segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Marketing também se constrói

A décima edição do livro clássico de Ênio Padilha em versão eletrônica.
A décima edição do livro clássico de Ênio Padilha em versão eletrônica.

Por melhores que sejam algumas faculdades de Arquitetura e Urbanismo no Brasil, o mesmo se aplicando aos variados cursos de Engenharia, existem duas lacunas que ainda precisam ser preenchidas: a educação financeira para o profissional, e o seu Marketing pessoal.

Na verdade, estas são frentes que deveriam ser atacadas em diversas áreas do conhecimento: na Medicina, no Direito e até nas áreas exatas de Economia e Contabilidade.

Porém, vamos resolver um problema de cada vez. Nos centremos no "Marketing para Engenharia e Arquitetura", livro escrito pelo professor Ênio Padilha, engenheiro eletricista que há mais de duas décadas estuda o assunto e apresenta concorridas palestras no Brasil inteiro sobre o tema.

A versão impressa do livro já vendeu mais de 25 mil exemplares em nove edições. A novidade agora é que a obra está disponível também na versão eletrônica, bem mais acessível aos jovens engenheiros e arquitetos do Brasil.

Este é o tipo de livro que a gente lê e fica com a impressão de que deveríamos ter lido bem antes, e assim teríamos economizado o tempo e a energia gastos em caminhos improdutivos até encontrar uma saída plausível para divulgar corretamente a qualidade do nosso trabalho, e que os estudos do Padilha nos aponta de forma clara e elementar, sem imposições.

Estamos vivendo numa época de excesso de informação não filtrada, com extrema facilidade para acessar conteúdo não verificado, que aparentemente é capaz de nos ensinar algo. Muita gente tem a falsa impressão de que é possível aprender conceitos valorosos em vídeos de cinco minutos no YouTube.

De concreto, porém, é que a leitura segue sendo um modo confiável de estudar e se aprimorar naquilo que é essencial para o bom desenvolvimento de uma carreira. Neste ponto, a autoridade do mestre Ênio Padilha não foi construída sobre a audiência de vídeos sensacionalistas, mas justamente com a autoria de diversos livros editados e revisados com rigor profissional.

Que seus outros escritos possam ganhar também a versão eletrônica. No momento, recomendamos sem ressalvas o "Marketing para Engenharia e Arquitetura" - obra fundamental na biblioteca real ou virtual de engenheiros e arquitetos.

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quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Poupança só faz sentido se houver propósito

Esqueça, o porquinho da caderneta de poupança não nasceu para voar.
Esqueça, o porquinho da caderneta de poupança não nasceu para voar.

O profeta já dizia que figueiras não produzem azeitonas e videiras não produzem figos. Este é o problema da caderneta de poupança, quando considerada como alternativa de investimento – o que não faz dela uma vilã, como pregam certas “autoridades”.

Estamos vivendo na “Era dos Youtubers”. Aparentemente eles fazem tanto sucesso que são considerados influenciadores digitais. No mundo virtual não há limites para seus egos inflados: “Eu elegi o presidente” – disse um deles. “Vou desferrar sua vida” – prega a autoproclamada mãe dos juros compostos.

Nada contra assistir vídeos na Internet. Existe conteúdo relevante neles, especialmente no campo da educação financeira. Alguns canais do YouTube fazem mais pelas pessoas nesta área do que a maioria das escolas convencionais. Mas também se fala muita bobagem por aí. Precisamos ter senso crítico para assistir um vídeo no YouTube do mesmo modo como devemos ter senso crítico para ler um artigo, incluindo este.

Para chamar atenção do público, alguns youtubers são provocativos: falam coisas para chocar o espectador. Este por sua vez, ser for um desavisado, se sentirá um imbecil. Então, quando alguma solução simples for proposta, voilà: fica a impressão de que um gênio está falando na tela do smartphone. Um gênio que pede um joinha e a ativação do sininho no final da transmissão.

A Geni do mercado financeiro

Nessas horas, coitada da caderneta de poupança – ela é uma das maiores vítimas dos youtubers que falam sobre investimentos na Internet. Batem nela sem dó. Quem tem ou já teve dinheiro numa caderneta de poupança tenta se esconder no buraco mais próximo. Ter uma caderneta de poupança é como ter um disco do Waldick Soriano: quem tem não fala.

Se você tem uma caderneta de poupança e já viu um vídeo no YouTube desancando ela, sabe o que deveria ser respondido nos comentários?

“Eu não sou cachorro, não!”

Fique tranquilo, pois não tem problema algum ter dinheiro numa caderneta de poupança, desde que você saiba suas reais funções.

Primeiramente devemos ter com clareza que a caderneta de poupança não é um produto bancário de investimento, mas é como se fosse uma garagem para estacionar o dinheiro.  A caderneta de poupança repõe apenas as perdas inflacionárias, oferecendo um rendimento real muito baixo. Em 2018, por exemplo, a caderneta de poupança não rendeu sequer 1% acima da inflação, que por sua vez é sentida de modo diferente em cada estrato da sociedade.

Longo prazo

Ou seja, no longo prazo dificilmente o acúmulo de recursos numa caderneta de poupança trará tranquilidade para o complemento de uma aposentadoria. Para o longo prazo o investimento em ações de empresas que pagam dividendos e os aportes regulares em fundos imobiliários serão bem mais eficientes neste sentido, como demonstramos no Guia Suno Dividendos, em função da geração de renda passiva que preserva o patrimônio amealhado.

Médio prazo

Para projetos de médio prazo, como uma viagem de férias com a família, um curso de pós-graduação, a troca de um veículo ou a reforma de um imóvel, a caderneta de poupança perde para o Tesouro Selic, mesmo com as taxas de juros num período de baixa histórica. Em 2018 estima-se que o Tesouro Selic entregou um rendimento real próximo de 3%.

Apesar do rendimento do Tesouro Selic implicar no pagamento de imposto de renda no momento da retirada, ele poderia ser considerado como a nova caderneta de poupança dos brasileiros. Ainda lhe falta, porém, a liquidez imediata, que não ocorre em fins de semana e feriados. Além disso, pode haver interrupções de negociações no Tesouro Direto, sempre que eventos não controlados provocarem movimentos especulativos, num processo semelhante ao Circuit Breaker da Bolsa de Valores.

Liquidez para emergências

Por isso, não se deve usar exclusivamente o Tesouro Selic como colchão de emergência, pois numa necessidade imprevista o dinheiro pode não estar disponível para saque imediato. Esta é a grande vantagem da caderneta de poupança para quem tem acesso ao Internet Banking: é possível transferir recursos para a conta corrente em qualquer dia e horário, sem pagamento de impostos, embora o rendimento mensal fique comprometido, pois ele só ocorre no “aniversário” do depósito.

Manter um fundo emergencial na caderneta de poupança evita que o poupador entre no cheque especial ou atrase o pagamento da fatura do cartão de crédito, cujos juros são estratosféricos, para não mencionar que são pornográficos.

Esta, portanto, é grande função da caderneta de poupança: atuar como fundo de tranquilidade para o poupador que também é investidor, posto que o principal do valor poupado deva ser direcionado para a compra de ativos que geram renda passiva.

Curto prazo

Para compromissos de curto prazo, e para possibilitar compras à vista com descontos reais, a caderneta da poupança também tem grande valia, especialmente nos primeiros meses do ano, repletos de contas importantes para pagar. Vejamos: IPVA do carro, IPTU da moradia, anuidade do conselho profissional, matrícula da escola particular. Todos estes compromissos oferecem bons descontos para o pagamento à vista, uma vez que parcelar qualquer conta é como deixar dinheiro na mesa do credor.

Para quem têm filhos na escola particular a caderneta de poupança pode ser muito útil. Vamos exemplificar simplificando os números, supondo que o valor da mensalidade seja de R$ 1 mil, com matrícula de igual valor. O montante anual seria de R$ 13 mil. É possível negociar descontos generosos para o pagamento antecipado de todo o ano. Neste caso, algumas escolas oferecem de 8% a 12% de desconto, taxa que pode ser progressiva conforme a fidelidade entre as partes ao longo do tempo.

Para facilitar vamos considerar um desconto de 10%. Dos R$ 13 mil originais, o valor pago cai para R$ 11.700 que, dividido por 12 meses fica em R$ 975 ao invés dos mais de R$ 1.083 previstos anteriormente. A diferença de R$ 108 permite a compra de uma cota de um bom fundo imobiliário por mês, capaz de gerar 10% desse valor ao ano, apenas em rendimentos livres de impostos, fora a valorização das cotas. 

Além do mais, se você considerar que a poupança rendeu 4% no ano (sem descontar a inflação) e o desconto na escola foi de 10%, então, numa conta de padeiro, é como se o seu capital tivesse rendido 14% – seguramente mais de 1% ao mês. Nada mal.

Questionamento

Posto isso, será que vale a pena gastar tempo e energia procurando algum CDB que bata o CDI e que tenha liquidez diária? Talvez não, uma vez que o retorno financeiro que realmente importa é oriundo de ativos geradores de renda passiva no longo prazo.

Você, que tem senso crítico e já leu 101 Perguntas e Respostas para Investidores Iniciantes do Tiago Reis e Felipe Tadewald, pode me trucar sobre a questão número 26. Para não deixar dúvidas, vamos reproduzi-la integralmente:

“26) Em qual investimento deixo o meu fundo de emergência?

Particularmente utilizo como fundo de emergência o fundo BTG Pactual Yield DI RF CP, que possui uma liquidez elevada, permitindo resgate em D+0, e entrega uma rentabilidade bruta próxima ao CDI.

Como utilizo a renda fixa apenas como um modo de ter recursos disponíveis imediatamente para poder comprar ações em momentos de volatilidade, ou para eventuais custos e despesas emergenciais, e não para simplesmente buscar rentabilidade, esse produto me serve muito bem.

É recomendável que para fundo de emergência o investidor utilize um fundo com liquidez imediata e com baixas taxas de administração, sendo que o ideal é que essa taxa não supere 0,5%.

Infelizmente fundos de renda fixa de grandes bancos geralmente cobram taxas abusivas, e oferecem rentabilidades baixas e, portanto, é interessante que o investidor busque esses fundos em plataformas de corretoras, que geralmente oferecem muito mais produtos.

Conclusão

Portanto, se você está convencido de que a caderneta de poupança realmente não é um bom negócio, já tem o parecer de especialistas em investimentos sobre onde alocar seu fundo de emergência, mas isso não desmerece quem optar pela solução tradicional, acessível à maioria da população e aos investidores em começo de jornada.

Deixar por deixar dinheiro na caderneta de poupança é como ter um carro que nunca sai da garagem. Porém, se houver um propósito para este dinheiro – o tal do destino – então ela terá sua importância. Ela pode ser brega como a música de Waldick Soriano, mas isso no Brasil não é um problema, a não ser para alguns youtubers descolados.


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quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Mais um ano para investir pagando menos impostos

"Una e o Leão", pintura de Briton Riviere (1840-1920) inspirada no poema épico "A Rainha das Fadas" de Edmund Spencer. (Texto publicado originalmente em 27 de dezembro de 2017 no grupo da Suno Research no Facebook)
"Una e o Leão", pintura de Briton Riviere (1840-1920) inspirada no poema épico "A Rainha das Fadas" de Edmund Spencer.

Entre o Natal e a virada do ano, vivemos dias de limbo. Tenho dó destas datas entre 26 e 30 de dezembro onde nada de relevante parece acontecer. Os canais de televisão já deixam suas retrospectivas editadas e ignoram sem solenidade esta semana preguiçosa, onde quem precisa trabalhar deve ter muito cuidado ao acessar as redes sociais, vendo seus amigos e inimigos fazendo selfies por aí.

Muitas pessoas aproveitam esta época do ano para fazer reflexões pessoais, revisão no carro e promessas para um novo tempo. Aqueles poucos brasileiros que investem no mercado de ações têm uma boa oportunidade para verificar sua carteira de ativos, analisando suas valorizações e seus rendimentos, ou se decepcionando com alguma escolha feita no ano que passou.

Pessoalmente, não me dou esse trabalho. Não nesta época do ano. Como investidor de longo prazo, procuro controlar a tentação de revisar minha carteira com frequência. Faço isso quando sou forçado a fazer.

Basicamente, é a Receita Federal que me obriga a inspecionar a carteira de ativos uma vez por ano, entre março e abril. Nestes meses o brasileiro se ocupa de fazer a declaração anual de ajuste do imposto de renda das pessoas físicas.

Tem gente que preconiza o investimento por conta própria, fugindo de fundos com altas taxas de administração, mas na hora de ajustar as contas com o Leão, terceiriza a tarefa para algum contador. Eu não. Prefiro investir por conta própria e cuidar da minha declaração anual sozinho. Dá trabalho. É chato. Talvez, por isso, a Receita Federal empurra essa obrigação para depois do Carnaval.

Quem investe em ações e fundos imobiliários precisa ter ainda mais atenção na hora de preencher sua declaração anual de imposto de renda. Felizmente a Suno Research publicou um guia para mastigar tudo para seus assinantes e leitores.

E lá vamos nós, acessar o site da corretora de valores, para baixar os extratos mensais e as notas de corretagem. Sou quase um macaco velho, então imprimo tudo para anexar na pasta onde registro toda a minha contabilidade pessoal.

Como todo macaco velho, não gosto de pagar imposto sem precisar – isso é bem diferente de sonegar. Sonegar é crime. Mas se tem uma brecha permitida por lei para não pagar taxas e impostos, então procuro cravar minha cunha nela.

Daí resulta que sou muito seletivo para fazer aportes em fundos imobiliários. Só compro se for para abraçar. Não faço giro de carteira, entre outros motivos, para não pagar impostos. Quando preciso me desfazer de alguma posição em ações, o faço dentro do limite mensal de isenção. Pagar menos impostos é um dos pilares do investidor de longo prazo.

Voltando à papelada gerada pela corretora de valores: nela repasso todas as movimentações feitas no ano anterior, tirando delas o histórico de cada ativo que vou lançando na declaração. Com tal medida, consigo confirmar o preço médio de cada ação, cuja meta é sempre abaixar, quando possível.

Todos os recebimentos de dividendos (prazerosamente livres de impostos) e JCP (Juros sobre o Capital Próprio com impostos retidos na fonte) são novamente inspecionados, com a vantagem de obter o valor total amealhado em todo o ano. Esse valor dividido por doze equivale à renda mensal passiva que, por enquanto, é toda reaplicada, mas indica o quanto caminhamos no mesmo período.

A meta é sempre elevar este valor mensal, até que ele suplante o valor da renda trabalhada.

Por falar em renda trabalhada, é por causa dela que mais pago imposto de renda. Em quase vinte anos de carreira, recebi salários com retenção de impostos na fonte durante apenas um semestre, quando atuei como professor convidado numa faculdade. No restante do tempo, minha renda trabalhada sempre foi variável, pois sou profissional liberal.

Aqui, o macaco velho vai compartilhar algo bom da Receita Federal: ela mesma te ensina como pagar menos impostos, ou como obter maior restituição após a declaração de ajuste.

Profissionais autônomos e liberais, além daqueles que recebem aluguéis como pessoas físicas, podem baixar um programa denominado “Carnê-Leão”.

Neste programa vem embutido o Livro Caixa, onde o contribuinte pode lançar todos os seus recebimentos e despesas. Existem despesas dedutíveis e despesas não dedutíveis. Para saber diferenciá-las existe um guia no próprio programa.

Quem tiver a paciência de lançar pequenas despesas, como conta de água, energia e telefone (no caso de quem trabalha em casa algumas das despesas são divididas por cinco), se surpreenderá com a redução do imposto a pagar mensalmente, através de um DARF – Documento de Arrecadação Federal – gerado automaticamente.

O Livro Caixa ofertado pela Receita Federal foi criado originalmente para auxiliar o contribuinte a pagar impostos corretamente, mas acaba servindo como recurso de controle de contas, gerando balanços financeiros mensais.

Mesmo quem é assalariado, mas tem uma pequena renda mensal extra com prestação de serviços, poderá usar o Carnê-Leão para lançar despesas dedutíveis, que na declaração de ajuste anual seriam ignoradas pelo sistema. Ou seja, quem se organiza paga menos impostos.

Outro caminho para pagar menos impostos e garantir ao menos um salário mínimo de aposentadoria através da Previdência Social, é verificar se a sua renda extra informal é compatível com a abertura de um MEI – Micro Empreendedor Individual.

Com a reforma trabalhista, cada vez mais os assalariados serão direcionados para aderir à abertura de um CNPJ, por causa da terceirização regulamentada. O MEI acaba sendo uma porta de entrada para pequenos empreendedores testarem sua veia empresarial, sem o freio de pesadas cargas tributárias.

Na realidade brasileira sabemos que a renda trabalhada está cada vez mais achatada. Quem não possui um emprego estatal protegido da quebradeira que assolou o país, sabe que nos últimos anos tem sido difícil manter o padrão de renda adquirido nos tempos das vacas gordas.

Portanto, cada vez mais a disciplina para investir em longo prazo deve prevalecer. Gastar todo o dinheiro ganho é fácil. Endividar-se é mais fácil ainda: qualquer um consegue. Mais difícil é fazer economia. Quem consegue viver com menos do que ganha já deu um grande passo para investir com inteligência.

Por isso, nos dias preguiçosos entre o Natal e a virada do ano, nem olho para minha carteira de ativos – vou me atentar para ela quando o Leão pedir. Ao invés disso, procuro pensar de que forma consigo aumentar meus aportes mensais no ano seguinte, rumo à independência financeira, quando os dias preguiçosos poderão tomar conta do resto das estações.

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sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

O Natal, a Bolsa e os tempos de paz

"The Kensingtons at Laventie" de Eric Kennington, 1915. Pintura exposta no Imperial War Museum em Londres. (Publicado originalmente no grupo da Suno no Facebook em 12 de dezembro de 2017.)
"The Kensingtons at Laventie" de Eric Kennington, 1915. Pintura exposta no Imperial War Museum em Londres.

As grandes guerras mundiais do século 20 são as maiores chagas do nosso tempo. Se elas foram responsáveis por grandes avanços tecnológicos, que depois resultaram em benefícios para a sociedade em tempos de paz, o custo em vidas humanas foi caro demais, causando danos perpétuos para os quais não há reparação.

Nada pode ser mais degradante do que ser obrigado a transitar por uma trincheira cavada na terra, que em dias de chuva se converte num canal de esgoto por onde correm os restos mortais de vítimas de um conflito irracional. Tiros de metralhadoras impedem a visão do campo de batalha. O medo se instala nos rostos de seus companheiros e estranhos rezam para não serem escolhidos para ocupar a linha de frente do combate.

A região fronteiriça da França com a Bélgica virou terra de ninguém em 1914 – ano da eclosão da Primeira Guerra Mundial. De um lado, ingleses e franceses tentavam conter os avanços do exército alemão, na direção oposta. Negociações diplomáticas que envolveram inclusive o Papa Bento XV mostraram-se infrutíferas. Tudo indicava que a noite de Natal seria passada sob a tensão das armas de fogo.

No entanto, um soldado alemão começou a entoar a canção “Noite Feliz”. Logo um coro de alemães o acompanhou. Ao fim da música o silêncio prenunciou algo inusitado. Os ingleses agradeceram a apresentação. Os comandantes dos regimentos sinalizaram um aperto de mãos.

Quando ficou claro que os tiros haviam cessado, alemães, ingleses franceses se aproximaram. Todos passaram o Natal juntos. Na falta de presentes enlaçados, eles trocaram barras de chocolate, fotografias de entes familiares, cartas de esposas esperançosas e goles de bebidas alcoólicas. No dia seguinte, jogaram uma partida de futebol, com 60 soldados de cada lado.

Generais ordenaram o recomeço da batalha, mas os tiros eram desperdiçados em direções neutras. Este episódio foi encenado, inclusive, num clipe musical de Paul McCartney em 1983, intitulado “Pipes of Peace”. Já em 2005 um filme inteiro foi rodado com este mote: "Joyeux Noel".

Os momentos de paz, no meio de uma sangrenta guerra, foram possíveis por causa do desejo sincero das pessoas em realizarem trocas voluntárias que, independente de crenças espirituais, são fortemente incentivadas na proximidade do Natal.

Neste ponto, certamente você já leu artigos sobre os excessos que ocorrem nas ceias de Natal. Criticam o fato de algumas famílias terem tanto para gastar com presentes e lembranças, ao passo que outros passam fome. Outros dizem que o verdadeiro espírito de Natal é deixado de lado em favor da comilança e do consumismo.

Isso é repetido nas escolas e nas redes sociais. Querem nos fazer sentir culpa pelo fato de que podemos nos reunir com parentes ou amigos para festejar. Quem nunca caiu nessa conversa?

Eu já caí. Até que tomei consciência de que o Natal é o período do ano mais esperado pelos lojistas. Muitas empresas saem do vermelho com as vendas natalinas. Mesmo em tempos de crises econômicas, as pessoas não deixam de comprar algo para seus entes queridos. Isso é bom!

Com a proximidade do Natal, empregos temporários são criados. Oportunidades surgem. Quantos funcionários temporários não se tornam funcionários fixos no comércio? Certamente você conhece alguém em situação parecida.

A origem do Natal é importante para quem acredita nela, mas inclusive os desprovidos de qualquer sentimento de fé podem se beneficiar das comemorações no fim do ano – período onde as pessoas mais realizam as trocas voluntárias que movimentam a economia como um todo.

O que isso tem a ver com a Bolsa de Valores?

Tudo.

No mercado de capitais, todo dia útil é como se fosse um dia de Natal, no qual não apenas pessoas, mas empresas de todo porte, fazem trocas voluntárias.

Você, como investidor, não é obrigado a comprar ações de qualquer empresa. Ninguém aponta uma pistola na sua cabeça e ordena: “Compre ações da Taesa!” – Se você compra ações da Taesa, o faz uma vez que esta é a sua vontade.

A Taesa também não é obrigada a pagar dividendos pomposos para você. Mas ela o faz não só perto do Natal, mas também perto do Carnaval, das Festas Juninas e do Dia das Crianças.

Trocas voluntárias. Se uma empresa não te deu nada em troca pelo fato de você ter dado valor para ela, então não fez sentido investir na mesma.

Depois do encerramento da Segunda Guerra Mundial, europeus e norte-americanos chegaram à conclusão de que viver em paz era mais inteligente. Eles fundaram a Organização das Nações Unidas – ONU – no mesmo ano. Num movimento semelhante, dois anos depois surgiu o Acordo Geral de Tarifas e Comércio, que em 1995 se converteu na Organização Mundial do Comércio – OMC.

Os objetivos da ONU e da OMC são promover a paz e o livre comércio entre as nações. Os dois conceitos são possíveis justamente por causa das trocas voluntárias. Portanto, se você investe através da Bolsa de Valores, você também investe na paz.

Exagero? De modo algum. Conforme Tiago Reis já escreveu, pergunte para os executivos da Apple, da Coca-Cola ou da Monsanto se eles desejam ver uma guerra entre Estados Unidos e China. Para os gestores do Facebook e do Google, uma nova guerra mundial travada na Europa teria graves consequências para seus negócios.

As atuais ameaças de guerras e as ações terroristas são praticadas principalmente por aqueles que bradam contra o livre comércio – o primo irmão da democracia. Se o mundo não está livre do terror e das guerras, ao menos os conflitos bélicos deixaram de ser incentivados em países onde a economia é baseada nas trocas voluntárias. Isto não significa que eles possam se desarmar. O que não deixa ser lamentável.

Ao menos no próximo Natal, você não precisa se sentir culpado por demonstrar afeto por alguém lhe presenteando, por exemplo, com uma blusa das Lojas Riachuelo, empresa sob o guarda-chuva da Guararapes, cujas ações estão entre as que mais se valorizaram desde o Plano Real.

Na Suno Research, os analistas não descansam nem no Natal, para que você tenha acesso a conteúdo relevante sobre investimentos de valor com foco no longo prazo. Que seja um longo prazo repleto de paz.

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sexta-feira, 30 de novembro de 2018

O longo prazo premia a força de vontade

Vincent van Gogh (1853-1890), “A Noite Estrelada” (1889), pintura do acervo do MoMA em Nova York. (Publicado originalmente no grupo da Suno Research no Facebook em 28 de março de 2018.)
Vincent van Gogh (1853-1890), “A Noite Estrelada” (1889), pintura do acervo do MoMA em Nova York.

Quem ganha seu dinheiro de forma suada sabe que o mesmo não deve ser investido ao sabor da sorte. Existe alguma estratégia de investimento que premia mais o esforço do que o talento e a inteligência, que são variáveis? Existe e ela está ao alcance de todos.

Por Jean Tosetto 

Caminhamos pelos centros das grandes cidades e vemos muita gente talentosa exibindo seus dons diante de uma lata com algumas moedas. O violinista parece mais virtuoso do que aquele que casou com a filha de um cantor sertanejo. Porém, ele não está no programa da TV recebendo aplausos. Ele está olhando para você, esperando que reconheça seu esforço a ponto de tirar uns trocados do bolso, num gesto de agradecimento por alguns acordes inspiradores.

O que diferencia um músico do outro? Aos ouvidos de um leigo, quase nada. Mas a sorte parece ter faltado para um e sobrado para o outro – ou será que foram os contatos com as pessoas certas, ou a falta deles, que resultou em oportunidades distintas?

Por vezes, o universo parece ser indiferente com as pessoas. O melhor aluno da sala nem sempre é o melhor profissional do mercado de trabalho. O Doutor em Economia nem sempre consegue pagar as contas no fim do mês. Este pode viver em casa de aluguel e nem desconfiar que o dono dela já foi pedreiro por trinta anos – e sequer completou o ensino primário.

De algum modo, confundimos inteligência com instrução, e talento com garantia de sucesso. Somos educados para pensar assim, mas estamos errados.

Vincent van Gogh, nascido numa família holandesa de classe média alta, foi um fracasso em vida, embora a tenha dedicado à pintura, com mais de duas mil obras realizadas. Seu talento só foi reconhecido anos depois de seu passamento em 1890, a ponto dele ser considerado um gênio incompreendido de sua época.

O preço da realização

Inteligência e talento são fatores importantes? Sim. São decisivos? Nem sempre. Você já viu uma pessoa medíocre ocupando uma posição de destaque numa empresa ou numa repartição pública, pois seu grande trunfo era ser protegida por algum chefe ou cacique político? Você já espumou de raiva por causa disso? Eu também.

Em maior ou menor grau todos nós somos dotados de alguma inteligência e talento. Para o bem da sociedade, estas aptidões são distintas. Porém, o grande fator que diferencia as pessoas está na força de vontade.

É a força de vontade que permite a muita gente trabalhar em dois turnos e ainda cursar uma faculdade de noite. É a força de vontade que permitiu ao sujeito que passava fome no Vêneto se enfiar um transatlântico e descer no porto de Santos, sem saber em que sertão teria que arar a terra com uma enxada, antes de comprar o primeiro par de sapatos.

Quem cursa uma faculdade de noite ou troca de continente para ter uma vida melhor é movido inicialmente por um sonho. Sonhar é de graça. O que pode custar muito caro é a força de vontade – ou a falta dela – para realizar o sonho.

O ingrediente comum dos vencedores

Somente uma boa ideia não é suficiente para uma empresa prosperar. É preciso reunir uma equipe competente e capaz de trabalhar incansavelmente para alcançar metas. Para cada Steve Jobs, de quantos funcionários devotados uma Apple precisa para ser uma das empresas com maior valor de mercado no mundo? Mais de 40 mil. Da quantidade vem a qualidade.

Quando a imprensa divulga estimativas sobre o patrimônio bilionário de grandes investidores do mercado financeiro, como Warren Buffett nos Estados Unidos e Luiz Barsi Filho no Brasil, é compreensível que muitos associem o perfil deles com o de pessoas inteligentes e talentosas.

Porém, basta estudar um pouco a biografia de ambos para constatar um traço de personalidade em comum: eles cultivaram a força de vontade por décadas, permitindo a eles serem parceiros de grandes empresas, mesmo quando elas atravessavam momentos de baixa nas cotações.

O motor de qualquer estratégia vencedora de investimentos é ter capital suficiente para fazer aportes recorrentes no mercado de capitais. Para quem ainda não colheu os primeiros dividendos para reinvestir, esse capital só fica disponível quando alguém consegue viver com menos do que ganha.

A pedra angular da educação financeira

O princípio da educação financeira é justamente conseguir poupar dinheiro mensalmente. É preciso ter a inteligência acima da média para compreender isso? De modo algum. É preciso ter algum talento para conseguir isso? Só se for para manter o atual padrão de consumo e aumentar a renda no ofício. Mas este não é um aspecto fundamental.

O fundamental para economizar dinheiro é ter força de vontade. Saber que é preciso deixar de ir ao restaurante favorito uma vez por semana, para ir apenas uma vez ao mês, é fácil. Difícil é resistir à tentação e à comodidade da jantar fora de casa. Saber que a camisa polo de marca custas três vezes mais que a camisa genérica – e tão boa quanto – é fácil. Difícil é controlar a vaidade.

Se, para investir suas economias no mercado financeiro as pessoas dependessem de muita inteligência e talento, então as empresas de capital aberto quebrariam uma após a outra, pois as Bolsas de Valores ao redor do mundo agregam pessoas de vários extratos da sociedade. Mesmo os grandes fundos de investimento também captam recursos de trabalhadores comuns.

Persistir até conseguir

Uma das belezas do mercado de capitais é que, independente do talento e da capacidade intelectual das pessoas, ele vai premiar quem investe no longo prazo, com força de vontade, mesmo quando a estratégia for defensiva e conservadora, baseada em dividendos que são reinvestidos juntos com novos aportes, por anos a fio.

Professores, médicos, advogados, engenheiros, comerciantes, nutricionistas. Eles não possuem obrigação alguma de saber se a empresa A é melhor que a empresa B para investir. Eles são úteis para a sociedade dedicando-se com afinco em seus ofícios.  Se eles quiserem atuar como investidores, vão precisar de parte desse afinco para poupar recursos.

Eles não dispõem de tempo para fazer jogadas mirabolantes com alta rentabilidade e alto risco, capazes de levá-los ao Olimpo ou à sarjeta em questão de minutos. Por isso eles precisam investir no longo prazo, em ativos suportados por gente como eles: repleta de força de vontade.

É para isso que a Suno Research existe: para ajudar pessoas que tem força de vontade a investir com inteligência, e para que elas descubram que possuem o talento de buscar a independência financeira no longo prazo. Faça uma assinatura hoje mesmo.

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sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Stan Lee e os gibis do Homem Aranha

As revistinhas do Homem Aranha ainda estão guardadas numa caixa de papelão.
As revistinhas do Homem Aranha ainda estão guardadas numa caixa de papelão.

Crianças não gostam de mudanças drásticas. Em 1984, tinha meus incríveis oito anos de idade e morava numa casa de esquina perto da escola Mascarenhas, para onde ia caminhando logo cedo, junto com os colegas que moravam na mesma rua ou em ruas paralelas.

Um dia meus pais sismaram de mudar para uma chácara, no distante bairro do João Aranha. Mudei também de escola e perdi contato com minha turma. Até fazer novas amizades demorou um pouco, mas uma das poucas vantagens que percebi naqueles dias era que estudaria de tarde. Ou seja: teria tempo de ver desenhos animados que só passavam de manhã.

A Record não pegava mais em Paulínia naquela época, então não dava mais para torcer por Speed Racer. Mas a Globo apresentava o desenho do Homem Aranha, que logo tornou-se meu herói favorito.

Nos domingos de manhã meu pai gostava de ir até a banca de jornais do centro para comprar o Estadão, ou o Correio Popular, ou os dois. Íamos juntos, pois era uma viagem. Entre João Aranha e Paulínia havia poucas casas no Jardim Planalto e no Alto de Pinheiros. O resto do percurso era repleto de canaviais e pastagens.

Além de comprar jornais, meu pai nos dava gibis de presente. Meu irmão gostava do Tio Patinhas e do Pato Donald. Minha irmã preferia Mônica e Cascão. Em novembro de 1984 pela primeira vez escolhi uma revistinha do Homem Aranha. Era o número 17 da Editora Abril. Ali começava uma pequena coleção de gibis de super-heróis.

O Homem Aranha dos gibis era diferente do personagem mostrado no desenho animado. Na TV Peter Parker era um cara bem resolvido, sendo amigo da Mulher de Fogo (esqueci o nome correto) e do Homem de Gelo. Porém, nas revistas em quadrinhos ele tinha seus problemas com os estudos, com as namoradas e com a falta de grana.

Para um garoto de quase nove anos isso era novidade e logicamente fui influenciado pela leitura recorrente. Peter Parker era aplicado nos estudos e eu também queria ser. Ele era bom de Ciências e ajudava o professor no laboratório da universidade. Achava aquilo o máximo e queria ser fotógrafo de jornal também. Até hoje quero.

Somente alguns anos depois notei que o Homem Aranha era uma criação de Stan Lee, em parceria com Steve Ditko. Nas revistas da Marvel publicavam algumas cartas dele, que tinha um jeito bem humorado de escrever, e eu também queria ser assim.

Logo me interessei por outros tipos de histórias em quadrinhos. Meu pai me comprava álbuns do Tintim. O tio Gijo me deu dois livros de luxo do Príncipe Valente, e o tio Dário me presenteou com a coleção quase completa do Asterix. Adorava aqueles quadrinhos e quando conheci o personagem The Spirit, de Will Eisner, fui levado para as Graphic Novels, e daí para os livros.

Se você perguntar se ainda leio gibis, responderei que raramente folheio algum. Quando os personagens da Marvel chegaram no cinema, fazendo de Stan Lee um sujeito cada vez mais rico, cheguei a ver os primeiros filmes, mas perdi a paciência com essas coisas, embora não renegue a importância que este universo de personagens teve em minha formação.

Com a notícia do passamento de Stan Lee, ao 95 anos de idade, uma porção de boas memórias aflorou em minha mente. O que me deixa contente é que ele continua me inspirando. O descendente de judeus romenos trabalhou desde cedo numa editora de histórias em quadrinhos. Seu sonho, no entanto, era ser dramaturgo e escritor de literatura séria.

Beirando os quarenta anos de idade, Stan Lee estava descontente com sua carreira e pensava em abandonar seu ofício, pois a empresa onde trabalhava, a Marvel, estava com as vendas de revistas decaindo.

Foi então que, num gesto de "tudo ou nada", ele pediu a liberdade para criar personagens nos quais realmente acreditava. Isso foi no começo da década de 1960, quando o sucesso do Quarteto Fantástico bancou a nova postura de Stan Lee, que criou também Hulk, Thor, Homem de Ferro, X-Men, entre tantos outros - além, é claro, do Homem Aranha.

Se sua carreira decolou tardiamente nos gibis, somente beirando os 60 anos de idade Stan Lee ganhou espaço na televisão, com as séries de Hulk e Homem Aranha. Mas o melhor ainda estava por vir, com a explosão dos seus personagens nos cinemas, onde o quadrinista cansou de fazer pontas, já ultrapassando os 70 anos de idade. Desde então ele diminuiu seu ritmo de trabalho, mas nunca se aposentou.

De todos os personagens que Stan Lee criou, talvez o maior deles foi ele mesmo.

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terça-feira, 13 de novembro de 2018

Uma boa carteira de ações é como uma adega

Uma boa carteira de ações é como uma adega (publicado originalmente em 12 de janeiro de 2018 no grupo da Suno Research no Facebook).

O enófilo que aprecia um bom vinho tem muito em comum com o investidor de valor que acompanha uma grande empresa: ambos são estudiosos e cultivam a paciência e a disciplina, evitando riscos e ressacas.

Por Jean Tosetto *

O vinho é uma bebida fermentada milenar registrada na História desde os tempos das escrituras sagradas. Seu processo de produção requer cuidados que fazem das vinícolas um dos empreendimentos mais complexos e antigos da sociedade. Aqueles que, além de apreciar os vinhos, estudam os seus pormenores, são considerados enófilos.

Você dificilmente verá um enófilo diante de uma gôndola de supermercado, estudando o rótulo de um vinho de mesa suave. Vinhos desse tipo são produzidos em larga escala para consumo imediato. A composição deles recebe açúcar para aumentar a sua aceitação perante um público maior.

O problema de consumir vinhos de tal naipe em excesso é que, apesar de seu sabor convidativo, em geral eles provocam fortes ressacas. Um enófilo nunca vai dizer: “No começo é assim, mesmo. É preciso se acostumar com as dores de cabeça das ressacas, pois elas sempre acontecem”.

Ao contrário, o conselho será diferente: “Você quer se dar bem com os vinhos? Deixe os suaves de lado. Aprenda a valorizar o sabor dos vinhos secos, que descansam um bom tempo em barris de carvalho”.

A cultura do vinho e do investimento

Enófilos são como investidores de longo prazo. Eles não praticam day trade, pois tem aversão às ressacas que tais operações provocam. Se a possibilidade do lucro rápido é bem adocicada, a dor de cabeça do prejuízo vindouro é inevitável.

Os enófilos cultivam a paciência e a disciplina. Muitos deles investem em garrafas de vinho de safras recentes, esperando que elas valorizem com o tempo, guardando as mesmas em suas adegas. Uma garrafa envelhecida de ótima safra, quando comprada tardiamente, é cara demais.

Algo semelhante ocorre no mercado de capitais. As ações da Ambev são ótimas, possuem sólidos fundamentos – e a empresa nem é focada em vinhos, mas em outra bebida fermentada: a cerveja. O problema das ações da Ambev é que elas ficaram caras. Se elas ainda podem ser um bom negócio, este não terá o mesmo retorno de quem investiu nelas há pelo menos dez anos.

Por isso, uma boa carteira de ações de um investidor de longo prazo é como uma adega no subsolo da casa de um enófilo. Ambas devem estar bem protegidas dos riscos elevados e das temperaturas externas, para evitar que as garrafas de vinhos e os lotes de ações se convertam em vinagre.

Um investidor não fica expondo sua carteira por aí. Em geral somente outros investidores de sua confiança tem acesso a ela. O mesmo acontece com as adegas dos enófilos: eles não as mostram para aqueles que não entendem do riscado, embora aumentar a network seja fundamental para o crescimento de ambos: o investidor e o enófilo.

Cuide da sua carteira como um enófilo cuida da sua adega

Garrafas de vinho, assim como lotes de ações, nunca devem ficar abandonadas no fundo das adegas ou das carteiras de investimentos. Enófilos e investidores estão sempre revendo suas preciosidades. Se os enófilos giram suas garrafas de vinho de tempos em tempos, para evitar a decantação excessiva das leveduras, os investidores por vezes precisam promover um giro em seus portfólios, ao verificarem melhores oportunidades.

Outro aspecto importante que podemos verificar, tanto numa carteira de investimentos quanto numa adega sortida, é justamente a diversificação. Se enófilos cultivam vinhos tintos, brancos e rosados; investidores cultivam ações de empresas, cotas de fundos imobiliários e eventualmente debêntures. Cada tipo de investimento será adequado a um perfil de renda passiva, assim como cada tipo de vinho será indicado para acompanhar carnes e massas diferentes.

A parceria com quem sabe fazer

Enófilos não são necessariamente enólogos, assim como investidores não são necessariamente empreendedores, embora uns não vivam sem os outros. O mercado de vinhos e o mercado de capitais dependem da parceria entre estas figuras que podem ser distintas, mas interdependentes.

O enólogo é aquele que está à frente da produção do vinho, desde o preparo do solo, passando pela manutenção dos parreirais – que podem atravessar décadas se receberem o manejo correto – chegando ao processo de vinificação que definirá as estratégias de distribuição para o mercado.

Bons enólogos cultivam rosas nas cabeceiras dos parreirais. Por terem o arranjo de DNA semelhante ao verificado nas videiras, as roseiras, sendo mais sensíveis ao clima e às pragas, antecipam sintomas que permitem as correções de rumo nas vinícolas. Se as roseiras não dão lucros por si só, elas podem ajudar a prevenir futuros prejuízos.

Do mesmo modo, os empreendedores precisam cultivar roseiras em seus negócios. Por vezes as roseiras podem ser empresas de consultoria, capazes de antecipar tendências de mercado, além de antever situações de risco para o empreendimento.

Conhecendo o negócio de perto

Bons enófilos visitam vinícolas antes de adquirir vinhos e estão sempre em contato com os enólogos. De modo semelhante deve agir o investidor consciente: antes de realizar algum aporte em determinada empresa, ele deve estudá-la profundamente, de preferência visitando suas instalações e conversando com os empreendedores.

Como nem sempre isto é possível, as empresas se valem do departamento de relações com investidores no qual os parceiros em potencial podem obter as informações necessárias para a tomada de decisões.

Tais quais as empresas que operam em setores distintos da economia, como o energético, o financeiro e o de varejo; as vinícolas trabalham com qualidades diversas de uvas, como Cabernet Sauvignon, Malbec e Tannat, gerando as preferências entre os enófilos.

A produção de vinhos nobres depende de uvas selecionadas que se adaptem às condições climáticas de cada vinícola. Do mesmo modo, as empresas boas pagadoras de dividendos devem operar em negócios perenes, nem sempre disponíveis em qualquer situação.

Melhorando com o tempo

Um enófilo, bem como um investidor de longo prazo, não se cria da noite para o dia. Ele é resultado de anos de aprimoramento e busca constante de conhecimento. Ambos desenvolvem uma cultura geral em torno dos assuntos pesquisados, fazendo deles donos de conversas agradáveis para os interlocutores aprendizes.

Fonte de consulta

Não poderíamos encerrar a comparação do mercado financeiro com o mercado viticultor sem mencionar a importância do sommelier. O sommelier é o especialista que prepara cartas de vinhos para restaurantes e eventos diversos, selecionando as melhores bebidas para cada ocasião. No ambiente da Bolsa de Valores o sommelier é como um analista de valores mobiliários, habilitado para tecer recomendações para investidores.

Bons enófilos sempre estão consultando sommeliers e suas cartas de vinhos. Grandes investidores não deixam de ler os relatórios dos melhores analistas de valores. Sommeliers possuem contato constante com enólogos e vinícolas, assim como analistas acompanham as melhores empresas e fundos de perto.

Tim tim

Na Suno Research você tem acesso à melhor carta de ações de empresas e cotas de fundos imobiliários para abastecer a sua adega de investimentos com foco no longo prazo. Nossos sommeliers te manterão longe das ressacas e perto de outros investidores, através dos eventos exclusivos que a casa de análise promove. Faça sua assinatura ainda hoje. Brindemos ao seu futuro.

* Jean Tosetto é coautor do Guia Suno Dividendos, escrito em parceria com Tiago Reis e disponível na Livraria Cultura, na Amazon ou diretamente com a Editora CLA.


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