domingo, 12 de setembro de 2021

Como eu vejo a arte

O texto a seguir foi publicado originalmente em 12/09/2017 no perfil do autor no Facebook.
O texto a seguir foi publicado originalmente em 12/09/2017 no perfil do autor no Facebook.

"

Vejo arte em tudo que significa superação e aprimoramento - quando o aluno vai além do que o mestre lhe ensinou.

Vejo a arte na busca do belo e na elevação do espírito humano.

Vejo arte quando ela revela o talento e a dedicação do artista, que entrega sua alma além de suas impressões digitais.

Vejo arte em algo inédito ou mesmo em algo tradicional, quando executado com maestria.

Não vejo arte na provocação pela provocação. Não vejo arte no blefe e na mera atitude conceitual, sem lastro criativo.

Arte não combina com proibição.

Mas ninguém pode ser forçado a ver arte onde ela não existe.

"

"Diogenes" (1882), pintura de John William Waterhouse  (1849–1917) pertencente ao acervo da Art Gallery of New South Wales, Austrália.
"Diogenes" (1882), pintura de John William Waterhouse  (1849–1917) pertencente ao acervo da Art Gallery of New South Wales, Austrália.

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sábado, 21 de agosto de 2021

As forquilhas do destino

Quantas bifurcações, quantas forquilhas, quantas possibilidades.
Quantas bifurcações, quantas forquilhas, quantas possibilidades.

Tem algo nas árvores que me fascina e não sei explicar exatamente o motivo. Sei que não estou sozinho nesta indagação. Logicamente, as árvores são repletas de simbolismo e, sem a sombra delas, a humanidade simplesmente não teria se desenvolvido.

As árvores fornecem madeira para móveis e edificações. As mais belas portas e janelas são feitas com madeiras nobres. Além disso, boa parte delas nos dão frutos, que são alimentos para o nosso corpo e o nosso espírito. Foi comendo o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal que Adão e Eva foram parar na Bíblia, uma coleção de livros cujo papel vem das árvores.

Lar para os pássaros, animais livres que nelas fazem seus ninhos, as árvores também fornecem lenha para cozinhar no sertão e para aquecer os lares nas noites mais frias. Será que é por isso que chamamos a lareira de lareira?

Ao contrário de nós, as árvores não podem se mover por conta própria. Elas não podem caminhar. Não podem peregrinar. Não podem viajar. Não podem escolher entre um caminho ou outro. Diante de uma bifurcação, elas não precisam escolher entre a esquerda e a direita. 

Porém, as árvores são repletas de bifurcações. Seus troncos se convertem em ramos, que se convertem em galhos, que sustentam as folhas. Observe uma folha de perto: ela é feita basicamente de ramificações. Deste modo, se uma árvore não pode escolher entre uma possibilidade e outra, ela se realiza dentre todas as suas possibilidades. Uma árvore constrói todos os seus caminhos dentro de si mesma e os percorre todos, o tempo todo, com a sua seiva.

Ao contrário da seiva, nós só podemos seguir por uma direção. Quer dizer, até podemos voltar atrás, mas nossas vidas não foram concebidas como um circuito fechado. Nossa viagem, assim como o tempo que interpretamos, tende a ser linear. Por isso, diferentemente das árvores, somos repletos de dúvidas, sempre que a vida nos apresenta uma bifurcação no meio da jornada.

- Bato o pênalti no alto ou chuto rasteiro?

- Faço um intercâmbio ou vou direto para a faculdade?

- Presto vestibular para jornalismo ou arquitetura?

- Procuro um emprego ou começo um negócio próprio?

- Digo que a amo ou faço o cara durão? 

- Caso ou compro uma bicicleta?

- Aporto nas ações da Taesa ou da Itaúsa?

Existem alguns momentos chaves em nossas vidas, cuja decisão binária muda completamente o nosso rumo no futuro. Quando conseguimos isolar esse momento de dúvida cristalina, é como se serrássemos uma bifurcação de uma árvore para compor uma forquilha. É com uma forquilha de madeira que os garotos da roça fazem seus estilingues. Com um pedaço de tripa de mico e um recorte de couro este brinquedo de caráter altamente filosófico está pronto.

Nós tendemos a pensar que devemos considerar uma possibilidade ou outra, quando chegamos num momento de indecisão, quer seja, numa bifurcação. Nessas horas lembre de um reles estilingue: a sua forquilha funciona como uma mira.

Então, para não sucumbir no vacilo entre A ou B, preto ou branco, quente ou frio; temos que ter um alvo, um propósito de vida, e a partir desse propósito devemos nortear nossas decisões. Inevitavelmente a dúvida e o questionamento fazem parte deste processo. São as grandes dúvidas e questionamentos que nos impulsionam para frente e para o alto. Essa é a função da tripa de mico elástica e do courinho na ponta oposta da forquilha.

No fim das contas, somos como pedras arremessadas, rolando por aí. Like a rolling stone.

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sexta-feira, 23 de julho de 2021

Luis Vabo Jr: "Falar em público é para você!"

O livro do Vabo é para ser lido, "escutado" e praticado.
O livro do Vabo é para ser lido, "escutado" e praticado.

Grandes oradores entraram para a história sem ter escrito um único livro. Os sermões de Jesus Cristo eram experiências arrebatadoras, que em certas ocasiões incluíam a realização de milagres como a multiplicação de peixes e pães. Mesmo quando ele falava para poucos, suas palavras ecoavam na eternidade, como na ocasião em que ele defendeu uma mulher flagrada em adultério: "atire  a primeira pedra quem nunca cometeu um pecado". Evangelistas como Mateus, Marcos, Lucas e João registraram seus ditos que reverberam em bilhões de seguidores até hoje.

A Apologia de Sócrates não foi escrita por Sócrates, mas por Platão. Sócrates nunca escreveu um livro, mas sua retórica revolucionou a filosofia na Grécia Antiga, de modo a concretar uma das sapatas do alicerce da Cultura Ocidental. Já Epicteto, o grande mestre dos estoicos, só é lembrado entre nós pois Flavio Arriano, um de seus discípulos, anotou a essência de suas palestras.

Há quem tenha sido mestre tanto na oratória quando na retórica e na escrita: Marco Túlio Cícero foi um jurista de renome nas três áreas. Sêneca estudou filosofia e retórica na Roma Antiga e, além de escrever peças de teatro, nos legou palavras sobre ética e felicidade. Seu contemporâneo, Paulo de Tarso, percorreu toda a costa oriental e setentrional do Mar Mediterrâneo, discursando sobre a salvação da alma e escrevendo epístolas que moldaram o comportamento dos europeus na Idade Média.

Oradores modernos

Avançando para o nosso tempo, temos registros sobre a postura confiante de Kennedy num debate eleitoral televisivo contra o inseguro Nixon, que mudou o curso dos Estados Unidos na década de 1960, a mesma em que Martin Luther King Jr chacoalhou os pilares da supremacia branca naquele país, com seus discursos incisivos contra o racismo.

Warren Buffett, um dos maiores investidores de todos os tempos, confessou que era um estudante tímido que tinha pavor de falar em público. Isso começou a mudar quando ele leu o livro “Como fazer amigos e influenciar pessoas”, de Dale Carnegie, com quem o presidente da Berkshire Hathaway fez um curso de oratória, cujo diploma é o único a ser exibido em seu escritório de Omaha.

Por estas breves linhas você já percebeu a importância de falar bem em público e que, provavelmente, você não é a única pessoa no mundo que eventualmente tem medo disso. De minha parte, posso afirmar que não tinha medo de falar em público - eu tinha pavor. Era tão tímido que não conseguia sequer dizer para uma garota que gostava dela.

Uma necessidade pessoal

Nos anos de 1990 a Internet estava apenas engatinhando, enquanto eu cursava Arquitetura na PUC de Campinas. Não havia esse mar de possibilidades para buscar informações que resolvessem nossos problemas. Tinha consciência de que se continuasse tímido, perderia muita coisa além das paqueras da juventude: perderia negócios e passaria fome como profissional liberal.

Encarei essa dificuldade fazendo teatro amador por dois anos. Apresentar peças na minha cidade, para plateias com dezenas de pessoas, foi libertador. Não foi fácil, pois isso me custou muita dedicação e muitos ensaios. Mas o resultado foi tão promissor que aconteceram duas coisas legais: fui convidado para seguir como ator (porém, recusei) e passei a ser o "apresentador oficial de trabalhos" no meu grupo da faculdade. 

Garanti boas notas para meus colegas naquela época e o mais importante: tive um começo promissor na carreira como arquiteto, pois defendia meus projetos com tanta confiança, que os clientes topavam pagar o que era pedido nas propostas para contar com os meus serviços, mesmo sabendo que alguns concorrentes cobravam bem menos.

Nos anos posteriores me apresentei em público com certa frequência, especialmente na comunidade religiosa que frequento. Também fui professor convidado da extinta Faculdade de Administração Pública de Paulínia, onde ministrei dois cursos. Somente muito tempo depois de formado, já atuando como escritor e editor, me deparei com um tipo específico de medo de falar em público, relacionado com as lives de apresentação de livros.

Cenários diferentes para desafios semelhantes

Você sabe: a Internet é uma fábrica de memes e nada fica impune. Uma frase mal colocada ou tirada de contexto e pronto: vão resgatar sua gafe sempre que seu nome vier à tona por qualquer razão. 

Porém, numa live, nem sempre temos apenas uma pessoa falando, mas pelo menos duas pessoas interagindo entre si e com o público. Aqui entra o componente da "Escutatória" - neologismo criado por Rubem Alves que dá título a uma de suas mais célebres crônicas, devidamente reproduzida no primeiro livro de Luis Vabo Jr: "Falar em público é para você!"

Este, inclusive, é o grande diferencial na proposta do Vabo: para ser um bom orador, primeiramente você deve ser um bom escutador, de modo que seu lançamento veio em muito boa hora, num momento onde qualquer pessoa munida de um smartphone pode ganhar voz nas redes sociais.

Com prefácio de Bernardinho (treinador de vôlei multimedalhista olímpico, multicampeão mundial e multitalentoso em oratória e motivação), a obra de Vabo sintetiza o que de melhor já se escreveu lá fora sobre oratória e retórica na modernidade, trazendo para os brasileiros um tema que é levado muito a sério, especialmente nos Estados Unidos.

Graduado em Engenharia da Produção pela PUC do Rio, Luis Vabo Jr logo ingressou no ambiente educacional, tendo sido professor na própria PUC e no Insper, e mestre em Administração de Empresas pela UFRJ. Foi ainda diretor da Stone Pagamentos e B2W Digital - o que fez dele um investidor-anjo e conselheiro de startups e scaleups. Dentre outros atributos Vabo é, atualmente, CEO do projeto "Além da Facul". Você pode segui-lo no Instagram.

Independente de sua área de atuação, recomendo a leitura de "Falar em público é para você!" e oriento que os exercícios propostos pelo Vabo sejam levados adiante. Nem sempre temos um grupo de teatro amador para nos ajudar a combater o medo de falar em público, mas o livro do Vabo está ao seu alcance por meio de poucos cliques na Internet. Basta acessar o portal da Amazon.

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sábado, 10 de julho de 2021

Devaneios escritos num 10 de julho

O Facebook tem uma ferramenta para te lembrar o que você postou em cada data, em anos passados. É algo interessante para constatar como já fomos ingênuos, ou idealistas, ou iludidos. Na maioria das vezes, quando acesso essas memórias, deixo elas trancadas em modo privativo. "Não deveria ter postado isso" - repito para mim mesmo. No entanto, de vez em quando sinto que escrevi algo mais perene. Neste caso, trago o conteúdo para este blog, que de certa forma nasceu da percepção de que não precisamos cultivar a horta de terceiros (Facebook) se podemos ter o nosso próprio pedaço de terra virtual (nossos blogs).

A seguir, reproduzo uma passagem escrita em 10 de julho de 2013:

Print Screen de imagem de satélite publicada pelo Google, sobre o loteamento Jardim Europa em Paulínia/SP.
Print Screen de imagem de satélite publicada pelo Google, sobre o loteamento Jardim Europa em Paulínia/SP.

"O assunto da vez é o vazamento de um segredo de estado: a espionagem que os Estados Unidos estão fazendo em escala global.

Vamos refletir um pouco?

Neste século 21 o usuário de Internet pode até ser ignorante, porém não lhe é reservado o direito de ser ingênuo, por uma simples razão: não existe privacidade na rede virtual.

Ao acessar qualquer site na Internet os dados do usuário estão expostos não apenas para agentes secretos da CIA ou da NSA, mas também para qualquer garoto aspirante a hacker.

Mesmo quem não usa a Internet ou o telefone celular, já é "espionável", senão vejamos:

1) Quando o Google tira uma foto de satélite que mostra a sua casa, o que é isso? Só uma coisa bacana? Uma facilidade para os amigos pesquisarem o caminho mais perto para ir no seu churrasco?

2) Quando a prefeitura de qualquer cidade usa a mesma imagem de satélite do Google para aumentar o valor do IPTU de um imóvel ampliado sem projeto, isso é só uma fiscalização ou uma invasão de privacidade?

3) Quando você publica uma foto no Facebook e perde uma vaga de emprego pois seu ex-futuro-chefe não gosta de gente tatuada que bebe cerveja, isso é o que? Uma investigação do setor de recursos humanos da empresa? Isso não deixa de ser espionagem, desta vez com a facilitação do próprio alvo da abordagem.

Reforçando: não existe privacidade e segurança absoluta nas telecomunicações. É muita ingenuidade imaginar que os países, não só os Estados Unidos, não fazem coleta de dados.

Ou você acha que o SPAM que vem da China, oferecendo um produto ou serviço que você precisa naquele momento, chega na sua caixa de entrada do e-mail por acaso?

No fim de 2012, na semana em que fechei o contrato com a gráfica do meu primeiro livro, recebi uma mensagem de uma gráfica chinesa, com valores absolutamente irrisórios. Mantive a palavra com a gráfica brasileira e não me arrependi. Mas quantas pessoas, no meu lugar, pensariam diferente?

Obviamente pescaram a informação de que eu estava pesquisando uma gráfica para o meu livro, através de palavras chaves digitadas na Internet.

Isso não deixa de ser assustador."

Um ano depois, foi isso que escrevi na rede social do Mark Zuckerberg, comentando uma fotografia de 26 de maio de 2013:

"O Neymar está indo para a Europa? Não se preocupem. Já estamos treinando os futuros craques do Brasil: Neylago e Neyrio."
"O Neymar está indo para a Europa? Não se preocupem. Já estamos treinando os futuros craques do Brasil: Neylago e Neyrio."

"Quando eu tinha doze anos de idade (no fim do século 20, faz tempo) era goleiro de futebol. Pedi para o meu pai me deixar treinar na escolinha do bairro João Aranha. Nosso técnico era de fato um professor, formado em Educação Física.

Ia começar o campeonato mirim da cidade e havia tantos jogadores que o João Aranha formou dois times. Um time forte e um time com a raspa do tacho. Para não ser reserva no time forte, fui jogar de titular no outro time, que se chamava Colorado.

Entramos no torneio sabendo que iríamos perder quase todas as partidas, e não deu outra. Mas eis que chegou o dia de enfrentar o time do River, que treinava no centro de Paulínia. Eles tinham o dobro da nossa altura e peso. Vamos lá: o importante é participar.

No final do primeiro tempo já estava 4 a 0 para eles. Quando o professor me trocou pelo goleiro reserva, deu a senha para os demais jogadores me acusarem de frangueiro: a culpa da goleada era minha!

O segundo tempo começou e o massacre apenas tomou vulto: 5, 6, 9 a zero. O goleiro deles começou a se arriscar na linha. De repente ele saiu tabelando com os demais jogadores. Foi bonito de ver, apesar do desespero: ele ficou livre na entrada da área e estufou a rede! Foi a primeira vez que vi um goleiro fazer um gol.

Resultado final: 12 a 1. Foi a maior derrota que sofremos jogando bola. Todo mundo saindo cabisbaixo do campo. O nosso goleiro reserva estava desolado. Fui o único a lhe dar um abraço e ele chorou no meu ombro. Caramba, tínhamos apenas doze anos!

A derrota é algo muito solitário. Especialmente quando alguém procura um culpado, como vão fazer com essa seleção brasileira que perdeu de 7 a 1 para a Alemanha.

Não tenho vergonha alguma de lembrar isso: perdemos por 12 a 1, mas no abraço que dei em meu amigo, o goleiro reserva, comecei a aprender sobre o valor da hombridade e da solidariedade. 

Nosso time do Colorado não abandonou o campeonato: seguimos em frente. A infância passou e hoje fico feliz em ver que muitos de nossos colegas de time são vencedores na vida. É isso que importa."

Deixem-me comunicar que Neylago e Neyrio não vingarão como jogadores de futebol, mas eles são dois estudantes incríveis. Ainda poderão ser craques no futuro, no que escolherem fazer de melhor.

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sábado, 19 de junho de 2021

"Coragem sob Fogo" dissecado pelos estoicos de Aracaju

"Coragem sob Fogo": o estoicismo em tempos modernos.
"Coragem sob Fogo": o estoicismo em tempos modernos.

Você estava quieto, na sua, flutuando em seu universo líquido, cuja abóbada celeste era uma placenta. Então, seu mundo acabou e você conheceu outra realidade, repleta de luz. O que num primeiro momento foi algo traumático revelou-se um grande estágio na sua evolução pessoal.

Algo semelhante - e paradoxalmente oposto - aconteceu com James Bond Stockdale, piloto de avião de caça dos Estados Unidos, quando foi abatido em pleno voo no Vietnã do Norte. Ao pular de paraquedas, ele teve a consciência de mergulhar num lugar de trevas: um campo de prisioneiros de guerra, onde passou pouco mais de sete anos entre as décadas de 1960 e 1970.

Stockdale conseguiu suportar uma sequência de torturas e privações por ter incorporado e digerido para si o Manual de Epicteto, escrito por seu discípulo Arriano, quase dois milênios antes. Desta experiência surgiu o relato "Coragem sob Fogo: testando as doutrinas de Epicteto em um laboratório comportamental humano", que em 2021 ganhou uma versão traduzida para o português por Aldo Dinucci, Doutor em Filosofia e Professor da UFS - Universidade Federal de Sergipe.

Dinucci enriqueceu a edição brasileira deste pequeno grande livro com breves ensaios de outros Doutores e Doutorandos em Filosofia: Marcos Balieiro, Marcus de Aquino Resende, Joelson Nascimento e Vilmar Prata, todos de certa forma ligados à cidade de Aracaju, a capital do Sergipe, que vem se destacando como um polo da Filosofia Estoica no Brasil.

Do prefácio de Dinucci aos cinco apêndices complementares ao discurso de Stockdale, proferido no King's College de Londres em 1993, o que temos é uma grande preparação para a leitura do Enchirídion, nome erudito do Manual de Epicteto, um escravo liberto que viveu na Roma Antiga e influenciou, entre outros, o imperador Marco Aurélio, com seus ensinamentos éticos atemporais.

Deste modo, se o seu filho reclamar que o coleguinha da escola o insultou (praticando bullying), se o seu superior te isolou numa reunião de trabalho, se o seu subalterno ignorou uma orientação sua, se o seu cliente fez desdém de sua apresentação de produto ou serviço, se um barbeiro lhe tomou a vaga de estacionamento na rua; ou ainda qualquer coisa mais séria que lhe traga aborrecimentos, como uma doença, um acidente, um crime, um infortúnio: com a leitura atenta de "Coragem sob Fogo" você estará melhor preparado para enfrentar estas situações, embora terá que aprender a resolvê-las do seu modo.

A máxima de Epicteto, que ajudou a preservar a sanidade de Stockdale no cárcere, consiste em separar as coisas que estão sob o controle do indivíduo das coisas que não estão, e que o indivíduo sofre mais em função do juízo que faz das coisas externas do que propriamente o mal que tais coisas podem causar.

No mais, não espere encontrar aqui a síntese desta obra, que pode ser encomendada pela Internet. Levará mais dias para o livreto chegar até você, pelos Correios, do que horas necessárias para realizar a primeira leitura dele, repleta de insights que podem impactá-lo por tempo indeterminado.

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sábado, 12 de junho de 2021

O boom e o deslocamento de ar

O Supermercado Pague Menos da Avenida José Paulino, em Paulínia, ainda queimava no dia seguinte ao incêndio que o arruinou.
O Supermercado Pague Menos da Avenida José Paulino, em Paulínia, ainda queimava no dia seguinte ao incêndio que o arruinou.

Já estava deitado, esperando o sono chegar, naquela hora em que você fecha os olhos e vislumbra flashes coloridos projetados no costado das pálpebras. Então, veio aquele estrondo abafado. Numa fração de segundos as folhas das venezianas da porta balcão do quarto balançaram. Imediatamente senti um deslocamento de ar em minha face, pressionando minha bochecha contra a arcada dentária.

"Será que explodiu um tanque na refinaria de petróleo?" - pensei. Há uns 25 anos isso aconteceu, de fato, iluminando o interior da nossa casa como se o sol tivesse se levantado e se posto na velocidade de um míssil. 

Minha esposa logo perguntou o que aconteceu. 

- Será que alguém bateu o carro na bomba do posto de gasolina? - respondi, enquanto a sirene do caminhão dos bombeiros ecoava lá fora.

Impaciente, ela acessou o telefone celular. Já estavam postando vídeos sobre as labaredas se apossando de um supermercado. Em poucos minutos, uma rede de cinegrafistas amadores e repórteres de ocasião se formou. Muitos chegaram antes mesmo dos jornalistas profissionais, cujas narrativas em nada acrescentaram ao fato de que ninguém sabia como o fogo começou.

Em circunstâncias assim verificamos que as pessoas são tomadas por uma curiosidade mórbida para testemunhar tragédias que não as envolvem diretamente. Nem o alívio de saber que não houve feridos atenua esse tipo de atração por ver as chamas avançarem sobre uma grande construção, enquanto alguns tentam combater o fogo.

Também é da natureza humana se comover com aqueles que foram dormir empregados e, no dia seguinte, acordaram sem ter onde bater o ponto. O dono da pastelaria, o gerente da farmácia, o rapaz da lojinha de informática: em poucas horas o ganha-pão deles virou cinzas. Pessoas terão que recomeçar suas vidas dos escombros, já que tiravam do antigo local de trabalho, outrora imponente, o seu sustento.

Então, em seguida, vem o alívio de saber que não fomos afetados e que nossa maior preocupação, neste caso, será procurar outro lugar para comprar arroz e feijão. Isso também é da natureza humana e reflete um sentimento que tangencia o egocentrismo, mas que protege as pessoas de ficarem imobilizadas diante do desespero de terceiros.

Ocorrências desse tipo vem para nos lembrar da fragilidade da condição humana. Por mais que tentemos estruturar um sistema de proteção para nossas necessidades - construindo coisas e desenvolvendo atividades econômicas - tudo pode ruir de uma hora para outra, literalmente. Nosso estado de saúde também pode ser abalado por algum acidente ou por alguma doença contagiosa. E não há muito o que fazer contra as forças do destino, exceto não se apegar tanto a um trabalho ou à própria qualidade de vida, embora agradecer por essas coisas, quando elas estão em ordem, me pareça ser uma obrigação.

No dia seguinte, fui pedalar minha velha bicicleta e passei na rua atrás do supermercado que pegou fogo. É estranho ver um prédio de grandes dimensões numa situação imprestável. Mas é questão de tempo para todos nós ficarmos imprestáveis um dia, pois o tempo é tão implacável quanto um incêndio alimentado por um estoque de bens perecíveis.

Então, enquanto esse dia não chega, vamos em frente tentando dar sentido para o caos que parece reger as entrelinhas do cotidiano.

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sábado, 22 de maio de 2021

Que nota você dá para a minha opinião?

"Henrique da Alemanha com seus estudantes", pintura de Laurentius de Voltolina (circa 1300) pertencente ao acervo de Kupferstichkabinett Berlin.
"Henrique da Alemanha com seus estudantes", pintura de Laurentius de Voltolina (circa 1300) pertencente ao acervo de Kupferstichkabinett Berlin.

Quando estava na faculdade de Arquitetura, em meados da década de 1990, a matéria que mais reprovava alunos era "Resistência dos Materiais". O professor dessa disciplina era simplesmente a pessoa mais temida do campus. Ao contrário dos demais mestres, ainda usava terno e gravata para dar aulas e conferia de viva voz a lista de presença, antes de suas explanações, como se fôssemos alunos do ensino fundamental.

Ao contrário dos demais alunos, ele só me chamava pelo sobrenome e sempre me via nas primeiras fileiras da sala. Não porque eu gostasse do assunto, mas porque tinha pavor de ser reprovado e sabia que ficava nervoso em dia de prova. Então, tratei de entender tudo daquelas fórmulas e procedimentos. Realizava os exercícios direitinho. 

Enquanto tudo era só um treino, beleza. Mas um dia o professor anunciou a data do exame semestral. Senti o bloqueio mental na hora, mas não contei para ninguém. Uma menina veio me procurar. Ela estava claramente apavorada. Os cálculos não entrevam na cabeça dela. Pediu minha ajuda.

Diante dela recobrei meu ordenamento mental. Ao tentar ensiná-la, percebi que tinha domínio do assunto. Fiquei feliz, pois ela disse que eu ensinava aquilo de um jeito mais fácil de entender. A confiança tomou conta de mim.

No dia D, na hora H, nem percebi que troquei o sinal de três das quatro questões. Precisava tirar nota cinco para passar direito, ou nota três para ficar de exame. O professor, após corrigir as provas, anunciou as notas em sala de aula, para todos os alunos.

"Fulano, nota 3,5, exame. Cicrana, nota 7,5, aprovada. Beltrano, nota zero, reprovado..."

A menina que ajudei, passando uma tarde fazendo exercícios com ela, tirou um dez redondo - e muito raro. Pensei, naquele momento, que se ela havia tirado dez, eu também tiraria.

"Tosetto, o que aconteceu Tosetto? Nota 2,5. Reprovado."

Como contaria isso para o meu pai? Havia acertado todos os encadeamentos das questões e os valores finais, mas por causa do nervosismo, eram valores trocados - o que era positivo virou negativo em algum ponto da equação. Na prática, isso quer dizer que meus prédios desabariam, caso eu fizesse os cálculos estruturais, pois adicionaria ferragens nas camadas erradas das vigas.

Estava desolado, segurando para não chorar, o que seria uma vergonha imensa. A menina veio perto de mim e tentou entender o que aconteceu. Ela disse claramente que eu havia ensinado o conteúdo da prova para ela. O professor viu a cena.

"Tosetto, vem aqui. Sei que você sabe fazer os cálculos. Você ficou ansioso sem necessidade. Vou deixar você de exame."

O carrasco da universidade abriu uma exceção. Não poderia desapontá-lo e tratei de estudar ainda mais. No dia do exame, imaginava que tiraria dez ou zero. Ao entregar a prova, o professor fez a correção na hora. Acertei os dois primeiros exercícios. Errei os dois finais pelo mesmo motivo: troca de sinais. Nota cinco.

"Tosetto, você tem um problema. Você fica nervoso durante a prova. Mas no dia a dia é um bom aluno. Você passou."

Sem ponto de exclamação, mesmo. Esse era o jeito dele, que apertou a minha mão, olhando dentro dos meus olhos marejados. Até sair daquele anfiteatro, segurei minha alegria. Mas a caminho do carro, no estacionamento, saltitava de felicidade. Dirigindo de volta para casa, abaixei a janela do Fusca e gritei de exaltação em plena rodovia. Acostumado com a notas azuis (A e B) no ensino fundamental, nunca comemorei tanto uma nota cinco.

Anos depois, já formado, passei um fim de semana na praia. Caminhando na areia, me deparei novamente com o professor, só de sunga, acompanhado de sua filha (linda, com todo o respeito). Paramos para conversar e aquilo foi surreal, pois não entrava na minha caixola ver alguém tão rígido e formal de uma forma totalmente descontraída. Naquele momento entendi que o Cicarelli era um ser humano. Não lembro o primeiro nome dele, mas lembro que agradeci novamente seu gesto de benevolência.

Ele ficou sabendo que meus projetos estavam se desenvolvendo bem - e que nenhum deles era inseguro do ponto de vista estrutural, pois o ato de projetar é mais parecido com ensinar alguém que não entende do assunto, do que com a formalidade de sentar numa cadeira de madeira gelada para realizar quatro questões em menos de 50 minutos, numa tarde de inverno.

A uberização das relações humanas

Pulemos um quinto de século no tempo. Ontem telefonei para a corretora de valores onde mantenho uma carteira de investimentos. Queria tirar uma dúvida que o robô do chat não sabia responder. Aguardei numa fila até ser atendido pelo Paulo, de 33 anos. Perguntei o nome dele. Perguntei a idade dele, que me esclareceu o que queria saber e foi além, realizando uma ordem de compra de ativo na mesa de operações para mim, pois aquele procedimento não poderia ser feito via Home Broker.

Não é que hoje chegou um e-mail solicitando uma avaliação formal do atendimento recebido? Fiquei com dó do Paulo. Não queria estar no lugar dele, pois sua profissão é atender investidores por telefone e simplesmente tudo que ele faz recebe algum tipo de nota. Não saberia viver sob tal estresse constante. Avaliei ele positivamente.

Essa mania foi cristalizada pelo aplicativo Uber. Nesta plataforma, os motoristas são avaliados pelos usuários 24 horas por dia, sete dias por semana, a cada simples trajeto realizado. O usuário acorda com as hemorroidas latejando e coitado do chofer, ex-gerente de fábrica, que não tinha uma almofada circular no banco traseiro do carro que era da sua esposa.

Há algumas semanas comprei livros pela Amazon. O sistema da empresa calculou o tempo médio de leitura de cada livro e, dias depois, disparou e-mails solicitando que eu desse notas para cada um, de uma para cinco estrelas. Neste caso, fiquei quieto. Mas percebi que cada vez mais somos todos avaliadores e avaliados, como se notas e estrelas contassem mais do que todo o contexto impossível de ser registrado em planilhas.

Por exemplo, O Manual de Epicteto, escrito por seu discípulo Flávio Arriano, é o suprassumo da filosofia estoica. Atravessou dois milênios inspirando gerações. A Amazon tinha que criar a sexta ou sétima estrela para obras primas como esta. Porém, na página que oferta o livro, vemos que ele tem apenas 4,8 estrelas. A maioria das pessoas reconhece o seu valor, mas apenas uma avaliação negativa derruba a média geral dele. Alguém deu apenas uma estrela para este clássico, com a seguinte justificativa:

"Livrinho de bolso !

Produto muito pequeno ! Apesar do bom conteúdo não servirá para coleção da biblioteca !"

Sim: a pessoa deixou os pontos de exclamação descolados das palavras. Que nota poderíamos dar para ela? Não. Não responda. Avaliar avaliadores seria o cúmulo da simplificação que deixa a nossa vida mais simplória. Dar notas para as coisas e para as pessoas é como tirar fotografias e esquecer do filme que conta as suas histórias. No entanto, são as histórias que contam, literalmente. Não é mesmo, Cicarelli?

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