sexta-feira, 27 de março de 2020

Coronaldo em estado crônico

Quem está olhando para o espelho?
Quem está olhando para o espelho?

Coronaldo é dono de uma loja que vende produtos importados. Quase todos "Made in China". Apegado com sua família, ele raspou o dinheiro do caixa e foi conhecer Veneza, no norte da Itália. Passou uns dias também em Milão, pois sua esposa adora saber o que está na moda. Eles voltaram a tempo de pular o Carnaval no Brasil, no meio da multidão. Eles gostam de se definir como "gente do povo". Quando o ano finalmente começou, depois do meio dia da quarta-feira de cinzas, as notícias em todas as mídias tinham um assunto só: a tal da Pandemia do Coronavírus. Quando a TV mostrou caixões enfileirados numa igreja de Bérgamo, também na Itália, alguns governadores se anteciparam no Brasil, decretando quarentenas estaduais. Coronaldo fechou sua loja e correu para o supermercado. Lotou o carrinho de comida e produtos de limpeza. Os primeiros dias de confinamento autoimposto dentro de casa fluíram bem. Coronaldo até montou sua antiga pista de autorama para brincar com seu filho adolescente. Ao dedilhar a tela do smartphone veio a notícia ruim: o distanciamento social poderia durar bem mais do que uma quinzena. Talvez uns quatro meses. O intestino de Coronaldo ficou preso: bolachas demais e fibras de menos. Ele perdeu o sono. Seu banheiro começou a feder, então ele se lembrou da faxineira pela primeira vez. Lamentou por não saber cozinhar e não cobraria isso de sua esposa, que só sabe preparar Miojo. Seu cabelo, a propósito, começou a ficar estranho, com raízes brancas a desbotar o antes vigoroso louro com luzes. A grama no jardim ficou alta. Cadê o jardineiro? Também foi dispensado. Acabou a paciência para fazer a lição de casa com o caçula. As contas começaram a chegar: os aluguéis da loja e da casa, as mensalidades da escola, os salários vencidos dos funcionários. Coronaldo percebe que sua loja ficou sem capital de giro e decide mandar embora metade da equipe, mas não tem dinheiro para pagar as indenizações. Então, o presidente fala antes da vinheta do Jornal Nacional. Coronaldo entende que as pessoas precisam retornar ao trabalho, afinal de contas, isso é apenas uma "gripezinha" com um nome diferente. Patrioticamente, ele resolve voltar a ganhar dinheiro para ajudar na economia do país, além de ter prometido para a filha que ela passaria seu aniversário de 15 anos na Disney. Estima-se que 5 a 7 mil pessoas vão morrer de Covid-19 no Brasil - quase todos da terceira idade. E daí? Quantos brasileiros morrem de bala perdida por ano? Coronaldo escreve no grupo de WhatsApp da loja para seus empregados. Comunica que reabrirá as portas. Porém, o telefone toca: avisam que seu pai, com 73 anos, está entubado no hospital. O pai de Coronaldo será a vítima 624 do Coronavírus no Brasil. Seu corpo será cremado numa cerimônia sem a presença do padre, pois o prefeito proibiu aglomerações. Coronaldo não sabe mais o que fazer.

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sábado, 14 de março de 2020

Nada de novo no formigueiro

“The Ant and the Grasshopper" (1919), ilustração de Milo Winter (1886-1956) pertencente ao acervo do Projeto Gutenberg.
“The Ant and the Grasshopper" (1919), ilustração de Milo Winter (1886-1956) pertencente ao acervo do Projeto Gutenberg.

A linha reta não existe no universo físico, apenas na teoria. A linha reta é um conceito abstrato. Quando ocorre um Circuit Breaker, fica evidente que a renda variável “varia” e que um patrimônio construído sobre estas bases não sobe em linha reta, mas sobe.

Estamos em março de 2020. A Bolsa de São Paulo conta com centenas de milhares de investidores novatos, que estão experimentando os reflexos do primeiro Circuit Breaker de suas jornadas no mercado de capitais. No dia 9, o Ibovespa caiu cerca de 12%: a maior queda em um único dia de todo o século 21. Não é pouca coisa.

O mercado vinha em alta prolongada, mas começou a inverter sua curva com as primeiras notícias do Coronavírus, em sua versão Covid-19, surgida na China. Logo a doença se espalhou por todos os continentes, forçando países a adotarem quarentenas, reduzindo deslocamentos de pessoas e mercadorias.

Quando o componente do petróleo entrou na equação, devido à queda na demanda, Arábia Saudita e Rússia não se entenderam sobre o protocolo a ser seguido para evitar a volatilidade no preço do barril. As Bolsas ao redor do mundo reagiram mal. A Bolsa de São Paulo sofreu mais, assim como o Real, moeda que mais se desvalorizou frente ao Dólar.

Contextos diversos


O último Circuit Breaker que a Bolsa do Brasil havia sofrido foi em 17 de maio de 2017, data que ficou conhecida como “Joesley Day”, devido ao vazamento de conversas pouco republicanas entre o empresário Joesley Batista e o Presidente Michel Temer, que sepultou, na ocasião, o andamento da Reforma da Previdência.

O Circuit Breaker é um dispositivo que as Bolsas usam para interromper pregões eletrônicos sujeitos a volatilidades exageradas, sendo acionado geralmente para conter quedas abruptas.

Se o Circuit Breaker de 2017 teve repercussão limitada ao mercado brasileiro, em função de uma notícia política local que logo foi absorvida – as ações se recuperaram logo; o primeiro Circuit Breaker de 2020 está relacionado a uma conjuntura internacional e provavelmente terá consequências mais duradouras, como pudemos verificar com as demais interrupções das negociações na B3 ao longo da semana decorrente.

O que fazer?


Tenho recebido perguntas a respeito deste momento de turbulência na B3. Em geral, meus contatos querem saber o que fazer. Que ações comprar? O que mudou?

Não mudou nada. Não para quem é adepto do Value Investing e do Buy and Hold: investimento em valor focado no longo prazo. Quem adota estas premissas para comprar renda passiva tem mais é que comemorar.

Investidores que aportam em ativos geradores de renda passiva torcem para que as ações de boas empresas e das cotas de bons fundos imobiliários estejam com preços descontados, para que o Dividend Yield seja mais alto. Sempre é bom lembrar: o Dividend Yield é a relação entre o preço pago por uma ação (ou cota) e o seu retorno nos últimos doze meses, em forma de dividendos.

O exemplo da formiga


Quem investe pensando nos dividendos age como uma formiga: passa o verão coletando alimentos no entorno, para poder consumi-los no conforto do formigueiro, quando o inverno chegar. Por isso, as estratégias relacionadas aos dividendos geram carteiras previdenciárias de investimentos.

Você já observou o funcionamento de um formigueiro durante o verão? Em algumas horas do dia é possível ver filas de formigas, vindas de diversas direções, carregando pedaços de folhas verdes, grãos de arroz, asas de insetos e todo tipo de alimento que elas apreciam.

Vamos além: você já cometeu a maldade de cutucar a borda de acesso de um formigueiro com um graveto, esparramando um pouco da terra disposta em forma de vulcão? Que criança curiosa nunca fez isso?

Neste instante, as formigas entram em alvoroço. Elas parecem ficar desorientadas. Enquanto umas tentam atacar o inimigo (experimente colocar seu dedo indicador no meio da bagunça), outras correm para dentro do formigueiro. Porém, nenhuma formiga se afasta até um canto para se lamuriar.

Em questão de minutos lá estão as formigas retomando sua rotina. Enquanto algumas recompõem a borda de acesso do formigueiro, outras saem para a coleta de alimentos e outras chegam com restos de comida nas costas. Elas não sabem fazer outra coisa. Por não ter espaço para sentir emoções em seus diminutos cérebros, elas seguem apenas seus instintos. As formigas fazem apenas o que foram programadas para fazer.

Menos emoções, mais rendimentos


Nós, investidores de longo prazo, que compramos dividendos para ter um inverno mais confortável, temos que ter humildade para aprender com as formigas. Se a gente colocar as emoções na receita para lidar com a renda variável, não seremos bem-sucedidos.

Como afirmei no livro “Cultivando Rendimentos”, disponível na Amazon (https://amzn.to/2W4eVxN), "dominar as emoções para reagir com sabedoria aos momentos imprevistos e instáveis do mercado financeiro: eis o que ninguém pode ensinar, mas que todo investidor deve aprender."

Então, qual é a nossa programação? Vamos repetir: selecionar boas empresas e bons fundos imobiliários que paguem bons rendimentos com regularidade e comprar estes ativos com desconto, sempre que possível, para reforçar nossas carteiras previdenciárias. Deixemos as emoções para outros aspectos da vida.

Promoção não é liquidação


Um Circuit Breaker causa uma grande promoção na Bolsa de Valores, mas nunca uma liquidação. Os bons ativos não vão quebrar: vão apenas ficar mais baratos. Oba!

Uma empresa ruim não vai ficar boa por causa desse alvoroço. Não adianta perguntar o que muda depois de um evento agudo de crise. Não é hora de comprar ações de uma empresa ruim por que ela ficou mais barata, mas é hora de comprar ações de empresas boas, pelo mesmo motivo. Lógica semelhante se aplica aos fundos imobiliários.

As carteiras da Suno estão repletas de ótimos ativos para compor sua carteira previdenciária, com resiliência para enfrentar as piores tormentas. Já fez a sua assinatura?



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sábado, 1 de fevereiro de 2020

A panela de descompressão

O capacete do ciclista é uma panela de descompressão.
O capacete do ciclista é uma panela de descompressão.

Arrasto a seta do mouse para o canto esquerdo inferior da tela do computador e dou o comando para desligá-lo. Só a máquina adormece no final do dia. Minha cabeça continua girando. Várias rotações por minuto tentando antecipar o que precisa ser feito amanhã.

Fecho a porta do escritório. Passo pela porta da sala. Tomo um copo d'água na cozinha. Vou para a suíte, tiro a calça e calço o tênis. Ajeito a panela de descompressão na cabeça, pois o capacete do ciclista é repleto de aberturas por causa disso: para deixar vazar parte dos pensamentos superaquecidos da tarde que se vai.

O portão enferrujado do quintal ruge. Preciso pintá-lo. A grama do jardim roça nas canelas. Preciso cortá-la. Mas não hoje. Agora vou pedalar. Aos poucos deixo as ruas pacatas do bairro e vou para a agitação do centro. Preciso ver gente que não conheço.

Espalharam faixas de pedestres elevadas sobre o asfalto das avenidas da cidade. Mas elas não funcionam a contento. Aponto a roda dianteira da bicicleta para a primeira listra branca, mas ninguém reduz a marcha. Querem ganhar 4 segundos e 67 centésimos na corrida de volta para casa. Finalmente, numa brecha, a gente arranca. Então, os carros que ainda estão longe fazem de conta que diminuem a velocidade. Fazem de conta que são educados.

Passo diante do ponto de ônibus. Mais gente fora do que o coletivo pode botar para dentro. Olhos ansiosos. Olhos perdidos. Olhos compenetrados. Fico escondido atrás das lentes escuras do meu óculos de soldador adaptado, que me deixa com cara de ninguém. Lembro de quando ia do curso de inglês para o João Aranha, nas conduções da AVPP. Ficava pendurado nos canos superiores do corredor central e fingia estar surfando pelas ruas do Jardim Planalto. Aí estenderam o percurso pelo Morro Alto. Foi quando comecei a pedalar, pois era mais rápido ir para o treino de futebol assim.

Sigo em direção ao Supermercado Calegaris. O perfume das árvores me leva de volta para as brincadeiras entre as ruas Maria das Dores e General Osório. Porém, o Roberson não está mais lá. Nem o Kenji, o Hideo e o Massal - exímios jogadores de beisebol, com suas luvas de pegar enxames de abelhas numa braçada só. Não ouço mais os tacos de madeira golpeando o pneu de trator sob as ordens do pai e treinador deles. Nossa coordenação só nos permitia jogar betis. Nisso eu era bom. O Rodrigo e o Ronaldo, onde estarão? A Raquel, o Márcio e o garoto sonso que perdia no rolimã para mim todas as vezes... Esse pessoal sumiu. O perfume das árvores permanece.

Meia volta em direção ao Santa Terezinha. Ruas novamente mais calmas, com casas antigas sendo demolidas para a construção de novas torres de apartamentos. Gente teimosa ainda prepara o feijão para o jantar. Pfuf... Pfuf... Pfuf... Ainda dá para escutar a panela de pressão assobiando. Ou será ilusão? De concreto, a rajada de vento que traz o cheiro do tempero que só uma dona de casa é capaz de elaborar. Duvido que qualquer homem saiba cozinhar feijão decentemente. Minha vó, lá de Caçapava, era campeã nisso. Minha mente abre a porta da casa dela, com visão para o corredor que atravessa os quartos. Vou flanando até a cozinha. Ela está lá, atrás do fogão, com uma mão atenuando as dores da bacia e outra segurando uma colher de pau. Eu não sabia que ela tinha dores na cabeça do fêmur, pois ela sempre sorriu para mim.

O cachorro vira-latas late. Sua pelagem malhada me traz de volta para o guidão. Língua de fora. Ele procura um arbusto para mijar. Nossa, como ele é despreocupado! Ele nunca terá o registro de transferência da matrícula do imóvel de seu cliente negado pelo cartório, pois faltou uma assinatura, com firma reconhecida, de ciência das limitações urbanísticas do loteamento fechado, embora a casa já esteja construída. Será que eles acham que o comprador quer montar um cassino nela? Quem sabe uma peixaria? Como se a administração do empreendimento fosse permitir isso. E depois o presidente quer liberar o porte de armas para o cidadão. Quanta loucura. Interna todo mundo.

A avenida do teatro se descortina diante de mim. Questões do trabalho brotam novamente no consciente. Quando chegar em casa, preciso anotar umas perguntas para o Professor Baroni, para incluir no próximo livro. O que ele pensa sobre fundos de desenvolvimento? Como ele compara os FIIs com os REITs? Ele recomenda FOFs? O passeio ocioso foi produtivo. Quase sempre é.

Deixo de contar meus desejos e arrependimentos inconfessáveis. O capacete - a panela de descompressão - recebeu a emanação desses pensamentos secretos. Sua forração interna deve ter gravado tudo. Ainda bem que não inventaram um leitor de emanações de pensamentos irradiados em objetos. No dia que lançarem esse treco, vou parar de pedalar.

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sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Filosofia sem ismos

"Escola de Atenas" (1509), pintura de Rafhael (1483-1520) pertencente à Pinacoteca Ambrosiana do Vaticano.
"Escola de Atenas" (1509), pintura de Rafhael (1483-1520) pertencente à Pinacoteca Ambrosiana do Vaticano.

Karl Marx declarou que a religião é o ópio do povo. Ele propôs que a sociedade deveria viver sob a ditadura do proletariado e que esta deveria ser conduzida pelos líderes da revolução. Seus escritos deram suporte para o comunismo na União Soviética, sob a mão de ferro de Stalin.

Milhões de inocentes morreram por causa disso.

Friedrich Nietzsche declarou que "Deus está morto". Para ele, o homem era algo a ser superado e que, no lugar dos santos, era o "super-homem" que deveria ser venerado. Seus escritos foram distorcidos para justificar a ideologia nazista contra os preceitos judaicos e cristãos, durante o jugo da Alemanha sob Hitler.

Milhões de inocentes morreram por causa disso.

No fim das contas, fico com Platão e Blaise Pascal. Para Platão, a sociedade deveria ser comandada pelos filósofos. Filósofos fazem perguntas: eles não decretam nada. Logo, a religião é uma possibilidade em aberto, conforme a inteligente aposta de Pascal. Precisamos de um grande líder carismático para concordar com isso?

Só não podemos ser inocentes.

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sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Onda especulativa avança sobre os fundos imobiliários

Henry Matisse (1869-1954), “La Danse” (1909~1910), pintura do acervo do State Hermitage Museum, em São Petesburgo, Rússia.
Henry Matisse (1869-1954), “La Danse” (1909~1910), pintura do acervo do State Hermitage Museum, em São Petesburgo, Rússia.

Junto com a crescente popularidade dos fundos imobiliários no Brasil, está crescendo também a variação dos perfis de seus investidores, outrora defensivos e conservadores, agora acompanhados de agentes mais agressivos. Estamos diante de uma mudança de paradigmas.

Por Jean Tosetto *


A população brasileira aos poucos vai descobrindo a Bolsa de Valores de São Paulo e o potencial de retorno da renda variável, após um longo período de redução e estabilidade da taxa básica de juros da economia do país.

A Selic, que estava em 14,25% em setembro de 2016, caiu para apenas 6,5% em março de 2018 e vem se mantendo neste patamar desde então, pelo menos até junho de 2019. Neste período inferior a três anos, o número de pessoas físicas que operam na B3 saltou de 556 mil para mais de um milhão de investidores.

Esta marca histórica se explica pela perda de atratividade da renda fixa aliada com a multiplicação de agentes promotores dos benéficos da renda variável, desde educadores financeiros até casas de pesquisas sobre ativos do mercado financeiro. Ainda assim, estamos tratando de apenas meio por cento da população brasileira.

Por mais impressionantes que sejam os retornos das ações de empresas e cotas de fundos imobiliários, a maioria dos brasileiros economicamente ativos sequer consegue poupar parte da renda mensal. Aqueles que o fazem sentem receio do mercado de capitais. Entre os fatores de risco, que esse contingente, reconhece estão a volatilidade das cotações e o caráter especulativo que faz a Bolsa parecer um cassino.

Fundos imobiliários e portos seguros

Para combater esta imagem distorcida que muitos enxergam quando se lembram da Bolsa de São Paulo, existe uma porta de entrada para o ambiente da renda variável: são os fundos de investimentos imobiliários – FIIs. Eles foram criados para gerar renda passiva através do mercado imobiliário, por meio de empreendimentos físicos e de papéis relacionados com financiamentos para o setor.

Inicialmente, ainda no fim da década de 1990, os FIIs tinham baixa liquidez. Com o passar dos anos, este problema foi sendo resolvido na medida em que o mercado ganhava novos investidores, geralmente de perfis mais defensivos e conservadores, interessados na menor volatilidade das cotações frente ao sobe e desce das ações de empresas de capital aberto.

Na segunda década do século 21, os fundos imobiliários atingiram um patamar de equilíbrio entre liquidez razoável, volatilidade moderada e previsibilidade de geração de renda passiva com retorno acima da inflação. Por um bom tempo, estes eram alguns dos principais argumentos para convencer alguém a ingressar na Bolsa de São Paulo.

O triplo de investidores em três anos

Em 2016 os FIIs contavam com cerca de 80 mil investidores com CPFs cadastrados na B3. Naquela época, como você poderia convencer alguém a investir neles?

Simples: alegando que os fundos de tijolos pagavam rendimentos (partilha de aluguéis) que ganhavam facilmente dos aluguéis convencionais, da caderneta de poupança e inclusive do Tesouro Selic. Já os fundos de papéis davam retornos mais atraentes do que as LCIs e CRIs disponíveis para investidores individuais nas plataformas das corretoras e dos bancos.

O objetivo de comprar fundos imobiliários era centrado na geração de renda passiva, ganhando de brinde “alguma” valorização das cotas. Investidores conservadores até torciam para que as cotas se mantivessem estáveis, assim eles poderiam seguir comprando mais ativos, aumentando paulatinamente a renda passiva mensal a ser reinvestida.

Chegamos ao mês de junho de 2019 com o triplo de investidores em fundos imobiliários, em relação a 2016. A escalada de preços tomou conta de grande parte dos FIIs negociados na Bolsa de São Paulo. Muitos comemoram o aquecimento deste tipo de mercado, menos o investidor pequeno que mira na renda passiva.

Alto preço gera baixo retorno

Quando a cota de um fundo de tijolo aumenta muito, o retorno relacionado ao pagamento de dividendos – proporcional ao preço da cota – diminui, ou seja: comprar as cotas com o pensamento de longo prazo, centrado na obtenção de renda passiva, deixa de fazer sentido. O mesmo raciocínio se aplica aos fundos que operam com papéis relacionados aos financiamentos do mercado imobiliário.

Como sabemos que um fundo imobiliário está caro? Justamente ao observar a taxa de retorno do rendimento – também como conhecida como Dividend Yield – e comparar ela com benchmarks importantes, como a própria taxa Selic, o IPCA e a média dos alugueis convencionais, além do CDI, que é mais recorrente entre analistas profissionais.

Neste cenário só tem um tipo de fundo que está conseguindo manter a renda mensal atrativa, aliada com certa paridade entre preço e valor patrimonial da cota: são os fundos de fundos – FOFs.

Carros na jamanta

Os FOFs são fundos imobiliários que investem em cotas de outros fundos imobiliários. Eles repassam para os cotistas a divisão dos rendimentos obtidos com fundos de tijolos e fundos de papéis presentes em suas carteiras. Os FOFs podem ser um ótimo modo de iniciar os investimentos em renda variável com boa diversificação.

Porém, como os FOFs conseguem entregar um rendimento mensal acima do verificado pelos rendimentos dos outros tipos de fundos, se os FOFs investem justamente neles? A resposta é que os fundos de fundos promovem giro de carteira, ou seja: eles vendem cotas de outros fundos com lucros, pagam os impostos e dividem a diferença com seus cotistas.

Veja o paradoxo: o investidor de perfil conservador e defensivo é orientado para fazer pouco giro de carteira e para focar no rendimento mensal do FII ao invés da valorização especulativa das suas cotas. Porém, ao comprar cotas de FOFs ele estará indiretamente praticando o contrário dos seus princípios.

A ciranda dos prédios

Os gestores dos fundos de fundos estão fazendo Swing Trade para garantir os bons rendimentos para os seus cotistas. No entanto, estes rendimentos não estão baseados apenas nas atividades intrínsecas do mercado imobiliário, mas estão sendo turbinados por práticas especulativas que seguem a regra de “comprar na baixa para vender na alta”.

Se o pequeno investidor sabe que determinado FII está caro, pois o retorno em forma de dividendos está relativamente baixo (em alguns casos perdendo até para a caderneta de poupança), o que explicaria o fato deste ativo continuar valorizando ao longo do tempo? Simples: existem FOFs e grandes especuladores comprando e vendendo cotas sem parar. Se o pequeno investidor opera com dois a três mil reais por mês, ele nada pode fazer em relação aos milhões que os demais agentes do mercado (entre eles os gestores dos FOFs) estão girando na Bolsa.

Como resultado, aos poucos o pequeno investidor, interessado nos fundamentos dos FIIs para gerar renda passiva, não terá mais condições de aportar diretamente nos ativos em que acredita, mas terá que fazer isso pela figura intermediária do FOF, no qual uma equipe de gestores e analistas profissionais terá uma postura diversa da sua.

Todo cuidado é pouco

Aqui não se trata de afirmar que isto está certo ou errado. Estamos fazendo apenas uma constatação, apontando sinais para que reflexões possam ser feitas por quem se interessa pelo assunto.

No entanto, ao menos temos uma certeza: esta escalada de preços dos fundos imobiliários tradicionais não vai durar para sempre. Cedo ou tarde, um ciclo de queda vai se estabelecer, machucando os desavisados: aqueles que estão ingressando agora no mercado de FIIs animados pela constante valorização de suas cotas, sem se importar com a principal razão de criação deles: a geração de renda passiva através da economia real oriunda do mercado imobiliário.

Vale lembrar que, num cenário de quedas sucessivas das cotações, são justamente os fundos de fundos que tendem a sofrer as maiores perdas, inclusive em seus rendimentos mensais. Razão pela qual, se eles são os mais rentáveis num ciclo de alta, o investidor defensivo não deve concentrar demais a presença dos FOFs em sua carteira, por mais contraditório que isso possa parecer sob as lentes de um momento isolado.

Saiba mais sobre fundos imobiliários

Todos os interessados por FIIs no Brasil já podem contar com vários canais para aprender e se informar sobre esta promissora modalidade de investimentos. Entre os sites se destacam:

A) https://fiis.com.br/conduzido por Rafael Campagnaro.

B) https://www.fundsexplorer.com.br/capitaneado por Jacinto Santos Neto.

Já o Professor Marcos Baroni, da Suno Research, realiza excelentes lives semanais no YouTube. Acompanhe seu perfil no Instagram: https://www.instagram.com/professorbaroni/

O Professor Baroni também escreveu um livro em parceria com o Danilo Bastos: Guia Suno Fundos Imobiliários, disponível em e-book na Amazon: https://amzn.to/2FvW3P9

Para se proteger das oscilações frequentes do mercado financeiro, uma recomendação eficaz é fazer uma assinatura na própria Suno Research, cuja carteira de fundos imobiliários é balanceada para proporcionar renda constante e crescimento contínuo de patrimônio ao longo dos anos:

https://www.sunoresearch.com.br/nossas-assinaturas/

* Publicado originalmente em 24 de junho no grupo da Suno Research no Facebook. O teor deste artigo continua válido em janeiro de 2020.
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sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Se a Bolsa aquece, esfrie a cabeça

Gráfico do IBOV publicado pelo Google em 19/12/2019 às 16:03 horas.
Gráfico do IBOV publicado pelo Google em 19/12/2019 às 16:03 horas.

A Bolsa de São Paulo ingressou em dezembro de 2019 renovando suas máximas históricas. Neste dia 19, o IBOV operava acima dos 114 mil pontos, muito acima dos 40 mil pontos verificados em meados de janeiro de 2016. Nestes quatro anos, a B3 praticamente viu seu índice triplicar. Quem ingressou no mercado de capitais brasileiro neste período, praticamente não tomou conhecimento de quedas acentuadas nas cotações dos ativos.

Neste momento, há quem prevê que a Bolsa está apenas no início de um grande ciclo de alta. Outros recomendam estocar recursos em aplicações de renda fixa para aproveitar um evento de correção nos preços dos papéis – quem sabe uma grande queda. Quem está com o prognóstico correto? Impossível afirmar.

De certo, existem investidores novatos em renda variável colecionando ações e fundos imobiliários que valorizaram fortemente nos últimos meses. É natural que surja a vontade de realizar lucros antes que a festa acabe. Na verdade, este é um grande teste para pretensos investidores de longo prazo, especialmente os adeptos do Value Investing que priorizam a formação de uma carteira focada em renda passiva.

O sujeito acessa o site da sua corretora e observa seu patrimônio inflar dia após dia. O diabinho sentado no ombro esquerdo fica soprando no ouvido:

- Vende tudo, depressa!

Então o anjinho pendurando no ombro direito aconselha:

- Segura firme. Ninguém solta a mão de ninguém.

Ou seria o contrário? Quem é o bonzinho e quem é o malvado nesta história?

Não interessa. Como não interessa o quão quente pode estar a Bolsa de Valores. O investidor que se preza deve pensar sempre com a cabeça fria. Vender ou segurar ativos depende da análise específica de cada um deles.

De acordo com Tiago Reis, fundador da Suno Research e ferrenho defensor do Value Investing e da estratégia dos dividendos, existem três boas razões para um investidor vender uma ação: quando existem melhores oportunidades, quando o preço da ação está sobrevalorizado e o seu Valuation está caro, e quando há perdas de fundamentos e deterioração da geração de caixa da empresa ou fundo imobiliário.

Analisemos estes aspectos sob a ótica de um mercado aquecido, quando as oportunidades ficam mais escassas. Se você fez um ótimo preço médio em um ativo, que em função disso lhe oferece um excelente Dividend Yield, será que vale a pena sair da posição para comprar um ativo que talvez empate sua situação em termos de renda passiva? Será que existe alguma empresa tão boa e barata na Bolsa que justifique o giro de carteira?

Com o mercado de capitais aquecido, é natural que várias empresas ostentem cotações mais elevadas, operando com múltiplos em patamares altos. A pergunta que deve ser feita, neste caso, é:

- Os fundamentos do ativo estão preservados?

Se a resposta for “sim”, não há razão para desfazer a posição no ativo. A decisão mais sensata, neste caso, é interromper os aportes no papel em questão, a fim de não reduzir a porcentagem dos dividendos em relação ao valor alocado na ação.

Se a resposta for “não”, pouco importa se a Bolsa está subindo feito um foguete ou caindo feito uma maçã na cabeça de Newton: com perda de fundamentos e deterioração da empresa ou fundo imobiliário, a venda das cotas de participação no negócio é impositiva.

Neste ponto, reside a dificuldade em identificar um ativo que esteja em princípio de decadência de suas funções primordiais: num mercado de alta exacerbada, até papéis ruins valorizam, fazendo a festa dos especuladores.

Então, deixemos de lado o preço da ação por um instante: é hora de fazer a lição de casa e observar outros parâmetros, como a margem líquida do negócio, o retorno sobre o patrimônio líquido e o endividamento da companhia – lembrando que fundos imobiliários não podem se alavancar no Brasil. Acima de tudo, temos que avaliar a postura dos gestores e suas propostas para manter a saúde das atividades sob suas tutelas.

Todo estudante sabe que fazer a lição de casa não é algo tão difícil, mas pode ser trabalhoso. Porém, quando o estudante é investidor, ele pode contar com a Suno Research, que reúne uma equipe de analistas que produzem relatórios semanais de acompanhamento dos principais ativos listados na Bolsa de Valores. Faça a sua assinatura hoje mesmo:


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sábado, 16 de novembro de 2019

Meia década não é meio século

"O Último Baile (da Ilha Fiscal)" (1905), pintura de Aurélio de Figueiredo (1854-1916) pertencente ao acervo do Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro.
"O Último Baile (da Ilha Fiscal)" (1905), pintura de Aurélio de Figueiredo (1854-1916) pertencente ao acervo do Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro.

O Brasil completou 130 anos de proclamação da República e teve gente que aproveitou a data para pedir a volta da Monarquia.

Vejamos:

Em 2014 o Brasil mergulhou na pior recessão da história da República, da qual ainda não saímos. Isso configura MEIA DÉCADA PERDIDA.

Seria a pior crise econômica da história do país? Não.

O pior período para a economia brasileira foi durante a regência de Dom Pedro II, quando o Brasil teve MEIO SÉCULO XIX PERDIDO. Isso mesmo: até no Brasil Colônia houve mais desenvolvimento.

O Brasil foi o ÚLTIMO país das Américas a proibir o trabalho escravo, o que ocorreu somente em 1888. Essa é uma vergonha de verdade, e não aquela piada do "7 a 1 pra Alemanha".

Portanto, com todos os defeitos que uma República Democrática possa ter, inclusive a eleição eventual de postes e famílias de bossais, ainda é bem melhor do que beijar a mão de gente de sangue azul com a conta corrente no vermelho.

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