quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

A bruxa solta e os reis magos

6 de janeiro: dia de desmontar o pinheirinho de Natal.
6 de janeiro: dia de desmontar o pinheirinho de Natal.

Meus amigos, há exatamente um ano, em 6 de janeiro de 2020, escrevi as palavras a seguir, em meu perfil no Facebook, semanas antes da Pandemia do Coronavírus tomar o planeta Terra de assalto. Até então, os boatos sobre um misterioso vírus circulando pela China eram nebulosos e reticentes, mas o debate em torno da Covid-19 veio para dialogar com meus receios:

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6 de janeiro. No Brasil é dia de desmontar a árvore de Natal.

Na tradição cristã é dia de Epifania, para lembrar dos Três Reis Magos que visitaram o menino Jesus.

Na Itália é dia de "La Befana", a bruxa boa que vem trazer doces para as crianças obedientes, e lascas de carvão para aquelas que aprontaram no ano passado. 

A secularização está acabando com estes costumes, assim como a globalização, que apaga fronteiras e vai diluindo também a diversidade cultural do mundo. Diversidade lembra diversificação: é ela que protege as pessoas de ideologias vazias e os investidores dos riscos. 

Fronteiras e tradições são necessárias. Imagine um mercado plenamente globalizado, regido por apenas uma Bolsa? Haveria um risco sistêmico incontrolável.

Imagine um mundo sem costumes locais preservados: viveríamos todos num grande aeroporto com quartos de hotéis beges e padronizados, no qual viajar deixaria de fazer sentido.

Esse justamente é o sonho de muita gente: uma só moeda, uma só língua, uma só rede social controlando tudo. Que La Befana nos proteja disso, com ajuda dos Reis Magos.

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segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

O ano que virou fumaça

A churrasqueira em ação no dia 31 de dezembro de 2020.
A churrasqueira em ação no dia 31 de dezembro de 2020.

O ser humano tem uma vontade quase incontrolável de preencher todos os espaços disponíveis. O mesmo se dá em relação ao tempo, ao menos para quem já sucumbiu à lógica capitalista da pós-modernidade: todo tempo deve ser ocupado com alguma atividade útil.

Este foi o grande baque que a humanidade sentiu logo no começo da pandemia: a quarentena forçada em casa fez aparecer algumas horas de ócio que antes pareciam não existir. Então, toca refazer o rejunte de alguns pisos no banheiro, arrancar a erva daninha do gramado, podar as moitas de pingos de ouro, arrumar a papelada.

Logo, uma caixa de papelão recebeu uma pilha de papéis inúteis e vencidos que, no entanto, não poderiam ir para o lixo, pois continham dados bancários, endereços, CPFs. O certo era picar um por um, mas quem teria paciência para tanto?

Então, a caixa de papéis velhos ficou lá, sobre a grelha da churrasqueira. Não tardou para descobrimos outras formas de ocupar o tempo, como trabalhar ainda mais, pois poder trabalhar era sinal de grande privilégio, sem deixar de ser uma eficiente terapia.

Como os mais pessimistas (ou seriam os mais sensatos?) anteciparam, a quarentena virou um tipo de ano sabático manco. O trabalho continuou, mas as viagens de fim de semana cessaram e os almoços em restaurantes também, ao menos para os mais medrosos - ou seriam os mais sensatos?

Oito, nove meses depois da normalidade ter ido para a estratosfera, muitos entregaram os pontos: resolveram extravasar nas festas de fim de ano. Não bastava se esbaldar na falta de prudência: era preciso postar tudo nas redes sociais. 

Uma multidão de zumbis anestesiados - dos adeptos dos pancadões ao presidente, passando pelas celebridades do futebol - decidiu que o vírus coroado teria que respeitar a folhinha do calendário e que a virada do ano seria também a virada para um "novo normal". 

"Os velhos e os medrosos (os sensatos?) que se vacinem, que se explodam."


Minha esposa cansou de esperar que eu desse um jeito naqueles papéis amontoados na caixa de papelão sobre a grelha da churrasqueira. Ela resolveu queimar um a um, fazendo um churrasco de pensamentos e memórias embaralhadas, usando aqueles papéis como carvão.

Fui ao supermercado, portando máscara, rezando em silêncio, pedindo proteção. Comprei um saco de carvão, uma bandeja de espetinhos, outra de contrafilé, sal grosso rosa do Himalaia e um bocado de pão de alho recheado com queijo e linguiça calabresa moída. Não podia faltar o vinho frisante.

Quando voltei, minha dona já tinha raspado as cinzas da churrasqueira. Passaríamos a noite de Reveillon só nós três. A gente e a nossa filha. Nem me lembrava da última vez que tinha tentado acender o fogo daquela churrasqueira. Nunca fui bom nisso.

Montei uma espécie de pirâmide com os tocos de madeira reflorestada. No lugar do sarcófago do faraó, torci em forma de cálice um pedaço de papel daquele saco de carvão. Risquei um palito de fósforo. Dois, três, doze palitos de fósforo.

As chamas teimavam em apagar. Não era possível. Tentei de novo e de novo. Lembrei de usar uma aleta de papelão para soprar ar nas fagulhas. Cansei o braço, mas finalmente deu certo: sorri feito um escoteiro e logo me dobrei ao fato de que isso era comum aos homens das cavernas.

Lá estava eu, na minha caverna particular, começando a queimar as últimas horas de 2020, um ano que vai definir um século inteiro. Olhei para trás e vi minha família esperando para fazer a ceia. Subitamente entendi a razão de tantos homens adorarem fazer churrasco. É um ritual milenar.

O queijo derretido dos pães de alho fizeram as chamas da churrasqueira ficarem no ponto ideal para assar os espetinhos. Ligamos o rádio para ouvir as 500 músicas mais pedidas de uma estação que só toca Rock, enquanto preparei os bifes de contrafilé.

- Salgue a carne sem dó, pois ela absorve o sal que precisa e o resto ela solta na churrasqueira.

Pude ouvir a voz de um tio gaúcho me aconselhando. Apenas duas ou três viradas para os bifes pegarem um bronze e ficarem macios. Deu certo. Não acreditei que fiz um churrasco minimamente decente. Pena que não havia uma multidão de parentes e amigos para testemunhar.

2021 começou ao sabor de goles de lambrusco rosso, de uma marca sugestiva: "Sogno Italiano". Que seja um ano de reconstrução do que era bom antes de 2020 e de construção do que precisa ser bom daqui para frente.

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quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Promoção: combo de livros da Suno com desconto!

Cinco livros da Suno por apenas R$ 99 + frete!
Cinco livros da Suno por apenas R$ 99 + frete!

Trabalho como editor associado da Suno Research desde 2017. Neste ano de 2020 a gente não tirou o pé do acelerador, mesmo com o toró caindo na pista. Mas sabe como é: chegam as festas de novembro e dezembro, como o Jantar de Ação de Graças, a Black Friday, a véspera de Natal e o tão esperado Reveillon. O coração da gente vai amolecendo e a vontade de ajudar cada vez mais pessoas só aumenta.

Decidi conversar com a direção da Editora CLA, nossa grande parceira neste desafio de ofertar educação financeira de qualidade para cada vez mais brasileiros. Pedi para eles desenvolverem um pacote dos livros da Suno com um preço super acessível. "Peça e você receberá" - é o que dizem os anciãos. Pedi e a CLA nos atendeu (pois o pedido foi para todos nós).

Os cinco livros já impressos da Suno Research, campeões de vendas e de avaliações positivas na Amazon, juntos por apenas R$ 99 mais o frete. Isso é desconto de verdade, rondando a casa dos 50%. Saiba um pouco mais sobre cada um dos lançamentos:

Guia Suno Dividendos: A estratégia para investir na geração de renda passiva

Tiago Reis é um investidor bem-sucedido no mercado de capitais do Brasil. Independente financeiramente, ele fundou a Suno Research para auxiliar outros investidores em suas jornadas. A estratégia adotada por ele está ao seu alcance, numa colaboração com Jean Tosetto.

Guia Suno de Contabilidade para Investidores: Conceitos contábeis fundamentais para quem investe na Bolsa

A parceria entre Tiago Reis e Jean Tosetto rende o segundo livro da coleção Guia Suno. Após o sucesso de crítica e público do Guia Suno Dividendos, chegou a vez de aprofundar as noções de conceitos contábeis - um aspecto importante na análise fundamentalista para investidores.

Guia Suno Fundos Imobiliários: Introdução sobre investimentos seguros e rentáveis

O Professor Marcos Baroni e o investidor focado em fundos imobiliários, Danilo Bastos, desenvolveram uma eficaz parceria para apresentar uma alternativa viável e inteligente para geração de renda passiva, através de ativos que combinam a segurança do mercado imobiliário com a competitividade do mercado financeiro.

101 Perguntas e Respostas para Investidores Iniciantes

Tiago Reis e Felipe Tadewald se reúnem para esclarecer dúvidas para investidores novatos. É o livro que eles mesmos gostariam de ter lido quando começaram a operar na Bolsa de São Paulo. As questões foram organizadas em capítulos e ordem progressiva por Jean Tosetto.

Guia Suno Small Caps: Investindo em empresas com os maiores potenciais da Bolsa

Neste livro, os autores Rodrigo Wainberg e Tiago Reis traçam um panorama sobre as ações que podem conciliar a distribuição de dividendos com a capacidade de valorização superior ao verificado nas empresas de grande porte, já consolidadas.

São incontáveis horas de trabalho reunindo os esforços de alguns dos melhores analistas do mercado de capitais, que também são colaboradores da Suno, num esforço para que você adquira conhecimento suficiente para seguir a própria jornada rumo à independência financeira. Dê o primeiro passo, clicando no link a seguir:


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sábado, 28 de novembro de 2020

Em algum lugar de Pedreira

Publicado originalmente em 28/01/2018.

A porta do aposento se abre e uma plêiade de histórias se arma diante de seus olhos, feito dobraduras de um livro de origami.

O disco do Roberto Carlos diz que ele já viveu em ritmo de aventura. 

A máquina de costura já costurou o enxoval da noiva que abandonou a cadeira quando fugiu de casa com o caixeiro viajante.

A poltrona de tecido puído ainda oferece repouso para o caminhoneiro que adaptou o ventilador na sua boleia.

Cada objeto nesta cena renderia um conto, mas os romances estão sepultados com os personagens ausentes nesta foto.


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sábado, 31 de outubro de 2020

Sean Connery se vai junto com uma parte do século 20

Reprodução de capa do DVD com o filme "007 contra Goldfinger" de 1964.
Reprodução de capa do DVD com o filme "007 contra Goldfinger" de 1964.

Lá pelo começo dos anos de 1990 eu era um adolescente parecido com uma garça. Minha voz ecoava feito uma taquara rachada ao vento. Tinha mais espinhas na testa do que números decorados na tabuada. Mas havia meu irmão. Ele sempre me colocava para cima.

Uma dia fui com ele na vídeo-locadora. Se você tem menos de 25 anos, terá dificuldades para saber como poderia ser angustiante escolher um entre centenas de filmes dispostos naquelas prateleiras, em fitas cassetes. Quem não chegasse logo cedo, perderia a vez para alugar os lançamentos mais recentes. Talvez, em função disso, escolhemos "007 contra Goldfinger", com Sean Connery. Era um filme de 1964 e, portanto, já antigo para a época.

Foi uma ótima escolha. Aquele James Bond decidido, que falava as frases certas nas horas certas, transbordando confiança para ficar com as mais lindas garotas, que bebia Vodca com Martini, fumava com classe e dirigia um Aston Martin DB5 pelas estradas alpinas da Suíça, era simplesmente alguém que queríamos ser.

Logo, passamos a assistir todos os filmes de Sean Connery disponíveis naquela locadora. Ele também foi pai do Indiana Jones, um policial honesto em "Os Intocáveis" e um frade detetive em "O Nome da Rosa". Era um excelente ator.

Por anos me perguntei qual a razão que o motivou a abandonar a série de 007, iniciada com ele em 1962. Ele teria idade para ficar no papel pelo menos até a década de 1980, mas no limiar dos anos 70 resolveu seguir outros rumos.

Ele estava certo: insistir com um personagem datado não seria bom para sua carreira e todos nós, entusiastas de James Bond, tivemos que desaprender certas coisas que o agente secreto sempre representou. Era isso ou padecer perante o politicamente correto.

Sean Connery teve a sorte de nascer em 1930. Ele viveu intensamente a sua época e teria sido cancelado recorrentemente, caso tivesse sido congelado em 1967 e reavivado meio século depois. Quem, no cinema de hoje, poderia dar um tapa nas nádegas de um bela dona e sair impune?

Certa vez tive a nítida impressão de ter visto Sean Connery no centro de Montevideo. Ele - ou quem julguei que fosse ele - já estava idoso, mas ainda conservava o porte atlético, o andar de pantera e o olhar penetrante de uma águia. Confesso que tentei copiar seu estilo, como forma de vencer a timidez nas noites de sábado, até perceber que tinha que ser eu mesmo, ainda no meu tempo de solteiro.

O escocês Sir Sean Connery escolheu as Bahamas para viver seus últimos anos e morreu dormindo, aos 90 anos de idade, sem ver o fim desta pandemia que está ajudando a definir os rumos do século 21. Faz sentido. Não se pode cobrar que um dinossauro do século 20 viva para sempre.

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O que vem fácil vai fácil

Memórias animadas

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sábado, 26 de setembro de 2020

O quadro da Caloi Cruiser 87

Desta bicicleta híbrida, apenas o quadro é remanescente de uma Calói Cruiser 1987.
Desta bicicleta híbrida, apenas o quadro é remanescente de uma Caloi Cruiser 1987.

Se a economia planetária dependesse do meu perfil de consumo, estaríamos em situação muito complicada. Embora eu tenha dois carros (um absurdo), o mais novo deles tem mais de vinte anos e está comigo há mais de sete. Uso minhas camisas de gola polo até elas rasgarem no acabamento das mangas. Se os furos nas solas das meias não são aparentes, vou usando elas mais um pouco.

Por isso, você não deveria ficar espantado se dissesse que tenho uma bicicleta fabricada em 1987. Pelo menos o que sobrou dela: o quadro de uma Caloi Cruiser. Pedalo a magrela desde os meus doze anos de idade, pois a ganhei de segunda mão, em 1988.

Como não sou uma pessoa de constância na prática das atividades físicas - alterno temporadas de caminhadas com aulas de natação e academia - minha bicicleta fica encostada na garagem, de vez em quando. Então, quando retomo o gosto pelo pedal, tenho que fazer uma revisão geral nela.

Certa vez levei a bike numa bicicletaria nova da cidade, dessas que vendem peças importadas e roupas colantes (que me recuso a usar). Pedi para consertar uma das alavancas de marcha, que estava solta. O cara olhou a estrovenga de perto e disse que estava sem agenda para fazer o serviço - que sequer tinha espaço para guardar a velhinha. 

Entendi o recado e fui em outra oficina. Lá fui bem recebido por gente do estilo "raiz", que transforma Monark Barra Circular em Moutain Bike, tirando os para-lamas e o suporte da garupa. Quando você não segue a moda, tem que procurar a turma que também não liga para essas coisas.

Nessa pandemia interminável de 2020, fiquei de molho por uns bons meses, em casa. Montei um circuito de caminhadas entre o quintal e o jardim, de 80 metros por volta. Dava 30 voltas por dia para fazer circular o sangue. Mas senti que isto não estava resolvendo. Estava quase travando, tamanha tensão.

Então resolvi encarar o mundo exterior de frente. Peguei a velha bike, vesti a máscara e retomei as saídas diárias. Bolei um trajeto longe do circuito habitual da cidade e escolhi um horário mais sossegado. Tudo para evitar aglomerações. Foi uma das melhores decisões que tomei neste ano.

Gravei até um vídeo sobre isso:

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A panela de descompressão

Nem tudo pode ser planilhado

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segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Nem tudo pode ser planilhado

Imagem publicada originalmente no antigo site MP Lafer hpG em agosto de 2001.
Imagem publicada originalmente no antigo site MP Lafer hpG em agosto de 2001.


Em 1997 não havia Instagram e, consequentemente, não existiam influenciadores digitais. Então, com 21 anos nas costas, ninguém me avisou que poderia ser um péssimo negócio vender um veículo seminovo para comprar um MP Lafer 1974. 

"Carro só dá despesas" - eles dizem.

Quando criei o site mplafer.net em 2001, ninguém me disse que eu poderia canalizar o conteúdo para vender coisas, ao invés de escrever artigos viajandőes, para dar vazão a uma paixão por carros, fotografia e viagens propriamente ditas.

Escrever um livro sobre a marca em 2012? Fundar a própria editora? Bancar a gráfica?

"Cara, tem jeito mais fácil de ganhar dinheiro" - poderiam me aconselhar. E tinha mesmo.

Mas como eu seria convidado para publicar o segundo livro (Arquiteto 1.0), antes de começar a escrever sobre finanças?

Como eu entraria no time da Suno Research sem essa bagagem adquirida por minha teimosia em alimentar um "capricho"?

Se fizer as contas, já deixei de monetizar várias horas de trabalho com textos que nunca me renderam nada. Provavelmente, já deixei algumas centenas de lotes de ações pagadoras de dividendos na oficina mecânica, ao longo de mais de 20 anos.

Porém, não me arrependo de nada.

Você tem 21 anos? Não tem problema algum em seguir gente que ensina a economizar dinheiro, abrindo mão de algumas vontades. Mas saiba filtrar as coisas.

Se tiver que seguir alguém de verdade, siga seu coração. Isso pode não te deixar rico, mas te deixará mais feliz e realizado.

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