sábado, 12 de junho de 2021

O boom e o deslocamento de ar

O Supermercado Pague Menos da Avenida José Paulino, em Paulínia, ainda queimava no dia seguinte ao incêndio que o arruinou.
O Supermercado Pague Menos da Avenida José Paulino, em Paulínia, ainda queimava no dia seguinte ao incêndio que o arruinou.

Já estava deitado, esperando o sono chegar, naquela hora em que você fecha os olhos e vislumbra flashes coloridos projetados no costado das pálpebras. Então, veio aquele estrondo abafado. Numa fração de segundos as folhas das venezianas da porta balcão do quarto balançaram. Imediatamente senti um deslocamento de ar em minha face, pressionando minha bochecha contra a arcada dentária.

"Será que explodiu um tanque na refinaria de petróleo?" - pensei. Há uns 25 anos isso aconteceu, de fato, iluminando o interior da nossa casa como se o sol tivesse se levantado e se posto na velocidade de um míssil. 

Minha esposa logo perguntou o que aconteceu. 

- Será que alguém bateu o carro na bomba do posto de gasolina? - respondi, enquanto a sirene do caminhão dos bombeiros ecoava lá fora.

Impaciente, ela acessou o telefone celular. Já estavam postando vídeos sobre as labaredas se apossando de um supermercado. Em poucos minutos, uma rede de cinegrafistas amadores e repórteres de ocasião se formou. Muitos chegaram antes mesmo dos jornalistas profissionais, cujas narrativas em nada acrescentaram ao fato de que ninguém sabia como o fogo começou.

Em circunstâncias assim verificamos que as pessoas são tomadas por uma curiosidade mórbida para testemunhar tragédias que não as envolvem diretamente. Nem o alívio de saber que não houve feridos atenua esse tipo de atração por ver as chamas avançarem sobre uma grande construção, enquanto alguns tentam combater o fogo.

Também é da natureza humana se comover com aqueles que foram dormir empregados e, no dia seguinte, acordaram sem ter onde bater o ponto. O dono da pastelaria, o gerente da farmácia, o rapaz da lojinha de informática: em poucas horas o ganha-pão deles virou cinzas. Pessoas terão que recomeçar suas vidas dos escombros, já que tiravam do antigo local de trabalho, outrora imponente, o seu sustento.

Então, em seguida, vem o alívio de saber que não fomos afetados e que nossa maior preocupação, neste caso, será procurar outro lugar para comprar arroz e feijão. Isso também é da natureza humana e reflete um sentimento que tangencia o egocentrismo, mas que protege as pessoas de ficarem imobilizadas diante do desespero de terceiros.

Ocorrências desse tipo vem para nos lembrar da fragilidade da condição humana. Por mais que tentemos estruturar um sistema de proteção para nossas necessidades - construindo coisas e desenvolvendo atividades econômicas - tudo pode ruir de uma hora para outra, literalmente. Nosso estado de saúde também pode ser abalado por algum acidente ou por alguma doença contagiosa. E não há muito o que fazer contra as forças do destino, exceto não se apegar tanto a um trabalho ou à própria qualidade de vida, embora agradecer por essas coisas, quando elas estão em ordem, me pareça ser uma obrigação.

No dia seguinte, fui pedalar minha velha bicicleta e passei na rua atrás do supermercado que pegou fogo. É estranho ver um prédio de grandes dimensões numa situação imprestável. Mas é questão de tempo para todos nós ficarmos imprestáveis um dia, pois o tempo é tão implacável quanto um incêndio alimentado por um estoque de bens perecíveis.

Então, enquanto esse dia não chega, vamos em frente tentando dar sentido para o caos que parece reger as entrelinhas do cotidiano.

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sábado, 22 de maio de 2021

Que nota você dá para a minha opinião?

"Henrique da Alemanha com seus estudantes", pintura de Laurentius de Voltolina (circa 1300) pertencente ao acervo de Kupferstichkabinett Berlin.
"Henrique da Alemanha com seus estudantes", pintura de Laurentius de Voltolina (circa 1300) pertencente ao acervo de Kupferstichkabinett Berlin.

Quando estava na faculdade de Arquitetura, em meados da década de 1990, a matéria que mais reprovava alunos era "Resistência dos Materiais". O professor dessa disciplina era simplesmente a pessoa mais temida do campus. Ao contrário dos demais mestres, ainda usava terno e gravata para dar aulas e conferia de viva voz a lista de presença, antes de suas explanações, como se fôssemos alunos do ensino fundamental.

Ao contrário dos demais alunos, ele só me chamava pelo sobrenome e sempre me via nas primeiras fileiras da sala. Não porque eu gostasse do assunto, mas porque tinha pavor de ser reprovado e sabia que ficava nervoso em dia de prova. Então, tratei de entender tudo daquelas fórmulas e procedimentos. Realizava os exercícios direitinho. 

Enquanto tudo era só um treino, beleza. Mas um dia o professor anunciou a data do exame semestral. Senti o bloqueio mental na hora, mas não contei para ninguém. Uma menina veio me procurar. Ela estava claramente apavorada. Os cálculos não entrevam na cabeça dela. Pediu minha ajuda.

Diante dela recobrei meu ordenamento mental. Ao tentar ensiná-la, percebi que tinha domínio do assunto. Fiquei feliz, pois ela disse que eu ensinava aquilo de um jeito mais fácil de entender. A confiança tomou conta de mim.

No dia D, na hora H, nem percebi que troquei o sinal de três das quatro questões. Precisava tirar nota cinco para passar direito, ou nota três para ficar de exame. O professor, após corrigir as provas, anunciou as notas em sala de aula, para todos os alunos.

"Fulano, nota 3,5, exame. Cicrana, nota 7,5, aprovada. Beltrano, nota zero, reprovado..."

A menina que ajudei, passando uma tarde fazendo exercícios com ela, tirou um dez redondo - e muito raro. Pensei, naquele momento, que se ela havia tirado dez, eu também tiraria.

"Tosetto, o que aconteceu Tosetto? Nota 2,5. Reprovado."

Como contaria isso para o meu pai? Havia acertado todos os encadeamentos das questões e os valores finais, mas por causa do nervosismo, eram valores trocados - o que era positivo virou negativo em algum ponto da equação. Na prática, isso quer dizer que meus prédios desabariam, caso eu fizesse os cálculos estruturais, pois adicionaria ferragens nas camadas erradas das vigas.

Estava desolado, segurando para não chorar, o que seria uma vergonha imensa. A menina veio perto de mim e tentou entender o que aconteceu. Ela disse claramente que eu havia ensinado o conteúdo da prova para ela. O professor viu a cena.

"Tosetto, vem aqui. Sei que você sabe fazer os cálculos. Você ficou ansioso sem necessidade. Vou deixar você de exame."

O carrasco da universidade abriu uma exceção. Não poderia desapontá-lo e tratei de estudar ainda mais. No dia do exame, imaginava que tiraria dez ou zero. Ao entregar a prova, o professor fez a correção na hora. Acertei os dois primeiros exercícios. Errei os dois finais pelo mesmo motivo: troca de sinais. Nota cinco.

"Tosetto, você tem um problema. Você fica nervoso durante a prova. Mas no dia a dia é um bom aluno. Você passou."

Sem ponto de exclamação, mesmo. Esse era o jeito dele, que apertou a minha mão, olhando dentro dos meus olhos marejados. Até sair daquele anfiteatro, segurei minha alegria. Mas a caminho do carro, no estacionamento, saltitava de felicidade. Dirigindo de volta para casa, abaixei a janela do Fusca e gritei de exaltação em plena rodovia. Acostumado com a notas azuis (A e B) no ensino fundamental, nunca comemorei tanto uma nota cinco.

Anos depois, já formado, passei um fim de semana na praia. Caminhando na areia, me deparei novamente com o professor, só de sunga, acompanhado de sua filha (linda, com todo o respeito). Paramos para conversar e aquilo foi surreal, pois não entrava na minha caixola ver alguém tão rígido e formal de uma forma totalmente descontraída. Naquele momento entendi que o Cicarelli era um ser humano. Não lembro o primeiro nome dele, mas lembro que agradeci novamente seu gesto de benevolência.

Ele ficou sabendo que meus projetos estavam se desenvolvendo bem - e que nenhum deles era inseguro do ponto de vista estrutural, pois o ato de projetar é mais parecido com ensinar alguém que não entende do assunto, do que com a formalidade de sentar numa cadeira de madeira gelada para realizar quatro questões em menos de 50 minutos, numa tarde de inverno.

A uberização das relações humanas

Pulemos um quinto de século no tempo. Ontem telefonei para a corretora de valores onde mantenho uma carteira de investimentos. Queria tirar uma dúvida que o robô do chat não sabia responder. Aguardei numa fila até ser atendido pelo Paulo, de 33 anos. Perguntei o nome dele. Perguntei a idade dele, que me esclareceu o que queria saber e foi além, realizando uma ordem de compra de ativo na mesa de operações para mim, pois aquele procedimento não poderia ser feito via Home Broker.

Não é que hoje chegou um e-mail solicitando uma avaliação formal do atendimento recebido? Fiquei com dó do Paulo. Não queria estar no lugar dele, pois sua profissão é atender investidores por telefone e simplesmente tudo que ele faz recebe algum tipo de nota. Não saberia viver sob tal estresse constante. Avaliei ele positivamente.

Essa mania foi cristalizada pelo aplicativo Uber. Nesta plataforma, os motoristas são avaliados pelos usuários 24 horas por dia, sete dias por semana, a cada simples trajeto realizado. O usuário acorda com as hemorroidas latejando e coitado do chofer, ex-gerente de fábrica, que não tinha uma almofada circular no banco traseiro do carro que era da sua esposa.

Há algumas semanas comprei livros pela Amazon. O sistema da empresa calculou o tempo médio de leitura de cada livro e, dias depois, disparou e-mails solicitando que eu desse notas para cada um, de uma para cinco estrelas. Neste caso, fiquei quieto. Mas percebi que cada vez mais somos todos avaliadores e avaliados, como se notas e estrelas contassem mais do que todo o contexto impossível de ser registrado em planilhas.

Por exemplo, O Manual de Epicteto, escrito por seu discípulo Flávio Arriano, é o suprassumo da filosofia estoica. Atravessou dois milênios inspirando gerações. A Amazon tinha que criar a sexta ou sétima estrela para obras primas como esta. Porém, na página que oferta o livro, vemos que ele tem apenas 4,8 estrelas. A maioria das pessoas reconhece o seu valor, mas apenas uma avaliação negativa derruba a média geral dele. Alguém deu apenas uma estrela para este clássico, com a seguinte justificativa:

"Livrinho de bolso !

Produto muito pequeno ! Apesar do bom conteúdo não servirá para coleção da biblioteca !"

Sim: a pessoa deixou os pontos de exclamação descolados das palavras. Que nota poderíamos dar para ela? Não. Não responda. Avaliar avaliadores seria o cúmulo da simplificação que deixa a nossa vida mais simplória. Dar notas para as coisas e para as pessoas é como tirar fotografias e esquecer do filme que conta as suas histórias. No entanto, são as histórias que contam, literalmente. Não é mesmo, Cicarelli?

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sábado, 10 de abril de 2021

São Paulo não foi cancelado pelos epicureus e estoicos

"São Paulo pregando em Atenas" (1515): pintura de Rafael (1483-1520) pertencente ao acervo do Museu Victoria e Albert, em Londres.
"São Paulo pregando em Atenas" (1515): pintura de Raphael (1483-1520) pertencente ao acervo do Museu Victoria e Albert, em Londres.

O judeu Saulo de Tarso nasceu na Cilícia, território que hoje faz parte da Turquia, entre a Europa e a Ásia. Foi educado por fariseus e se destacou a ponto de obter de seus líderes religiosos a permissão para sair pelas cidades do Antigo Israel cancelando os cristãos, estes supersticiosos membros de uma seita que afrontava o judaísmo.

O termo "cancelamento" sequer era usado na época. E o termo "cristão" ainda estava sendo criado naqueles dias, por volta do ano 35 d.C. Depois de Cristo, vejam só! Naquela época não havia Internet e redes sociais, então o cancelamento não se dava com hashtags no Twitter, textões no Facebook e reacts no YouTube. O negócio era mais complicado e envolvia apredejamentos, açoites e até crucificações. Saulo, por exemplo, consentiu com o apredejamento de Estevão. Isso fazia parte do radicalismo da época.

Certa vez, a caminho de Damasco, Saulo de Tarso teve a visão de Jesus Cristo, cuja luminosidade intensa lhe cegou por alguns dias. A conversão foi tão impactante que Saulo de Tarso virou o Apóstolo Paulo: o único apóstolo reconhecido na Bíblia que não foi testemunha ocular das andanças de Cristo antes de seu padecimento e ressurreição. Porém, ao contrário dos demais, Paulo sabia ler e escrever como um erudito. Além disso, era muito bom em oratória.

Se Saulo era uma pedra arremessada nos telhados de vidros dos cristãos, Paulo passou a ser o próprio telhado de vidro (que não exista na época, mas serve como força de expressão para você entender como seria dura a vida de Paulo, desde então).

Por onde Paulo andava, arranjava confusão. Por vezes ao lado de Barnabé, por vezes ao lado de Silas, Timóteo e Lucas, que era seu confidente e também sabia escrever muito bem. Eles chegavam nas cidades para fazer suas pregações ao vivo e a cores (não havia TV em preto e branco na época) e não raramente saiam escorraçados dessas localidades, não sem antes levarem uns safanões e algumas chicotadas. 

Paulo e sua trupe pareciam uma banda de punk rock se envolvendo em quebradeiras nos bares e porões do mainstream, embora não fossem drogados ou pervertidos sexuais. Porém, eles não eram bem vistos pelos conservadores da ocasião, que volta e meia levavam os pregadores para dormir na cadeia, onde faziam amizade com os carcereiros.

Havia um grande porém nessa história toda: além de ter nascido judeu, Paulo de Tarso também era cidadão romano. Isso era mais valioso do que ter um passaporte da comunidade europeia atualmente. Pessoas pagavam caro para conseguir a cidadania romana, que muitas vezes era recusada. Mas Paulo também a tinha de berço - o que nos faz crer que Paulo tinha um pé na cozinha, se é que você me entende.

Por ser cidadão romano, as lideranças locais podiam até detestar Paulo, mas não podiam fazer qualquer arbitrariedade com ele, que sabiamente apelou para Cesar, quando foi preso mais uma vez, sem ter um julgamento prévio. Isso o levou para Roma, de onde o cristianismo se propagou até os dias de hoje (mas isso é conversa para outro dia).

Em sua breve vida, de pouco mais de 60 anos, Paulo percorreu boa parte da borda oriental do Mar Mediterrâneo, visitando o Chipre, a Síria, a Jordânia, a Macedônia, a Turquia e várias localidades da Grécia. Na Grécia aconteceu um momento chave para o nascimento da Cultura Ocidental (da qual você faz parte, querendo ou não): Paulo, judeu de nascimento, cidadão romano convertido ao cristianismo, se encontrou com os filósofos de Atenas e debateu com eles. Incrível como Hollywood ainda não emplacou um épico sobre este momento.

Esta passagem está registrada no livro de Atos, capítulo 17, versículos 15 a 34 (versão Almeida Revista e Corrigida 2009):

15 E os que acompanhavam Paulo o levaram até Atenas e, recebendo ordem para que Silas e Timóteo fossem ter com ele o mais depressa possível, partiram.

16 E, enquanto Paulo os esperava em Atenas, o seu espírito se comovia em si mesmo, vendo a cidade tão entregue à idolatria. 

17 De sorte que disputava na sinagoga com os judeus e religiosos e, todos os dias, na praça, com os que se apresentavam. 

18 E alguns dos filósofos epicureus e estoicos contendiam com ele. Uns diziam: Que quer dizer este paroleiro? E outros: Parece que é pregador de deuses estranhos. Porque lhes anunciava a Jesus e a ressurreição. 

19 E, tomando-o, o levaram ao Areópago, dizendo: Poderemos nós saber que nova doutrina é essa de que falas? 

20 Pois coisas estranhas nos trazes aos ouvidos; queremos, pois, saber o que vem a ser isso. 

21 (Pois todos os atenienses e estrangeiros residentes de nenhuma outra coisa se ocupavam senão de dizer e ouvir alguma novidade.) 

22 E, estando Paulo no meio do Areópago, disse: Varões atenienses, em tudo vos vejo um tanto supersticiosos; 

23 porque, passando eu e vendo os vossos santuários, achei também um altar em que estava escrito: Ao Deus Desconhecido. Esse, pois, que vós honrais não o conhecendo é o que eu vos anuncio. 

24 O Deus que fez o mundo e tudo que nele há, sendo Senhor do céu e da terra, não habita em templos feitos por mãos de homens. 

25 Nem tampouco é servido por mãos de homens, como que necessitando de alguma coisa; pois ele mesmo é quem dá a todos a vida, a respiração e todas as coisas; 

26 e de um só fez toda a geração dos homens para habitar sobre toda a face da terra, determinando os tempos já dantes ordenados e os limites da sua habitação, 

27 para que buscassem ao Senhor, se, porventura, tateando, o pudessem achar, ainda que não está longe de cada um de nós; 

28 porque nele vivemos, e nos movemos, e existimos, como também alguns dos vossos poetas disseram: Pois somos também sua geração. 

29 Sendo nós, pois, geração de Deus, não havemos de cuidar que a divindade seja semelhante ao ouro, ou à prata, ou à pedra esculpida por artifício e imaginação dos homens. 

30 Mas Deus, não tendo em conta os tempos da ignorância, anuncia agora a todos os homens, em todo lugar, que se arrependam, 

31 porquanto tem determinado um dia em que com justiça há de julgar o mundo, por meio do varão que destinou; e disso deu certeza a todos, ressuscitando-o dos mortos.

32 E, como ouviram falar da ressurreição dos mortos, uns escarneciam, e outros diziam: Acerca disso te ouviremos outra vez. 

33 E assim Paulo saiu do meio deles. 

34 Todavia, chegando alguns varões a ele, creram: entre os quais estava Dionísio, o areopagita, e uma mulher por nome Dâmaris, e, com eles, outros.

Os filósofos epicureus e estoicos, ao contrário dos fariseus e dos romanos que habitavam o Antigo Israel, não despacharam Paulo do Areópago de Atenas com socos, pedras e chicotadas. Se é verdade que Paulo não convenceu todos naquela ocasião, alguns deram crédito para seu discurso.

O fato é que a região da Grécia foi uma das primeiras do continente europeu a adotar o cristianismo, que até hoje é professado pelos gregos de forma ortodoxa. Sendo a Grécia o berço da filosofia ocidental, podemos afirmar que Paulo de Tarso foi um grande caçador de mitos, posto que a mitologia grega também arrefeceu em função da expansão do monoteísmo cristão.

A verdade é que os próprios epicureus e estoicos já estavam colocando em xeque a dependência das pessoas para compreender o mundo por meio dos semideuses greco-romanos. Nisso, muitos historiadores enxergam mais confluências do que antagonismos entre o Evangelho pregado por Paulo e a conduta de vida defendida por Epicuro, Sêneca e seus seguidores.

Existe, inclusive, cartas apócrifas relatando a correspondência entre Paulo e Sêneca, que eram contemporâneos em Roma. Mesmo que sejam escritos não autênticos, há quem defenda que estes documentos foram responsáveis pela preservação da produção literária de Sêneca, cuja leitura é altamente recomendável. Epicuro, por ser mais antigo, não teve essa sorte e só resquícios do que ele escreveu chegaram até nossos dias, mediante citações de terceiros.

Paulo foi tratado como "paroleiro" por parte dos epicureus e estoicos, mas não sofreu cancelamento por parte deles. O debate entre eles não teve um vencedor declarado. Vale reler o versículo 32:

"E, como ouviram falar da ressurreição dos mortos, uns escarneciam, e outros diziam: Acerca disso te ouviremos outra vez."

Ali o benefício da dúvida foi plantado. Sabe o que isto significa? Que você também deveria "ouvir" o outro lado, lendo mais sobre a filosofia em geral. A Bíblia é uma excelente fonte de inspiração, mas os clássicos da filosofia também são, mesmo que você não conheça uma grande cidade chamada "Sêneca", "Epicuro", "Aristóteles", "Platão" ou "Sócrates". Mas a maior metrópole da América do Sul e uma das maiores do mundo está aí demonstrar qual visão de mundo prevaleceu desde aquele debate histórico no Areópago de Atenas.

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sábado, 13 de março de 2021

Um homem não é nada sem as suas ferramentas

Do alicate amarelo para a chave de fenda azul, passando pelo Gran Torino verde.
Do alicate amarelo para a chave de fenda azul, passando pelo Gran Torino verde.

Durante a antiga normalidade o chuveiro da nossa suíte começou a gotejar. Você terminava de tomar seu banho, fechava o registro e o chuveiro não ficava quieto. Torna a girar a manopla com mais força e ainda ouvíamos o chuveiro soltar lágrimas pela noite afora.

A esposa logo me cobrou uma providência. Eu, sempre muito ocupado, resolvi ligar para o meu pedreiro de confiança - um "faz-tudo" que entra em casa feito um cunhado com liberdade para abrir a porta da geladeira e pegar uma cerveja quase vencida, dado que passo meses sem dar um gole. Ele veio num sábado de manhã e matou a charada na hora:

- É o courinho. Precisa trocar.

Vamos juntos para a loja de materiais de construção, conversando sobre futebol e xingando todos os políticos. "Depois de tanto tempo de casado, a nossa mulher vai virando irmã da gente" - ele revelou. O courinho, em verdade um anel de borracha, custou menos de R$ 2.

Nem prestei atenção no que ele fez para trocar o "courinho de borracha". Fui para o escritório e sequer lembro o que fui resolver de tão urgente. Fiz questão de pagar pela visita. Não tenho cunhado.

A pandemia começou.

Então, o chuveiro do banheiro social começou a choramingar também. Não acredito. De novo? Não era de novo. Era no outro chuveiro. Depois que a quarentena passar, resolvo isso. Mas a quarentena não passou.

Tive a brilhante ideia de colocar um balde para coletar os resmungos do chuveiro. Durante a noite o balde quase transbordava. Daí eu esvaziava ele no vaso sanitário. Fiz as contas e concluí que esse tipo de operação consumia menos água. A válvula Hydra é um ladrão de água numa casa. Uma descarga custa uns 20 litros de água. No balde você economiza uns 15 litros ou mais. Funciona, mas não para sempre.

Quando você ignora um problema, ele se resolve sozinho ou aumenta. O gotejamento do chuveiro virou um fio de água. Preciso trocar o courinho, urgente. Chamo o pedreiro? Não! Tenho que fazer isso sozinho.

Fui até o quartinho da bagunça e abri a caixa de ferramentas. Cadê o alicate amarelo? Só achei umas chaves de fenda espalhadas, um martelo e um serrote, fora a montoeira de fios e parafusos que nunca mais vou usar - mas vai que precisa?

Não dá para desmontar o reparo do registro de pressão do chuveiro sem um alicate. Saí para comprar um courinho e o alicate. Acabei comprando um grifo também, para garantir. Toca colocar a máscara, que embaça os óculos, sem os quais não posso dirigir.

- Preciso de um courinho para o reparo do chuveiro.

- De qual marca é o seu reparo?

- Não lembro. Quantos tipos de courinho você tem aí?

- Três.

- Me dê os três, um alicate e um grifo. Vou levar também um sifão para a pia da churrasqueira.

Nesse momento, lembrei de Clint Eastwood no filme "Gran Torino", de 2008. Tenho o DVD dele e inclusive a miniatura do carro que dá nome para a história. Já assistiu? Não darei spam. Você tem que ver por si só, para entender que um homem não é nada sem as suas ferramentas.

O sifão eu troquei rapidinho. "Eu sou bom!" - pensei. Não, não sou. Apanhei para tirar o reparo do cano do chuveiro. O conjunto "manopla-canopla-reparo-courinho" parece um foguete que será lançado para levar um satélite em órbita: cheio de módulos que vão se separando aos poucos enquanto tudo vai para o espaço. O parafuso da manopla quase foi para o ralo - o buraco negro que todo banheiro tem.

Nesta operação, consegui a façanha de desrosquear a parte metálica do reparo em relação ao cubo de plástico, que ficou aderido ao cano de cobre, na parede. Tentei puxar com o alicate e quebrei a peça ali mesmo. Desisto. Telefono para o pedreiro, mas ele está concretando um alicerce e só pode vir no dia seguinte.

Não é possível. Eu sou arquiteto. É meu dever saber consertar essa porcaria. Daí que o arquiteto foi pesquisar no YouTube. Incrível, mas tem vários pedreiros, encanadores e até engenheiros que demonstram como é fácil fazer este tipo de serviço. Selecionei um exemplo para você:

Poxa vida! Se esse cara consegue trocar o courinho e filmar ao mesmo tempo, eu também consigo! Peguei uma chave de fenda, fiz uma cunha no cubo de plástico, batendo com o grifo, e ele se descolou do cano. Daí o resto do reparo saiu facilmente. Só que tive que comprar um conjunto novo.

Toca vestir a máscara. Toca voltar na loja de materiais de construção, na véspera do governo estadual decretar o fechamento dela por uma quinzena. A balconista não conseguia encontrar o componente certo. Parecia ser muito antigo. Ela chamou o chefe, que bateu o olho na minha peça e cravou:

- É um reparo da Deca original. O reparo paralelo não vai se encaixar direito.

- Quanto custa?

- R$ 37.

- Nossa, mandar ver! 

No Brasil, muita gente compra as peças paralelas para fazer economia. Então, a balconista nem oferece as peças originais, mas o patrão dela sabe onde tudo fica guardado naquelas prateleiras entulhadas de miudezas para manutenção predial. 

Antes de ir embora, a gente xingou os políticos. Eu e o dono da loja. Se não fossem esses políticos desgraçados, não poderíamos culpar eles por tudo de errado que acontece conosco. Clint Eastwood. Gran Torino. Assista.

Espetei o reparo novo no cano da parede e remontei o conjunto. Não deu certo. A manopla girava em falso. Desmontei tudo, de novo. Percebi que tinha que girar a parte metálica do reparo na parte de plástico até desaparecer a folga. Remontei o conjunto, de novo. Deu certo? Deu certo! O chuveiro finalmente ficou mudo.

Cara, eu me senti o máximo.

Telefonei para o pedreiro, de novo. Ele não precisaria vir até em casa no dia seguinte, mas lhe passei outros serviços, quando a pandemia arrefecer. Pintar o portão e o pergolado. Fazer a manutenção nas calhas e por aí vai. Tem coisas que você até consegue fazer sozinho, mas tem que pagar para outro fazer. O dinheiro precisa girar para parte dele voltar para o seu bolso, lá na frente.

Uma hora vou arrumar aquele quartinho da bagunça e organizar minhas ferramentas. Tenho certeza que vou encontrar o alicate antigo. Um homem que se preza tem que zelar pelas suas ferramentas, pela sua casa e por sua família.

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sábado, 13 de fevereiro de 2021

Oscar: o zagueiro que combateu minha bronquite

Oscar disputou a Copa de 82 na Espanha pela seleção brasileira.
Oscar disputou a Copa de 82 na Espanha pela seleção brasileira.

Dizem que crianças que nascem com peito de sapateiro desenvolvem bronquite ainda na tenra infância. Pelo menos comigo foi assim. A depressão no centro do meu tórax era tão grande, sobre a barriga, que estacionava carrinhos de ferro nela.

Sofri com bronquite desde que me lembro de estar vivo e, numa das crises noturnas, cheguei a pedir para morrer, enquanto minha mãe chorava do meu lado, agachada no piso frio da cozinha, pois eu não queria ficar no quarto. Ela me implorava para não repetir esse desejo movido a desespero. Você puxa o ar e ele não enche os pulmões. É a sensação de afogar no seco.

A gente ia em vários médicos. Cada um falava uma coisa e tentávamos de tudo para amenizar o problema. Eu bebia gemadas: vinho tinto fervido com gemas de ovos, leite e canela. Ia para a farmácia toda semana, para tomar injeções doloridas. Quando minha mãe dirigia a Brasília pela avenida central de Paulínia, eu já pedia para ela virar o volante e subir para a casa da vó, mas ela estacionava na frente da Drogaria Paulinense. Naquela época, no começo dos anos 80, sempre tinha vaga. E o Seu Gomes sempre tinha uma seringa esperando por mim.

Então, disseram para minha mãe que eu tinha que fazer fisioterapia. Havia uma clínica no centro de Campinas, perto da Catedral, que tratava outras crianças com bronquite. A Tia Vilma, morando com a gente, me levava para lá, de ônibus Bonavita. Depois de cada sessão, sempre muito cansativa, ela me pagava um churro.

Fazia os exercícios pensando naqueles churros. Soprava a água de um pote de vidro para o outro, interligados por mangueiras. A água tinha que ir e voltar. A fisioterapeuta (esqueci o nome dela) ensinou minha mãe a fazer "tapotagem": eu ficava deitado de bruços com a boca diante de uma bandeja e alguém me dava tapas sequenciados nas costas, em movimentos circulares, enquanto cuspia o catarro sem parar.

Postura de campeão

Um dia a clínica mudou para uma casa de esquina no Jardim Guanabara. É dessa época que me lembro do jogador de futebol Oscar, zagueiro revelado pela Ponte Preta, que atuou em três Copas do Mundo pela seleção brasileira. Depois de uma breve passagem pelo New York Cosmos ele havia sido contratado pelo São Paulo (disso também não lembrava: tive que pesquisar).

Alto, magro e cabeludo, ele vinha até a clínica com certa frequência, pois era irmão da fisioterapeuta que me tratava. Ele tinha um Ford Corcel II e eu achava aquele carro simplesmente o máximo: era igual ao Aquamóvel, um brinquedo da Estrela que via na TV e que nunca ganhei de presente. Normal. Tem muita coisa que desejei e que não tive. Porém, tinha certeza de que, quando crescesse, seria dono de um Corcel II.

Uma vez a professora me pediu para fazer exercícios numa bicicleta ergométrica, mas eu simplesmente não tinha ânimo para continuar. Então, o Oscar sentou na bicicleta do lado e começou a pedalar. Ele conversava comigo e me incentivava. Queria ser como ele. Queria ter um Corcel II. Daí pedalava mais e mais.

Em outra ocasião, ele me ofereceu uma camisa da Ponte Preta, mas meu pai disse que eu não podia aceitar, pois torcia pelo Palmeiras. Se pudesse voltar no tempo, teria aceitado aquele presente. O Oscar conversava com meus pais, também. Na verdade, ele dava atenção para todos naquela clínica. Ele e a irmã dele eram pessoas realmente especiais.

A menina que virou anjo

Esses quase quarenta anos de passagem do tempo também me fizeram esquecer do nome da menina que fazia fisioterapia comigo. Acho que era Graziela, pois ela tinha feições de Graziela: cabelos ruivos, pele alva e algumas sardinhas na face. O chiado da respiração dela era mais alto que o meu. Eu gostava dela. Achava ela bonita. Mas ela parou de fazer as sessões. Só fiquei sabendo, tempos depois, que ela faleceu durante uma crise. O negócio era sério, muito sério. 

Quando o ar faltava, minha mãe ligava um pequeno compressor de ar (laranja) e me fazia usar uma máscara para respirar melhor. Detestava aquela máscara, pois meu avô, que sofria de câncer, também a usava e havia morrido. Então, na minha ignorância, pensava que se usasse aquela máscara iria morrer também. Entretanto, lá no fundo, eu queria viver. Viver muito.

Dentre os conselhos que meus pais receberam, um era para se mudar do centro da cidade para uma região mais afastada, no campo. O outro conselho era mais um alerta: que se eu não sarasse da bronquite até a puberdade, teria esse problema para o resto da vida.

Meu pai vendeu a casa no Jardim Calegaris e fomos morar numa chácara. Seis mil metros quadrados de mato cercado de mato por todos os lados. Tinha oito anos quando a gente se mudou e a clínica em Campinas ficou fora de mão.

Então, fui fazer natação no Clube Paulinense, com a Dona Dirce. Parece que deu certo. Tive mais algumas crises, porém, acabei sarando da bronquite a ponto de começar a jogar bola. No gol, pois não conseguia correr.

Vida que segue

Nunca mais vi o Oscar. Nunca tive a oportunidade de agradecer. De todos os tratamentos que a gente tentou, o que talvez mais tenha ajudado foi a atenção que ele deu para mim. Um ídolo da seleção brasileira que fazia tabelinhas com Falcão, Sócrates e Zico, mas também pedalava junto com um garotinho de seis anos.

Cresci e nunca comprei um Corcel II. O mais próximo que cheguei disso foi ser dono de um Alfa Romeo 156. Com esse carro, virei o Circuito Paulista da Águas do avesso. Certa vez passei pela divisa de Água de Lindóia, em São Paulo, com Monte Sião, em Minas Gerais. Foi quando avistei o Oscar Inn, um Eco Resort de primeira qualidade que serviu de hospedagem e centro de treinamento para a seleção da Costa do Marfim na Copa de 2014, realizada no Brasil.

Vejo que ele é uma pessoa bem-sucedida, com todos os méritos. Um craque dentro e fora dos campos, dono de um coração generoso. E generosidade, você sabe, rende os melhores dividendos.

Atualizando

Por intermédio de Oscar Roberto Godói, que divide a paixão pelo MP Lafer comigo, esse texto chegou ao empresário Oscar Bernardi, que assim escreveu:

"Obrigado pelo carinho, Jean!

A clinica era de minhas irmãs (Nilza e Lucia: as duas fisioterapeutas) e eu também me formei na PUCC em fisioterapia.

Montei a clínica para elas e logo fui para os Estados Unidos. Elas voltaram para Monte Sião e foram bem sucedidas na área do tricô.

Também uso um remedinho para a bronquite, mas nada que atrapalhe meus treinamentos. Treino todos os dias na academia. O futebol não pratico mais.

Quando for para a região venha conhecer o hotel."

Como a memória prega peças na gente... Eu lembrava da Nilza, como irmã do Oscar, pois ela fazia tapotagens em minhas costas. Também lembrava da Lucia, mas não como irmã da Nilza (e do Oscar), embora eu chamasse ambas de "tias" (talvez daí venha a dificuldade para lembrar os nomes depois de tanto tempo). Peço desculpas por isso. De qualquer modo, quero registrar meu agradecimento também para elas. Quem sabe um dia, quando essa pandemia for embora, eu vá para Monte Sião e faça isso pessoalmente?

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domingo, 31 de janeiro de 2021

Peço licença para falar do Palmeiras

 

Máscara com o escudo do Palmeiras: dupla proteção.
Máscara com o escudo do Palmeiras: dupla proteção.

Em primeiro lugar, quero deixar claro que há muitos anos não acredito mais no futebol como um esporte decidido apenas dentro de campo. Em segundo lugar, declaro ser palmeirense em nome de um garoto que foi fanático pelo clube e por causa de parentes e amigos que seguem torcendo pelo Verdão. Em terceiro lugar, dentro do meu ceticismo agnóstico em torno do futebol, trato de comemorar os títulos que o Palestra ganha, porém, quando o time perde, foram apenas os jogadores que perderam. Neste concerto, minha chama pelo escrete esmeraldino se reacende de tempos em tempos, mas nunca apaga.

O Palmeiras me fez sofrer muito na infância. Nasci em 1976. A primeira vez que chorei por causa do time, foi quando ele perdeu a final do Campeonato Paulista para a Inter de Limeira, em 1986. Foi a primeira vez que levei uma bronca de meu pai por causa disso, embora ele também tenha sofrido com o resultado.

No ano seguinte, Zetti era o goleiro. Mais de mil minutos sem levar um gol. Perdemos a semifinal para o São Paulo, num frango antológico do meu ídolo. Um tal de Neto cobrou uma falta de longe e a bola passou entre as pernas do arqueiro, que jogava de camisa azul e meias brancas. É muito complicado para uma criança ver seu herói falhar. Mas é bonito quando ela aprende a perdoar o ser humano. Nisso, o futebol ensina bons valores.

Em 1988, já no Campeonato Brasileiro, Zetti estava no Maracanã quando Bebeto, do Flamengo, lhe quebrou a perna num acidente de trabalho. O atacante Gaúcho entrou no gol e, após o Mengão igualar o placar, a decisão da partida foi para os pênaltis. Epicamente, Gaúcho defendeu duas cobranças e deu a vitória para o Palmeiras, mas o título ficou distante.

Com Leão de treinador em 1989, o Verdão ganhou a Taça dos Invictos no Paulistão daquele ano. Porém, em função de um regulamento esdrúxulo, bastou uma derrota para o Bragantino, por vexaminosos 3 a 0, para ficarmos de fora das finais. Mais um dia de choro. Isso se repetia duas vezes por ano, bem como as broncas de meu pai.

Em 1992, o Palmeiras que aprendi amar por causa do meu pai e do meu avô, acabou. Começou a era da cogestão com a Parmalat, a patrocinadora que revolucionou o futebol no Brasil. O gerente Brunoro montou um timaço comandado por Zinho, Evair e Edmundo, chamando Luxemburgo para segurar as coleiras das feras.

Final do Paulistão de 1993 contra o Corinthians. No primeiro jogo, Viola marca para o Timão e imita o porco na beira do gramado. Mais um ano na fila? O décimo sétimo? Não. Teve lavada de alma na semana seguinte: 4 a 0 para o Palestra. Um dos dias mais felizes da minha vida, por causa da comemoração.

Meu irmão foi dirigindo o Fiat Prêmio do nosso pai. Sentei no batente da janela do passageiro, com os braços para cima, tomando vento no rosto até chegar na avenida central da cidade. Um engarrafamento para dar vazão a uma multidão de palmeirenses. Incontáveis sofredores que saíram do armário para sentir orgulho sem culpa, depois de tantos anos.

Tem jornalista que prega o fim dos campeonatos estaduais. Vão se ferrar, seus vendilhões do esporte bretão, que copiam tudo que os europeus fazem.

Não vi o Palmeiras-Parmalat ser campeão brasileiro de 1993. Só comemorei. Naquele dia aconteceu a festa do casamento do meu irmão, na roça. Não havia televisão por perto. Só um radinho de pilha. Mas foi igualmente inesquecível.

Por uns tempos, a rotina de choros semestrais se inverteu: fomos bicampeões paulistas e brasileiros. Mas eu não era mais criança. O futebol já não tinha tanta graça quando você entra para a faculdade e começa a se interessar por outras coisas. Outras emoções, bem mais intensas.

No meio do caminho, teve a Copa de 1994, nos Estados Unidos, que o Brasil ganhou da Itália nos pênaltis, depois de um 0 a 0 que a crônica esportiva demorou para talhar como um jogo horrível. Mais festa no centro da cidade - um dia depois da minha afilhada nascer. Fui conhecê-la no hospital depois de atravessar o centro da cidade coalhado de palmeirenses se abraçando com corintianos, sãopaulinos, santistas, bugrinos e pontepretanos. Todos bêbados.

O Brasil tinha tudo para repetir a dose em 1998, na Copa da França. Quando saiu o sorteio das chaves e a tabela do certame foi divulgada, comentei na sala de aula que aquele campeonato estava desenhado para o Brasil chegar na final e perder para a própria França. Riram de mim. Não havia celular e redes sociais para registrar eletronicamente aquela previsão que se confirmou em cada detalhe, exceto pelas convulsões do Ronaldo Fenômeno de Marketing, que ainda assim jogou os 90 minutos, em tese, por imposição da Nike, a patrocinadora do uniforme da seleção.

Naquele ponto, parei de acreditar no futebol. Foi uma epifania ao contrário.

Desde então, apenas venho fazendo de conta que o esporte é só esporte, e não um espetáculo televisivo que movimenta (e lava) milhões de dólares a cada temporada, com atletas medianos recebendo salários astronômicos repartidos com empresários, advogados e assessores de imprensa, com um bando de espertos falando obviedades em mesas redondas e fazendo merchandising, promovendo polêmicas vazias e personagens vazios.

Então, o Palmeiras resolve avançar na Taça Libertadores da América e nos vemos forçados a torcer pelo time, pois a afilhada que perdeu os pais precocemente já tem capacidade de guardar memórias e pensamos que é bonito falar do Papai Noel para ela. O time progride de fase até chegar à final, com Felipão Scolari no banco, dando patadas na imprensa, e um goleiro torcedor com nome de santo: Marcos.

São Marcos das mãos de ouro e dos pés de barro, que é eleito o melhor jogador das Américas e falha na decisão do Intercontinental contra o Manchester United. São Marcos que é roubado pelo juiz de forma escancarada na final da Libertadores de 2000 contra o Boca Juniors (que não assisti pois estava em outro casamento, na periferia de Piracicaba, invadindo a cozinha do buffet para ouvir as cobranças de pênaltis pelo rádio, para ouvir a banda do baile tocar o hino do Corinthians na sequência, para sentar sozinho no meio fio da praça e prometer novamente que nunca mais iria me importar com o futebol).

São Marcos que pega tudo na Copa de 2002. A Copa que o Rivaldo serviu de bandeja para o Ronaldo Fenômeno de Marketing se consagrar. São Marcos que afunda com o Verdão para a segunda divisão e que dá a volta por cima nas narrações empolgantes de Luciano do Valle, contra o Marília, contra o Sport, contra (e com) o Botafogo. São Marcos que merece o nosso respeito.

A Parmalat foi embora e o Palmeiras acaba mais uma vez, quando a diretoria decide demolir o Estádio Palestra Itália para dar lugar a uma arena super moderna. Levo minha afilhada no jogo de despedida do velho campo, contra o Boca Juniors, cujos zagueiros dão carrinho de cabeça na bola, em pleno amistoso, mas que jogam com o freio de mão puxado contra o Corinthians em outra final de Libertadores. O Boca Juniors da Nike, contra o Corinthians da Nike, que tem um torcedor profissional, o Ronaldo Fenômeno de Marketing da Nike.

A Nike é para o Corinthians o que a Parmalat foi para o Palmeiras. Para o bem a para o mal.

Já não me importei com a segunda queda do Palmeiras para a segunda divisão. Muito menos com a goleada sofrida pelo Brasil contra a Alemanha na Copa de 2014. A Copa dos estádios superfaturados e dos elefantes brancos subaproveitados. Tudo chancelado pela FIFA, que se recusa a reconhecer o título mundial do Palmeiras de 1951, cuja taça foi entregue por Jules Rimet, fundador da FIFA.

O Palmeiras de estádio novo e patrocinador novo, volta a ganhar títulos nacionais. O mais triste de todos foi o Brasileirão de 2016, apagado pela tragédia da Chapecoense, que comoveu o mundo. O dinheiro que jorra nos bolsos de jogadores, dirigentes, empresários e jornalistas que fazem merchandising, faltou para o piloto-dono do avião completar o tanque de combustível

Nem a pane seca de um avião. Nem o incêndio do Ninho do Urubu. Nem a Pandemia do Coronavírus. Nada interrompe o futebol.

Em 2020, voltei a chorar por causa do Palmeiras. Em casa, sozinho, vendo pela TV o Verdão contra seu eterno rival. Dentro do meu ceticismo agnóstico perante o futebol, não torço contra o Corinthians. Tenho amigos corintianos. Minha mãe é corintiana. Mas quando o Patrick de Paula estufou as redes na derradeira cobrança de pênaltis da final do Paulistão (sempre Paulistão) contra o gigante Cássio, tornei-me fã dele e agradeci ao futebol por permitir sua ascensão social. Quis, mesmo, que ele pudesse se tornar um torcedor do Palmeiras e que ficasse no time por muitos anos.

Não deveria deixar o futebol mexer com minhas emoções desse jeito. Então, caí em prantos ao constatar que meu irmão não estava mais na sala. Que não poderíamos mais sair de carro para fazer aquela doce farra de campeões. Que, enquanto jogadores erguiam a taça diante de arquibancadas vazias, havia gente morrendo em UTIs lotadas.

A dose se repetiu na final da Libertadores de 2020, jogada em 2021 contra o Santos no Maracanã. A imprensa carioca e flamenguista se juntou com a imprensa paulista e corintiana para massacrar a qualidade do jogo, como se não estivesse em campo os maiores campeões brasileiros se respeitando mutuamente, sentindo um medo enorme de deixar escapar o título mais importante de suas histórias recentes.

O empate sem gols tinha tudo para se arrastar até a prorrogação. Tudo indicava mais uma decisão por cobrança de pênaltis - o que seria ótimo para o SBT catapultar sua audiência, que há mais de 15 anos não era tão alta. Não é só esporte. É dinheiro. É publicidade. Mas nisso o canal fez um ótimo trabalho. Teo José, como locutor esportivo e promotor do show, é competente e sabe vender emoções.

Esse jogo não era para acontecer. Não neste cenário de guerra. Mas aconteceu e trouxe um pequeno alento para milhões de palmeirenses. Muitos fanáticos, alguns céticos e alguns que aprenderam a praticar o autoengano.

Fiquei com dó do técnico Cuca. Não merecia ser expulso. Fiquei com dó do Santos. Não merecia perder. Então, antes do encerramento do ato, quando as cortinas já estavam baixando para dar lugar ao interlúdio, Rony cruzou na área e Breno subiu no segundo andar para marcar, de cabeça, o gol do título.

Sozinho na sala, soltei um berro. Minha esposa correu para ver o que aconteceu. Sentei minha filha no colo e pedi para ela ver a chuva de papel picado na tela.

- Preste atenção nisso, pois não vai acontecer de novo, tão cedo.

Para todos os efeitos, Papai Noel existe e minha filha será palmeirense.

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Crepúsculo de jogo

O Brasil de verdade não joga mais

Textos sobre o Palmeiras em JeanTosetto.com

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quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

A bruxa solta e os reis magos

6 de janeiro: dia de desmontar o pinheirinho de Natal.
6 de janeiro: dia de desmontar o pinheirinho de Natal.

Meus amigos, há exatamente um ano, em 6 de janeiro de 2020, escrevi as palavras a seguir, em meu perfil no Facebook, semanas antes da Pandemia do Coronavírus tomar o planeta Terra de assalto. Até então, os boatos sobre um misterioso vírus circulando pela China eram nebulosos e reticentes, mas o debate em torno da Covid-19 veio para dialogar com meus receios:

"

6 de janeiro. No Brasil é dia de desmontar a árvore de Natal.

Na tradição cristã é dia de Epifania, para lembrar dos Três Reis Magos que visitaram o menino Jesus.

Na Itália é dia de "La Befana", a bruxa boa que vem trazer doces para as crianças obedientes, e lascas de carvão para aquelas que aprontaram no ano passado. 

A secularização está acabando com estes costumes, assim como a globalização, que apaga fronteiras e vai diluindo também a diversidade cultural do mundo. Diversidade lembra diversificação: é ela que protege as pessoas de ideologias vazias e os investidores dos riscos. 

Fronteiras e tradições são necessárias. Imagine um mercado plenamente globalizado, regido por apenas uma Bolsa? Haveria um risco sistêmico incontrolável.

Imagine um mundo sem costumes locais preservados: viveríamos todos num grande aeroporto com quartos de hotéis beges e padronizados, no qual viajar deixaria de fazer sentido.

Esse justamente é o sonho de muita gente: uma só moeda, uma só língua, uma só rede social controlando tudo. Que La Befana nos proteja disso, com ajuda dos Reis Magos.

"

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O ano que virou fumaça

Coronaldo em estado crônico

É feliz quem vende a felicidade?

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