sexta-feira, 17 de maio de 2019

Fittipaldi e a volta por cima

Emerson Fittipaldi em reprodução de imagem da TV ABC.
Emerson Fittipaldi em reprodução de imagem da TV ABC.

O vídeo a seguir é longo, tem 3 horas e 26 minutos. Mas você pode começar a assistir a partir das 3 horas, para ver o final de uma das maiores corridas de todos os tempos, que em 2019 completa 30 anos: as 500 Milhas de Indianápolis, vencidas por Emerson Fittipaldi.

Essa terá sido possivelmente a maior vitória de sua carreira, dentro e fora das pistas. Fittipaldi era bi-campeão mundial de Fórmula 1 quando montou a própria equipe na década de 1970, que lhe dragou as finanças e lhe custou muitos anos longe dos títulos.

Fora da Fórmula 1, Fittipaldi recomeçou do zero, numa pequena equipe da Fórmula Indy. Nas voltas finais das 500 Milhas de 1989 ele trava um duelo com Al Unser Jr., que claramente contava com a torcida do narrador da TV americana.

Unser espremeu Emerson entre seu carro e a grama. Fittipaldi seguiu na pista e Jr. foi parar no muro. O vencedor desce do carro e chora. Foi uma grande volta por cima, como só o esporte pode nos proporcionar.

Quando as coisas ficarem duras para você, reveja este vídeo.

O Senna foi um gênio? Foi. O Piquet foi bom também? Demais. Mas a gente pode aprender muito com Emerson Fittipaldi. A vida dele segue difícil, segundo o noticiário sobre suas dívidas, mas ele já provou ser capaz de superar as adversidades. Ele é verdadeiramente um brasileiro.



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sexta-feira, 10 de maio de 2019

Meu primeiro show: Ultraje a Rigor em Paulínia, 1990

Dois álbuns do Ultraje que não podem faltar na discoteca de um roqueiro brasileiro.
Dois álbuns do Ultraje que não podem faltar na discoteca de um roqueiro brasileiro.

Os fãs do Legião Urbana vão estrilar, e a turma que curte Barão Vermelho também. Mas não tinha para Ira!, Titãs, Paralamas do Sucesso, Lobão e os Ronaldos: quem mandava no Rock brasileiro na década de 1980 era o Ultraje a Rigor. Só o RPM era mais popular, mas eles tocavam música Pop, e não o Rock de verdade, no único momento em que ele teve destaque nas rádios por aqui.

Essa é uma opinião claramente turvada, pois para mim eram os Beatles no céu e Ultraje na terra. Mas tem algo que ninguém pode negar: poucas bandas, no mundo, repetiram o feito de Roger Moreira & Cia: lançar o primeiro disco emplacando 9 das 11 músicas nas paradas de sucesso. Até hoje "Nós vamos invadir sua praia" de 1985, responde por metade do set-list da banda, quando ela se apresenta por aí além dos estúdios do SBT, onde gravam o programa de entrevistas do Danilo Gentili.

Em 1990, porém, o Rock nacional vivia seus estertores no mainstream, embora a gente não soubesse disso. Eu, por exemplo, não sabia de nada: tinha apenas 14 anos, mais espinhas na testa que estrelas no céu, nenhuma namorada e sem chance remota de conseguir uma, meu Verdão não ganhava campeonatos e, para piorar, meus pais me trocaram de colégio.

Saí de uma escola estadual de Paulínia e fui para uma unidade particular em Campinas, que eu detestava, assim como detestava acordar às cinco horas da manhã todos os dias e levar ferro nas provas bimestrais de Matemática. Daí se conclui que o ensino público já estava uma calamidade naquela época, e que hoje tenho vontade de xingar até o fim dos tempos aqueles youtubers que acham bacana acordar de madrugada.

A mudança de escola também me tirou do time de futebol do bairro e perdi o contato diário com meus amigos de antes. Os campineiros me chamavam de caipira, capiau, cabeça dinossauro, Pica-Pau, Calvin, Menino Maluquinho...

Era um magrela, cabeçudo e tinha cabelo arrepiado, mas sobrevivi. Somente anos depois a TV veio com essa história de bullying. Eu resolvia meus problemas na porrada mesmo, e também sabia falar mais palavrões que os demais garotos da sala (o lado bom de jogar bola contra a turma do Morro Alto). Eu enfiava a mãe deles na conversa em todas as provocações que recebia.

Minha puberdade foi complicada. O que aliviava para o meu lado era poder colocar um disco dos Beatles na vitrola, todas as noites. O Ultraje a gente ouvia nas rádios mesmo. Minha favorita era a Rádio União. Os locutores sabiam os nomes do meu irmão mais velho e da turma dele, que acabou me adotando.

Nas férias de inverno daquele ano a gente entrou para uma equipe de gincana, que só tinha perdedores, como nós. A Prefeitura de Paulínia promovia jogos recreativos entre os jovens da cidade. Era divertido. Ficamos em último lugar, mas meu irmão ganhou algumas garotas. Para ele não tinha tempo ruim. Uma namoradinha no Baile do Ridículo e mais uma no Baile Havaiano. Outra coisa que me aliviava: conversar com ele antes de dormir.

Para o último dia de férias, a Prefeitura de Paulínia promoveu o grande show do ano na cidade: Ultraje a Rigor! A apresentação seria no domingo de noite e foi no domingo de tarde (encerrando o mês de junho) que descobrimos que o ingresso era uma lata de óleo de soja para caridade. Detalhe: o comércio não abria de domingo, só a banca de jornais (até meio dia) e uma farmácia de plantão.

Toca eu e o Lô (de louco) bater pernas nas ruas do centro, batendo palmas e tocando campainhas nas casas, para pedir uma lata de óleo de soja. A gente ouviu muitos "nãos". Estava anoitecendo. Então resolvi correr para a casa da minha vó. A Vó Hertha que nunca chamei de vovó. Ela nos arranjou as latas de óleo e mais: blusas de lã, pois estava esfriando rapidamente.

A minha blusa era verde e tinha furos nos cotovelos, pois minha vó usava ela para capinar no quintal da casa dela, que me colocou um chapéu de palha também. O tiziu aqui parecia um boia fria. Descemos correndo as ruas do Jardim Calegaris até o campão do centro, que hoje é o Estádio Municipal.

O gramado já estava cheio, mas eu queria ficar bem perto do palco. Só conseguimos isso ficando na frente de uma enorme caixa de som, no lado esquerdo do palco, para quem estava na plateia. Deu tempo de ver o show começar. O primeiro da minha vida.

 "Nossa, ainda vou ser feliz nesta vida" - pensei.

O Ultraje ainda tinha sua formação basicamente original e a banda estava promovendo seu terceiro álbum. Os sucessos vieram um atrás do outro: "Rebelde sem causa", "Mim quer tocar", "Zoraide", Ciúme", "Inútil", "Eu gosto de mulher"...

Energia emanando do palco e um som de estourar os tímpanos. Nem consegui prestar atenção na menina do lado, de quem gostava bastante na sétima série. Sabia que não poderia estragar aquela noite levando um fora dela.

Lembro de duas cenas marcantes naquela apresentação: num solo de bateria o Leospa quase entrou em transe, alternando as batidas com os braços salientes numa camisa cavada, ele olhou para cima e depois para dentro de sua mente. Só ficou o branquinho dos olhos. Quem não curte Rock não entende isso.

O Roger não era o guitarrista principal do conjunto. Ele fazia, e ainda faz, a guitarra base, como o John Lennon dos Beatles. Numa das músicas uma corda da sua guitarra estourou. Ele ficou olhando de um lado para o outro no braço do instrumento, procurando uma alternativa para seguir tocando, até que encaixou os acordes nas cordas mais baixas. Pouca gente percebeu e ele continuou cantando. Um profissional. Acabou a música e trocou de guitarra.

O que é bom dura pouco e depois do show ainda tinha que voltar para casa, na zona rural. Pegamos o último ônibus coletivo da AVPP (Auto Viação Progresso de Paulínia, que a gente chamava de "A Verdadeira Porcaria de Paulínia", de sacanagem). Estava lotado e descemos no ponto final. As últimas luzes das casas da periferia estavam se apagando. Já tinha gente dormindo para começar outra semana de trabalho.

Não consegui dormir. O zumbido dos infernos nos ouvidos não deixava. Foi minha primeira ressaca. Pisquei o olho e o despertador tocou. Primeiro dia de aula. Que droga. Só queria voltar para casa e dormir até o dia seguinte. Mas a lembrança do show ficou. Era muita vibração para ignorar. E depois disso fui em vários espetáculos de Rock. E vou continuar indo.

Os anos de 1990 chegaram e o Rock foi sendo jogado para escanteio, para o canto extremo do dial. No seu lugar vieram a Lambada, o Sertanejo, o Pagode, o Forró, o Funk e essas coisas maravilhosas e muito rentáveis quem vem da terra do arroz com pequi.

Quando me formei em 1999, um dos primeiros CDs que comprei com o dinheiro do meu trabalho foi "18 anos sem tirar" do Ultraje a Rigor, que naquela altura do campeonato tinha passado por várias formações e seguia tocando nos circuitos alternativos. Nunca mais a banda estourou um grande sucesso novamente, não nos parâmetros anteriores. Para mim isso não é problema.


O problema é que no Brasil os músicos são criticados mais por suas posturas políticas do que por suas músicas. Então o Chico Buarque não é cobrado por um grande sucesso recente, mas para os bacaninhas descolados e lacradores o Roger é apenas um cara decadente que foi tocar num talk show de um humorista de direita.

Parem com isso! O Ultraje a Rigor não são os Beatles do Brasil, mas eles são os Beach Boys - o que é uma honra do caramba. Desdenham do Roger do mesmo modo que ignoram o talento do Brian Wilson, por causa de uma banda de Rock com um nome despretensioso.

Mas por falar em talk show, quem nunca sonhou em um dia ser entrevistado num programa como este? Se um dia o "The Noite" me chamasse (não vai acontecer) eu faria questão de agradecer o Roger pessoalmente. Tentaria encontrar minha fita K-7 do Ultraje, que escutava no Fusca a caminho da faculdade, para pedir um autógrafo na capinha dela, que eu mesmo desenhei. Então diria que a história música da brasileira será passada a limpo e que ele terá seu lugar de direito restabelecido.

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sábado, 13 de abril de 2019

O pessimismo como estratégia de investimento

Busto de Epicuro exposto no Museu Britânico em Londres.
Busto de Epicuro exposto no Museu Britânico em Londres.

A Bolsa de São Paulo está rompendo a barreira histórica dos 100 mil pontos e mais de um milhão de pessoas físicas cadastradas em seus bancos de dados. Cenário ideal para incentivar investidores novatos e otimistas. Mas não seria melhor ser pessimista nestas horas?

O século 21 chegou feito uma bandeira amarela numa corrida das 500 milhas de Indianápolis, embaralhando os retardatários da prova com os competidores mais preparados. No YouTube autoridades colegiais nascem diariamente falando sobre assuntos complexos e obtendo mais audiência do que doutores acostumados a escrever, mas sem traquejo para falar.

Hoje qualquer pessoa pode ter o seu canal de comunicação, angariar seguidores e seguir muita gente. O acesso à informação foi democratizado na enésima potência, mas o acesso ao conhecimento ainda não acompanhou este processo, pois são tantos os estímulos que não sabemos precisamente em quem prestar atenção.

De certo, muita gente não tem nada de novo para acrescentar e apenas reproduz o que outras pessoas já disseram. Este talvez seja um critério para eleger quem são as autoridades de fato: saber quantas pessoas repercutem o que estes autores aparentemente mais destacados afirmam.

Outro caminho, mais conservador e menos influenciado pelo comportamento de manada, é recorrer aos clássicos, desde os filósofos da Grécia Antiga, passando por pensadores do Império Romano e chegando ao Iluminismo: Platão, Sócrates, Epicuro, Sêneca, Cícero, Voltaire, Descartes e Schopenhauer, só para citar alguns.

Nenhum deles conheceu as modernas Bolsas de Valores, embora se saiba que Descartes ganhou dinheiro deste modo, na Bolsa embrionária de Amsterdam, em pleno século 17. Porém, muito do que estes autores imortais produziram pode ser traduzido com sucesso para o ambiente do mercado financeiro e para o amadurecimento da mentalidade do investidor.

O tripé da felicidade

Epicuro, por exemplo, viveu três séculos antes de Cristo e ocupou sua vida tratando da busca pela felicidade, que para ele poderia ser alcançada através de um tripé que consistia numa vida bem analisada, a companhia de amigos sinceros e leais, e na liberdade. Liberdade que se baseava inclusive na independência financeira, não no sentido da obtenção da riqueza pela riqueza, mas no ajuste do padrão de vida de modo a não depender de questões políticas e econômicas regidas por personagens tiranos.

Quem investe no mercado de capitais e gosta de ler, já ouviu falar de autores como Taleb e Damodaran. O primeiro é conhecido por sua abordagem sobre o caos e pela necessidade de ser antifrágil para se proteger dos “cisnes negros”. O segundo é o guru do Valuation e do manejo de investimentos.

Logicamente a leitura de seus livros é sempre válida, mas há outros autores que merecem ser conhecidos. Entre eles está Alain de Botton. Já tratamos da resenha de um de seus livros no site da Suno Research: “Desejo de status”. Ele não aborda diretamente as questões comportamentais de investidores no mercado financeiro, mas como catalisador de autores clássicos da História, podemos tirar valiosas lições de seu discurso.

O pessimismo segundo Botton

Alain de Botton prega que as pessoas devem ser mais pessimistas. Para ele, “o otimismo é a maior falha do mundo moderno”.  No entanto, o pessimismo a que se refere o filósofo não é aquele relacionado com a alimentação de pensamentos negativistas, mas tão somente aquele que combate o excesso de expectativas, pois são expectativas não realizadas as maiores causadoras das frustrações para as pessoas.

Por exemplo:

“Vou cursar Economia na melhor faculdade de São Paulo e depois terei um ótimo emprego.”

“Vou namorar aquela pessoa e em breve ela vai se casar comigo.”

Pode ser que essas coisas não aconteçam e isso seria normal. Mas o otimista talvez pense que isso terá sido um grande azar e que não deveria ter acontecido come ele. Grandes expectativas frustradas causam grandes estragos emocionais.

O espirro

Suponha que alguém espirrou na rua. Se for um otimista, ele poderá pensar:

“Foi só um espirro. Tem muita poeira nesta calçada.”

Já se for um pessimista, o pior será esperado:

“Será que vou ficar gripado e perder três dias de trabalho? Vou adiantar alguns compromissos para esta semana ainda hoje.”

No dia seguinte o sujeito ficou resfriado. Como otimista ele ficaria chateado. Mas o pessimista conclui:

“Oba, foi só um resfriado. Posso trabalhar. Vou sarar mais rápido.”

Como esta lógica funciona na Bolsa de Valores?

Estamos no primeiro semestre de 2019, numa encruzilhada histórica no Brasil. Mais uma vez o Congresso discute a Reforma da Previdência. Como um otimista convicto pode reagir a isto?

“A Reforma será aprovada integralmente. A Bolsa vai subir feito um foguete. Vou comprar todas as ações que puder agora.”

E para o pessimista, como seria sua visão?

“Esta reforma não sai de jeito nenhum. É questão de tempo para que os investidores estrangeiros comecem a tirar dinheiro daqui. A Bolsa vai despencar. Como as ações das melhores empresas ficarão mais baratas, vou dividir meus aportes em ativos de renda variável e títulos resgatáveis de renda fixa, para poder comprar de baciada quando os demais estiverem desesperados para vender.”

Provavelmente não vai acontecer nem uma coisa nem outra (podem me cobrar no futuro sobre isso). A Reforma da Previdência não será aprovada integramente, em tempo ágil, e nem cancelada. Podem ocorrer atrasos e uma Reforma modificada que sustente o cenário brasileiro por mais alguns anos. Os detalhes deste procedimento são imprevisíveis, mas qualquer coisa que acontecer no meio do caminho vai beneficiar o investidor pessimista, e não o otimista demais.

Precaução, canja de galinha e Rock

De fato, a Bolsa de São Paulo está num momento que favorece os otimistas: beirando os 100 mil pontos e ultrapassando um milhão de CPFs cadastrados – um recorde histórico. Tem muita gente empolgada mergulhando de cabeça na renda variável. É questão de tempo para a frustração pegar muitos de surpresa. Mas os poucos pessimistas seguem firmes, esperando pelo pior, uma vez que qualquer coisa diferente disso será lucro.

Epicuro cultivava hábitos simples e se vestia sem pompas. A comida que o alimentava era saudável, embora pouco sofisticada, mas ele fazia questão de fazer as refeições entre amigos. Quando lhe ofereciam um talho de queijo, o presente era recebido como um banquete. O mestre de Alain de Botton tinha poucas expectativas: se fosse um investidor moderno na Bolsa de Valores, teria grandes chances de sucesso.

Não temos mais a maioria de seus 300 livros para ler. Seus escritos se perderam com os milênios. Mas podemos ouvir um Pop Rock para compensar. Um dos grandes sucessos do Muse, “Starlight”, trata justamente disso. No refrão eles cantam:


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terça-feira, 12 de março de 2019

Sobre o pirata da perna de pau e os parasitas sem pernas

A caravela do Parque Taquaral em Campinas é um réplica das naus que descobriram o Brasil.
A caravela do Parque Taquaral em Campinas é um réplica das naus que descobriram o Brasil.

Escrever um livro é como navegar com uma caravela: pode ser um longa jornada até completar a travessia do oceano. Eu e o Tiago Reis, fundador da Suno Research, conhecemos bem esta experiência, pois já escrevemos dois livros juntos. O primeiro foi o Guia Suno Dividendos e o segundo foi o Guia Suno de Contabilidade para Investidores.

Para nossa surpresa, verificamos que tem gente vendendo o arquivo pirata do Guia Suno Dividendos no Mercado Livre. Os advogados da Suno já acionaram esta plataforma de negócios em algumas ocasiões e parece que o resultado não foi animador. Veja o que o Tiago escreveu no dia 12 de março de 2019 em seu perfil no Instagram:

"Quem quiser comprar meu livro, está com desconto no Mercado Livre.

A mercadoria é pirateada mesmo e não me paga royalties. Por isso é mais barata.

Aparentemente é mais fácil vender livros pirateadas por lá, do que o autor tirar seus livros pirateados de lá.

Já tentei varias vezes, sem sucesso, tirar os meus livros pirateados do @mercadolivre .

Desisti. Resolvi abraçar a causa: se você quiser adquirir meu livro pirateado vá lá no Mercado Livre.

Tá mais barato que na @amazon, que me paga royalties e não vende mercadoria pirateada.

PS: aproveito para marcar aqui o COO do Mercado Livre, o Sr. @stelleotolda , para que possa ajudar nas dúvidas que possam surgir para aqueles que querem adquirir meu livro plagiado no mercado livre.

PS 2: para os conservadores, reacionários e caretões que não querem comprar mercadoria pirateada, eu recomendo adquirir meu livro na @amazonbrasil . Em um minuto você adquire e já sai lendo no Kindle."

Como parceiro de trabalho do Tiago no livro, tive que ser solidário, comentando o seguinte:

"Um pirata autêntico ainda é digno de alguma compreensão, afinal de contas ele embarcou numa caravela prosaica, navegou pelos mares, arriscou a vida. Se tivesse colocado suas capacidades para fazer algo de bom, teria alcançado alguma honra. Mas quem vende um livro que não escreveu, não é um pirata, é apenas um parasita. Não se arriscou e não se dedicou para nada, e não teria talento algum para vencer na vida por conta própria. Quem se apropria de um ativo intelectual alheio se junta ao que há de pior entre os bandidos, posto que sequer é digno de honra entre eles."

De nossa parte seguiremos escrevendo e velejando no oceano da dedicação. Não temos medo de piratas e muito menos de parasitas. O que temos ninguém pode roubar integralmente: a nossa criatividade e o nosso trabalho honrado.

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sábado, 9 de março de 2019

Posto, postura e compostura

“O assassinato de Júlio César” (1804~1805), pintura de Vincenzo Camuccini (1771-1844) exposta na Galeria Nacional de Arte Moderna e Contemporânea em Roma, Itália.
“O assassinato de Júlio César” (1804~1805), pintura de Vincenzo Camuccini (1771-1844) exposta na Galeria Nacional de Arte Moderna e Contemporânea em Roma, Itália.

O provérbio já ensinava há dois milênios que para “a mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta”. Pompeia perdeu o posto de esposa do pontífice romano em função de uma festa mal organizada. Este episódio oferece ensinamentos até hoje.

Uma sociedade minimamente organizada e desenvolvida pode ser analisada pelo seu grau de formalismo e hierarquia, de modo que quanto maior o cargo que uma pessoa ocupa nesta sociedade, maior será a cobrança em relação ao seu comportamento público e também privado.

Mais poder: mais cobrança

Tomemos como exemplo uma fabricante de carros com motores elétricos. Ao funcionário responsável pela correspondência e pequenos serviços, o chamado office-boy, eventualmente lhe é permitido usar camisetas estampadas, e o que ele diz tem pouca ou nenhuma repercussão. Já o operário que trabalha na linha de produção é obrigado a usar um macacão e equipamentos de segurança: ele pode ser repreendido pelo simples fato de não estar usando um protetor auricular – o que seria uma falha de postura. Vale registrar que o chefe, ao lhe chamar a atenção, deve fazer isso respeitando a compostura do ambiente de trabalho, sob a pena de ser acusado de praticar assédio moral.

Subindo ao mezanino temos os funcionários nos escritórios. Deles certamente se espera que usem camisas com colarinhos, com a logomarca da empresa no bolso esquerdo do peito. Uma série de condutas é imposta para eles antes mesmo de suas admissões no trabalho. O setor de recursos humanos que os recruta não analisa apenas o currículo de cada um, mas também o perfil em redes sociais. Uma foto de bebedeira no casamento do primo há cinco anos já é suficiente para prejudicar a carreira de alguém.

A secretária do diretor deve se vestir impecavelmente, além de caprichar na maquiagem e no cabelo. É imprescindível falar duas ou três línguas e causar uma boa impressão em qualquer reunião com agentes de outras companhias, autoridades governamentais, outros diretores. Estes são fiscalizados até fora do ambiente de trabalho: em viagens de avião, em restaurantes, no trânsito. O comportamento cordial que eles devem manter pode refletir na imagem que a empresa tem perante a opinião pública, cada vez mais subsidiada pelo imediatismo da Internet, com seus milhões de olhos e ouvidos eletrônicos.

Chegamos ao posto do presidente ou comandante em chefe da companhia. O mercado presta atenção em absolutamente todas as suas declarações. As cotações das ações das empresas podem variar em função disso. Se o CEO da fabricante de carros publicar uma frase infeliz no Twitter, as ações da sua empresa podem despencar no pregão da Bolsa no dia seguinte, fazendo o negócio perder milhões de dólares em valor de mercado.

Só um tirano não é fiscalizado

O conselho da empresa que representa os acionistas pode considerar isso uma falha eventual de compostura, mas se ela for repetida uma segunda vez – quem sabe uma terceira ou quarta vez – pode configurar uma falha de postura do presidente, que insiste em comentários infelizes que repercutem pessimamente. Esta situação pode chegar ao ponto do conselho pedir a renúncia do presidente na companhia.

Repare que, neste exemplo, o dirigente máximo da empresa primeiro perdeu a compostura, depois perdeu a postura e finalmente perdeu o posto. Não por acaso, posto, postura e compostura são palavras com a mesma raiz.

Gestores são espelhos das entidades que representam

Investidores de longo prazo não analisam apenas os resultados de uma empresa, sua lucratividade, seu potencial de crescimento e outros fundamentos. Eles analisam também a qualidade dos gestores, seu comprometimento com o negócio, suas posturas e composturas, dado que isso reflete na confiabilidade que eles transmitem, ou não, para os agentes do mercado.

Na política ocorre algo semelhante, especialmente em países democráticos. Quanto maior o cargo que um mandatário ocupa, maior será a exigência sobre seu decoro e respeito à etiqueta – uma palavra que eventualmente pode ficar fora de moda, mas que anda de mãos dadas com a ética.

Requisitos para debates e mandatos

Uma situação é a campanha eleitoral. Para que haja um debate político, se espera das pessoas que ocupam os postos de candidatos que tenham posturas claras frentes aos temas mais pertinentes que se apresentam no cenário. Além disso, se espera que eles tenham compostura para debater, respeitando o pensamento contraditório sem desqualificar os oponentes por outros meios que não sejam as argumentações em torno do tema discutido.

Um candidato pode ser um gentleman, um perfeito diplomata e o rei da compostura, mas se ele não tiver posturas claras em questões políticas – ou seja, é um sujeito que no jargão popular “fica em cima do muro” – ele não será respeitado e não merecerá o voto do eleitor.

De outro lado podemos ter alguém absolutamente incisivo e radical frente às demandas da sociedade. De pouco adiantará se for alguém despreparado para falar em público, cujo vocabulário inclui palavrões e expressões chulas. Igualmente é um candidato desqualificado para o cargo almejado.

Por vezes o eleitorado fica sem alternativas e escolhe aquele que considera o menos pior. Porém, não importa quem seja o vencedor: quando um candidato – a quem se permite que fale o que seu eleitorado quer ouvir – se converte em mandatário, ele passa a dever satisfações não apenas para seus eleitores, mas para a totalidade da população. Portanto, a liturgia do cargo deve ser respeitada. Aquele que não deseja ser cobrado por isso não merece o cargo que ocupa.

O mercado não perdoa

O mercado – esse sujeito sem face, volátil e ubíquo – igualmente monitora as declarações dos principais líderes políticos mundiais. Através das grandes empresas de alcance global, o mercado exerce forte influência sobre os corpos diplomáticos das nações e isso repercute nas destinações de bilhões e bilhões de dólares via relações comerciais permeadas de interesses econômicos entre países e blocos de países.

Uma bobagem impensada, de um presidente que se comporta como um eterno candidato em palanque virtual, pode literalmente atrasar o desenvolvimento de um país. Não basta que ele tenha uma postura clara, que eventualmente agrade ao mercado, é preciso que ele se atenha à compostura, se quiser preservar seu posto.

Os eleitores de uma nação são como os acionistas de uma empresa de capital aberto: se as coisas não vão bem com os gestores, o caminho é provocar o conselho de representantes. Isso funciona bem no capitalismo e deveria funcionar melhor numa democracia.

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sábado, 23 de fevereiro de 2019

O Pico do Gavião entre Andradas (MG) e Águas da Prata (SP)

A pedida do domingo era almoçar no restaurante da Casa Geraldo, produtora de vinhos de mesa em Andradas, no sul de Minas Gerais. Depois de comer como um pedreiro, você se sente na Toscana por alguns instantes. Estava quente: mais de 30 graus Celsius, mas a brisa que vinha das nuvens prenunciava pancadas de chuvas.
A pedida do domingo era almoçar no restaurante da Casa Geraldo, produtora de vinhos de mesa em Andradas, no sul de Minas Gerais. Depois de comer como um pedreiro, você se sente na Toscana por alguns instantes. Estava quente: mais de 30 graus Celsius, mas a brisa que vinha das nuvens prenunciava pancadas de chuvas.

A gente fez de conta que não ia chover, pois queríamos conhecer o Pico do Gavião, acessível por uma estrada de terra que parte da ligação entre Andradas e Poços de Caldas. Os primeiros quilômetros são tranquilos entre os eucaliptais.
A gente fez de conta que não ia chover, pois queríamos conhecer o Pico do Gavião, acessível por uma estrada de terra que parte da ligação entre Andradas e Poços de Caldas. Os primeiros quilômetros são tranquilos entre os eucaliptais.

Porém, a estrada logo ficou sinuosa e esburacada, com aclives e declives acentuados. Começou a chuviscar. Isso elevou o nível de água de um córrego que cruza o caminho sem ponte. Ainda bem que nosso carro tinha suspensão mais elevada. Ainda assim a água molhou as borrachas das portas.
Porém, a estrada logo ficou sinuosa e esburacada, com aclives e declives acentuados. Começou a chuviscar. Isso elevou o nível de água de um córrego que cruza o caminho sem ponte. Ainda bem que nosso carro tinha suspensão mais elevada. Ainda assim a água molhou as borrachas das portas.

A chegada no Pico do Gavião compensou os momentos de tensão. O lugar oferece ampla visão das cidades da região lá embaixo, como Mogi Guaçu e São João da Boa Vista, no Estado de São Paulo. A temperatura despencou para 18 graus naquele momento.
A chegada no Pico do Gavião compensou os momentos de tensão. O lugar oferece ampla visão das cidades da região lá embaixo, como Mogi Guaçu e São João da Boa Vista, no Estado de São Paulo. A temperatura despencou para 18 graus naquele momento.

O Pico do Gavião é uma propriedade particular. Há cobrança de ingresso para os carros que vão até lá. Mas o local conta com sanitários, lanchonete e alguns espaços de contemplação da exuberante paisagem, onde a paz e a mansidão acalmam as pessoas.
O Pico do Gavião é uma propriedade particular. Há cobrança de ingresso para os carros que vão até lá. Mas o local conta com sanitários, lanchonete e alguns espaços de contemplação da exuberante paisagem, onde a paz e a mansidão acalmam as pessoas.

Como o clima estava instável naquele dia, poucos esportistas estavam no Pico do Gavião, que tem uma plataforma de salto para Asas Deltas e de onde praticantes de Paraglider e Parapente também alçam voos. Tentei registrar uma decolagem, mas o sujeito se virou para mim, cancelando a partida.
Como o clima estava instável naquele dia, poucos esportistas estavam no Pico do Gavião, que tem uma plataforma de salto para Asas Deltas e de onde praticantes de Paraglider e Parapente também alçam voos. Tentei registrar uma decolagem, mas o sujeito se virou para mim, cancelando a partida.  

Ele viu meus cabelos eriçados e desistiu de voar. A explicação era que o céu estava descarregando eletricidade estática e que isso pode ocasionar choques em pleno voo, fora que os cabelos, quando ficam eriçados repentinamente, indicam a grande possibilidade de um raio cair por perto. Vivendo e aprendendo.
Ele viu meus cabelos eriçados e desistiu de voar. A explicação era que o céu estava descarregando eletricidade estática e que isso pode ocasionar choques em pleno voo, fora que os cabelos, quando ficam eriçados repentinamente, indicam a grande possibilidade de um raio cair por perto. Vivendo e aprendendo. 

Na hora de ir embora, optamos por descer pelo caminho até Águas da Prata, já no Estado de São Paulo, para evitar cruzar o riacho sem ponte novamente. Era um percurso mais longo: 17 quilômetros de terra contra 11 do percurso de ida. Mas o visual da zona rural enchia os olhos. Parecíamos transitar por um grande jardim.
Na hora de ir embora, optamos por descer pelo caminho até Águas da Prata, já no Estado de São Paulo, para evitar cruzar o riacho sem ponte novamente. Era um percurso mais longo: 17 quilômetros de terra contra 11 do percurso de ida. Mas o visual da zona rural enchia os olhos. Parecíamos transitar por um grande jardim.

O tempo abria janelas de sol e lindas paisagens se revelavam. Depois de guiar escorregando no estreito leito carroçavel, entre barrancos e penhascos, avistei esta linda capelinha. Estacionei o carro e deixei a adrenalina baixar. É um prazer encontrar pequenas edificações de arquitetura vernacular escondidas no interior do Brasil.
O tempo abria janelas de sol e lindas paisagens se revelavam. Depois de guiar escorregando no estreito leito carroçavel, entre barrancos e penhascos, avistei esta linda capelinha. Estacionei o carro e deixei a adrenalina baixar. É um prazer encontrar pequenas edificações de arquitetura vernacular escondidas no interior do Brasil.

Hoje você desliza os dedos em alguns comandos de aplicativos na tela de seu smartphone, e entregam tudo na sua casa: de comida japonesa até automóveis. Mas houve um tempo no qual as pessoas tinham que percorrer quilômetros em estradas de terra para se abastecer com itens básicos nos armazéns das roças. Farinha de fubá, banha de porco, grãos de café, panos para remendar velhas calças. Ainda hoje gosto de passear pelo campo, em busca de armazéns escondidos. Não para me abastecer de coisas materiais, mas para me abastecer de inspiração. Ainda não inventaram um aplicativo que te entrega isso na sua porta.
Hoje você desliza os dedos em alguns comandos de aplicativos na tela de seu smartphone, e entregam tudo na sua casa: de comida japonesa até automóveis. Mas houve um tempo no qual as pessoas tinham que percorrer quilômetros em estradas de terra para se abastecer com itens básicos nos armazéns das roças. Farinha de fubá, banha de porco, grãos de café, panos para remendar velhas calças. Ainda hoje gosto de passear pelo campo, em busca de armazéns escondidos. Não para me abastecer de coisas materiais, mas para me abastecer de inspiração. Ainda não inventaram um aplicativo que te entrega isso na sua porta.

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sábado, 26 de janeiro de 2019

Se meu criado-mudo falasse

Preste atenção no que seu criado-mudo tem a dizer.
Preste atenção no que seu criado-mudo tem a dizer.

Uma das primeiras memórias que lembro desta vida é da mamadeira que tomava antes de dormir, com pouco mais de três anos de idade. Sugava o leite morno e achocolatado pelo bico de borracha até criar vácuo. Quando soltava a boca para respirar melhor, o leite espirrava até o fundo da mamadeira, junto com o ar que entrava. Este fundo arredondado tinha um vinco entre vírgulas, que parecia um sorriso que hoje me faz sentir simpatia pela logomarca da Amazon.

Só depois de deixar um dedo de leite na mamadeira conseguia pegar no sono. Logicamente deixei este hábito. Aprendi a escovar os dentes e orar antes de dormir. E alguns anos depois troquei a mamadeira pelos gibis e depois pelos livros. Hoje não consigo dormir sem antes deixar um dedo na brochura de um livro, para terminar de ler no dia seguinte.

Meus livros vão se empilhando sobre o criado-mudo, aquele móvel com algumas gavetas que muita gente tem ao lado da cama. Minhas gavetas guardam algumas revistas de carros antigos, um mapa de Roma desatualizado, uma caixa com fotografias, o carregador do meu telefone celular, meu primeiro livro autografado por amigos no dia do seu lançamento, um relógio de bolso que nunca usei e alguns papéis e contas pagas.

Como é gostoso terminar a leitura de um capítulo de um bom livro, já com os olhos riscados pela areia do sono! É um momento entre a vigília e o estar acordado onde não sabemos exatamente o que é sonho e realidade, quando os pensamentos ordinários do dia dão lugar à queima de fogos que se forma nas telas das pálpebras, sem emitir qualquer ruído.

Certa noite chovia cântaros sobre minha casa. Um estrondo no céu anunciou um raio descendo sem asas pelas paredes do meu quarto. A descarga elétrica iluminou o criado-mudo por trás e ele começou a emitir sons de estática feito um rádio mudando de estação. Subitamente comecei a ouvir uma voz de pato esganiçado, como se fosse um efeito especial de televisão, quando a testemunha de um crime dá uma entrevista no jornal:

"Vaidade de vaidades, diz o pregador, vaidade de vaidades! Tudo é vaidade... Atentei para todas as obras que se fazem debaixo do sol, e eis que tudo era vaidade e aflição de espírito."

Lembrei que li estas passagens embaralhadas no livro bíblico de Eclesiastes.

"A escolha das ações ordinárias para a carteira do investidor defensivo deve ser um assunto relativamente simples. Cada companhia escolhida deve ser grande, conceituada e conservadoramente financiada. Indefinidos como esses adjetivos possam ser, seu sentido geral é claro... Deve haver uma diversificação adequada, porém não excessiva."

Agora o criado-mudo estava citando Benjamin Graham, autor de "O investidor inteligente". Suas frases aparentemente desconexas eram interrompidas por sons de estática e zumbidos de ondas curtas.

"Nunca coma nada que os homens das cavernas não comessem no período paleolítico. Saem alimentos processados, grãos, leguminosas e carboidratos processados e entram hambúrgueres de brontossauros (sem pão), oleaginosas, frutas, hortaliças integrais, peixes frescos e carnes magras."

Belo conselho de David Zinczenko em "Dieta das 8 horas". O que mais o criado-mudo tinha para contar?

"Não sou forte em História Geral e não sabia que, 120 anos atrás, a Suíça era subdesenvolvida e a mortalidade infantil enorme. Portanto, o Brasil tem chances, em um século, de virar primeiro mundo..."

Sua voz começava a fraquejar, pois a descarga elétrica estava se dissipando embaixo do meu estrado (que felizmente era de madeira e me protegeu de qualquer choque), mas pude lembrar que esta afirmação era de Ignácio de Loyola Brandão, reproduzida num livro de crônicas selecionadas que comprei em Campinas.

O último suspiro do criado-mudo, porém, foi de sua própria lavra:

- Traga... mais... livros...

Como dizem que um raio não cai no mesmo lugar duas vezes, a chance do criado-mudo me acordar novamente no meio da noite para fazer revelações relevantes é próxima de zero. Razão pela qual terei que continuar lendo os livros, que não transmitem conhecimento por osmose, salvo em crônicas de realismo fantástico.

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