmente nos primeiros anos.

Na sequência entra o contrabaixo de Eugene Wright. Em nenhum momento este instrumento é o grande destaque da música, mas é ele que ajuda a sustentar o ritmo e a harmonia do conjunto, ofertando proteção (hedge) entre as variações de solo dos demais instrumentos. Sem o contrabaixo, “Take Five” ficaria seca e contrastante demais, repleta de solavancos.

Dave Brubeck adiciona o piano logo em seguida, estabelecendo a toada que será a chave para música como um todo, sem ser o instrumento protagonista da peça. O piano atua como os fundos imobiliários, adicionando renda passiva na composição, preparando a introdução do instrumento que faltava na receita: as ações.

Quando se fala em investimentos na Bolsa de Valores, a associação imediata é feita com as ações de grandes empresas de capital aberto. É como o saxofone no Jazz e “Take Five” é reconhecida entre os entusiastas deste estilo musical pelas inserções do saxofonista Paul Desmond.

Após ouvir a música com atenção, você notará que o saxofone não está presente o tempo todo, mas somente nas fases oportunas. Algo semelhante ocorre no mercado financeiro: quando as ações estão caras demais, está na hora de interromper as compras momentaneamente e observar o que os fundos imobiliários tem a dizer. É o que faz Desmond, quando Brubeck inicia um solo no piano.

“Take Five” não é uma música linear: ela é composta por ciclos, assim como a Economia também é regida por ciclos. Em momentos difíceis, o investidor se apoia exclusivamente no seu ofício, gerando excedente de capital para investir quando as boas oportunidades voltarem. É deste modo que podemos apreciar o solo de bateria de Joe Morello, tocando sozinho no palco, tendo seus três companheiros como testemunhas atentas.

Pois é, a gente precisa se virar nos pratos, nos tambores e nas baquetas, para não deixar o ritmo cair. Novamente, não podemos nos iludir: é a nossa dedicação ao trabalho bem feito que nos sustentará na jornada rumo à independência financeira.

Então, a música recomeça com os demais instrumentos, atingindo o clímax e a conclusão, induzindo que seguirá ecoando em nossas mentes. Quando introjetamos uma boa música, assim como uma boa estratégia de investimentos, em nossas mentes, estamos na verdade fazendo uma programação neurolinguística que nos ajudará por tempo indeterminado.

Posto isso, lhe convido a ouvir “Take Five”. Se você nunca ouviu esta música, confesso minha inveja. Se você já ouviu antes, algo me diz que nunca mais a ouvirá do mesmo jeito.


Boas leituras, boas músicas e bons investimentos!

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sábado, 24 de agosto de 2019

Bolsa, Dinheiro & Rock'n'Roll

Colagem do autor realizada por volta de 1996.
Colagem do autor realizada por volta de 1996.

Se existe um estilo musical ligado ao inconformismo é o Rock’n’Roll, que surgiu entre os jovens rebeldes dos Estados Unidos na década de 1950, mesclando referências de Country, Jazz, Blues, R&B, Soul e Gospel. Músicos como Chuck Berry, Little Richard e Elvis Presley adicionaram uma atitude provocativa nesse caldo cultural, que entornou sobre a primeira geração após a Segunda Guerra Mundial.

Considerado como moda passageira entre os críticos musicais de seus primórdios, o Rock, assim como o capitalismo, foi sobrevivendo às sucessivas crises, incorporando novas referências e se reinventando a cada ciclo. Com o passar das décadas, o Rock deixou de ser música de adolescentes para ser refúgio de inconformistas de várias faixas etárias.

E o que não é um investidor de longo prazo senão um sujeito inconformado? Quem compra ações na Bolsa, de forma sistemática, não está conformado com sua atual condição financeira. O sonho da liberdade, exaltado nos riffs de guitarras elétricas, motiva tanto os roqueiros quanto os investidores.

Livrar-se de um emprego chato, por exemplo, é mote para um bom Rock’n’Roll, assim como é a motivação para alguém que investe com foco na obtenção de renda passiva. Portanto, falar de dinheiro em canções de Rock nunca será uma contradição, como alguns sociólogos sisudos querem fazer crer.

A prova disso é que, ainda nos primeiros acordes do Rock, o dinheiro já figurava inclusive nos títulos de grandes sucessos: “Money (That's What I Want)” foi gravada por Barrett Strong em 1959. Talvez você nunca tenha ouvido falar dele antes, mas os Beatles regravaram esta música em 1963 para concluir um álbum, pouco antes de estourar a Beatlemania nos Estados Unidos. Aqui você confere a versão original deste clássico do Rock:



Mas não fique triste, se você curte Beatles. Deles vamos resgatar uma faixa menos conhecida da banda (como se fosse possível classificar alguma música do quarteto de Liverpool deste modo). De 1969 e do último álbum de estúdio gravado pelos Beatles, “Abbey Road”, destacamos “You Never Give Me Your Money”. Deste modo, fica claro como o Rock evoluiu em apenas dez anos:



Com a chegada da década de 1970 o mundo conheceu o Rock Progressivo, como seus solos de guitarra intermináveis e compositores chegados num papo cabeça. O Rock, como instrumento de contracultura, é contaminado pelo discurso ideológico. Em 1973, Roger Waters compõe “Money” para o oitavo disco do Pink Floyd, “The Dark Side of the Moon”:



Já nos anos de 1980, os hippies eram personagens anacrônicos. No lugar deles entram em cena os yuppies. O termo “YUP” em inglês significa “profissional jovem urbano” e define uma geração mais cética e conservadora que, ao invés de viver sob o slogan de paz e amor, quer mesmo é o progresso material, sem remorsos. O Rock sai das ondas do rádio e invade as telas da MTV com Dire Straits revolucionando a linguagem dos clipes com “Money For Nothing”, de 1985:



No limiar da década de 1990, que para muitos foi a última época na qual o Rock foi um gênero realmente popular, antes de sucumbir para a música eletrônica feita para consumo de massa, os metaleiros australianos do AC/DC emplacam “Moneytalks”, do álbum “The Razors Edge”. Um som para inconformista nenhum botar defeito:



Logicamente, os brasileiros não poderiam ficar de fora. Aqui também se faz Rock’n’Roll – e dos bons. Vamos deixar a política de lado para poder reconhecer o valor de grandes músicos, afinal de contas, quem gosta de boa música escuta de Chico Buarque até Ultraje a Rigor, sem neuras. O primeiro disco deles, de 1985, é antológico: “Nós Vamos Invadir Sua Praia”, de onde pinçamos “Mim Quer Tocar”:



Quer nome de banda mais alinhado com o investidor da Bolsa de São Paulo do que Capital Inicial? E se a gente lembrar que o vocalista se chama Dinho Ouro Preto? Já prestou atenção na letra de “Não Olhe Pra Trás”, de 2008?

Parece que essa música foi escrita para quem comprou ações de uma empresa que pagava ótimos dividendos, mas que subitamente fechou o capital. Confira:

“Nem tudo é como você quer. Nem tudo pode ser perfeito.”

Se você já se cadastrou para receber várias newsletters sobre investimentos, precisa ouvir esta sequência:

“Se o que é errado ficou certo, as coisas são como elas são. Se a inteligência ficou cega de tanta informação.”

E aqui parece um especialista em Valuation cantando:

“Se não faz sentido, discorde comigo, não é nada demais. São águas passadas, escolha uma estrada e não olhe, não olhe pra trás.”

Chega! Você nunca mais vai ouvir esta canção do mesmo jeito:



Não custa lembrar que dinheiro é bom, mas que ficar obcecado por ele não é. A não ser que você queira abrir mão do espírito do Rock’n’Roll para ser uma pessoa muito bem respeitada na sociedade: o perfeito almofadinha que investe na Bolsa, retratado pela banda The Kinks em “A Well Respected Man”, de 1965:



Esta pequena lista de músicas sobre dinheiro não esgota o assunto. Se quiser, deixe nos comentários algum sucesso que ficou de fora. Dinheiro e Rock’n’Roll: quanto mais, melhor.



Uma publicação compartilhada por Jean Tosetto (@jeantosetto) em

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Meu primeiro show: Ultraje a Rigor em Paulínia, 1990
Sem protesto não há juventude
Bob "Nobel" Dylan

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quinta-feira, 8 de agosto de 2019

É feliz quem vende a felicidade?

Máscaras de teatro retratadas em mosaico de autor desconhecido do Século II, expostas no Palazzo Nuovo de Roma, Itália.
Máscaras de teatro retratadas em mosaico de autor desconhecido do Século II, expostas no Palazzo Nuovo de Roma, Itália.

Todo dia de manhã faço uma breve varredura pelos meus sites favoritos, dentre eles o YouTube. Como trabalho com produção de conteúdo voltado para a educação financeira, com foco em renda variável, os robôs do Google ficam me sugerindo vídeos de pessoas que são consideradas influenciadoras digitais na área de investimentos.

Como boa parte delas, aparentemente, já esgotou o assunto sobre finanças e dados fundamentais da área que as projetaram para a notoriedade, elas estão partindo para dar conselhos diversos sobre saúde, comportamento e até decoração de interiores.

Na maioria das vezes leio os títulos dos vídeos e passo reto, mas alguns chamam tanta atenção que sinto a tentação de assistir. Então descubro, pela ótica de tais mestres da comunicação de massa, que sou um dinossauro do Século XX.

Vejamos: moro em casa própria e, na falta de um carro, tenho dois. Que absurdo! E o pior: não acordo às cinco da manhã e tomo banhos de mais de dois minutos.

Em suma: se a humanidade acabar, serei um dos culpados. No mínimo, estou condenado a ser pobre e infeliz. É isso mesmo? Acho que não.

Sobre ter casa própria, já dediquei artigos sobre o tema. Um deles está publicado neste link, de modo que não vou repetir argumentos sobre este ponto, salvo lembrar que não é pecado desejar e possuir um teto.

Afirmei que morar sob o próprio teto não é pecado: não afirmei que não é caro. Minha casa custou muito caro. Não me refiro aos materiais de construção, pois estes foram comprados mediante pesquisas de preço e qualidade. Minha casa custou caro, pois ela atrasou meu processo de busca pela independência financeira.

Já fui solteiro, já tive 15 quilos a menos e muito mais cabelos. Na primeira década do Século XIX estava construindo uma casa para vender. O ciclo do mercado imobiliário, na minha cidade, estava escalando os picos mais altos. As margens de retorno eram excelentes. Porém, no meio do caminho, decidi casar e que não ia começar um matrimônio pagando aluguel.

Sabia que isso ia atrasar meu lado financeiro. Mas quem consegue ser racional o tempo todo? Eu não consigo. Foi uma escolha difícil. Quem não fez as suas? Pergunte para o Morrissey, que tocava com os Smiths.

Quando levei minha noiva até a loja de móveis, para escolher um sofá, vi os olhos dela brilhando. Eu é que não ia estragar o momento, bolando uma estante com blocos de cimento e tábuas aproveitadas de pallets. Está aí uma dica de vídeo para quem ganha dinheiro ensinando o pão-durismo para os desavisados.

Quando nasce uma criança, é aí que o bicho pega. O vira-lata manso vira um leão, para não faltar nada em casa. Se você fizer as contas, você não coloca filhos no mundo. Então, tem horas que a gente simplesmente não deve fazer contas. Dane-se quem prega o contrário.

Se você é pai ou mãe, você voltaria no tempo em que não tinha filhos, para mudar o rumo da sua vida?

Além da casa, outras coisas que custam caro para manter são os meus carros. Quer arranjar briga comigo? Então me peça para vender um deles. Para quê dois carros? Um já basta. Não precisa nem de um. Anda de Uber. Meu, vai tomar banho.

Você acha que não sei que combustível, seguro, IPVA e oficina são drenos no meu orçamento? Mas quem vai me levar para os lugares que desejo conhecer? Um motorista de Uber, que nem torce pelo meu time? Não! Eu quero dirigir. Quero levar minha família junto, ouvindo clássicos do Rock sem que um motorista fique ouvindo nossa conversa.

Numa dessas viagens meu carro enguiçou. Tive que ir para o acostamento. Minha suspeita se confirmou quando chegou o socorro-mecânico: o alternador tinha ido para o espaço. A princípio, fiquei muito chateado, esperando o guincho chegar. Então embarcamos na caminhonete da seguradora e minha filha pequena achou aquilo o máximo.

Trocando umas ideias com o funcionário terceirizado da seguradora, pensei comigo mesmo: “Caramba, não posso reclamar. Estou passeando num domingo e o cara fazendo plantão”. Vamos ver a situação em perspectiva: meu carro estragou e o sujeito ganhou seu dia.

O mecânico que consertou o alternador também ganhou seu dia – talvez sua semana. Gastei 18 cotas do meu fundo imobiliário favorito para arrumar o veículo. Ou seja: deixei de comprar as 18 cotas, que até o fim dos tempos deixarão de colocar cerca de R$ 195 no meu bolso, a cada ano. Quase dois mangos por década e a gente nem considerou os juros compostos, para o remorso não aumentar.
E daí? Terei que trabalhar ainda mais para repor essa perda.

Fora que, para buscar o carro arrumado, tive que me ausentar do escritório. Se não tivesse carro, isso não teria acontecido. Então, não teria visitado meus pais fora de hora, pois eles moram perto da oficina. Faça contas para tudo e veja o que fará falta lá na frente. Não estou me referindo ao dinheiro.

Por vezes, penso nessas coisas tomando banho. É por isso que não conto o tempo sobre o ralo. Quanto pode render uma boa ideia concebida durante uma chuveirada quente? Muito mais do que a pretensa economia de um banho de dois minutos, conforme a youtuber recomenda.

Sinceramente? Se você trabalha doze horas por dia ou pega ônibus, trem e metrô para ir e voltar do trabalho, você merece um banho de cinco minutos. Dez minutos, que seja. Aceite tomar banhos de dois minutos e vão pedir para você tomar banho dia sim e dia não.

É a mesma história de acordar às cinco da manhã. Se você não pega ônibus, trem e metrô para ir trabalhar, você não precisa acordar tão cedo. Ou acorde, se o seu relógio biológico assim permitir. Aceitar isso como regra imposta não me parece algo inteligente.

Veja bem, não quero arranjar treta com esses youtubers. Quem sou eu perto deles, não é mesmo? Eles falam coisas que muita gente precisa ouvir. Só estou defendendo que devemos ter senso crítico. Questionar antes de assimilar – ou não – o conteúdo.

Então, se disserem para você fazer caminhadas diárias de 40 minutos, sem conversar com seu colega, pois isso prejudica o ritmo da respiração, vai lá e converse com ele. Será mais saudável. Ou caminhe sozinho, para não entrar em conflito.

Se pedirem para você reduzir o consumo de carboidratos, não deixe de comer pizza de vez em quando. O que pesa mais: perder uns quilos ou perder contato com aqueles amigos que você só vê numa pizzaria? Será que dá para dar umas boas risadas comendo alface e tomando água? Quem consegue fazer isso que me ensine, por favor.

Gosto de aprender. O tempo todo. Mas não faço isso dependendo apenas de vídeos no YouTube. A gente aprende com os clientes, com os chefes, com os patrões e inclusive com os estagiários da vida. Aprendemos batendo perna na rua, vendo bons filmes, boas peças de teatro e, sobretudo, lendo bons livros – os chamados clássicos.

Ou você pensa que Benjamin Graham, autor de “O investidor inteligente”, seria popular no YouTube? Se Van Gogh vivesse entre nós, ele seria ainda mais depressivo com essa história de mídias sociais. Aposto um alternador de Alfa Romeo nisso.

O que vejo nas mídias sociais, principalmente na área onde trabalho, são pessoas ganhando fama – e dinheiro – construindo personagens. Isso fica claro pelo uso de apelidos. Estas pessoas, de certo modo, acabam se tornando escravas das próprias personagens. Um vídeo novo por dia, uma mania nova por dia, um mandamento novo por dia.

Então, se tem algo que é mais caro do que uma casa ou um carro para manter, é a forja de uma personagem.

Vender felicidade custa caro.



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O colecionador de ativos
A Fazenda Benedetti de Amparo
Conversa sobre imóveis e renda variável com a Contadora da Bolsa

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sábado, 20 de julho de 2019

O colecionador de ativos financeiros

The Spirit: personagem criado por Will Eisner em 1940.
The Spirit: personagem criado por Will Eisner em 1940.

Você vai até a lanchonete famosa e a criança pede um mini lanche alegre, que vem com um brinquedinho para colecionar. O marketing sabe explorar essa vontade natural das pessoas para juntar coisas. Que bom seria se as pessoas fossem mais incentivadas a colecionar ações.

As crianças que estão crescendo com tablets nas mãos talvez não se interessem muito por colecionar gibis. Porém, quando eu era garoto no ainda analógico mundo do século XX, as histórias em quadrinhos faziam parte do meu universo. Credito à estas revistinhas meu gosto pela leitura, que só aumenta a cada dia.

Naquele tempo não tinha fixação por um personagem. Quando meu pai ia até a banca para comprar o jornal de domingo, ele me deixava escolher algum gibi e, assim, minha pequena coleção foi aumentando. Tenho até hoje a primeira história de Wolverine publicada no Brasil, numa revista do Incrível Hulk. E esqueçam: ela não está à venda.

Só havia um problema com meus gibis do Batman e do Homem Aranha: não tinha como comprar mais o número 1 e eu queria fazer uma coleção desde o começo. Então, um dia, a Editora Abril relançou as antigas histórias do Spirit, personagem do genial Will Eisner, que circulou originalmente em cadernos semanais dos jornais americanos dos anos de 1940 e 1950.

Will Eisner, para quem não sabe, é considerado o criador das novelas gráficas, sendo o primeiro artista a defender que as histórias em quadrinhos poderiam ser também produções literárias para adultos. Suas perspectivas e o domínio das luzes e sombras nas suas ambientações serviram de inspiração para o cinema noir daquele período.

A longa espera

Enfim, pela primeira vez eu tinha que esperar um mês inteiro para comprar um gibi novo do Spirit. Eram tempos de inflação e sempre o preço de capa aumentava. Ia para a escola com o dinheiro contado para comer um lanche e abria mão dele para poder garantir meu exemplar antes dele esgotar na banca. Passava o dia com balas de canela no estômago, mas voltava para casa com mais um gibi para minha coleção.

Como era de se esperar, a revista não durou muito tempo: menos de um ano e meio. Ela não vendia bem e o pior: não tinha anunciantes. A garotada da época só queria saber da Mônica, do Mickey e do Pato Donald. Spirit não tinha liquidez, mas naquela época eu não sabia o que era isso.

Paralelamente, estava fazendo outra coleção, que me exigia ainda mais paciência. A cada Natal e aniversário eu pedia de presente para os meus pais um disco de vinil dos Beatles. Levei mais de sete anos para completar a coleção, que para mim cobre os álbuns oficiais de estúdio e a coletânea "Past Masters", que reúne os Singles que não entraram nos Long Plays – LPs.

Novamente, eu não sabia, mas estava exercitando a disciplina e paciência, que seriam muito úteis, tempos depois. Disciplina para focar nos discos dos Beatles – e não do Ultraje a Rigor ou Queen, que faziam sucesso na época. E paciência para esperar o próximo Natal. Quando chegava a véspera, batia uma indecisão na hora de escolher o próximo álbum na loja de discos – prazer que os mais jovens não vão conhecer. Como era bom ouvir um disco dos Beatles pela primeira vez.

Controlando a ansiedade

Completar uma coleção tem o lado bom e o lado ruim. O lado bom é que acaba a ansiedade pela próxima aquisição. O lado ruim é que a gente sente falta dela e logo procura outra coleção para fazer. É neste caso que algumas pessoas se perdem e o saudável hábito de colecionar vira uma obsessão – um vício.

Felizmente, não me perdi nisso. Cresci e continuei fazendo pequenas coleções. Comecei tardiamente a comprar CDs do Oasis. Já tinha a própria renda e não precisava mais esperar pela boa vontade dos pais. Porém, estipulei uma condição para mim mesmo: só compraria um CD do Oasis depois que fechasse um projeto novo.

Foi mais rápido fazer esta coleção, mas tem um detalhe importante. Importante não, fundamental: minha namorada. Eu fechava um trabalho novo e saia com ela para comemorar. Na hora de comprar um CD para mim, no Shopping, comprava um CD para ela também.

O gosto dela era mais sortido: A-ha, Alphaville, Pretenders, Keane e um tal de Air Supply. Prova de amor – e de suplício – é ouvir um CD do Air Supply no carro, com sua namorada, sem fazer cara de desespero, só para agradar ela.

Cuidados distribuídos

Meu automóvel também não era convencional: um MP Lafer 1974. Por muitos anos foi meu único veículo. Quando parava num posto de combustíveis, era comum perguntarem se eu colecionava carros antigos. Bem que eu queria, mas esse é o tipo de brinquedo caro para comprar e para manter.
No entanto, ao frequentar encontros de carros antigos, a gente acaba conhecendo grandes colecionadores. Tem gente que coleciona marcas diversas, ao passo que outros compram carros de apenas uma fabricante.

Certa vez conversei com um colecionador de Studebaker. Perguntei se a mulher dele não tinha ciúmes dos veículos. Ele disse que não, pois cuidava da família ainda melhor que de suas máquinas. Ele era empresário também. Dos mais competentes.

Notei que, quando uma coleção não vira motivo de brigas na família, ela serve de incentivo para a pessoa ser ainda melhor no seu trabalho. Só assim poderá deixar sua família amparada, liberando o suporte para cuidar de seus objetos de afeição.

Colecionar o que vale a pena

De minha parte, parei de colecionar gibis há muitos anos. A revolução digital acabou com as lojas de discos. Bob Dylan e David Bowie dançaram: não vou mais colecionar discos deles. Ouço tudo de graça no Deezer. Pobre Deezer: ainda não assinei o serviço deles e continuo ouvindo propaganda entre as músicas.

Porém, como fui inoculado com o vírus de colecionador, resolvi começar uma coleção de ativos financeiros: ações de empresas pagadoras de dividendos e cotas de fundos imobiliários. Que maravilha. Esse é o tipo de coleção que você começa sem previsão de completar. Sempre tem algo a mais para você buscar. E o melhor: a coleção de ativos que geram renda passiva adicionam os juros compostos que fazem a própria coleção aumentar mais rapidamente.

Fico esperando aquele dia do mês, quando terei dinheiro para comprar mais um ativo. Não numa banca de jornal. Não numa loja de discos. Mas na Bolsa de Valores, via Home Broker. Qual ação comprar da próxima vez? Ou será que vamos completar aquela centena de cotas de um fundo imobiliário? E assim vamos enchendo as prateleiras virtuais.

Perfil equilibrado

Você pode perguntar se minha esposa não sente ciúme das minhas ações. Responderei que não, pois as ações são delas também. Além disso, me esforço para cumprir com outras obrigações do casamento – e não são poucas. Quando nasce uma criança, elas só aumentam.

Disciplina, paciência e atenção com a família. Conceitos que um colecionador experiente leva em conta para continuar sua busca infinita por novos componentes.

A grande vantagem de colecionar ativos financeiros é que eles não ocupam espaço em casa, nas gavetas das escrivaninhas e nos nichos da estante da sala. Naquela hora do mês para efetuar uma nova compra, a gente dá uma espiada na custódia da corretora, para tirar pó dos ativos mais antigos e para lustrar os novos rendimentos.

De todas as coleções que já comecei, a de ativos financeiros está sendo uma das mais prazerosas, numa disputa acirrada com os livros de bolso dos grandes filósofos da História. Estes livros de bolso são baratinhos, mas carregam valores de primeira grandeza.

Complete sua coleção

Porém, deixei a melhor coleção de todas para o final. Trata-se da coleção de livros da Suno Research. Já fez sua assinatura? Então não perca tempo.

Obviamente, minha opinião é suspeita, pois estou trabalhando para aumentar esta coleção paulatinamente. Ela começou com o “Guia Suno Dividendos” e dobrou com o “Guia Suno de Contabilidade para Investidores”. Escrevi estes livros em parceria com o Tiago Reis.

Depois veio o “Guia Suno Fundos Imobiliários” que editei para o Marcos Baroni e o Danilo Bastos. Já o “101 Perguntas e Respostas para Investidores Iniciantes” foi escrito por Tiago Reis e Felipe Tadewald.

Finalmente trabalhei com a Alice Porto, a Contadora da Bolsa, para lançar “101 Perguntas E Respostas Sobre Tributação Em Renda Variável”. Mas a coleção não para por aí. Já estamos empenhados em novos lançamentos nos próximos meses. Você não perde por esperar.

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sexta-feira, 12 de julho de 2019

Conversa sobre imóveis e renda variável com a Contadora da Bolsa

O arquiteto e escritor Jean Tosetto (quem?) conversa com Alice Porto - a Contadora da Bolsa.
O arquiteto e escritor Jean Tosetto (quem?) conversa com Alice Porto - a Contadora da Bolsa.

Há alguns dias estive na sede da Suno Research em São Paulo e gravei alguns vídeos sobre investimentos, livros e comportamento. O primeiro deles foi publicado no canal da Alice Porto no YouTube.

Alice também é conhecida como a Contadora da Bolsa e tive a oportunidade de ser coautor e editor de seu primeiro livro: "101 Perguntas E Respostas Sobre Tributação Em Renda Variável: Tire suas dúvidas sobre tributação para Bolsa de Valores", disponível como e-book na Amazon, onde até o momento está avaliado com 4,5 de 5 estrelas.

Neste vídeo, nós conversamos sobre outras formas de investimento, desde discos de vinil dos Beatles, passando por carros antigos e livros. Mas o tema central foi o investimento em imóveis, de modo a equilibrar os aportes feitos em renda variável, em função dos ciclos não coincidentes dos mercados imobiliário e financeiro. Confira:


Veja também:

Guia Suno Dividendos é apresentado no programa Fundamente-se do InfoMoney
A Suno também é uma casa publicadora de livros
"Love and Mercy" & uma mercearia

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quarta-feira, 26 de junho de 2019

"Love and Mercy" & uma mercearia

Estava na sala de estar, jogando dominó com minha filha e ouvindo um disco do Brian Wilson gravado no fim dos anos de 1980, quando ele estava afastado dos Beach Boys. O Brian Wilson é um dos gênios musicais mais subestimados da cultura norte-americana. Como ele nunca embarcou no oba-oba da modernidade (afinal de contas, ele acha que não foi feito para estes tempos) o seu devido reconhecimento será tardio. De certo modo, eu me identifico com ele.

A música que abre seu disco solo se chama "Love And Mercy". É linda e até virou nome de filme sobre a vida de Brian (que não é aquele do Monty Python). A gente ouve essa canção uma vez e ela cola na nossa cabeça. "Love And Mercy" significa "Amor e Misericórdia" em português.

Nunca prestei muita atenção em sua letra. Sempre me liguei mais na melodia e foi isso que me inspirou para postar a seguinte imagem e comentário no Instagram:

Fotografia da mercearia publicada no Instagram por Jean Tosetto.

"A fachada desta mercearia não tem logomarca. Não tem telefone. Não tem site ou fanpage. Igualmente não existe um plano de negócios nela. Mas tem uma mesa de bilhar, um balcão com refrigerador, garrafas de tubaína e sanduíches de mortadela servidos em pães franceses. O mais importante: as portas abertas para receber os poucos habitantes da localidade ignorada pelo Waze. Onde muitas pessoas observam apenas uma velha construção, eu imagino uma crônica inteira. Fico pensando no que se passa na cabeça de quem senta no cimento áspero daqueles degraus para ver a tarde de sábado se esvanecer. Ao fitar o rapaz com taco de sinuca em mãos, engato a primeira marcha e vou embora. De certo modo, fui percebido como invasor naquele mundo que gira mais devagar. Um mundo tão perto e tão longe da gente."

Foi uma postagem despretensiosa, como tantas outras que faço sem ouvir os conselhos de especialistas em SEO, marketing digital e toda essa parafernália para atrair seguidores artificialmente. No entanto, para minha surpresa, a mensagem tocou pessoas que sequer conheço pessoalmente e que me deixaram feliz por suas respostas.

Ainda no Instagram o Will Glauber escreveu:

"@walef_m continua acompanhando? Eu sim"

Ao que o Walef respondeu:

"@glauberwill sempre hahaha. O Instagram é como o mundo. Muitos posts são como as grandes metrópoles, cheios de informação junto com aquela euforia e correria. Os seus textos, @jeantosetto, são como viagens ao campo, onde paramos e nos aconchegamos para ler. São palavras que, com o auxílio das imagens, transmitem paz e calmaria, independente do tema. Eu e meu primo @glauberwill gostamos muito de seus textos. Aqui vai o nosso muito obrigado pelas publicações. Grande abraço!"

Como minhas publicações no Instagram vão automaticamente para o meu Facebook, de lá também tive a satisfação de ler a seguinte mensagem do Odersio Martinhão Filho:

"Caro Jean, boa noite. Gostei muito da foto e do que escreveu. Me lembrei do armazém do meu pai em Indaiatuba. Está com ele desde que tinha 18 anos. Hoje, com 86, tem ido pouco e nos últimos meses se ausentou para tratar da saúde. É uma das poucas referências de como se realizava o comércio quando ainda existia os "secos e olhados" nos armazéns. Me desculpe. Não tive a intenção de ser invasivo. Apenas compartilhando uma boa história a partir do seu post."

Ele também encaminhou as seguintes imagens que reproduzo aqui:

Recorte de jornal antigo sobre o mercadinho do José Martinhon em Indaituba.
Recorte de jornal antigo sobre o mercadinho do José Martinhon em Indaituba.

O recorte de jornal mais recente atesta: o Seu Martinhon é um herói da resistência.
O recorte de jornal mais recente atesta: o Seu Martinhon é um herói da resistência.

A mercearia da família do Martinho na Rua Padre Bento Pacheco em Indaiatuba.
A mercearia da família do Martinho na Rua Padre Bento Pacheco em Indaiatuba.

Feliz com a boa acolhida da minha proposição, não sei explicar exatamente como as coisas se conectam. Então fui prestar atenção na letra de "Love & Mercy" e tenho que subscrevê-la: nós precisamos de amor e misericórdia nesta noite, contra a violência e a solidão lá fora.

Ir a uma mercearia ou armazém tradicional (antigo) não deixa de ser um ato de resistência. É bom comprar alimento de alguém que a gente conhece. Este sentimento comunitário fortalece nossa crença na humanidade.

Acho que é isso. Mas não tenho certeza.


P.S.: a fotografia inicial foi tirada no Distrito de Três Pontes em Amparo, no Circuito Paulista das Águas que tanto visito para recarregar as baterias.

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sexta-feira, 21 de junho de 2019

Quem se importa com Pirapora do Bom Jesus?

Um cartão postal sobre Pirapora do Bom Jesus: ainda bem que a imagem eletrônica não tem cheiro.
Um cartão postal sobre Pirapora do Bom Jesus: ainda bem que a imagem eletrônica não tem cheiro.

Uma das manias dos arquitetos convictos é que eles enxergam grandes potenciais em tudo. Em função disso, muitos deles são tratados como sonhadores, utópicos e alienados. Não tem problema. A convicção serve para quê, mesmo?

O que vejo na imagem acima?

O Rio Tietê despoluído, o entorno de Pirapora do Bom Jesus reflorestado e o casario da cidade reformado, colorido e preparado para receber turistas em suas vielas convertidas em atracadouros.

Eles partiriam em balsas de estações em pontos estratégicos de São Paulo. Você ainda poderia trabalhar no JK Iguatemi e ir almoçar na Firenze brasileira.

Isso significa que o Rio Pinheiros também seria despoluído e um novo modal de transporte seria implantado na grande metrópole: o fluvial. Então, o sujeito que mora em Santana de Parnaíba poderia deixar o carro em casa e ir trabalhar de barco na capital, uma vez que não tem metrô ou trem para transportá-lo.

Mas fiquem tranquilos. Isso foi só um delírio. Felizmente temos políticos com os pés no chão para garantir que isso nunca vai acontecer. As prioridades dos políticos são outras: reeleições, cargos maiores, perpetuação no poder.

Meio ambiente? Urbanismo? Planejamento territorial? Isso é conversa de idealista.

Por isso, nunca elejam um arquiteto para nada. Pode ser que ele coloque a cidade ou o estado nos eixos. Vejam o que Jaime Lerner fez por Curitiba e pelo Paraná...

Diante da Igreja Matriz de Pirapora, o cão toma sol sob as bandeiras coloridas das festas juninas.
Diante da Igreja Matriz de Pirapora, o cão toma sol sob as bandeiras coloridas das festas juninas.

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