sábado, 22 de setembro de 2018

Entre lombadas

Olhando para frente, o homem de óculos escuros avista um trator transitando pelo acostamento. Ao contrário dele, alguém estava trabalhando naquele sábado preguiçoso.

A câmera acoplada ao drone sobrevoa os laranjais esparramados sobre uma colcha suavemente ondulada de terra fértil no interior paulista. A visão encontra uma costura asfaltada que passa pelo retalhos, até identificar um carro esporte conversível, vermelho, enquanto desce lentamente até conseguir focalizar o motorista reduzindo de terceira para segunda marcha, com o braço direito sobre a alavanca de câmbio.

O diretor faz um corte na cena, para mostrar os olhos semiocultos atrás das lentes dos óculos de sol. Além da armação, é possível perceber que se trata de um adulto a caminho da meia idade, devido às rugas nas tangências de suas sobrancelhas.

Ele observa as palmeiras orientais na beira da estrada, intercaladas com grandes eucaliptos australianos. Somente no Brasil as palmeiras e eucaliptos convivem em paz. A sorte de tais árvores é que elas não conhecem as redes sociais, onde as diferenças são alimentadas por gente rancorosa e incapaz de reter apenas as boas memórias.

Os últimos dias do inverno permitem estas viagens sem destino e sem a preocupação de suar as roupas junto ao encosto de couro dos bancos do veículo. Rajadas de ventos laterais limpam a mente e abrem espaço para novos pensamentos, ampliando a capacidade de atenção aos menores detalhes da paisagem.

A velocidade é retomada. A terceira marcha é engatada e depois a quarta, após atingir o cume de uma elevação. No trecho da pista em declive vem a indicação de uma lombada, forçando a redução do ritmo. Após o segundo eixo passar pelo calombo do leito carroçável, uma pequena vila em torno de uma igrejinha se descortina na encruzilhada com uma estrada de terra.

Na esquina polvilhada com alguns casebres há um bar que também é uma mercearia. No canto da varanda o personagem sem nome avista um senhor de cabelos crespos e grisalhos, com pele escura e amarelada na região dos olhos sob uma testa tensionada. Sentado de pernas cruzadas numa cadeira de palha, combinando com a textura de seu chapéu, o velho traga seu cigarro.

Imediatamente o motorista lembra da última vez que degustou um charuto, sentindo novamente o ar aquecido em seus pulmões e a tranquilidade entorpecida que aquele gesto lhe oferecia. Ele sente vontade de estacionar o carro ali mesmo. E, mesmo sem ser fumante, sua vontade era pedir um trago emprestado.

Ele poderia ainda disputar uma partida de sinuca com outros dois roceiros, gastando suas tardes de sábado passando giz na ponta de seus tacos, alternando estouros em bolas coloridas com goles de cerveja gelada, que igualmente inundaram as papilas gustativas do observador - ainda que beber também não fosse um hábito.

A memória que veio em sua mente, feito um flashback, foi de estar com onze anos de idade no banco traseiro de um Fusca, com seu tio dirigindo a caminho de uma praia. A latinha de Skol dançava de mão em mão entre os ocupantes do carro - e um gole, apenas um gole, lhe fora concedido naquele dia, entre Caraguá e Ubatuba.

No batente da porta daquele bar, uma menina adolescente se encostava na parede, com as mãos para trás. Seu vestido de prenda revelava que um de seus pés estava recolhido junto ao joelho, plantado no reboco encardido daquelas paredes. Certamente o comércio deveria pertencer ao seu pai, encastelado no balcão, ou ela não estaria ali feito uma garçonete.

Nosso amigo tentou adivinhar o que ela estava pensando. Talvez nas colegas da escola, passando aquela tarde tomando sol numa piscina, enquanto ela tinha que trabalhar no meio daqueles bêbados. Seus olhos verdes se encontram com os olhos do protagonista, pois o veículo diferente lhe chamara a atenção. Seria ele um príncipe encantado a lhe salvar daquele fim de mundo? Não, não era.

Penduradas num portão de barras de ferro, duas mulheres param de conversar para encarar aquele estranho dirigindo devagar na frente das casas delas. Pela primeira vez naquele episódio o motorista desconhecido estava incomodado. Ele não estava fazendo nada de mais: apenas passando por ali.

Subitamente um automóvel lhe ultrapassa rasgando a sua dianteira. Ao seu volante, uma garota falando ao telefone celular. Não devia ter mais de 20 anos, a iludida. Passou pela segunda lombada sem frear, maltratando a suspensão do carro que sequer deveria ser dela. Algum progenitor ausente lhe permitiu guiar daquele jeito.

O conversível vermelho também passa pela segunda lombada, mas de modo bem mais suave, como que se desvencilhando dos lençóis daquele pequeno transe que havia acometido seu piloto. A velocidade novamente é retomada e aquele lugarejo lentamente vai ficando para trás, diminuindo no espelho retrovisor.

Olhando para frente, o homem de óculos escuros avista um trator transitando pelo acostamento. Ao contrário dele, alguém estava trabalhando naquele sábado preguiçoso. A câmera aos poucos vai se afastando deles, subindo novamente aos céus, carregada por um drone mudo, que não fazia qualquer ruído de insetos voadores. Novamente os laranjais aparecem na tela, que escurece lentamente, bem antes do sol se por.

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sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Carta aberta aos candidatos de 2018

"As engrenagens do mercado de trabalho movimentam as engrenagens do mercado financeiro que ajudam a mover novamente as engrenagens do mercado de trabalho em tempo contínuo."

O período que antecede eleições gerais para deputados estaduais e federais, senadores, governadores e presidente da República, é propenso para o debate de ideologias, propostas, projetos e requisições dos diversos segmentos da sociedade.

A polarização em torno da disputa sobre o cargo de presidente para comandar o Poder Executivo da República não é saudável, pois encobre as urgências que o Brasil precisa enfrentar através do Poder Legislativo, com apoio das lideranças estaduais.

Os números são alarmantes e sintetizados no contingente dos brasileiros desempregados: oficialmente são 13,7 milhões de cidadãos desocupados. No entanto, conforme o IBGE, falta trabalho para 27,6 milhões de pessoas em nosso território, no momento em que esta carta está sendo redigida.

Somos defensores do livre mercado e da possibilidade de cada brasileiro perseguir condições melhores de vida para si mesmo, e para sua família, através da iniciativa privada.

Acreditamos que por intermédio da Bolsa de Valores de São Paulo – que poderia ser uma dentre outras Bolsas no Brasil – grande parte dos brasileiros economicamente ativos podem construir uma carteira previdenciária que os tornem menos dependentes dos provimentos organizados pelo Estado.

O mês de agosto de 2018 se encerrou com 730.582 CPFs inscritos na B3 para investimentos em seus diversos produtos, dos quais destacamos as ações das empresas de capital aberto e as cotas de fundos imobiliários. Ou seja, menos de um milhão de pessoas físicas investem no mercado de capitais do Brasil enquanto quase 30 milhões de brasileiros estão sem renda proveniente de algum trabalho.

Sabemos que nosso país tem problemas estruturais que não podem ser resolvidos no curto prazo, nos quais as urgências se encaixam. Não podemos endereçar esta carta aos candidatos a cargos dos Poderes Legislativo e Executivo para defender somente os atuais investidores. Porém, nosso foco é pensar no longo prazo: faz parte da nossa natureza.

Entre os extremos pontuados por investidores da Bolsa de Valores e por milhões de desempregados, ainda existe a maior parcela da população economicamente ativa do Brasil, representada por mais de 70 milhões de pessoas que atualmente exercem algum ofício rentável.

Logicamente queremos que esta parcela aumente nos próximos anos e que milhões de empregos sejam gerados neste mandato que se aproxima. Porém, tão importante quanto a geração de empregos, é que o número de investidores na condição de pessoa física também aumente na Bolsa de Valores.

Em países de economia desenvolvida, como Estados Unidos, Japão e Inglaterra, milhões de cidadãos investem através das Bolsas, aportando recursos em empresas e fundos imobiliários. No Brasil poderíamos ser pelo menos cinco milhões de investidores, ao invés de apenas 730 mil.

Qual é a importância de termos mais brasileiros investindo no mercado de capitais, com o foco no longo prazo?

Através de ações de grandes empresas e de cotas de fundos imobiliários consolidados, os brasileiros podem, ao longo dos anos, promover a geração de renda passiva através dos dividendos distribuídos pelas empresas e fundos imobiliários.

Não estamos tratando de grandes especuladores de nível internacional, que levam seu dinheiro de país para país ao sabor das instabilidades globais. Estamos tratando de chefes de família, homens e mulheres, trabalhadores em diversos campos de atividade, aportando recursos poupados mensalmente na economia real do país. Ou seja, as engrenagens do mercado de trabalho movimentam as engrenagens do mercado financeiro que ajudam a mover novamente as engrenagens do mercado de trabalho em tempo contínuo.

Capitalizando através da Bolsa de Valores, as empresas podem desenvolver projetos de expansão de suas atividades, com menor endividamento junto às instituições bancárias públicas ou privadas. Estes projetos empresariais geram desenvolvimento para o país, por meio de criação de empregos e aumento do pagamento de tributos. Com isso, todos se beneficiam: os investidores, os empreendedores, o Estado.

Os fundos imobiliários também exercem um papel fundamental no crescimento de uma nação. Ao englobar o capital de milhares de investidores, estes fundos aumentam o padrão de qualidade dos empreendimentos imobiliários, difundindo a sustentabilidade das edificações, oferecendo suporte para atividades comerciais e industriais, com impacto positivo na infraestrutura de grandes cidades, em função das contrapartidas negociadas com as Prefeituras para a instalação de novos projetos.

Os fundos imobiliários que investem em LCIs e CRIs, bem como no desenvolvimento de empreendimentos imobiliários, aliviam o caixa de bancos públicos com vocação para o financiamento habitacional.

No curto prazo, o aumento do número de CPFs inscritos na Bolsa pode não surtir efeito imediato na economia, mas eles serão sentidos com intensidade crescente ao final de quatro, oito, doze anos – ou três mandatos – e assim por diante.

Quando investidores adquirem a independência financeira por meio da Bolsa, ou conseguem ao menos planejar sua aposentadoria através da renda passiva oriunda dos dividendos, eles aliviam o sistema público de previdência, gerido pelo INSS. Paralelamente, os investidores e suas famílias deixam de usar o SUS – Sistema Único de Saúde.

Com mais impostos gerados pelo crescimento da economia real e menos gente dependendo da Bolsa Família, por terem migrado para a Bolsa de São Paulo, o Estado terá mais recursos para cuidar de quem realmente precisa, através de investimentos intensivos em saneamento básico, na diversificação dos sistemas de transporte, no combate à violência, na ampliação da rede hospitalar e principalmente na educação de base, entre outras urgências de conhecimento público, como as reformas trabalhista, previdenciária, tributária e política.

A pequena comunidade de investidores brasileiros deseja crescer. Ela não está pedindo incentivos artificiais para tanto, do mesmo modo que não está querendo privilégios num país de contrastes sociais.

O que os investidores anseiam por parte dos Poderes da República, e isso inclui também o Poder Judiciário, são regras claras e previsíveis para investir. A previsibilidade no mercado de capitais traz segurança e confiabilidade para que novos investidores ingressem neste ambiente de negócios. Para tanto, é importante que estas regras não sejam alteradas radicalmente ao longo dos anos.

O mercado de capitais não tem todas as soluções para os problemas que afligem o Brasil. Mas todas as soluções que exigem algum tipo de financiamento necessitam de um mercado financeiro forte.

Nos próximos anos muitos projetos de lei, que envolvem diretamente os investidores, serão discutidos pelo Poder Legislativo, sendo propostos pelos próprios legisladores ou por agentes do Poder Executivo.

Não podemos ficar alheios a este processo e cabe a nós, investidores e eleitores, estreitar o contato democrático com nossos representantes. Ficaremos à disposição dos candidatos eleitos para debater os temas importantes que refletem na mentalidade do longo prazo. Este debate não se encerra com a contagem dos votos.

Saudações republicanas,

Jean Tosetto

Coautor do Guia Suno Dividendos

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segunda-feira, 17 de setembro de 2018

A Fazenda Benedetti de Amparo

Antiga sede da Fazenda Benedetti.
Antiga sede da Fazenda Benedetti.

No domingo de manhã estava em casa, tentando ver a corrida da Formula 1, mas como os carros da Alfa Romeo Sauber não estavam liderando o Grande Prêmio de Singapura, disse para a esposa:

- Vamos dar um volta, senão vou enlouquecer aqui.

- Onde você quer ir hoje?

- Quero ver mato e respirar ar puro. Vamos conhecer a Fazenda Benedetti em Amparo.

Tinha visto na rede social que uma colega arquiteta, a Renata Navarro, tinha ido lá, e fiquei com o lugar na cabeça. Verifiquei pelo mapa que ele ficava na beira da estrada entre Amparo e Serra Negra, então embarcamos em outro Alfa Romeo. Não o de corrida. O nosso.

Chegando lá, a porteira ficava na beira da estrada, mas a sede não. Teríamos que subir uma encosta por, talvez, alguns quilômetros. Nunca tinha colocado o 156 na terra, então prometi que iríamos bem devagar: menos de 20 km/h.

Perto da porteira da fazenda, momento de descanso para 156 cavalos italianos.
Perto da porteira da fazenda, momento de descanso para 156 cavalos italianos.

O terraço de secagem do café, convertido em estacionamento, nem era tão longe - talvez uns 800 metros. De lá fomos caminhando para o Spazio Benedetti, diante de uma enorme varanda.

- Isso aqui não é aqueles puxadinhos que fazem lá em Paulínia. É uma varanda de verdade - disse para a esposa.

No fim dela tinha um velho trator estacionado. Saquei a máquina para fazer uma foto. Nisso um senhor de cabelos grisalhos e olhos azuis veio em minha direção. Tinha uma camisa cor de vinho com o símbolo da fazenda.

- Estou fotografando seu trator, pois lá em casa não temos um.

- Fique à vontade. Esse trator já trabalhou muito. Agora está descansando aqui.

Seu nome era Camilo, da terceira geração da família que cuida do lugar desde 1929.

Raro momento sem alguém na varanda. Só o fotógrafo e o trator.
Raro momento sem alguém na varanda. Só o fotógrafo e o trator.

Entramos na loja para experimentar uns licores. Ali havia também um alambique e uma adega, fora o empório com venda de produtos da roça. Difícil escolher o que levar para casa. Tomamos o café da tarde comendo bolo de fubá com calda de goiabada. Lembrei do médico e dos meus triglicérides. A gente cuida disso depois.

Seu Camilo perguntou se eu já tinha experimentado a cachaça deles. Respondi que não, pois estava dirigindo e na volta para Amparo tem um posto da polícia rodoviária.

- Se quiser tomar a nossa pinga eu te ensino um caminho diferente para voltar até Amparo: pegue o acesso para Monte Alegre do Sul, entre no distrito de Três Pontes. Depois da primeira ponte vire à direita. Você chega em Amparo.

- Não sou de beber, mas guiar por estradas diferentes é a minha pinga. Seguirei suas dicas. Obrigado!

Sou cara de pau. Vou conversando com as pessoas dos lugares que visito. De algumas vou virando amigo. Voltarei na Fazenda Benedetti com meus pais, mas não sei se o Camilo vai se lembrar de mim. Tem muita gente que vai lá.

De barriga cheia, demos uma volta pelos açudes da região. Era tudo que pretendia fazer naquele dia. Estava desenlouquecendo ao ouvir os pássaros cantarem e a bica de água pingando sobre o espelho da represa, fazendo ondas até as barrancas. O taquaral assoprava a tranquilidade em nossos ouvidos.

Imagem para aliviar o estresse da semana.
Imagem para aliviar o estresse da semana.

Minha filha pediu para nos mudarmos para uma fazenda. Ela queria ter o cavalo dela. Quem não queria?

Pegamos o caminho de volta. Fui pela rota que o fazendeiro me ensinou. Um recanto escondido e parado no tempo. Deu vontade de descer do carro a cada 50 metros para fazer fotos: da ponte velha, da mercearia de portas na calçada e da vila de famílias que secam roupa num quintal sem cercas. Do casarão abandonado, já no centro de Amparo, não me esqueci.

Tijolos à vista na quina do casarão decadente.
Tijolos à vista na quina do casarão decadente.

Nesta escapada sem planejamento algum, levei o CD do Muse, só por precaução. Na segunda música minha filha, de apenas cinco anos, ficou hipnotizada pelas pontes e refrões em motocontínuo:

- Toca de novo, pai.

- OK.

Acabou a música pela segunda vez:

- Quero ouvir de novo!

E de novo, e de novo, e de novo.

Traduzi uma parte da canção para minha esposa:

- Eu nunca vou deixar você ir, se você prometer que não vai desaparecer...

- Pára, pai! Eu quero ouvir a música!

O domingo estava ganho. Minha filha vai ser roqueira.


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quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Bolsonaro já é personagem da nossa história


Foto de Jair Bolsonaro em seu perfil no Twitter.
Foto de Jair Bolsonaro em seu perfil no Twitter.

Tenho conversado com pessoas que considero esclarecidas, com experiência de vida, viajadas e que cultivam o hábito da leitura. Me surpreende que elas manifestem o desejo de votar em Bolsonaro, embora não reconheçam isso publicamente.

Também vejo pessoas que poderiam ser formadoras de opinião, pedindo todas as desculpas do mundo antes de simplesmente mencionar o nome de Bolsonaro em seus comunicados, revelando que são reféns do "politicamente correto".

Não é para menos: Bolsonaro sempre falou pelos cotovelos, dando coices verbais em todos - e todas - que pensam diferente dele. Para mim, ele veio construindo um personagem caricaturado ao longo dos anos, falando inicialmente para um público conservador carioca que sempre lhe garantiu um mandato como deputado federal.

Jornalistas amplificam sua imagem de homem grosso, dono de um discurso superficial e calcado em frases de efeito, buscando antagonismo com outro político de semelhante descrição: o ex-presidente Lula.

Se até poucas semanas poucos levavam a sério a possibilidade dele ser eleito presidente da República, após seu desempenho convicto diante de entrevistas em veículos populares de comunicação, muitos setores da sociedade já contam com isso. O atentado sofrido em Juiz de Fora disparou uma comoção nacional e potencializou este processo.

Você pode imaginar que Bolsonaro é um fenômeno de popularidade espontâneo, mas isso definitivamente ele não é. Longe de ser o sujeito viril e turrão capaz de proferir bravatas para peitar seus opositores, Bolsonaro é um militar da reserva treinado fisicamente e mentalmente para aguentar muito mais do que uma facada na barriga.

Vejamos: ele foi aprovado num exame de admissão concorridíssimo para cursar a Escola Preparatória de Cadetes do Exército em Campinas, de onde anos depois seguiu para Academia Militar das Agulhas Negras em Resende, no Rio de Janeiro. Ninguém se forma nestas condições sendo um analfabeto funcional. Pelo contrário, a disciplina e a rigidez impostas a quem faz carreira militar molda também o intelecto das pessoas numa escala superior à que se vê na média do ensino público.

Bolsonaro tem três filhos envolvidos na política e todos são bem articulados em entrevistas para a grande mídia, com ótimo desempenho nas redes sociais.

Por ser assumidamente um baluarte da direita num país que passou as últimas décadas flertando com a radicalização da esquerda, Jair Bolsonaro tem sua imagem associada a outro político tido como falastrão e reacionário: o presidente norte-americano Donald Trump.

No entanto, sua origem militar, sua compleição física e sua obstinação faz de Bolsonaro alguém com potencial para ser comparado com outro líder mundial: Vladimir Putin, o presidente da Rússia que começou a carreira no serviço secreto da União Soviética.

No populismo, esquerda e direita são lados da mesma moeda. A moeda que tem Lula na cara, mostra a face de Bolsonaro na coroa. Ele pode não ser eleito o próximo presidente do Brasil, mas definitivamente sua capacidade de fazer real oposição ao país que caminha para o caos social não pode ser ignorada. Se ele é capaz de reverter o quadro, isso é outra história. E a história está sendo contada intensamente neste imprevisível ano de 2018.

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segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Toninho do PT: onde está a Comissão Nacional da Verdade para você?

Monumento ao prefeito de Campinas Toninho do PT, assassinado na Avenida Mackenzie em 10 de setembro de 2001.
Monumento ao prefeito de Campinas Toninho do PT, assassinado na Avenida Mackenzie em 10 de setembro de 2001.

Nunca fui petista, mas teria votado no Toninho do PT na eleição para prefeito de Campinas no ano 2000, se tivesse domicílio eleitoral naquela cidade. A razão para tanto é muito simples: eu o conhecia pessoalmente. Fui seu aluno na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da PUC. Fui testemunha de seu idealismo político e de seu compromisso com Campinas.

Não ouvi dizer sobre sua honestidade: eu presenciei provas dela inúmeras vezes. O arquiteto, urbanista e professor Toninho recrutava alunos da faculdade para trabalhos voluntários nos fins de semana. Sua equipe engajada fazia levantamentos arquitetônicos nas residências da periferia da grande cidade para que a regularização dos imóveis fosse feita na prefeitura. Comunidades carentes eram beneficiadas com sua iniciativa.

Para ser candidato ao cargo de prefeito de Campinas, ele teve que vencer opositores dentro de seu partido. Ele mesmo conduzia o programa eleitoral gratuito na rádio e TV, falando diretamente com os eleitores da mesma maneira como se dirigia aos seus alunos. Seu desempenho nos debates foi decisivo para o sucesso de sua campanha, que tinha como um de seus símbolos justamente uma pipa. A pipa que foi parar no monumento em sua homenagem.

Vale contextualizar o período. No começo do século 21, o PT era um partido promissor e associado à promessa de valores éticos na política. Lula ainda não havia sido eleito presidente da República e o PT não havia sido protagonista dos escândalos do Mensalão e do Petrolão. Mas o ovo da serpente com o modus operandi da corrupção estava eclodindo em cidades que já eram governadas pelo partido.

Cidades importantes do estado de São Paulo tiveram prefeitos petistas naquele período, como Ribeirão Preto, Santo André e Campinas. Dessas três cidades, apenas Antonio Palocci está vivo para contar a história, preso e protegido numa cadeia, negociando delações premiadas na Operação Lava Jato.

Celso Daniel, prefeito de Santo André, foi torturado antes de ser morto em 18 de janeiro de 2002. Várias testemunhas do inquérito instaurado para investigar o homicídio também faleceram desde então. Uma tese defende que ele sabia de práticas corruptas na prefeitura de sua cidade e teria se colocado contra o desvio de recursos por parte de integrantes do esquema.

O Toninho do PT, prefeito de Campinas, foi assassinado antes, em 10 de setembro de 2001. A notícia de sua morte foi eclipsada na grande mídia, pois no dia seguinte ocorreu o maior atentado terrorista da história ocidental, com a derrubada das torres gêmeas de Nova York por aviões sequestrados por fanáticos religiosos.

A quadrilha do sequestrador Andinho foi relacionada com o crime e dela apenas o chefe permanece vivo, num presídio de segurança máxima - os demais foram mortos em ações policiais. Quase vinte anos depois da morte do Toninho, sua morte permanece sem solução. O inquérito é inconclusivo, embora a família de Toninho acredite piamente na tese de crime político. Ao que parece, Toninho era um homem que sabia demais e, de acordo com indícios, sua morte foi conveniente para agentes corruptos.

O Brasil já viveu sob uma ditadura militar e, anos depois de seu encerramento, uma Comissão Nacional da Verdade foi criada para investigar e propor punições para crimes políticos praticados naquele período tenebroso. Após três décadas de redemocratização do país, está na hora de uma nova Comissão Nacional da Verdade ser criada, desta vez para trazer luz sobre crimes considerados comuns para poucos e atentados políticos para muitos.

O que pessoalmente não compreendo é como a versão oficial destes poucos ainda está prevalecendo.

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sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Sem protesto não há juventude

Sem protesto não há juventude

Ser jovem no Brasil nunca foi fácil, ao menos na história recente da nossa República. Ocorre que há bem pouco tempo os jovens tinham a rebeldia a seu favor, e usavam ela como fonte de inspiração. Desta rebeldia nasceram poemas, livros, peças de teatro, filmes e principalmente músicas de protesto. Acompanhe a evolução deste processo através de grandes nomes da música popular brasileira.

Década de 1960

Você pode discordar da postura de Chico Buarque na política, mas não pode negar que ele é um dos nossos gênios musicais, mesmo não sendo um virtuosista. Suas composições são marcos da resistência à ditadura militar que assombrou o Brasil de 1964 até 1985.


Década de 1970

Os militares promoviam o milagre econômico no começo dos anos de 1970 ao mesmo tempo em que exilavam os opositores mais radicais ao regime. Sobrava o desbunde para protestar por caminhos indiretos e poucos foram tão incisivos neste aspecto quanto Raul Seixas.


Década de 1980

Do planalto central surge uma das bandas de rock mais significativas da música brasileira. Renato Russo e a Legião Urbana nos entregaram um hino de protesto que atravessou gerações e continua tão atual quanto no tempo de seu lançamento.


Década de 1990

Com o declínio da música pop nas rádios, dando lugar para o sertanejo, funk e pagode, Gabriel O Pensador foi um dos últimos expoentes de uma geração que ainda combinava crítica social e sucesso comercial na grande mídia.


Década de 2000

O Ultraje a Rigor, que poderia representar a década de 1980 aqui com "Inútil", faz uma autocrítica sobre o contexto musical de sua época. Roger Moreira ingressava na meia idade sendo premonitório sobre o vazio que tomaria conta da juventude de um país.


Década de 2010

O Brasil está desmoronando, mergulhado em sua pior crise política e econômica da história. A democracia está ameaçada. Cadê a nossa juventude com seus acordes de protesto? Faltando apenas dois anos para a próxima década, não conseguimos elencar uma só música relevante neste período.

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terça-feira, 4 de setembro de 2018

Grandes incêndios & pequenas mentes

"The Fire of Rome, 18 July 64 AD" - pintura sem data conhecida de Hubert Robert (1733-1808) exposta no Musee des Beaux-Arts Andre Malraux, em Le Havre, na França.
"The Fire of Rome, 18 July 64 AD" - pintura sem data conhecida de Hubert Robert (1733-1808) exposta no Musee des Beaux-Arts Andre Malraux, em Le Havre, na França.

Em 18 de julho de 64 depois de Cristo, um grande incêndio tomou conta de Roma, então capital do império romano, afetando dois terços da grande cidade. A versão que prevaleceu na história é que o imperador Nero ordenou o início do fogo com vistas a promover uma ampliação de seu complexo palaciano, ao comprar terrenos arruinados por preços descontados depois que o grande incêndio foi controlado, durante o qual ele teria tocado lira.

Para evitar que a culpa caísse sobre seus ombros, Nero teria encorajado a tese de que o fogo teria sido provocado pelos cristãos, ao desejarem produzir um evento apocalíptico na urbe corrompida. Com ou sem culpa, Nero ficou marcado como um imperador louco e desvirtuado, sendo verossímil a possibilidade do incêndio de Roma ter se iniciado tão somente em função das precárias edificações da cidade, com suas estruturas de madeira que se erguiam por quatro ou cinco andares em ruelas estreitas.

Roma entrou em decadência neste período e levou séculos para voltar a ter algum esplendor: ainda é a Cidade Eterna, mas não comanda mais os desígnios do Ocidente.

Avancemos para 642, ano em que Anir ibne Alas conquista o Egito e torna-se seu governador provincial. Em nome do califa ortodoxo Omar, ele determina a destruição da Biblioteca de Alexandria por meio de um incêndio, queimando para sempre documentos de incalculável valor histórico e científico.

Logicamente esta é a versão mais popular do trágico evento, mas existem contestações que envolvem datas pregressas e outros personagens, atribuindo o declínio de Alexandria aos romanos, aos cristãos e aos muçulmanos. A intolerância política e religiosa parece andar de mãos dadas com a decadência.

A decadência que acertou Alexandria em cheio provocou danos irremediáveis. Hoje, a cidade é apenas uma sombra do que já representou um dia.

Chegamos em 2018. O mês de setembro trouxe uma notícia pavorosa: o incêndio do Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro. A grandiosa edificação, com dois séculos de existência, já foi morada de rei e imperadores, sendo berço da República do Brasil. Seu acervo quase totalmente destruído contava com mais de 20 milhões de itens, que iam de pedras preciosas até múmias.

Um dia vão contar a história do Rio de Janeiro. A Cidade Maravilhosa que já foi capital de um país de dimensões continentais começou a ruir quando Brasília foi inaugurada. Os historiadores citarão eventos trágicos que delimitarão a decadência da cidade e o incêndio do Museu Nacional certamente será citado.

As versões serão controversas. Para uns, a culpa terá sido dos políticos liberais de Brasília, que cortaram o fluxo de capital para a manutenção do Museu Nacional. Para outros a culpa será dos esquerdistas no comando da UFRJ - instituição responsável pelo Museu que recebia os repasses do governo federal e teria priorizado outras ações.

A ruína do Museu Nacional não poderá ser atribuída a um imperador louco ou a um tirano. Tão pouco poderão culpar os extremistas religiosos. A ruína do Museu Nacional já pode ser atribuída ao descaso e à indiferença. Pior do que enfrentar o ódio de terroristas é combater o descaso e a indiferença das pessoas comuns.

Se o amor e ódio são valores antagônicos, o descaso e a indiferença representa a ausência de valores. Sob este ponto de vista, o Museu Nacional já estava condenado há muitos anos.

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