sábado, 17 de dezembro de 2022

Uma reflexão sobre o ofício da Arquitetura na pós-modernidade

Visitar obras: a parte nada romântica, mas fundamental, na rotina de um arquiteto.
Visitar obras: a parte nada romântica, mas fundamental, na rotina de um arquiteto.

15 de Dezembro: Dia do Arquiteto. 

Sinceramente estou em dúvida se é um dia para comemorar ou lamentar. Poucos profissionais trabalham mais (e se estressam mais) do que os arquitetos, a despeito do público em geral imaginar o contrário, envernizando um ofício que outrora já foi respeitado - e não é mais.

Numa obra, o pedreiro não tem registro em conselho profissional. O eletricista também não, nem o servente, nem o ferreiro, nem o gesseiro, nem o carpinteiro, nem o marceneiro. Então, se acontecer algo errado na construção, quem responde? Aquele que tem registro em conselho: arquiteto ou engenheiro.

A responsabilidade de quem projeta e acompanha obras é enorme, o que faz de arquitetos e engenheiros profissionais baratos perto do tanto que eles podem perder se algo de ruim acontecer num canteiro de obras. Acontece que nem os profissionais do ramo sabem disso e os conselhos pouco orientam sobre o assunto.

Na outra ponta, quem precisa pagar pelo serviço de um arquiteto, muitas vezes pensa que ele é apenas um despachante de planta, quando não um atravessador imposto por uma norma burocrática. Poucos tem a noção de que um bom arquiteto pode encontrar ótimas soluções para um projeto que, inclusive, podem gerar economia de recursos não só na obra, mas na manutenção do imóvel ao longo do tempo. 

Alô pessoal do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil - CAU/BR, tem alguém lendo isso? O recado é para vocês também.

Como arquitetos são pessoas que trabalham bastante, eles não tem tempo para se envolver em questões políticas e de classe. O que é um erro deles. Então, quem ocupa os cargos de direção das entidades de classe? Majoritariamente os sindicalistas e professores universitários, com pouca gente de escritório (de prancheta e de canteiro de obra) ficando nas rabeiras das chapas que distribuem os mesmos cargos de sempre para o pessoal "das cabeças".

Daí que temos um conselho de classe que não entende a nossa realidade e não nos representa de fato, posto que os conselheiros não possuem experiência de mercado. 

Em linhas gerais, o arquiteto brasileiro atuante no mercado é um sujeito pacato de classe média, que tende a ter uma religião e ser de centro na política, quando não um moderado de direita. Estou errado?

Mas as pautas "progressistas" que o CAU patrocina nem de longe contemplam esse perfil, que deveria ser mais empreendedor num país que não gera empregos. Os arquitetos precisam aprender a gerir melhor seus negócios e precisam aprender a vender melhor seus serviços.

Porém, fora algumas iniciativas pontuais, não vejo o CAU incentivar as melhores práticas profissionais. O treinamento mais oferecido é para o recém-formado aprender a preencher um RRT, como se isso fosse um fim em si mesmo: pagar uma comissão para o CAU por cada projeto fechado com descontos progressivos, pois a concorrência desleal aumenta a cada ano e ninguém faz nada para frear o ingresso de gente desqualificada no mercado de trabalho.

Já passou da hora do CAU instituir um exame profissional para validar a formação dos universitários. E já passou da hora de fiscalizar melhor a criação de novos cursos particulares, que se propõem a ensinar Arquitetura e Urbanismo em barracões adaptados de fábricas que faliram no entorno das grandes cidades.

Enfim, não vou me alongar nesse tema. Se tiver que escrever tudo que penso, vou criar uma legião de detratores que nada vão acrescentar ao debate. 

Você é arquiteto ou arquiteta? Já vou avisando: cuide bem do seu negócio. Aprenda a usar as ferramentas de marketing e administração que a faculdade não te entregou. Não espere nada dos sindicatos e dos conselhos de classe. Você está por sua conta e risco. Fortaleça laços sociais com os profissionais mais sérios do seu ramo, pois são eles que poderão te ajudar e vice-versa.

E o mais importante: faça um ótimo trabalho para quem te contrata, sempre!

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sábado, 19 de novembro de 2022

A vida como ela pode ser


Em outubro de 1972 meus pais se casaram numa igreja protestante no bairro de Indianópolis, São Paulo. Naquela época, os casamentos eram mais simples. Não havia tanta preparação, com tanta antecedência e tanta pompa.

Logo depois da Lua de Mel, passada na roça do Rio Grande do Sul, para prestigiar os parentes que não puderam comparecer ao ato religioso, eles se mudaram para o interior paulista, onde começaram a construir uma vida e uma família, juntos.

Meio século se passou. Bodas de Ouro. Incrível. Imaginei que meus pais fariam um grande evento para comemorar. Eles mereciam. Quem sabe uma nova cerimônia no altar, com uma festa num buffet - essas coisas que os mais jovens se empenham para poder eternizar um rito de passagem.

No entanto, eles apenas comunicaram que fariam um almoço na varanda da casa, para os parentes mais próximos. "Não pode ser" - pensei. Já fizemos vários almoços corriqueiros naquela varanda, inclusive sem motivos especiais. 

Mas eles decidiram assim: comemorar suas Bodas de Ouro do mesmo jeito que fizeram para manter uma união tão duradoura. Nesta receita não teve nada de pompa, mas teve uma boa dose de austeridade e resiliência - palavra cujo significado tivemos que aprender na prática, pouco antes das Bodas de Prata.

(...)

"Tudo bem, será um almoço simples, mas vou fazer uma surpresa para todos" - matutei comigo. Liguei para o meu amigo Eduardo Furtado, saxofonista com todas as notas. Amigo não é necessariamente aquela pessoa com quem conversamos todos os dias, mas é aquela pessoa que nos acolhe quando mais precisamos.

A gente precisava de um momento de arte numa data tão importante. Através da arte conseguimos expressar aquilo que as palavras e os clichês não conseguem entregar. A música, em especial, condensa os sentimentos mais autênticos numa linguagem universal. A boa música gera empatia entre as pessoas e, com isso, promove a comunhão que tanto precisamos para suportar este mundo cada vez mais árido.

Então, o Eduardo chegou em nosso cantinho, sem avisar. Os sons harmônicos foram ganhando volume, conforme ele caminhava pelo quintal, até que ele surgiu para todos, tirando lágrimas até dos tios mais turrões, acostumados a lidar com a dureza do cotidiano. Passado o impacto inicial, porém, alguns se voltaram para seus botões.

Se para alguns, o momento foi uma catarse, para outros, pareceu um almoço em churrascaria. É assim que funciona e tudo bem. Não é todo mundo que tem os receptores mentais ajustados para perceber a arte fluindo no ambiente. Um artista deve saber lidar com isso: enquanto alguns apreciam seu empenho, outros seguem conversando sem perceber que a vida escorre pela ampulheta.

De minha parte, estive no grupo majoritário, que se emocionou de verdade. Quando meus pais se casaram, não teve música ao vivo, mas em suas Bodas de Ouro, sim. Então, preciso agradecer ao Eduardo, que é um artista de primeira grandeza, pois traz em sua alma a sensibilidade para executar as mais belas melodias.

O registro desse momento, em vídeo, foi feito de forma amadora. Foi o preço que paguei por ter guardado segredo sobre a surpresa. Deveria ter pensado nisso antes, mas creio que a espontaneidade compensou a falta de planejamento, dado que minha esposa gravou um átimo da vida - não como ela é, mas como ela pode ser.

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sábado, 1 de outubro de 2022

O mundo sem uma copa

O mundo sem uma copa (crônica de Jean Tosetto)

A árvore estava quieta em seu lugar. O ser humano, munido de escada, óculos protetores, luvas de feltro, botinas com bicos de aço e uma motosserra, se aproximou sem fazer perguntas. Ele não perguntou se a árvore queria ter sua copa estraçalhada. Ele simplesmente a estraçalhou.

É o que ele sabe fazer.

Porém, a árvore respondeu. Não com palavras. Não com gritos. Com teimosia. Com a única coisa que uma árvore sabe fazer: seguir o fluxo da vida. Dos ramos amputados, brotaram novos galhos e novas folhas. A clorofila ajuda a curar a sangria da seiva.

Então, o ser humano planeja fazer uma nova visita para a árvore. Disseram que ele pode ir até ela com um balde de óleo de motor de dois tempos, devidamente queimado por motocicletas que não são motosserras.

Um palito de fósforo dará a extrema unção. O velório da árvore, sem velas e sem testemunhas, ocorrerá durante toda a madrugada, concomitantemente com a cerimônia de cremação. Se não destocarem a árvore, se não extraírem suas raízes do solo, ela brotará de novo, lá de baixo.

É o que ela sabe fazer.

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quinta-feira, 7 de julho de 2022

Pílulas que brotam no consciente

"Terraço do café à noite" (1888), pintura de Vincent van Gogh  (1853–1890) pertencente  ao acervo do Kröller-Müller Museum de Otterlo, Holanda.
"Terraço do café à noite" (1888), pintura de Vincent van Gogh  (1853–1890) pertencente  ao acervo do Kröller-Müller Museum de Otterlo, Holanda.

Meus amigos, este blog já me serviu de válvula de escape quando trabalhava primordialmente como arquiteto e precisava registrar meus pensamentos além do assunto profissional. Os anos se passaram e, neste momento, a balança se inverteu: hoje sou pago para escrever e editar e-books e livros. Em razão disso, não consigo mais escrever textos inéditos e exclusivos para este espaço, todos os meses. A solução que encontrei for reproduzir as pílulas que escrevo no Twitter e no Instagram. Se em algum momento pintar um inspiração, logicamente escreverei aqui, pois não desejo abandonar o prato onde me alimentei de entusiasmo por tanto tempo. Grato pela compreensão.

* * *

O ser humano é um minerador de sentimentos e emoções. Então, de um mesmo bloco de vida, contexto social e cotidiano, enquanto uns tiram beleza e poesia das coisas mais simples, outros tiram apenas o tédio e marasmo. Pois uns mineram com picaretas e outros com bananas de dinamite.

Ao que tudo indica, nascemos com essas ferramentas e é muito difícil trocá-las ao longo da jornada. Podemos apenas aperfeiçoá-las, mediante reflexões e autoconhecimento.

* * *

Não existe solução aguda para um problema crônico.

Quando crises agudas se resolvem sozinhas, logo são esquecidas. Mas as crises recorrentes, seja na política de um país, seja na saúde de um indivíduo, roubam tempo e atenção das pessoas. As soluções crônicas? Mudanças de hábitos.

Hábitos que são adquiridos paulatinamente com doses cavalares de educação: formal, cívica, física, alimentar e financeira, entre outras. Como isso leva tempo (mais do que uma geração) o debate sobre isso não se sobressai.

A maioria das pessoas não quer ler ou ouvir a respeito. Elas querem salvadores da pátria, remédios milagrosos, fórmulas mágicas.

Mentiras bem cozidas rendem mais do que verdades cruas.

* * *

"Sonhe grande" - eles dizem. "Dá o mesmo trabalho de sonhar pequeno" - eles complementam. Mas eles não estarão lá quando você criar expectativas além do que pode realizar, pois muita coisa sequer depende de você. O resultado? Frustração.

Sonhe - mas planeje e considere os riscos.

Quando você espera por algo bom que não acontece, você fica triste.

Quando você espera por algo ruim que não se confirma, você sente um alívio.

Por isso é bom transformar sonhos em planos, incluindo o chamado plano B, que é posto em prática quando o plano A não dá certo.

Logo, se você não tem um plano B, seu plano original não é bom o suficiente.

A felicidade não depende da realização de um sonho grande. Isso é conversa para vender livros de autoajuda.

A felicidade, sempre fugaz, brota em momentos de tranquilidade, quando as adversidades inerentes do cotidiano não conseguem perturbar nossa paz de espírito.

* * *

"Trabalhe enquanto os outros descansam, planeje enquanto os outros dormem, estude enquanto os outros se divertem" - e um dia você terá uma crise de ansiedade, um ataque cardíaco, ou quem sabe um AVC. Tudo tem seu tempo. E podemos nos doar 100% de cada vez, inclusive para relaxar.

Uma coisa muito difícil para aprender nestes tempos pós-modernos: relaxar por um tempo, sem sentimento de culpa.

Não querem que você faça isso. Querem te manter sempre ocupado. Sempre com a atenção e o foco na tela de um celular.

Pois se entreter com uma tela é diferente de relaxar.

E relaxar é perigoso: abre brecha para você pensar por contra própria. Para ser criativo.

Por isso criticam o ócio, pois o ócio pode ser criativo. E isso aumenta a concorrência para eles.

Gente criativa é mais difícil de domar.

* * *

Essa é a geração que começa no "all-in" e termina no "burnout". Entram de cabeça na aventura. Mergulham fundo. Aí começa a faltar ar nos pulmões e a superfície está longe demais para aliviar o desespero. Para todos os casos, está tudo bem. Tudo sob controle. A quem pedir socorro?

Não por acaso as grandes religiões monoteístas do mundo ordenam um dia de descanso semanal.

Mas a secularização dos costumes nos convenceu de que a religião é coisa do passado, de gente supersticiosa. Aí veio o capitalismo e nos convenceu de que trabalhar 7 por 24 é algo bom.

Agora, no berço da Revolução Industrial, estão experimentando a jornada semanal de 4 dias úteis.

Ou seja, os pós-modernos estão descobrindo o que os antigos já sabiam há milênios: o ser humano precisa descansar. Isso deveria ser sagrado.

Então, nem "all-in", nem "burnout". O meio termo, defendido por Descartes, é parte da solução.

* * *

Confio mais numa pessoa que me alerta sobre algo que eu poderia ter feito melhor, do que naquela que sempre me elogia. Fala mansa demais me deixa em estado de alerta. De vez em quando um soco na mesa é bom, das duas partes de uma conversa - isto significa que são pessoas de brio.

Não se constrói nada com apatia e indiferença. No fundo, é isso que os fazedores de média tentam camuflar em cada tapinha nas suas costas.

* * *

Os e-books são bons? São ótimos. Mas você precisa de uma tela para ler. E se tem uma tela, tem fonte de distração e tem alguém querendo te monitorar. Por isso, os livros impressos tem seu charme: eles não tem cookies e te desconectam para valer. O livro é uma peça de resistência.

Abra um livro e feche sua mente para os males da hiperconectividade.

* * *

O sujeito contou que sofria de enxaqueca de vez em quando e perguntou se eu tinha dores de cabeça também. Respondi que não, desde que conheci a minha namorada, pois perdi a minha cabeça por causa dela. As pessoas ao redor riram e me taxaram de romântico incurável. Ela sabe disso.

#diadosnamorados

* * *

Quando você tentar dizer apenas o que as pessoas querem ouvir ao invés de dizer o que as pessoas precisam ouvir, então você se tornará mais um escravo dos mecanismos de buscas na rede, que tonificam a mesmice ao invés de provocar o atrito de ideias, sem o qual a gente não evolui.

Você pode ter milhões de seguidores e ganhar um bom dinheiro com isso, mas ainda assim será apenas um escravo das aparências, com medo de ser cancelado.

Além disso, viverá em cima do muro e sentirá medo quando resolver ficar uns dias sem dar as caras. Será rodeado de assessores que te falam apenas o óbvio.

Então, chegará o dia em você desejará ser apenas mais um anônimo, mas não poderá confessar isso.

Pronto. Já escrevi a sinopse do filme. Só falta algum diretor levar a história adiante:)

* * *

Um objetivo nobre, que faz alguém desejar a independência financeira, é não depender dos filhos na terceira idade. Porém é bom lembrar que, emocionalmente, seremos sim dependentes de nossos filhos. Portanto, não devemos esquecer deles agora, quando eles dependem de nós para tudo.

A aula de piano da menina não é um gasto essencial. E daí? Não vou cortar. E vou mandar o elemento para o beleléu se ele vier com essas planilhas que desconsideram os juros sobre a afeição empenhada.

Não é para isso que a gente trabalha?

O pior tipo de pobreza é a pobreza de espírito.

* * *

Dicas quentes para enriquecer mais rápido: adie o casamento, adie o nascimento dos filhos, adie a compra da casa própria, adie a viagem para a Tailândia. Você pode não ficar milionário, mas ao menos terá dinheiro para o terapeuta tratar o vazio inexplicável da sua alma entediada.

Mensagem subliminar do guru da prosperidade:

"Permaneça sozinho, sem um objetivo concreto para buscar, assim fica mais fácil te sequestrar emocionalmente."

Os líderes populistas da política usam a mesma tática.

Eles não te incentivam para buscar educação. Eles não te incentivam a levar o trabalho a sério. Mas é isso que te leva para frente.

O que vem depois do estudo e do trabalho, é apenas consequência: a capacidade de poupar, investir e empreender.

* * *

Você não é especial. Se isso te conforta, também não sou. O que nós, pessoas comuns, podemos fazer para progredir, sem contar com um golpe de sorte? Fazer o que os iludidos, que se acreditam especiais, não fazem: levar os estudos a sério e trabalhar com gratidão pelo dom da vida.

Existe uma falsa noção de que sem estudo e trabalho podemos resolver nossas vidas, pois toda semana alguém fica famoso por causa de um bordão inusitado que viraliza na Internet.

Mas a estatística está aí para mostrar que para cada garoto que usa luva de pedreiro e grita "receba", existem milhares de anônimos que precisam da mesma luva para empunhar uma enxada num canteiro de obras.

Sim, para nós, meros mortais, as coisas demoram para acontecer. Mas acontecem para quem se empenha e não se ilude.

A gente não pode depender de um golpe de sorte, pois o caminho contrário também existe.

* * *

Quando duas pessoas honestas desejam fazer um acordo, elas constroem uma aliança. Quando duas pessoas desconfiadas precisam fazer um acordo, elas estabelecem um pacto. Lembre disso na hora de investir. Quem compra empresas e FIIs deve confiar em seus gestores. Que sejam honestos.

Gravei um vídeo com esta temática. Novidades em breve.

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O jornalismo evoluiu das entrevistas editadas das páginas amarelas da antiga Revista Veja para as entrevistas ao vivo com horas de duração, conhecidas como podcasts. Estes programas são destruidores de reputação e fontes de cancelamento. Esse é o risco de ficar falando sem parar.

Sabe aquele piloto que você admirava na infância? Pois é, ele fala muita asneira.

Mas nos julgamentos sumários da Internet, ele já foi apedrejado. Foi pior do que bater um carro no muro de Indianápolis a mais de 300 km/h.

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2020 foi apenas o prenúncio de uma década difícil que teremos pela frente. Ainda assim, há muita margem de manobra para quem estuda com afinco, leva o trabalho a sério, poupa com diligência e investe com regularidade. Logo, a disciplina e a paciência seguirão fazendo a diferença.

A economia funciona por ciclos e cada fase dura alguns anos. Depois de uma década de crescimento global, com certa bonança, chegou a hora de enfrentarmos tempo nublado.

Torcer para a tormenta passar rápido não vai resolver o problema.

O que resolve é arrumar a casa, ajustar as velas do barco e seguir em frente.

Sem fórmula mágica. Sem ilusões.

Pois você já sabe que quem tentar te vender isso não está te ajudando.

* * *

Há rumores crescentes de uma grande recessão mundial que estaria por vir. Que seja.

Mas? As pessoas continuarão precisando se alimentar, se vestir, se educar, se comunicar, se iluminar, se...

Os fornecedores de bens e serviços continuarão necessários. Seja sócio deles, via Bolsa.

Já tem gente falando o que a maioria quer ouvir:

- Hora de sair da Bolsa e ir para o Tesouro Direto.

Mas estou aqui para marcar posição:

- É hora de comprar Bolsa com aquele dinheiro que não for necessário no curto e médio prazo.

O que parece contra-intuitivo é, na verdade, uma alavanca de crescimento no longo prazo.

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quinta-feira, 26 de maio de 2022

Fragmentos de reflexões a espera de depuração

"O caranguejo" (1869), pintura de William-Adolphe Bouguereau  (1825–1905) leiloada pela Sotheby's em novembro de 2010.
"O caranguejo" (1869), pintura de William-Adolphe Bouguereau (1825–1905) leiloada pela Sotheby's em novembro de 2010.

* * *

Quem gosta de fazer as coisas bem feitas no trabalho, um dia será chamado de chato. E quem se importar com isso ou agir para reverter a fama, na tentativa de ser um cara legal, se colocará em risco na carreira, pois quando um negócio mal feito dá prejuízo, ninguém alivia a barra.

Ser chato no trabalho, no sentido de ser caprichoso e atento aos detalhes, é uma coisa, ser grosseiro é outra.

Dá para ser educado e respeitoso no trato com as pessoas. Só não podemos ser negligentes, quando sabemos que as pessoas podem entregar algo melhor (inclusive nós mesmos).

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É o seguinte: se você tiver sorte, vai envelhecer. Seu cabelo ficará branco, suas bochechas despencarão, suas olheiras se aprofundarão e sua barriga aumentará. Então, se você não colocar algo de bom na sua cachola para sustentar uma conversa interessante, aí sim, lamentará. Leia.

E não leia apenas os bons livros. Leia os lugares diferentes que visitar, apreciando sua arquitetura ou belezas naturais. Leia as pessoas de seu convívio, prestando atenção no que elas falam. Leia as refeições com suas papilas gustativas, na tentativa de apreciar sabores distintos. E assim por diante.

Deste modo, quando alguém te perguntar algo, terá a chance de emitir uma opinião relevante. Daí, sua companhia será agradável, mesmo que você não apresente mais o vigor da juventude. A propósito, não desperdice a sua caminhando por aí com fones de ouvidos, um celular na mão e olhos voltados para a tela. Esse tipo de passividade dizima a qualidade de vida e provoca o isolamento das pessoas em relação à realidade.

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Falhar é um verbo intrínseco à condição humana. Podemos falhar tentando fazer a coisa certa, experimentando algo novo. Podemos falhar por falta de conhecimento, querendo aprender. Só não podemos falhar por negligência, pois esse tipo de erro custa muito caro e pode não ter volta.

Vários tipos de erros trazem lições e, por isso, são perdoáveis. Mas a negligência recorrente está associada a um desvio de caráter muito difícil de corrigir.

Por isso, os displicentes não fazem carreiras longas.

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Se a vida acontecesse do jeito que a gente planeja, qual seria a graça? Reformulando: é bom traçar metas e estabelecer objetivos, mas é melhor saber lidar com as adversidades e aprender com os erros, pois essa combinação nos faz valorizar aqueles dias de luzes onde tudo dá certo.

Pior é quando os outros planejam uma vida alheia, ao reconhecer um talento acima da média num jovem, por exemplo.

É o pai coordenando a carreira do garoto de ouro que joga futebol, e ele chega na idade adulta sem nunca ter levado um fora de uma garota, mas é desde cedo cobrado para ser o melhor do mundo.

Ou quem sabe o empresário que dita os rumos da carreira da cantora que não pode engordar e precisa aprender línguas pelas quais não sente identificação.

Aos olhares das multidões, essas celebridades levam vidas perfeitas, mas elas não tem a quem recorrer para preencher o vazio de suas almas, pois tudo o que tem para oferecer aos meros mortais são molduras de um quadro impossível de ser retratado.

Então, é bom saber que estamos por nossa conta e risco, aceitando de bom grado aquilo que a providência nos trouxe para a ordem do dia, quando podemos falhar e receber o perdão de quem nos cerca e nos compreende. Pois são com essas pessoas que dividimos anonimamente nossas pequenas vitórias.

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Um dia alguém vai puxar o fio da tomada e tudo que foi produzido na Internet será apagado. Quando estudarem nosso tempo, no futuro longínquo, serão pelos livros encontrados nos escombros de nossas bibliotecas que arqueólogos e historiadores descobrirão as pistas que nos retratam.

É por isso, entre outras coisas, que trabalho com livros. Isso não tem relação com ser saudosista, posto que os livros impressos são considerados como objetos obsoletos por muitos. Tem a ver com ser visionário, no sentido de produzir provas palpáveis que deixarão rastros do nosso tempo. Que sejam rastros relevantes, dignos de serem investigados.

* * *

Para entender quem é quem no jogo político temperado com as fake news, leia "Hípias menor" de Platão, no qual Sócrates alega que os mentirosos conscientes são mais capacitados que os mentirosos inconscientes. Isso explica a longa carreira de alguns e a súbita derrocada de outros.

É um diálogo curtinho, mas esclarecedor.

P.S.: "Jean, grava um vídeo resumindo esse texto?"

Não, não gravo. Leia que vai te fazer bem.

Haverá quem ache isso um porre e deixará de me seguir. Não tem problema. A gente não joga para a torcida. Estamos aqui para compartilhar o que consideramos realmente relevante - e isso, no fundo, é para poucos.

* * *

Segundo Schopenhauer, a dor e o tédio nos separam da felicidade. Então, muitos enriquecem para fugir da dor e sentem tédio quando atingem a independência financeira, pois não se desenvolveram intelectualmente neste processo. Logo, investir é bom desde que a cultura nos acompanhe.

Todo crescimento patrimonial é bem vindo, desde que acompanhado de crescimento pessoal.

Dinheiro é bom, mas quem só pensa nisso está perdendo o melhor da vida.

* * *

O tempo é um ativo que você apenas perde, sem poder recuperar. A honra também: você nasce com ela e deve fazer o possível para preservá-la. Nenhum acúmulo de patrimônio terá valor se você perdê-la, pois a honra faz parte do seu caráter e as melhores carreiras são feitas com isso.

Honra e caráter: você pode ter, mas não pode dizer que tem, pois são as outras pessoas que podem afirmar isso sobre a sua pessoa, baseadas no conjunto de suas ações.

Logo, faça boas obras: é isso que cabe para cada um de nós.

Tem gente que troca a honra por um mandato eleitoral, outros por um posto no ministério. E tem gente que troca a honra por um aparelho de telefone celular, num assalto de esquina.

Quando o conjunto de pessoas deixa de falar em honra nos debates públicos, sabemos que a sociedade está doente.

* * *

Querer mudar o mundo é uma ideia tão bonita quanto ingênua. Perseguir uma utopia é um desperdício de energia. Mais prudente é saber fazer a leitura da realidade que nos cerca e se posicionar para se proteger do lado ruim dela, para depois ver o que pode ser feito pela comunidade.

Um caminho certo para a infelicidade é querer mudar o mundo sem antes compreendê-lo por completo.

Uma dose de egoísmo, para reduzir nossas chances de sermos vítimas do sistema ou dependentes dos favores de outros, é recomendável, ao contrário do que pregam os pretensos revolucionários.

Em suma: devemos em primeiro lugar cuidar de nós mesmos, depois de nossas famílias e, se for possível, da nossa comunidade. Porém, esqueça: você não vai mudar um país e muito menos o mundo. Não em apenas uma geração.

* * *

Muita gente sofre pois faz da vida uma aventura cinematográfica, que combina exposição exagerada ao risco com final feliz. Só que muitas vezes isso não acontece na realidade. O agravante é que filmes que recomendam prudência não rendem bilheteria. Isso vale para os investimentos.

Para cada pessoa que largou o emprego para construir uma empresa de sucesso, milhares quebraram a cara. Mas não é isso que transparece nas redes sociais.

Para cada cada aventureiro que ganha dinheiro e seguidores postando fotos de suas viagens por aí, quantos ficam no meio do caminho?

Para cada especulador que acertou a mão num ativo que disparou, quantos perderam tudo?

É complicado aceitar que não somos especiais e que para nós as coisas são mais demoradas, mas é justamente quando entendemos isso que começamos a andar para frente.

Disciplina, paciência, preparação, perseverança. É isso que deveria contar.

Mas muitos tem pressa. Para enriquecer. Para emagrecer. Para chegar lá. Para sentir adrenalina. Então, sofrem, pois o mundo tem uma cadência própria, e para entrar em sintonia com ela, precisamos de menos estímulos externos e mais quietude interna. Hollywood detesta isso.

* * *

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sexta-feira, 29 de abril de 2022

Palavras sobre livros

Um livro é um presente que pode ser aberto várias vezes.
Um livro é um presente que pode ser aberto várias vezes.

Quase ninguém vive de escrever livros no Brasil, mas muitos vivem para escrevê-los. Dedicam tempo além do trabalho convencional e usam recursos próprios para bancar pequenas tiragens. São pessoas admiráveis. De vez em quando uma ascende para uma condição mínima de reconhecimento.

Volta e meia sou procurado por pessoas que estão escrevendo seu primeiro livro. Já passei por isso e, há dez anos, não havia alguém que pudesse me aconselhar.

Queria poder ajudar todos, mas isso é impossível. Então, repito alguns breves conselhos:

- Para escrever bem é preciso ler, bastante.

- Um livro não pode ser escrito com foco em retorno financeiro. É como um esporte radical, que precisa ser patrocinado.

- As grandes editoras desconhecem o potencial dos novatos. Ser recusado por elas não é um demérito.

- Com a Internet, escrever livros sob demanda ficou viável. Neste sentido, uma bela iniciativa no Brasil é o Clube de Autores.

- Publicar um livro primeiramente como e-book é um caminho inteligente. A Amazon está aí para ajudar.

- Na dúvida, contrate um serviço de revisão de textos e de leitura crítica. Eles são mais acessíveis do que muita gente pensa.

- O mesmo se aplica ao capista. Uma boa capa pode impulsionar um livro.

- O melhor de gostar de ler - e escrever - livros, é que você desenvolve grandes amizades ao longo dos anos. Essa é a melhor parte.

Portanto, insista.

* * *

Fui a uma grande livraria de Shopping. Notei que há uma seção nova só para influencers. Percebi também que os livros de Filosofia, impressos em formatos pequenos com preços descontados, ficam no canto oposto da loja. E as biografias dos bacanas na vitrine? Todas com capas cinzas.

Até consigo imaginar o fotógrafo no estúdio orientando o biografado:

"Você assistiu Mad Men? Então, faz cara de Don Draper para mim."

Click!

"Peraí que não deu certo. Faz o seguinte: olha para o chão em diagonal e dá um sorriso de Colgate."

Se você ficar famoso um dia, me prometa uma coisa hoje mesmo: você não vai cair nesses clichês, OK? Senão eu não compro seu livro.

* * *

O trabalho de um autor de livros consiste em falar pouco, caminhar muito, observar muito, ouvir muito, anotar muito, ler muito, estudar muito, refletir muito e escrever apenas o necessário.

Para Ignácio de Loyola Brandão, escrever é como selecionar feijões separando as pedrinhas.

Ele é, para mim, o maior escritor brasileiro vivo.

* * *

Já aconteceu com você? Ter uma ideia fantástica, um pensamento original? Anos depois você lê um livro de filosofia e percebe que alguém já escreveu sobre isso há mais de mil anos. Pois tem autor pós-moderno que vive de requentar essas ideias sem citar as fontes - poucos se tocam.

Por isso, na minha fila de leituras, sempre passo os clássicos na frente. Estes livros nos livram dos ingênuos, dos blefadores e dos embusteiros. Citar fonte, sempre que for necessário, é dever de todo escritor honesto. Está cada dia mais difícil acrescentar uma vírgula que seja na história do pensamento humano.

* * *

A inflação está aí. As reportagens mostram os aumentos sucessivos nos preços dos combustíveis. O supermercado está cada vez mais caro. Muita coisa está mais cara. Mas você já ouviu alguém reclamar que os livros estão mais caros? Pelo contrário. Os livros estão sempre do seu lado.

Duas maneiras muito eficientes para empregar bem seu dinheiro e se proteger da inflação: a primeira é investir com inteligência via Bolsa de Valores. A segunda é comprar - e ler - bons livros.

O conhecimento que você aprende neles nem a inflação pode corroer.

E até para abrir o Home Broker, é bom você abrir um livro antes, como os livros da Suno editados pela CL-A, por exemplo.

Pessoalmente, trabalho duro todos os dias para que cada vez mais pessoas tenham acesso a uma boa leitura.

Os livros me trouxeram até aqui. Retribuir é o mínimo que posso fazer por eles.

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sábado, 5 de março de 2022

A felicidade está sendo ignorada

"No Velódromo" (1912), pintura de Jean Metzinger (1883-1956) pertencente ao acervo de Peggy Guggenheim Collection em Veneza, Itália.
"No Velódromo" (1912), pintura de Jean Metzinger (1883-1956) pertencente ao acervo de Peggy Guggenheim Collection em Veneza, Itália.

Os grandes filósofos e poetas da Antiguidade viviam num mundo rudimentar que os forçava a perseguir a felicidade com as poucas ferramentas que tinham em mãos, numa Europa que ainda não havia descoberto as Américas e as grandes ilhas da Oceania. 

Deste modo, Diógenes pregava a completa renúncia aos bens materiais, na companhia de seus fiéis companheiros, os cães. Epícuro valorizava a força da amizade, visando compartilhar momentos efêmeros de reflexão sobre a vida. Sêneca pregava o cultivo das virtudes, como lavouras onde eventualmente as flores - os prazeres - poderiam colorir o dia. Já Ovídio se ocupava dos segredos da sedução. 

Todos, à sua maneira, nos legaram ingredientes para constituir nossa receita individual para cozinhar refeições de felicidade, pois a gente sabe que ela nunca será plena e contínua, dado que nossa fome a respeito dela logo nos encontra, assim que levamos o prato até a pia.

Já imaginou se estes pensadores pudessem viajar no tempo para ter contato com as invenções, descobertas e intercâmbios de culturas que enriqueceram o velho continente?

Será que Diógenes abriria mão de suas renúncias, para arranjar um emprego e ter dinheiro para comprar ração para seus cães, fora as consultas regulares com os veterinários? Os cães estão cada vez mais exigentes: vestem coletes de lã, são tosados a cada quinze dias e até festejam aniversários. Muitas pessoas, hoje em dia, se sentem felizes apenas quando voltam para casa no fim do dia e encontram seus cães esperando no rodapé da porta do apartamento.

Epícuro era chegado numa cumbuca de repolhos. Consegue imaginar ele saboreando um pedaço de pizza napolitana? Isso seria impossível no seu tempo, pois o tomate é um fruto originário da América Latina, sendo muito apreciado no México. Somente depois de 1500 seu sabor encantou os europeus, encontrando no sul da península itálica uma aclimatação perfeita. Você conhece alguém que fica triste saboreando uma Margherita?

Já viu uma criança chorar por ser obrigada a comer uma porção de batatas fritas? Pois as batatas também se originaram nas Américas, mais precisamente na Cordilheira dos Andes, entre a Bolívia e o Peru. Os conquistadores espanhóis não levaram apenas quantidades imensas de ouro para a Europa, mas também o cultivo das batatas. Quem liga para uma salada de repolho servida em talheres de ouro, quando pode besuntar os dedos comendo filetes de batatas? Tudo bem, é um momento de felicidade com sentimento de culpa, mas ainda assim é um momento de felicidade.

E se Epícuro sorvesse uma xícara de cappuccino numa mesinha da Piazza Navona em Roma, na companhia de Sêneca? Como cada um reagiria à mistura de leite com café e chocolate? O leite já era conhecido deles nos tempos antigos, mas o café, cultivado primeiramente na Etiópia, só teve sua primeira loja na Europa em 1495, na cidade de Constantinopla, conhecida atualmente como Istambul. Já o chocolate, feito a partir da amêndoa fermentada e torrada do cacau, é mais um alimento que surgiu na América, só encantando os europeus por volta de 1600. Café. Chocolate. Consegue imaginar sua vida sem isso? Nem estamos falando da felicidade em si mesma.

Sêneca se deliciaria com duas invenções: a imprensa de Gutenberg, desenvolvida por volta de 1430, que veio a baratear e difundir a produção e distribuição de livros; e o fonógrafo inventado em 1877 por Thomas Edison, aperfeiçoado por Alexander Graham Bell. Quem aprende a gostar de ler, sabe o prazer que isso significa. A leitura de um bom livro é uma fonte intermitente de felicidade. Poder ouvir um disco dos Beatles, mesmo tendo perdido a chance de ir a um porão de Liverpool, é igualmente uma felicidade em forma de Long Play.

Consegue conceber a cena de Ovídio aprendendo a tocar guitarra com George Harrison? Poemas inteiros seriam escritos sobre a arte de emular a beleza da mulher, enquanto se dedilha uma Rickenbacker de 12 cordas. Paul McCartney ficaria com inveja e logo trataria de compor "Here, There and Everywhere".

Nem estou falando de viajar de carro conversível por uma estrada a beira mar, num entardecer de verão, pois isso é algo inalcançável para a maioria das pessoas. Mas aqueles que se recusam a pedalar uma bicicleta não sabem o que estão perdendo. Se tem um produto que deveria ser subsidiado por todos os governos, com isenção de impostos e linhas de crédito facilitado, são as bicicletas. Em cada casa deveria ter pelo menos uma. 

Fazer o sangue circular, enquanto você gira os pedais com suas pernas e comanda o guidão com seus braços, é uma excelente preparação para ter uma conversa instrutiva com alguém mais culto. Como seriam chamados os peripatéticos se, ao invés de caminhar com Aristóteles pelo entorno do Liceu, em Atenas, eles pudessem pedalar junto com ele por estradas de cascalho, entre campos de frondosas oliveiras?

Olhe para o seu lado. Veja quanta felicidade está sendo desperdiçada, nesse exato instante. A gente nem falou da máquina fotográfica, do cinema, de Charles Chaplin, de Sophia Loren. Quem está roubando a felicidade de nós? O espelho, o telefone celular, as redes sociais, o dinheiro, as ambições, os vícios? 

As bombas russas?

Os átimos de felicidade estão aí. Temos muito mais ferramentas e conhecimento tecnológico do que os antigos para capturar essas partículas de alegria. Entretanto, por querer sempre mais, a gente não dá valor para tudo de bom que já conquistamos.

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