segunda-feira, 11 de outubro de 2021

Ideais e ilusões

"A Família" (circa 1890), pintura de Henry Rousseau (1844-1910) pertencente ao acervo da Barnes Foundation, Filadélfia, Estados Unidos.
"A Família" (circa 1890), pintura de Henry Rousseau (1844-1910) pertencente ao acervo da Barnes Foundation, Filadélfia, Estados Unidos.

Os jovens devem saber a diferença entre ideais e ilusões. Os ideais podem ser carregados por toda a vida. Já as ilusões são como grilhões que prendem as pessoas a um futuro não realizado. É para isso que serve o passado: sepultar o plano que não deu certo e o amor que não vingou.

Vejo pessoas ao meu redor, na casa dos 40 anos, presas em rodas gigantes que as levam de volta para um tempo onde tudo era potencial: a carreira que decolaria, o casamento que seria um conto de fadas, a casa que seria de revista.

Só que a vida não acontece desse jeito. Para desfrutá-la intensamente é preciso amadurecer. Abrir mão daquilo que não deu certo. Esquecer. 

(Esquecer também é uma benção, quase tão boa quanto perdoar e receber perdão.)

A pergunta que devemos fazer é:

- O que podemos fazer com aquilo que temos em mãos?

Pois a felicidade está escondida nessas coisas que por vezes ignoramos, desprezadas que são perto daquelas que compõem nossos sonhos.

Enterremos nossas ilusões e veremos que na superfície temos aquilo que precisamos para seguir em frente, pois o tempo não espera.

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sábado, 9 de outubro de 2021

Os Ecos na Pandemia captados por Jaime Troiano

Ecos na Pandemia: coleção de textos que capturam o espírito de uma época.
Ecos na Pandemia: coleção de textos que capturam o espírito de uma época.

A gente navega pelas redes sociais e somos inundados com fake news grosseiras, elaboradas por gente má intencionada e, de certo modo, competente no que faz, dado que muita gente acredita nelas. Aí ligamos a televisão e vem o contra-ataque: o noticiário da TV é carregado de autoproclamados defensores da Ciência e baluartes da verdade engajada, que é aquele tipo de verdade que o politicamente correto tolera.

Deste modo, a Pandemia do Coronavírus ganha ares de uma guerra de narrativas na qual quem não é extremista precisa ficar de cabeça abaixada nas trincheiras do cotidiano, esperando a doença arrefecer e os moderados assumirem os microfones e teclados da nova normalidade, sabendo que, no fundo, nada disso vai acontecer.

Oasis de bom senso

Eis que Jaime Troiano apresenta seu livro "Ecos na Pandemia: Impressões sobre como nós, as empresas e as marcas temos nos comportado no novo normal". É preciso ler as primeiras páginas para vencer aquele receio de se deparar com mais uma obra radical, onde as tonalidades de cinza não são bem-vindas no preto versus o branco das convicções baseadas em algo que a nossa geração vive pela primeira vez. 

A propósito, é uma obra de miolo colorido, com tons suaves de cores que refletem a leveza da escrita do especialista em Branding. Aqui, temos que destacar o trabalho da designer Vivian Amaral que, com sua diagramação e suas ilustrações, conseguiu dar pinceladas de coautoria neste livro.

Jaime Troiano é o típico descendente de italianos que carrega no DNA aquele entusiasmo renascentista de não se conformar em ser apenas uma coisa. Com graduação em Engenharia e Sociologia, lemos que ele também sabe manejar ferramentas de marcenaria. Seu formão também é usado para arredondar os textos que ele escreve para grandes veículos de comunicação, nas brechas do tempo dedicado à Troiano Branding, que presta consultoria na análise de marcas e comportamento dos consumidores. 

Como todo bom escritor, Jaime é um observador discreto. É assim que ele faz a sua feira, comprando frutas, verduras e legumes, mas levando para casa, também, novas percepções a respeito do gosto dos clientes e da preferência deles pelas empresas que ostentam discursos alinhados aos propósitos, não apenas para competir no mercado, mas para deixar uma marca na sociedade.

Das pessoas às marcas

Até chegar aos ecos das marcas propriamente ditas, Jaime Troiano organizou sua antologia de breves artigos, escritos basicamente entre 2020 e 2021, num crescente começando por capítulos dedicados às pessoas, passando pelos ecos dos consumidores e ecos das empresas, de modo que as pessoas estão na raiz de tudo. Por trás das marcas temos as empresas, por trás das empresas temos os consumidores e por trás dos consumidores temos as pessoas. 

Logo, as marcas são feitas por pessoas, para pessoas. Entender como elas reagem a uma situação de Pandemia é essencial para propor direcionamentos futuros das marcas, sem esquecer aquilo que nos trouxe até aqui. Deste modo, cabe perguntar: o que mudará na essência do ser humano? O que seguirá imutável? Estas são algumas das questões que Troiano aborda em seus escritos.

Bem, se pudesse fazer uma ressalva sobre este livro, seria apenas uma sugestão para a editora Maggi Krause: cortar, numa possível segunda edição, a palavra "Bem" (seguida de vírgula) no início de alguns parágrafos, dado que se trata de uma redundância comum na comunicação oral, mas que não combina com a erudição do autor, que faz várias citações de livros, filmes, poetas e filósofos ao longo das páginas. 

Porém, isso pode ser apenas uma impressão rafaelista da minha parte, para usar uma expressão proposta pelo próprio Jaime, uma vez que esse "Bem" no começo de alguns parágrafos pode não incomodar a maioria dos leitores além do meu campo de visão.

De certo, "Ecos na Pandemia" é um livro para você ter na cabeceira da cama e ler sem pressa, para assimilar melhor o que um neorrenascentista com tempero paulistano tem para compartilhar, debaixo do pano da cesta de pasteis (numa referência a uma das melhores passagens da publicação).

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domingo, 12 de setembro de 2021

Como eu vejo a arte

O texto a seguir foi publicado originalmente em 12/09/2017 no perfil do autor no Facebook.
O texto a seguir foi publicado originalmente em 12/09/2017 no perfil do autor no Facebook.

"

Vejo arte em tudo que significa superação e aprimoramento - quando o aluno vai além do que o mestre lhe ensinou.

Vejo a arte na busca do belo e na elevação do espírito humano.

Vejo arte quando ela revela o talento e a dedicação do artista, que entrega sua alma além de suas impressões digitais.

Vejo arte em algo inédito ou mesmo em algo tradicional, quando executado com maestria.

Não vejo arte na provocação pela provocação. Não vejo arte no blefe e na mera atitude conceitual, sem lastro criativo.

Arte não combina com proibição.

Mas ninguém pode ser forçado a ver arte onde ela não existe.

"

"Diogenes" (1882), pintura de John William Waterhouse  (1849–1917) pertencente ao acervo da Art Gallery of New South Wales, Austrália.
"Diogenes" (1882), pintura de John William Waterhouse  (1849–1917) pertencente ao acervo da Art Gallery of New South Wales, Austrália.

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sábado, 21 de agosto de 2021

As forquilhas do destino

Quantas bifurcações, quantas forquilhas, quantas possibilidades.
Quantas bifurcações, quantas forquilhas, quantas possibilidades.

Tem algo nas árvores que me fascina e não sei explicar exatamente o motivo. Sei que não estou sozinho nesta indagação. Logicamente, as árvores são repletas de simbolismo e, sem a sombra delas, a humanidade simplesmente não teria se desenvolvido.

As árvores fornecem madeira para móveis e edificações. As mais belas portas e janelas são feitas com madeiras nobres. Além disso, boa parte delas nos dão frutos, que são alimentos para o nosso corpo e o nosso espírito. Foi comendo o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal que Adão e Eva foram parar na Bíblia, uma coleção de livros cujo papel vem das árvores.

Lar para os pássaros, animais livres que nelas fazem seus ninhos, as árvores também fornecem lenha para cozinhar no sertão e para aquecer os lares nas noites mais frias. Será que é por isso que chamamos a lareira de lareira?

Ao contrário de nós, as árvores não podem se mover por conta própria. Elas não podem caminhar. Não podem peregrinar. Não podem viajar. Não podem escolher entre um caminho ou outro. Diante de uma bifurcação, elas não precisam escolher entre a esquerda e a direita. 

Porém, as árvores são repletas de bifurcações. Seus troncos se convertem em ramos, que se convertem em galhos, que sustentam as folhas. Observe uma folha de perto: ela é feita basicamente de ramificações. Deste modo, se uma árvore não pode escolher entre uma possibilidade e outra, ela se realiza dentre todas as suas possibilidades. Uma árvore constrói todos os seus caminhos dentro de si mesma e os percorre todos, o tempo todo, com a sua seiva.

Ao contrário da seiva, nós só podemos seguir por uma direção. Quer dizer, até podemos voltar atrás, mas nossas vidas não foram concebidas como um circuito fechado. Nossa viagem, assim como o tempo que interpretamos, tende a ser linear. Por isso, diferentemente das árvores, somos repletos de dúvidas, sempre que a vida nos apresenta uma bifurcação no meio da jornada.

- Bato o pênalti no alto ou chuto rasteiro?

- Faço um intercâmbio ou vou direto para a faculdade?

- Presto vestibular para jornalismo ou arquitetura?

- Procuro um emprego ou começo um negócio próprio?

- Digo que a amo ou faço o cara durão? 

- Caso ou compro uma bicicleta?

- Aporto nas ações da Taesa ou da Itaúsa?

Existem alguns momentos chaves em nossas vidas, cuja decisão binária muda completamente o nosso rumo no futuro. Quando conseguimos isolar esse momento de dúvida cristalina, é como se serrássemos uma bifurcação de uma árvore para compor uma forquilha. É com uma forquilha de madeira que os garotos da roça fazem seus estilingues. Com um pedaço de tripa de mico e um recorte de couro este brinquedo de caráter altamente filosófico está pronto.

Nós tendemos a pensar que devemos considerar uma possibilidade ou outra, quando chegamos num momento de indecisão, quer seja, numa bifurcação. Nessas horas lembre de um reles estilingue: a sua forquilha funciona como uma mira.

Então, para não sucumbir no vacilo entre A ou B, preto ou branco, quente ou frio; temos que ter um alvo, um propósito de vida, e a partir desse propósito devemos nortear nossas decisões. Inevitavelmente a dúvida e o questionamento fazem parte deste processo. São as grandes dúvidas e questionamentos que nos impulsionam para frente e para o alto. Essa é a função da tripa de mico elástica e do courinho na ponta oposta da forquilha.

No fim das contas, somos como pedras arremessadas, rolando por aí. Like a rolling stone.

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sexta-feira, 23 de julho de 2021

Luis Vabo Jr: "Falar em público é para você!"

O livro do Vabo é para ser lido, "escutado" e praticado.
O livro do Vabo é para ser lido, "escutado" e praticado.

Grandes oradores entraram para a história sem ter escrito um único livro. Os sermões de Jesus Cristo eram experiências arrebatadoras, que em certas ocasiões incluíam a realização de milagres como a multiplicação de peixes e pães. Mesmo quando ele falava para poucos, suas palavras ecoavam na eternidade, como na ocasião em que ele defendeu uma mulher flagrada em adultério: "atire  a primeira pedra quem nunca cometeu um pecado". Evangelistas como Mateus, Marcos, Lucas e João registraram seus ditos que reverberam em bilhões de seguidores até hoje.

A Apologia de Sócrates não foi escrita por Sócrates, mas por Platão. Sócrates nunca escreveu um livro, mas sua retórica revolucionou a filosofia na Grécia Antiga, de modo a concretar uma das sapatas do alicerce da Cultura Ocidental. Já Epicteto, o grande mestre dos estoicos, só é lembrado entre nós pois Flavio Arriano, um de seus discípulos, anotou a essência de suas palestras.

Há quem tenha sido mestre tanto na oratória quando na retórica e na escrita: Marco Túlio Cícero foi um jurista de renome nas três áreas. Sêneca estudou filosofia e retórica na Roma Antiga e, além de escrever peças de teatro, nos legou palavras sobre ética e felicidade. Seu contemporâneo, Paulo de Tarso, percorreu toda a costa oriental e setentrional do Mar Mediterrâneo, discursando sobre a salvação da alma e escrevendo epístolas que moldaram o comportamento dos europeus na Idade Média.

Oradores modernos

Avançando para o nosso tempo, temos registros sobre a postura confiante de Kennedy num debate eleitoral televisivo contra o inseguro Nixon, que mudou o curso dos Estados Unidos na década de 1960, a mesma em que Martin Luther King Jr chacoalhou os pilares da supremacia branca naquele país, com seus discursos incisivos contra o racismo.

Warren Buffett, um dos maiores investidores de todos os tempos, confessou que era um estudante tímido que tinha pavor de falar em público. Isso começou a mudar quando ele leu o livro “Como fazer amigos e influenciar pessoas”, de Dale Carnegie, com quem o presidente da Berkshire Hathaway fez um curso de oratória, cujo diploma é o único a ser exibido em seu escritório de Omaha.

Por estas breves linhas você já percebeu a importância de falar bem em público e que, provavelmente, você não é a única pessoa no mundo que eventualmente tem medo disso. De minha parte, posso afirmar que não tinha medo de falar em público - eu tinha pavor. Era tão tímido que não conseguia sequer dizer para uma garota que gostava dela.

Uma necessidade pessoal

Nos anos de 1990 a Internet estava apenas engatinhando, enquanto eu cursava Arquitetura na PUC de Campinas. Não havia esse mar de possibilidades para buscar informações que resolvessem nossos problemas. Tinha consciência de que se continuasse tímido, perderia muita coisa além das paqueras da juventude: perderia negócios e passaria fome como profissional liberal.

Encarei essa dificuldade fazendo teatro amador por dois anos. Apresentar peças na minha cidade, para plateias com dezenas de pessoas, foi libertador. Não foi fácil, pois isso me custou muita dedicação e muitos ensaios. Mas o resultado foi tão promissor que aconteceram duas coisas legais: fui convidado para seguir como ator (porém, recusei) e passei a ser o "apresentador oficial de trabalhos" no meu grupo da faculdade. 

Garanti boas notas para meus colegas naquela época e o mais importante: tive um começo promissor na carreira como arquiteto, pois defendia meus projetos com tanta confiança, que os clientes topavam pagar o que era pedido nas propostas para contar com os meus serviços, mesmo sabendo que alguns concorrentes cobravam bem menos.

Nos anos posteriores me apresentei em público com certa frequência, especialmente na comunidade religiosa que frequento. Também fui professor convidado da extinta Faculdade de Administração Pública de Paulínia, onde ministrei dois cursos. Somente muito tempo depois de formado, já atuando como escritor e editor, me deparei com um tipo específico de medo de falar em público, relacionado com as lives de apresentação de livros.

Cenários diferentes para desafios semelhantes

Você sabe: a Internet é uma fábrica de memes e nada fica impune. Uma frase mal colocada ou tirada de contexto e pronto: vão resgatar sua gafe sempre que seu nome vier à tona por qualquer razão. 

Porém, numa live, nem sempre temos apenas uma pessoa falando, mas pelo menos duas pessoas interagindo entre si e com o público. Aqui entra o componente da "Escutatória" - neologismo criado por Rubem Alves que dá título a uma de suas mais célebres crônicas, devidamente reproduzida no primeiro livro de Luis Vabo Jr: "Falar em público é para você!"

Este, inclusive, é o grande diferencial na proposta do Vabo: para ser um bom orador, primeiramente você deve ser um bom escutador, de modo que seu lançamento veio em muito boa hora, num momento onde qualquer pessoa munida de um smartphone pode ganhar voz nas redes sociais.

Com prefácio de Bernardinho (treinador de vôlei multimedalhista olímpico, multicampeão mundial e multitalentoso em oratória e motivação), a obra de Vabo sintetiza o que de melhor já se escreveu lá fora sobre oratória e retórica na modernidade, trazendo para os brasileiros um tema que é levado muito a sério, especialmente nos Estados Unidos.

Graduado em Engenharia da Produção pela PUC do Rio, Luis Vabo Jr logo ingressou no ambiente educacional, tendo sido professor na própria PUC e no Insper, e mestre em Administração de Empresas pela UFRJ. Foi ainda diretor da Stone Pagamentos e B2W Digital - o que fez dele um investidor-anjo e conselheiro de startups e scaleups. Dentre outros atributos Vabo é, atualmente, CEO do projeto "Além da Facul". Você pode segui-lo no Instagram.

Independente de sua área de atuação, recomendo a leitura de "Falar em público é para você!" e oriento que os exercícios propostos pelo Vabo sejam levados adiante. Nem sempre temos um grupo de teatro amador para nos ajudar a combater o medo de falar em público, mas o livro do Vabo está ao seu alcance por meio de poucos cliques na Internet. Basta acessar o portal da Amazon.

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sábado, 10 de julho de 2021

Devaneios escritos num 10 de julho

O Facebook tem uma ferramenta para te lembrar o que você postou em cada data, em anos passados. É algo interessante para constatar como já fomos ingênuos, ou idealistas, ou iludidos. Na maioria das vezes, quando acesso essas memórias, deixo elas trancadas em modo privativo. "Não deveria ter postado isso" - repito para mim mesmo. No entanto, de vez em quando sinto que escrevi algo mais perene. Neste caso, trago o conteúdo para este blog, que de certa forma nasceu da percepção de que não precisamos cultivar a horta de terceiros (Facebook) se podemos ter o nosso próprio pedaço de terra virtual (nossos blogs).

A seguir, reproduzo uma passagem escrita em 10 de julho de 2013:

Print Screen de imagem de satélite publicada pelo Google, sobre o loteamento Jardim Europa em Paulínia/SP.
Print Screen de imagem de satélite publicada pelo Google, sobre o loteamento Jardim Europa em Paulínia/SP.

"O assunto da vez é o vazamento de um segredo de estado: a espionagem que os Estados Unidos estão fazendo em escala global.

Vamos refletir um pouco?

Neste século 21 o usuário de Internet pode até ser ignorante, porém não lhe é reservado o direito de ser ingênuo, por uma simples razão: não existe privacidade na rede virtual.

Ao acessar qualquer site na Internet os dados do usuário estão expostos não apenas para agentes secretos da CIA ou da NSA, mas também para qualquer garoto aspirante a hacker.

Mesmo quem não usa a Internet ou o telefone celular, já é "espionável", senão vejamos:

1) Quando o Google tira uma foto de satélite que mostra a sua casa, o que é isso? Só uma coisa bacana? Uma facilidade para os amigos pesquisarem o caminho mais perto para ir no seu churrasco?

2) Quando a prefeitura de qualquer cidade usa a mesma imagem de satélite do Google para aumentar o valor do IPTU de um imóvel ampliado sem projeto, isso é só uma fiscalização ou uma invasão de privacidade?

3) Quando você publica uma foto no Facebook e perde uma vaga de emprego pois seu ex-futuro-chefe não gosta de gente tatuada que bebe cerveja, isso é o que? Uma investigação do setor de recursos humanos da empresa? Isso não deixa de ser espionagem, desta vez com a facilitação do próprio alvo da abordagem.

Reforçando: não existe privacidade e segurança absoluta nas telecomunicações. É muita ingenuidade imaginar que os países, não só os Estados Unidos, não fazem coleta de dados.

Ou você acha que o SPAM que vem da China, oferecendo um produto ou serviço que você precisa naquele momento, chega na sua caixa de entrada do e-mail por acaso?

No fim de 2012, na semana em que fechei o contrato com a gráfica do meu primeiro livro, recebi uma mensagem de uma gráfica chinesa, com valores absolutamente irrisórios. Mantive a palavra com a gráfica brasileira e não me arrependi. Mas quantas pessoas, no meu lugar, pensariam diferente?

Obviamente pescaram a informação de que eu estava pesquisando uma gráfica para o meu livro, através de palavras chaves digitadas na Internet.

Isso não deixa de ser assustador."

Um ano depois, foi isso que escrevi na rede social do Mark Zuckerberg, comentando uma fotografia de 26 de maio de 2013:

"O Neymar está indo para a Europa? Não se preocupem. Já estamos treinando os futuros craques do Brasil: Neylago e Neyrio."
"O Neymar está indo para a Europa? Não se preocupem. Já estamos treinando os futuros craques do Brasil: Neylago e Neyrio."

"Quando eu tinha doze anos de idade (no fim do século 20, faz tempo) era goleiro de futebol. Pedi para o meu pai me deixar treinar na escolinha do bairro João Aranha. Nosso técnico era de fato um professor, formado em Educação Física.

Ia começar o campeonato mirim da cidade e havia tantos jogadores que o João Aranha formou dois times. Um time forte e um time com a raspa do tacho. Para não ser reserva no time forte, fui jogar de titular no outro time, que se chamava Colorado.

Entramos no torneio sabendo que iríamos perder quase todas as partidas, e não deu outra. Mas eis que chegou o dia de enfrentar o time do River, que treinava no centro de Paulínia. Eles tinham o dobro da nossa altura e peso. Vamos lá: o importante é participar.

No final do primeiro tempo já estava 4 a 0 para eles. Quando o professor me trocou pelo goleiro reserva, deu a senha para os demais jogadores me acusarem de frangueiro: a culpa da goleada era minha!

O segundo tempo começou e o massacre apenas tomou vulto: 5, 6, 9 a zero. O goleiro deles começou a se arriscar na linha. De repente ele saiu tabelando com os demais jogadores. Foi bonito de ver, apesar do desespero: ele ficou livre na entrada da área e estufou a rede! Foi a primeira vez que vi um goleiro fazer um gol.

Resultado final: 12 a 1. Foi a maior derrota que sofremos jogando bola. Todo mundo saindo cabisbaixo do campo. O nosso goleiro reserva estava desolado. Fui o único a lhe dar um abraço e ele chorou no meu ombro. Caramba, tínhamos apenas doze anos!

A derrota é algo muito solitário. Especialmente quando alguém procura um culpado, como vão fazer com essa seleção brasileira que perdeu de 7 a 1 para a Alemanha.

Não tenho vergonha alguma de lembrar isso: perdemos por 12 a 1, mas no abraço que dei em meu amigo, o goleiro reserva, comecei a aprender sobre o valor da hombridade e da solidariedade. 

Nosso time do Colorado não abandonou o campeonato: seguimos em frente. A infância passou e hoje fico feliz em ver que muitos de nossos colegas de time são vencedores na vida. É isso que importa."

Deixem-me comunicar que Neylago e Neyrio não vingarão como jogadores de futebol, mas eles são dois estudantes incríveis. Ainda poderão ser craques no futuro, no que escolherem fazer de melhor.

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sábado, 19 de junho de 2021

"Coragem sob Fogo" dissecado pelos estoicos de Aracaju

"Coragem sob Fogo": o estoicismo em tempos modernos.
"Coragem sob Fogo": o estoicismo em tempos modernos.

Você estava quieto, na sua, flutuando em seu universo líquido, cuja abóbada celeste era uma placenta. Então, seu mundo acabou e você conheceu outra realidade, repleta de luz. O que num primeiro momento foi algo traumático revelou-se um grande estágio na sua evolução pessoal.

Algo semelhante - e paradoxalmente oposto - aconteceu com James Bond Stockdale, piloto de avião de caça dos Estados Unidos, quando foi abatido em pleno voo no Vietnã do Norte. Ao pular de paraquedas, ele teve a consciência de mergulhar num lugar de trevas: um campo de prisioneiros de guerra, onde passou pouco mais de sete anos entre as décadas de 1960 e 1970.

Stockdale conseguiu suportar uma sequência de torturas e privações por ter incorporado e digerido para si o Manual de Epicteto, escrito por seu discípulo Arriano, quase dois milênios antes. Desta experiência surgiu o relato "Coragem sob Fogo: testando as doutrinas de Epicteto em um laboratório comportamental humano", que em 2021 ganhou uma versão traduzida para o português por Aldo Dinucci, Doutor em Filosofia e Professor da UFS - Universidade Federal de Sergipe.

Dinucci enriqueceu a edição brasileira deste pequeno grande livro com breves ensaios de outros Doutores e Doutorandos em Filosofia: Marcos Balieiro, Marcus de Aquino Resende, Joelson Nascimento e Vilmar Prata, todos de certa forma ligados à cidade de Aracaju, a capital do Sergipe, que vem se destacando como um polo da Filosofia Estoica no Brasil.

Do prefácio de Dinucci aos cinco apêndices complementares ao discurso de Stockdale, proferido no King's College de Londres em 1993, o que temos é uma grande preparação para a leitura do Enchirídion, nome erudito do Manual de Epicteto, um escravo liberto que viveu na Roma Antiga e influenciou, entre outros, o imperador Marco Aurélio, com seus ensinamentos éticos atemporais.

Deste modo, se o seu filho reclamar que o coleguinha da escola o insultou (praticando bullying), se o seu superior te isolou numa reunião de trabalho, se o seu subalterno ignorou uma orientação sua, se o seu cliente fez desdém de sua apresentação de produto ou serviço, se um barbeiro lhe tomou a vaga de estacionamento na rua; ou ainda qualquer coisa mais séria que lhe traga aborrecimentos, como uma doença, um acidente, um crime, um infortúnio: com a leitura atenta de "Coragem sob Fogo" você estará melhor preparado para enfrentar estas situações, embora terá que aprender a resolvê-las do seu modo.

A máxima de Epicteto, que ajudou a preservar a sanidade de Stockdale no cárcere, consiste em separar as coisas que estão sob o controle do indivíduo das coisas que não estão, e que o indivíduo sofre mais em função do juízo que faz das coisas externas do que propriamente o mal que tais coisas podem causar.

No mais, não espere encontrar aqui a síntese desta obra, que pode ser encomendada pela Internet. Levará mais dias para o livreto chegar até você, pelos Correios, do que horas necessárias para realizar a primeira leitura dele, repleta de insights que podem impactá-lo por tempo indeterminado.

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