sábado, 13 de fevereiro de 2021

Oscar: o zagueiro que combateu minha bronquite

Oscar disputou a Copa de 82 na Espanha pela seleção brasileira.
Oscar disputou a Copa de 82 na Espanha pela seleção brasileira.

Dizem que crianças que nascem com peito de sapateiro desenvolvem bronquite ainda na tenra infância. Pelo menos comigo foi assim. A depressão no centro do meu tórax era tão grande, sobre a barriga, que estacionava carrinhos de ferro nela.

Sofri com bronquite desde que me lembro de estar vivo e, numa das crises noturnas, cheguei a pedir para morrer, enquanto minha mãe chorava do meu lado, agachada no piso frio da cozinha, pois eu não queria ficar no quarto. Ela me implorava para não repetir esse desejo movido a desespero. Você puxa o ar e ele não enche os pulmões. É a sensação de afogar no seco.

A gente ia em vários médicos. Cada um falava uma coisa e tentávamos de tudo para amenizar o problema. Eu bebia gemadas: vinho tinto fervido com gemas de ovos, leite e canela. Ia para a farmácia toda semana, para tomar injeções doloridas. Quando minha mãe dirigia a Brasília pela avenida central de Paulínia, eu já pedia para ela virar o volante e subir para a casa da vó, mas ela estacionava na frente da Drogaria Paulinense. Naquela época, no começo dos anos 80, sempre tinha vaga. E o Seu Gomes sempre tinha uma seringa esperando por mim.

Então, disseram para minha mãe que eu tinha que fazer fisioterapia. Havia uma clínica no centro de Campinas, perto da Catedral, que tratava outras crianças com bronquite. A Tia Vilma, morando com a gente, me levava para lá, de ônibus Bonavita. Depois de cada sessão, sempre muito cansativa, ela me pagava um churro.

Fazia os exercícios pensando naqueles churros. Soprava a água de um pote de vidro para o outro, interligados por mangueiras. A água tinha que ir e voltar. A fisioterapeuta (esqueci o nome dela) ensinou minha mãe a fazer "tapotagem": eu ficava deitado de bruços com a boca diante de uma bandeja e alguém me dava tapas sequenciados nas costas, em movimentos circulares, enquanto cuspia o catarro sem parar.

Postura de campeão

Um dia a clínica mudou para uma casa de esquina no Jardim Guanabara. É dessa época que me lembro do jogador de futebol Oscar, zagueiro revelado pela Ponte Preta, que atuou em três Copas do Mundo pela seleção brasileira. Depois de uma breve passagem pelo New York Cosmos ele havia sido contratado pelo São Paulo (disso também não lembrava: tive que pesquisar).

Alto, magro e cabeludo, ele vinha até a clínica com certa frequência, pois era irmão da fisioterapeuta que me tratava. Ele tinha um Ford Corcel II e eu achava aquele carro simplesmente o máximo: era igual ao Aquamóvel, um brinquedo da Estrela que via na TV e que nunca ganhei de presente. Normal. Tem muita coisa que desejei e que não tive. Porém, tinha certeza de que, quando crescesse, seria dono de um Corcel II.

Uma vez a professora me pediu para fazer exercícios numa bicicleta ergométrica, mas eu simplesmente não tinha ânimo para continuar. Então, o Oscar sentou na bicicleta do lado e começou a pedalar. Ele conversava comigo e me incentivava. Queria ser como ele. Queria ter um Corcel II. Daí pedalava mais e mais.

Em outra ocasião, ele me ofereceu uma camisa da Ponte Preta, mas meu pai disse que eu não podia aceitar, pois torcia pelo Palmeiras. Se pudesse voltar no tempo, teria aceitado aquele presente. O Oscar conversava com meus pais, também. Na verdade, ele dava atenção para todos naquela clínica. Ele e a irmã dele eram pessoas realmente especiais.

A menina que virou anjo

Esses quase quarenta anos de passagem do tempo também me fizeram esquecer do nome da menina que fazia fisioterapia comigo. Acho que era Graziela, pois ela tinha feições de Graziela: cabelos ruivos, pele alva e algumas sardinhas na face. O chiado da respiração dela era mais alto que o meu. Eu gostava dela. Achava ela bonita. Mas ela parou de fazer as sessões. Só fiquei sabendo, tempos depois, que ela faleceu durante uma crise. O negócio era sério, muito sério. 

Quando o ar faltava, minha mãe ligava um pequeno compressor de ar (laranja) e me fazia usar uma máscara para respirar melhor. Detestava aquela máscara, pois meu avô, que sofria de câncer, também a usava e havia morrido. Então, na minha ignorância, pensava que se usasse aquela máscara iria morrer também. Entretanto, lá no fundo, eu queria viver. Viver muito.

Dentre os conselhos que meus pais receberam, um era para se mudar do centro da cidade para uma região mais afastada, no campo. O outro conselho era mais um alerta: que se eu não sarasse da bronquite até a puberdade, teria esse problema para o resto da vida.

Meu pai vendeu a casa no Jardim Calegaris e fomos morar numa chácara. Seis mil metros quadrados de mato cercado de mato por todos os lados. Tinha oito anos quando a gente se mudou e a clínica em Campinas ficou fora de mão.

Então, fui fazer natação no Clube Paulinense, com a Dona Dirce. Parece que deu certo. Tive mais algumas crises, porém, acabei sarando da bronquite a ponto de começar a jogar bola. No gol, pois não conseguia correr.

Vida que segue

Nunca mais vi o Oscar. Nunca tive a oportunidade de agradecer. De todos os tratamentos que a gente tentou, o que talvez mais tenha ajudado foi a atenção que ele deu para mim. Um ídolo da seleção brasileira que fazia tabelinhas com Falcão, Sócrates e Zico, mas também pedalava junto com um garotinho de seis anos.

Cresci e nunca comprei um Corcel II. O mais próximo que cheguei disso foi ser dono de um Alfa Romeo 156. Com esse carro, virei o Circuito Paulista da Águas do avesso. Certa vez passei pela divisa de Água de Lindóia, em São Paulo, com Monte Sião, em Minas Gerais. Foi quando avistei o Oscar Inn, um Eco Resort de primeira qualidade que serviu de hospedagem e centro de treinamento para a seleção da Costa do Marfim na Copa de 2014, realizada no Brasil.

Vejo que ele é uma pessoa bem-sucedida, com todos os méritos. Um craque dentro e fora dos campos, dono de um coração generoso. E generosidade, você sabe, rende os melhores dividendos.

Atualizando

Por intermédio de Oscar Roberto Godói, que divide a paixão pelo MP Lafer comigo, esse texto chegou ao empresário Oscar Bernardi, que assim escreveu:

"Obrigado pelo carinho, Jean!

A clinica era de minhas irmãs (Nilza e Lucia: as duas fisioterapeutas) e eu também me formei na PUCC em fisioterapia.

Montei a clínica para elas e logo fui para os Estados Unidos. Elas voltaram para Monte Sião e foram bem sucedidas na área do tricô.

Também uso um remedinho para a bronquite, mas nada que atrapalhe meus treinamentos. Treino todos os dias na academia. O futebol não pratico mais.

Quando for para a região venha conhecer o hotel."

Como a memória prega peças na gente... Eu lembrava da Nilza, como irmã do Oscar, pois ela fazia tapotagens em minhas costas. Também lembrava da Lucia, mas não como irmã da Nilza (e do Oscar), embora eu chamasse ambas de "tias" (talvez daí venha a dificuldade para lembrar os nomes depois de tanto tempo). Peço desculpas por isso. De qualquer modo, quero registrar meu agradecimento também para elas. Quem sabe um dia, quando essa pandemia for embora, eu vá para Monte Sião e faça isso pessoalmente?

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domingo, 31 de janeiro de 2021

Peço licença para falar do Palmeiras

 

Máscara com o escudo do Palmeiras: dupla proteção.
Máscara com o escudo do Palmeiras: dupla proteção.

Em primeiro lugar, quero deixar claro que há muitos anos não acredito mais no futebol como um esporte decidido apenas dentro de campo. Em segundo lugar, declaro ser palmeirense em nome de um garoto que foi fanático pelo clube e por causa de parentes e amigos que seguem torcendo pelo Verdão. Em terceiro lugar, dentro do meu ceticismo agnóstico em torno do futebol, trato de comemorar os títulos que o Palestra ganha, porém, quando o time perde, foram apenas os jogadores que perderam. Neste concerto, minha chama pelo escrete esmeraldino se reacende de tempos em tempos, mas nunca apaga.

O Palmeiras me fez sofrer muito na infância. Nasci em 1976. A primeira vez que chorei por causa do time, foi quando ele perdeu a final do Campeonato Paulista para a Inter de Limeira, em 1986. Foi a primeira vez que levei uma bronca de meu pai por causa disso, embora ele também tenha sofrido com o resultado.

No ano seguinte, Zetti era o goleiro. Mais de mil minutos sem levar um gol. Perdemos a semifinal para o São Paulo, num frango antológico do meu ídolo. Um tal de Neto cobrou uma falta de longe e a bola passou entre as pernas do arqueiro, que jogava de camisa azul e meias brancas. É muito complicado para uma criança ver seu herói falhar. Mas é bonito quando ela aprende a perdoar o ser humano. Nisso, o futebol ensina bons valores.

Em 1988, já no Campeonato Brasileiro, Zetti estava no Maracanã quando Bebeto, do Flamengo, lhe quebrou a perna num acidente de trabalho. O atacante Gaúcho entrou no gol e, após o Mengão igualar o placar, a decisão da partida foi para os pênaltis. Epicamente, Gaúcho defendeu duas cobranças e deu a vitória para o Palmeiras, mas o título ficou distante.

Com Leão de treinador em 1989, o Verdão ganhou a Taça dos Invictos no Paulistão daquele ano. Porém, em função de um regulamento esdrúxulo, bastou uma derrota para o Bragantino, por vexaminosos 3 a 0, para ficarmos de fora das finais. Mais um dia de choro. Isso se repetia duas vezes por ano, bem como as broncas de meu pai.

Em 1992, o Palmeiras que aprendi amar por causa do meu pai e do meu avô, acabou. Começou a era da cogestão com a Parmalat, a patrocinadora que revolucionou o futebol no Brasil. O gerente Brunoro montou um timaço comandado por Zinho, Evair e Edmundo, chamando Luxemburgo para segurar as coleiras das feras.

Final do Paulistão de 1993 contra o Corinthians. No primeiro jogo, Viola marca para o Timão e imita o porco na beira do gramado. Mais um ano na fila? O décimo sétimo? Não. Teve lavada de alma na semana seguinte: 4 a 0 para o Palestra. Um dos dias mais felizes da minha vida, por causa da comemoração.

Meu irmão foi dirigindo o Fiat Prêmio do nosso pai. Sentei no batente da janela do passageiro, com os braços para cima, tomando vento no rosto até chegar na avenida central da cidade. Um engarrafamento para dar vazão a uma multidão de palmeirenses. Incontáveis sofredores que saíram do armário para sentir orgulho sem culpa, depois de tantos anos.

Tem jornalista que prega o fim dos campeonatos estaduais. Vão se ferrar, seus vendilhões do esporte bretão, que copiam tudo que os europeus fazem.

Não vi o Palmeiras-Parmalat ser campeão brasileiro de 1993. Só comemorei. Naquele dia aconteceu a festa do casamento do meu irmão, na roça. Não havia televisão por perto. Só um radinho de pilha. Mas foi igualmente inesquecível.

Por uns tempos, a rotina de choros semestrais se inverteu: fomos bicampeões paulistas e brasileiros. Mas eu não era mais criança. O futebol já não tinha tanta graça quando você entra para a faculdade e começa a se interessar por outras coisas. Outras emoções, bem mais intensas.

No meio do caminho, teve a Copa de 1994, nos Estados Unidos, que o Brasil ganhou da Itália nos pênaltis, depois de um 0 a 0 que a crônica esportiva demorou para talhar como um jogo horrível. Mais festa no centro da cidade - um dia depois da minha afilhada nascer. Fui conhecê-la no hospital depois de atravessar o centro da cidade coalhado de palmeirenses se abraçando com corintianos, sãopaulinos, santistas, bugrinos e pontepretanos. Todos bêbados.

O Brasil tinha tudo para repetir a dose em 1998, na Copa da França. Quando saiu o sorteio das chaves e a tabela do certame foi divulgada, comentei na sala de aula que aquele campeonato estava desenhado para o Brasil chegar na final e perder para a própria França. Riram de mim. Não havia celular e redes sociais para registrar eletronicamente aquela previsão que se confirmou em cada detalhe, exceto pelas convulsões do Ronaldo Fenômeno de Marketing, que ainda assim jogou os 90 minutos, em tese, por imposição da Nike, a patrocinadora do uniforme da seleção.

Naquele ponto, parei de acreditar no futebol. Foi uma epifania ao contrário.

Desde então, apenas venho fazendo de conta que o esporte é só esporte, e não um espetáculo televisivo que movimenta (e lava) milhões de dólares a cada temporada, com atletas medianos recebendo salários astronômicos repartidos com empresários, advogados e assessores de imprensa, com um bando de espertos falando obviedades em mesas redondas e fazendo merchandising, promovendo polêmicas vazias e personagens vazios.

Então, o Palmeiras resolve avançar na Taça Libertadores da América e nos vemos forçados a torcer pelo time, pois a afilhada que perdeu os pais precocemente já tem capacidade de guardar memórias e pensamos que é bonito falar do Papai Noel para ela. O time progride de fase até chegar à final, com Felipão Scolari no banco, dando patadas na imprensa, e um goleiro torcedor com nome de santo: Marcos.

São Marcos das mãos de ouro e dos pés de barro, que é eleito o melhor jogador das Américas e falha na decisão do Intercontinental contra o Manchester United. São Marcos que é roubado pelo juiz de forma escancarada na final da Libertadores de 2000 contra o Boca Juniors (que não assisti pois estava em outro casamento, na periferia de Piracicaba, invadindo a cozinha do buffet para ouvir as cobranças de pênaltis pelo rádio, para ouvir a banda do baile tocar o hino do Corinthians na sequência, para sentar sozinho no meio fio da praça e prometer novamente que nunca mais iria me importar com o futebol).

São Marcos que pega tudo na Copa de 2002. A Copa que o Rivaldo serviu de bandeja para o Ronaldo Fenômeno de Marketing se consagrar. São Marcos que afunda com o Verdão para a segunda divisão e que dá a volta por cima nas narrações empolgantes de Luciano do Valle, contra o Marília, contra o Sport, contra (e com) o Botafogo. São Marcos que merece o nosso respeito.

A Parmalat foi embora e o Palmeiras acaba mais uma vez, quando a diretoria decide demolir o Estádio Palestra Itália para dar lugar a uma arena super moderna. Levo minha afilhada no jogo de despedida do velho campo, contra o Boca Juniors, cujos zagueiros dão carrinho de cabeça na bola, em pleno amistoso, mas que jogam com o freio de mão puxado contra o Corinthians em outra final de Libertadores. O Boca Juniors da Nike, contra o Corinthians da Nike, que tem um torcedor profissional, o Ronaldo Fenômeno de Marketing da Nike.

A Nike é para o Corinthians o que a Parmalat foi para o Palmeiras. Para o bem a para o mal.

Já não me importei com a segunda queda do Palmeiras para a segunda divisão. Muito menos com a goleada sofrida pelo Brasil contra a Alemanha na Copa de 2014. A Copa dos estádios superfaturados e dos elefantes brancos subaproveitados. Tudo chancelado pela FIFA, que se recusa a reconhecer o título mundial do Palmeiras de 1951, cuja taça foi entregue por Jules Rimet, fundador da FIFA.

O Palmeiras de estádio novo e patrocinador novo, volta a ganhar títulos nacionais. O mais triste de todos foi o Brasileirão de 2016, apagado pela tragédia da Chapecoense, que comoveu o mundo. O dinheiro que jorra nos bolsos de jogadores, dirigentes, empresários e jornalistas que fazem merchandising, faltou para o piloto-dono do avião completar o tanque de combustível

Nem a pane seca de um avião. Nem o incêndio do Ninho do Urubu. Nem a Pandemia do Coronavírus. Nada interrompe o futebol.

Em 2020, voltei a chorar por causa do Palmeiras. Em casa, sozinho, vendo pela TV o Verdão contra seu eterno rival. Dentro do meu ceticismo agnóstico perante o futebol, não torço contra o Corinthians. Tenho amigos corintianos. Minha mãe é corintiana. Mas quando o Patrick de Paula estufou as redes na derradeira cobrança de pênaltis da final do Paulistão (sempre Paulistão) contra o gigante Cássio, tornei-me fã dele e agradeci ao futebol por permitir sua ascensão social. Quis, mesmo, que ele pudesse se tornar um torcedor do Palmeiras e que ficasse no time por muitos anos.

Não deveria deixar o futebol mexer com minhas emoções desse jeito. Então, caí em prantos ao constatar que meu irmão não estava mais na sala. Que não poderíamos mais sair de carro para fazer aquela doce farra de campeões. Que, enquanto jogadores erguiam a taça diante de arquibancadas vazias, havia gente morrendo em UTIs lotadas.

A dose se repetiu na final da Libertadores de 2020, jogada em 2021 contra o Santos no Maracanã. A imprensa carioca e flamenguista se juntou com a imprensa paulista e corintiana para massacrar a qualidade do jogo, como se não estivesse em campo os maiores campeões brasileiros se respeitando mutuamente, sentindo um medo enorme de deixar escapar o título mais importante de suas histórias recentes.

O empate sem gols tinha tudo para se arrastar até a prorrogação. Tudo indicava mais uma decisão por cobrança de pênaltis - o que seria ótimo para o SBT catapultar sua audiência, que há mais de 15 anos não era tão alta. Não é só esporte. É dinheiro. É publicidade. Mas nisso o canal fez um ótimo trabalho. Teo José, como locutor esportivo e promotor do show, é competente e sabe vender emoções.

Esse jogo não era para acontecer. Não neste cenário de guerra. Mas aconteceu e trouxe um pequeno alento para milhões de palmeirenses. Muitos fanáticos, alguns céticos e alguns que aprenderam a praticar o autoengano.

Fiquei com dó do técnico Cuca. Não merecia ser expulso. Fiquei com dó do Santos. Não merecia perder. Então, antes do encerramento do ato, quando as cortinas já estavam baixando para dar lugar ao interlúdio, Rony cruzou na área e Breno subiu no segundo andar para marcar, de cabeça, o gol do título.

Sozinho na sala, soltei um berro. Minha esposa correu para ver o que aconteceu. Sentei minha filha no colo e pedi para ela ver a chuva de papel picado na tela.

- Preste atenção nisso, pois não vai acontecer de novo, tão cedo.

Para todos os efeitos, Papai Noel existe e minha filha será palmeirense.

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Crepúsculo de jogo

O Brasil de verdade não joga mais

Textos sobre o Palmeiras em JeanTosetto.com

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quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

A bruxa solta e os reis magos

6 de janeiro: dia de desmontar o pinheirinho de Natal.
6 de janeiro: dia de desmontar o pinheirinho de Natal.

Meus amigos, há exatamente um ano, em 6 de janeiro de 2020, escrevi as palavras a seguir, em meu perfil no Facebook, semanas antes da Pandemia do Coronavírus tomar o planeta Terra de assalto. Até então, os boatos sobre um misterioso vírus circulando pela China eram nebulosos e reticentes, mas o debate em torno da Covid-19 veio para dialogar com meus receios:

"

6 de janeiro. No Brasil é dia de desmontar a árvore de Natal.

Na tradição cristã é dia de Epifania, para lembrar dos Três Reis Magos que visitaram o menino Jesus.

Na Itália é dia de "La Befana", a bruxa boa que vem trazer doces para as crianças obedientes, e lascas de carvão para aquelas que aprontaram no ano passado. 

A secularização está acabando com estes costumes, assim como a globalização, que apaga fronteiras e vai diluindo também a diversidade cultural do mundo. Diversidade lembra diversificação: é ela que protege as pessoas de ideologias vazias e os investidores dos riscos. 

Fronteiras e tradições são necessárias. Imagine um mercado plenamente globalizado, regido por apenas uma Bolsa? Haveria um risco sistêmico incontrolável.

Imagine um mundo sem costumes locais preservados: viveríamos todos num grande aeroporto com quartos de hotéis beges e padronizados, no qual viajar deixaria de fazer sentido.

Esse justamente é o sonho de muita gente: uma só moeda, uma só língua, uma só rede social controlando tudo. Que La Befana nos proteja disso, com ajuda dos Reis Magos.

"

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segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

O ano que virou fumaça

A churrasqueira em ação no dia 31 de dezembro de 2020.
A churrasqueira em ação no dia 31 de dezembro de 2020.

O ser humano tem uma vontade quase incontrolável de preencher todos os espaços disponíveis. O mesmo se dá em relação ao tempo, ao menos para quem já sucumbiu à lógica capitalista da pós-modernidade: todo tempo deve ser ocupado com alguma atividade útil.

Este foi o grande baque que a humanidade sentiu logo no começo da pandemia: a quarentena forçada em casa fez aparecer algumas horas de ócio que antes pareciam não existir. Então, toca refazer o rejunte de alguns pisos no banheiro, arrancar a erva daninha do gramado, podar as moitas de pingos de ouro, arrumar a papelada.

Logo, uma caixa de papelão recebeu uma pilha de papéis inúteis e vencidos que, no entanto, não poderiam ir para o lixo, pois continham dados bancários, endereços, CPFs. O certo era picar um por um, mas quem teria paciência para tanto?

Então, a caixa de papéis velhos ficou lá, sobre a grelha da churrasqueira. Não tardou para descobrimos outras formas de ocupar o tempo, como trabalhar ainda mais, pois poder trabalhar era sinal de grande privilégio, sem deixar de ser uma eficiente terapia.

Como os mais pessimistas (ou seriam os mais sensatos?) anteciparam, a quarentena virou um tipo de ano sabático manco. O trabalho continuou, mas as viagens de fim de semana cessaram e os almoços em restaurantes também, ao menos para os mais medrosos - ou seriam os mais sensatos?

Oito, nove meses depois da normalidade ter ido para a estratosfera, muitos entregaram os pontos: resolveram extravasar nas festas de fim de ano. Não bastava se esbaldar na falta de prudência: era preciso postar tudo nas redes sociais. 

Uma multidão de zumbis anestesiados - dos adeptos dos pancadões ao presidente, passando pelas celebridades do futebol - decidiu que o vírus coroado teria que respeitar a folhinha do calendário e que a virada do ano seria também a virada para um "novo normal". 

"Os velhos e os medrosos (os sensatos?) que se vacinem, que se explodam."


Minha esposa cansou de esperar que eu desse um jeito naqueles papéis amontoados na caixa de papelão sobre a grelha da churrasqueira. Ela resolveu queimar um a um, fazendo um churrasco de pensamentos e memórias embaralhadas, usando aqueles papéis como carvão.

Fui ao supermercado, portando máscara, rezando em silêncio, pedindo proteção. Comprei um saco de carvão, uma bandeja de espetinhos, outra de contrafilé, sal grosso rosa do Himalaia e um bocado de pão de alho recheado com queijo e linguiça calabresa moída. Não podia faltar o vinho frisante.

Quando voltei, minha dona já tinha raspado as cinzas da churrasqueira. Passaríamos a noite de Reveillon só nós três. A gente e a nossa filha. Nem me lembrava da última vez que tinha tentado acender o fogo daquela churrasqueira. Nunca fui bom nisso.

Montei uma espécie de pirâmide com os tocos de madeira reflorestada. No lugar do sarcófago do faraó, torci em forma de cálice um pedaço de papel daquele saco de carvão. Risquei um palito de fósforo. Dois, três, doze palitos de fósforo.

As chamas teimavam em apagar. Não era possível. Tentei de novo e de novo. Lembrei de usar uma aleta de papelão para soprar ar nas fagulhas. Cansei o braço, mas finalmente deu certo: sorri feito um escoteiro e logo me dobrei ao fato de que isso era comum aos homens das cavernas.

Lá estava eu, na minha caverna particular, começando a queimar as últimas horas de 2020, um ano que vai definir um século inteiro. Olhei para trás e vi minha família esperando para fazer a ceia. Subitamente entendi a razão de tantos homens adorarem fazer churrasco. É um ritual milenar.

O queijo derretido dos pães de alho fizeram as chamas da churrasqueira ficarem no ponto ideal para assar os espetinhos. Ligamos o rádio para ouvir as 500 músicas mais pedidas de uma estação que só toca Rock, enquanto preparei os bifes de contrafilé.

- Salgue a carne sem dó, pois ela absorve o sal que precisa e o resto ela solta na churrasqueira.

Pude ouvir a voz de um tio gaúcho me aconselhando. Apenas duas ou três viradas para os bifes pegarem um bronze e ficarem macios. Deu certo. Não acreditei que fiz um churrasco minimamente decente. Pena que não havia uma multidão de parentes e amigos para testemunhar.

2021 começou ao sabor de goles de lambrusco rosso, de uma marca sugestiva: "Sogno Italiano". Que seja um ano de reconstrução do que era bom antes de 2020 e de construção do que precisa ser bom daqui para frente.

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quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Promoção: combo de livros da Suno com desconto!

Cinco livros da Suno por apenas R$ 99 + frete!
Cinco livros da Suno por apenas R$ 99 + frete!

Trabalho como editor associado da Suno Research desde 2017. Neste ano de 2020 a gente não tirou o pé do acelerador, mesmo com o toró caindo na pista. Mas sabe como é: chegam as festas de novembro e dezembro, como o Jantar de Ação de Graças, a Black Friday, a véspera de Natal e o tão esperado Reveillon. O coração da gente vai amolecendo e a vontade de ajudar cada vez mais pessoas só aumenta.

Decidi conversar com a direção da Editora CLA, nossa grande parceira neste desafio de ofertar educação financeira de qualidade para cada vez mais brasileiros. Pedi para eles desenvolverem um pacote dos livros da Suno com um preço super acessível. "Peça e você receberá" - é o que dizem os anciãos. Pedi e a CLA nos atendeu (pois o pedido foi para todos nós).

Os cinco livros já impressos da Suno Research, campeões de vendas e de avaliações positivas na Amazon, juntos por apenas R$ 99 mais o frete. Isso é desconto de verdade, rondando a casa dos 50%. Saiba um pouco mais sobre cada um dos lançamentos:

Guia Suno Dividendos: A estratégia para investir na geração de renda passiva

Tiago Reis é um investidor bem-sucedido no mercado de capitais do Brasil. Independente financeiramente, ele fundou a Suno Research para auxiliar outros investidores em suas jornadas. A estratégia adotada por ele está ao seu alcance, numa colaboração com Jean Tosetto.

Guia Suno de Contabilidade para Investidores: Conceitos contábeis fundamentais para quem investe na Bolsa

A parceria entre Tiago Reis e Jean Tosetto rende o segundo livro da coleção Guia Suno. Após o sucesso de crítica e público do Guia Suno Dividendos, chegou a vez de aprofundar as noções de conceitos contábeis - um aspecto importante na análise fundamentalista para investidores.

Guia Suno Fundos Imobiliários: Introdução sobre investimentos seguros e rentáveis

O Professor Marcos Baroni e o investidor focado em fundos imobiliários, Danilo Bastos, desenvolveram uma eficaz parceria para apresentar uma alternativa viável e inteligente para geração de renda passiva, através de ativos que combinam a segurança do mercado imobiliário com a competitividade do mercado financeiro.

101 Perguntas e Respostas para Investidores Iniciantes

Tiago Reis e Felipe Tadewald se reúnem para esclarecer dúvidas para investidores novatos. É o livro que eles mesmos gostariam de ter lido quando começaram a operar na Bolsa de São Paulo. As questões foram organizadas em capítulos e ordem progressiva por Jean Tosetto.

Guia Suno Small Caps: Investindo em empresas com os maiores potenciais da Bolsa

Neste livro, os autores Rodrigo Wainberg e Tiago Reis traçam um panorama sobre as ações que podem conciliar a distribuição de dividendos com a capacidade de valorização superior ao verificado nas empresas de grande porte, já consolidadas.

São incontáveis horas de trabalho reunindo os esforços de alguns dos melhores analistas do mercado de capitais, que também são colaboradores da Suno, num esforço para que você adquira conhecimento suficiente para seguir a própria jornada rumo à independência financeira. Dê o primeiro passo, clicando no link a seguir:


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sábado, 28 de novembro de 2020

Em algum lugar de Pedreira

Publicado originalmente em 28/01/2018.

A porta do aposento se abre e uma plêiade de histórias se arma diante de seus olhos, feito dobraduras de um livro de origami.

O disco do Roberto Carlos diz que ele já viveu em ritmo de aventura. 

A máquina de costura já costurou o enxoval da noiva que abandonou a cadeira quando fugiu de casa com o caixeiro viajante.

A poltrona de tecido puído ainda oferece repouso para o caminhoneiro que adaptou o ventilador na sua boleia.

Cada objeto nesta cena renderia um conto, mas os romances estão sepultados com os personagens ausentes nesta foto.


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sábado, 31 de outubro de 2020

Sean Connery se vai junto com uma parte do século 20

Reprodução de capa do DVD com o filme "007 contra Goldfinger" de 1964.
Reprodução de capa do DVD com o filme "007 contra Goldfinger" de 1964.

Lá pelo começo dos anos de 1990 eu era um adolescente parecido com uma garça. Minha voz ecoava feito uma taquara rachada ao vento. Tinha mais espinhas na testa do que números decorados na tabuada. Mas havia meu irmão. Ele sempre me colocava para cima.

Uma dia fui com ele na vídeo-locadora. Se você tem menos de 25 anos, terá dificuldades para saber como poderia ser angustiante escolher um entre centenas de filmes dispostos naquelas prateleiras, em fitas cassetes. Quem não chegasse logo cedo, perderia a vez para alugar os lançamentos mais recentes. Talvez, em função disso, escolhemos "007 contra Goldfinger", com Sean Connery. Era um filme de 1964 e, portanto, já antigo para a época.

Foi uma ótima escolha. Aquele James Bond decidido, que falava as frases certas nas horas certas, transbordando confiança para ficar com as mais lindas garotas, que bebia Vodca com Martini, fumava com classe e dirigia um Aston Martin DB5 pelas estradas alpinas da Suíça, era simplesmente alguém que queríamos ser.

Logo, passamos a assistir todos os filmes de Sean Connery disponíveis naquela locadora. Ele também foi pai do Indiana Jones, um policial honesto em "Os Intocáveis" e um frade detetive em "O Nome da Rosa". Era um excelente ator.

Por anos me perguntei qual a razão que o motivou a abandonar a série de 007, iniciada com ele em 1962. Ele teria idade para ficar no papel pelo menos até a década de 1980, mas no limiar dos anos 70 resolveu seguir outros rumos.

Ele estava certo: insistir com um personagem datado não seria bom para sua carreira e todos nós, entusiastas de James Bond, tivemos que desaprender certas coisas que o agente secreto sempre representou. Era isso ou padecer perante o politicamente correto.

Sean Connery teve a sorte de nascer em 1930. Ele viveu intensamente a sua época e teria sido cancelado recorrentemente, caso tivesse sido congelado em 1967 e reavivado meio século depois. Quem, no cinema de hoje, poderia dar um tapa nas nádegas de um bela dona e sair impune?

Certa vez tive a nítida impressão de ter visto Sean Connery no centro de Montevideo. Ele - ou quem julguei que fosse ele - já estava idoso, mas ainda conservava o porte atlético, o andar de pantera e o olhar penetrante de uma águia. Confesso que tentei copiar seu estilo, como forma de vencer a timidez nas noites de sábado, até perceber que tinha que ser eu mesmo, ainda no meu tempo de solteiro.

O escocês Sir Sean Connery escolheu as Bahamas para viver seus últimos anos e morreu dormindo, aos 90 anos de idade, sem ver o fim desta pandemia que está ajudando a definir os rumos do século 21. Faz sentido. Não se pode cobrar que um dinossauro do século 20 viva para sempre.

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