terça-feira, 7 de agosto de 2018

A irmandade que não envelheceu

Os irmãos Grimm retratados por Elisabeth Jerichau-Baumann em 1855.
Os irmãos Grimm retratados por Elisabeth Jerichau-Baumann em 1855.

Quando eu era garoto recebia pares de sapato e roupas de meu irmão mais velho. Ele crescia e eu também. O que não servia mais para ele ia parar na minha gaveta. A sola do calçado vinha pré-moldada e ia se adaptando às plantas dos meus pés. As blusas e camisas tinham um perfume típico que não era artificial, mas remetiam à presença do meu irmão.

Quando a adolescência chegou, fui ficando mais alto que ele e, ao invés de receber suas roupas, a gente compartilhava as peças.

Meu irmão sempre foi carismático e namorador. As meninas gostavam dele e em qualquer festa ele se tornava o centro das atenções. Contava piadas. Ria de um jeito contagiante. Tinha um brilho no olhar.

Quando eu queria ter mais chances numa paquera, pedia conselhos para ele e sua blusa azul marinho de gola fechada. Eu vestia aquela blusa e me sentia mais confiante. Sabia que naquele sábado de noite as coisas dariam certo, mesmo com a minha timidez.

Um dia meu irmão se foi e tivemos que dar suas coisas embora. Separei algumas lembranças para mim. Fiquei com seus discos de vinil do Kiko Zambianchi, da Rita Lee, do Lobão e os Ronaldos, do U2, do Twisted Sister. Fiquei com sua gravata e com um casaco cinza mesclado com botões de pressão.

O casaco fica lá, pendurado no canto do armário. Minha esposa já perguntou se pode doar ele, mas não deixo, mesmo sem usá-lo. Não quero que o perfume do meu irmão se perca, mesmo depois de tantos anos.

Queria saber como é dividir algo com um irmão enquanto envelhecemos. Ir juntos ao estádio para torcer pelo Palmeiras. Combinar um churrasco numa terça-feira de noite sem nada especial para comemorar. Reclamar dos políticos. Ajudar a consertar a maçaneta da porta do carro. Subir no forro da casa para trocar o registro da caixa d'água. Segurar a escada para ele limpar a calha do telhado.

Essas coisas bobas a gente nunca mais vai fazer. Por isso, as vezes me pego lembrando dele fazendo coisas bobas, como hoje, quando ele estaria fazendo 45 anos. Hoje seria uma boa terça-feira para fazer um churrasco, ou uma pizza.

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sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Weiku apresenta soluções termoacústicas em esquadrias de PVC


Douglas Moreto é promotor de vendas da Weiku no estado de São Paulo.
Douglas Moreto é promotor de vendas da Weiku no estado de São Paulo.

A Weiku é uma empresa sediada em Pomerode, Santa Catarina, presente no Brasil desde 1998. Sua fundação, porém, ocorreu em 1985 na Alemanha, através da iniciativa de Arnd Kilian. De acordo com o site da Weiku, "o nome da empresa surgiu da junção de Weissenfels (cidade-sede da primeira fábrica) e de Kunststofffenster (que em alemão significa esquadrias de PVC)."

Apesar de contar com décadas de tradição no mercado europeu, as esquadrias de PVC ainda são consideradas uma novidade no Brasil, especialmente nos estados fora da Região Sul - ainda o principal mercado desse tipo de esquadria no país. Mesmo com vinte anos de Brasil, a Weiku ainda enfrenta certa resistência na popularização das esquadrias de PVC, devido ao amplo número de concorrentes que produzem esquadrias de alumínio por encomenda.

A empresa de origem alemã encontrou um modo criativo e inovador para demonstrar a qualidade de seus produtos. Ela desenvolveu um caminhão com a dupla função de showroom e laboratório de testes, para apresentação de sua linha de produtos para arquitetos, engenheiros, construtores e incorporadores do mercado imobiliário.

Nosso escritório foi escolhido em Paulínia para receber a visita do Douglas Moreto, promotor de vendas da Weiku no estado de São Paulo, que pessoalmente conduziu as breves experiências para demonstrar a capacidade das esquadrias de PVC para resistir ao calor externo, bem como aos ruídos e às águas das chuvas.

Ligando uma estufa aquecida eletricamente com auxílio da bateria do caminhão, pudemos tocar pessoalmente numa esquadria de PVC e numa esquadria de alumínio. A diferença é grande: enquanto o alumínio esquentava rapidamente, a esquadria de PVC permanecia com temperatura bem menor.

Uma caixa de som também foi acionada dentro de uma bancada que, após ser fechada com uma janela de PVC, ofereceu conforto acústico imediato aos ouvintes, com severa redução dos decibéis no ambiente.

Por fim a estanqueidade das esquadrias foi exemplificada através de um modelo sem acabamento, mostrando o sistema interno de ferragens interligadas que, quando travadas, promovem maior contato da esquadria com o batente na parede.

O baú do caminhão da Weiku é um misto de showroom com laboratório de testes.
O baú do caminhão da Weiku é um misto de showroom com laboratório de testes.

Estufa aquecida pela bateria do caminhão com motor ligado facilita o comparativo ao toque das esquadrias de PVC e alumínio, onde a primeira tem maior resistência ao aumento de temperatura.
Estufa aquecida pela bateria do caminhão com motor ligado facilita o comparativo ao toque das esquadrias de PVC e alumínio, onde a primeira tem maior resistência ao aumento de temperatura.

Caixa de som acondicionada em bancada de demonstração fechada com esquadria de PVC demonstra a eficiência desse tipo de material para isolamento acústico.
Caixa de som acondicionada em bancada de demonstração fechada com esquadria de PVC demonstra a eficiência desse tipo de material para isolamento acústico.

Sistema interligado de cremonas internas aumenta a superfície de contato das esquadrias com os batentes das aberturas nas paredes.
Sistema interligado de cremonas internas aumenta a superfície de contato das esquadrias com os batentes das aberturas nas paredes.

Agradecemos a visita do Douglas Moreto, da Weiku, em nosso escritório, sinalizando o prestígio que temos junto aos diretores da empresa, ao qual retribuímos deixando o contato para que nossos amigos possam conhecer mais a respeito das portas e janelas de PVC e da própria Weiku, que em 2014 inaugurou a segunda fábrica no Brasil, na cidade de Campinas, São Paulo.

Serviço:

Weiku do Brasil
Site: www.weiku.com.br
E-mail: infobr@weiku.com.br
Telefone: 0800 645 2644
Skype: weiku.do.brasil.pomerode
Horário de atendimento: Segunda à Sexta-feira das 8 às 17h.

Douglas Moreto
E-mail: douglas.m@weiku.com.br
WhatsApp: (19) 9 9913 5125

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quinta-feira, 12 de julho de 2018

Isso aconteceu há vinte anos

Jovem floresce para a vida no topo do mundo, no domo de Firenze.
Jovem floresce para a vida no topo do mundo, no domo de Firenze.

O ano de 1998 foi determinante na minha trajetória: foi meu último ano na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Comecei em alto estilo, com uma viagem de estudos para a Itália, entre janeiro e fevereiro, como aluno informal de iniciação científica numa pequena comitiva formada por um professor doutor e uma aluna de mestrado.

Foram dias luminosos entre Roma, onde vi a Capela Sistina de Michelangelo no Vaticano, Florença, Siena, Verona, Veneza, Mantova, Padova e Milão. Há um livro inteiro a ser esculpido desta viagem e não começarei este trabalho agora.

Naquele tempo era um aluno super dedicado, pois isso mantinha minha cabeça ocupada, longe de lembranças de um trauma que afligiu a parte remanescente da minha família. O professor doutor, a quem sou grato e tenho em grande estima até hoje, me deixou as portas abertas para ingressar no mestrado, tão breve me formasse naquele ano.

Porém, assim que voltei para o Brasil, fiquei com o coração apertado. Algo me dizia que seguir a carreira universitária não era exatamente o caminho a trilhar. No primeiro fim de semana em casa, fui na quermesse da paróquia local. No lugar do teto da Capela Sistina, vi uma estrutura metálica coberta com telhas de zinco no barração de festas da comunidade - um grande contraste me assustava: será que tinha passado pelo clímax da minha vida?

Decidi que não queria passar os anos seguintes estudando sobre a Arquitetura do passado. Havia muita coisa nova para ser construída na minha cidade, embora não estivesse claro na minha mente. Tive que comunicar isso para o meu professor, entregando cópias das fotos magníficas que havia capturado com a velha câmera Olympus OM-10 que meu pai havia me emprestado. De certo modo, representei uma decepção para ele.

Mas o semestre começou a tratei de me empenhar para conseguir ótimas notas no Trabalho de Graduação Interdisciplinar. Ao final daquele período, pensei que finalmente teria um mês de férias. Porém, o farol do carro deu problema e meu pai me pediu para cuidar do conserto. Levei ele para o eletricista.

Essa parte da história já contei no capítulo final do livro "Arquiteto 1.0": o eletricista me encomendou o projeto de sua casa, no loteamento que estava sendo implementado ali mesmo no bairro, onde o teto do barração da igreja não tinha qualquer pintura.

Nunca mais tive férias

As férias haviam sido canceladas, mas fiquei feliz da vida. Pedi ajuda para meu tio que era engenheiro. Ele me ensinou muitas coisas no escritório que organizei às pressas, na edícula da chácara de meus pais.

Um projeto puxou o outro. Num tempo onde poucas pessoas tinham telefone celular, as redes sociais eram analógicas e bem reais. O boca a boca correu solto. O jovem Jean, filho do Seu Niba e da Dona Lice, estava desenhando plantas "no lado de cá da ponte do Rio Atibaia". Fui pioneiro numa região carente em serviços na pequena cidade de Paulínia. O João Aranha era apenas um bairro de feições rurais, que sequer distrito tinha condições de ser.

Fui levando a faculdade com os projetos residenciais até o fim do ano, oficialmente trabalhando para meu tio, que me permitia fazer contato direto com os primeiros clientes. Tudo era tratado com muita transparência.

O loteamento onde fiz meus primeiros projetos era o Residencial São José, que tinha lotes pequenos, de apenas 200 metros quadrados. A Prefeitura de Paulínia só aceitou receber os projetos para análise no final de janeiro de 1999, praticamente na mesma semana em que recebi o diploma e o registro profissional. Portanto, tive a satisfação de formalizar meus primeiros projetos por conta própria.

Vinte anos depois de receber a primeira encomenda de projeto, você pode perguntar se tenho saudades daquela época. Responderei que não. Foram bons tempos, com certeza: tinha mais cabelos, bem menos peso, um rosto definido e muita energia. Mas não tinha minha filha, minha esposa, meu lar e o conhecimento que tenho hoje.

Quando faço um projeto, estou sempre pensando em oito, nove, dez meses na frente - ou mais de um ano - que é o prazo médio de conclusão de uma obra após seu início. Também redijo os contratos com os clientes e costumo facilitar o pagamento dos serviços através de parcelas, que por vezes já alcançam o ano seguinte. Meu trabalho é olhar para frente.

Poderia publicar uma imagem do meu primeiro projeto aqui, mas confesso que não tive coragem de abrir as pastas do arquivo. Ainda não é hora de ficar lembrando com minúcias de um passado cada vez mais distante.

No entanto, para marcar os vinte anos do meu primeiro projeto, encerro esta mensagem com uma ironia:

- Foi um farol quebrado que iluminou meu caminho.

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segunda-feira, 9 de julho de 2018

Somos todos tailandeses presos numa caverna

Ilustração do acervo do Museu Britânico feita em 1604 por Jan Sanredam e Cornelis van Haarlem, sobre a alegoria da caverna proposta por Platão.
Ilustração do acervo do Museu Britânico feita em 1604 por Jan Sanredam e Cornelis van Haarlem, sobre a alegoria da caverna proposta por Platão.

Em junho de 2018 um grupo de doze adolescentes e um treinador foram explorar uma caverna no norte da Tailândia, após um treino de futebol. Eles foram dados como desaparecidos por uma mãe, após esperar em vão a chegada do filho em casa.

As autoridades começaram as buscas, encontrando chuteiras e bicicletas perto da entrada da caverna, que havia sido parcialmente alagada em função de fortes chuvas.

A equipe de busca conclui que o grupo foi se embrenhando pela longa caverna, empurrado pelo aumento do nível de água. Uma vigília se forma no entorno, com familiares aguardando por novas informações.

Mergulhadores entram em ação, vasculhando a caverna com cilindros de oxigênio e reserva de alimentos. Santuários são improvisados na entrada da caverna para que as pessoas orem. Autoridades locais pedem ajuda ao governo do país.

Militares norte-americanos se juntam aos tailandeses e voluntários britânicos nas buscas em condições cada vez piores, devido ao crescente nível das inundações. Bombas de água são instaladas para tentar drenar a caverna.

Equipes tentam encontrar acessos alternativos na cadeia montanhosa sobre a caverna. Perfurações são feitas. Neste momento o evento já é uma comoção mundial.

Somente após nove dias os meninos e seu treinador são encontrados num bolsão de ar, desidratados e passando fome. O alívio momentâneo é comemorado e a prioridade é levar mantimentos ao grupo.

Um mergulhador tailandês que estava levando alimentos ao grupo morre no percurso de volta, por falta de oxigênio. Um duto de ar é instalado para suprir oxigênio no bolsão isolado e autoridades consideram que os garotos teriam que aprender a usar equipamentos de mergulho para serem resgatados.

No momento em que escrevo estas linhas, parte do grupo já foi resgatado e conduzido para uma quarentena em hospital. Independente do desfecho desta história, temos um drama de proporções globais.

O mito da caverna

O que mais me chamou a atenção neste episódio foi que os meninos, para serem resgatados da caverna, teriam que necessariamente aprender algo - o que me leva ao filósofo Platão, que em sua obra conhecida como "A República" propõe "A Alegoria da Caverna".

Para Platão, estamos todos presos em correntes dentro de uma caverna, desde o nascimento. Nosso campo de visão é restrito à parede do fundo desta caverna, iluminada pelas luzes geradas por uma fogueira, que projeta as sombras de esculturas que simulam pessoas, animais e objetos do cotidiano. Nós, como prisioneiros, passamos o tempo dando nomes para tais imagens, tentando compreendê-las.

Platão relata a possibilidade de um prisioneiro escapar das correntes para investigar outras partes da caverna e mesmo seu exterior. Neste caso a plena realidade seria revelada, sem as distorções das sombras projetadas pela fogueira. O encantamento seria deslumbrante e o ex-prisioneiro seria tentado a voltar para compartilhar suas descobertas com os demais.

No entanto, este indivíduo seria ignorado e exposto ao ridículo, uma vez que as demais pessoas só conseguem ver as coisas sem desconfiar que elas são manipuladas. O ex-prisioneiro é compelido a interromper seu discurso, sob o risco de ser morto.

Com esta alegoria, que apenas pincelamos aqui, Platão queria dizer que temos uma visão sobre a realidade que é distorcida. Para conhecermos o mundo, de fato, temos que nos libertar das influências culturais e sociais representadas pelas sombras projetadas no fundo da caverna. Para sair dela, temos que aprender algo, como respirar por equipamentos de mergulho.

Não se iluda

Vemos os tailandeses presos no fundo de uma extensa caverna e nos comovemos. O mundo exterior está voltado para eles. Porém, de certo modo, estamos todos presos naquele bolsão de ar. A diferença é que o presidente da FIFA não está nos oferecendo ingressos para a final da Copa da Rússia e Elon Musk não está disposto a ceder seus engenheiros para construir mini-submarinos para nos tirar dos túneis rochosos inundados.

Temos que nos libertar do fundo da caverna por nossa conta, através do conhecimento, apagando as fogueiras das vaidades.

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sexta-feira, 6 de julho de 2018

Não chore pela seleção brasileira de estrangeiros

Arena Pantanal em Cuiabá, em abril de 2014. CC BY 3.0. Fonte: http://www.copa2014.gov.br/pt-br/dinamic/galeria_imagem/42482
Arena Pantanal em Cuiabá, em abril de 2014. CC BY 3.0. Fonte: http://www.copa2014.gov.br/pt-br/dinamic/galeria_imagem/42482

O time da CBF, que dizem que é o time do Brasil, acaba de perder para o time da Bélgica na Copa da Rússia de 2018. O Brasil está fora e fica atrás do Uruguai na classificação geral do torneio. O Uruguai tem pouco mais de três milhões de habitantes e a derrota deles para os franceses certamente foi mais sofrida do que a nossa, pois nós, brasileiros, perdemos o direito de lamentar derrotas no futebol, depois do grande vexame que passamos na Copa de 2014.

Não estou me referindo à goleada de 7 a 1 sofrida para a Alemanha, numa campanha onde o Brasil de Scolari foi além da campanha feita na Rússia, com todas as falácias de autoajuda do técnico Tite, que apenas igualou o desempenho do antipático Dunga em 2010, na África do Sul - país pobre do Terceiro Mundo onde a FIFA ganhou milhões de dólares tendo como presidente um sujeito expulso do futebol por suspeitas de corrupção.

A FIFA repetiu a história no Brasil, com vergonhosas isenções de impostos. A conta ficou para o contribuinte pagar. Uma conta de bilhões gastos em arenas construídas em estados onde o campeonato local de futebol movimenta menos dinheiro que o jogo clandestino do bicho.

Esse foi o grande vexame anunciado desde que o Brasil foi escolhido para sediar uma Copa do Mundo. Jornalistas cantaram que a construção dos estádios seria superfaturada e que eles seriam abandonados logo depois do evento, configurando-se em elefantes brancos cercados pela aridez da penosa realidade brasileira. Quatro anos depois da Copa de 2014, tudo se confirmou.

Políticos lucraram horrores com essa história. Empreiteiras associadas aos políticos também. Até São Paulo, que tinha pelo menos dois estádios em condições de receber jogos da Copa, ganhou uma arena nova, entregue para um time que forneceu o único jogador da seleção brasileira de 2018 que joga no Brasil, pois o titular e o reserva imediato da posição se machucaram.

Time esse que é patrocinado pela mesma empresa fornecedora de uniformes da seleção brasileira e que tem contrato vitalício com o principal comentarista do único canal aberto com permissão para transmitir os jogos no Brasil, que nunca fala mal dos outros jogadores protegidos pela mesma empresa que já emprestou seu nome para uma CPI - Comissão Parlamentar de Inquérito - que terminou em pizza.

Nos últimos trinta anos a CBF - Confederação Brasileira de Futebol - teve quatro presidentes: três deles arrolados em processos judiciais que os prendem em território brasileiro ou numa cadeia norte-americana, onde a justiça é levada mais a sério. O quarto presidente é um coronel mandado, cujo nome declinarei de mencionar.

Não, meus amigos, não chorem por esses jogadores da seleção brasileira. Quase todos não vivem nos padrões da realidade brasileira. Eles trabalham na Europa e sequer na Europa eles vivem de acordo com a realidade europeia, pois eles estão bem acima dela, sendo tratados como cavalos de raça por seus clubes, comendo como reis e dormindo como princesas.

Particularmente me irrita, nas vésperas de cada Copa, assistir o telejornal semioficial do Brasil, com reportagens de apelo emocional tentando mostrar que os jogadores tiveram uma infância difícil. Mentira! Nunca passaram fome, pois se fossem desnutridos nunca teriam se profissionalizado. Boa parte dos jogadores da seleção brasileira ganha dinheiro com futebol desde a puberdade, pois neste esporte os contratos informais com jovens promessas são apalavrados com seus pais ou responsáveis.

Confesso que há muito tempo perdi o entusiamo com o Brasil em Copas do Mundo. Cantei que o Brasil iria perder para a França na final da Copa de 1998 antes mesmo dela começar. Ninguém acreditou. Queria ter a capacidade de me iludir com futebol, mesmo que isso me custasse frustrações após uma derrota nas quartas de final de uma Copa. Já fui criança e sei como uma derrota esportiva pode ser dolorosa - o que também tem a sua beleza poética.

Mas parece que estou vacinado quanto a isso e sem vontade de incentivar as crianças da minha família a torcer pela "nossa" seleção, que na verdade nunca foi nossa, pelo menos desde que o timaço de Zico, Sócrates e Falcão perdeu para a Itália em 1982, na Espanha.

Enquanto o brasileiro chora por sua seleção, obras de transporte continuam inacabadas no Norte, Nordeste e Centro-Oeste do Brasil. Estádios magníficos estão sendo subutilizados. Políticos fazem delação premiada para viver em prisão domiciliar, em sítios suntuosos. Empreiteiros entregam alguns bois para as piranhas devorarem e muitos se livram de qualquer culpa. E tem aqueles que ainda querem voltar ao poder através do voto direto, mesmo vendo os jogos da Copa em televisores de cela.

Fizeram o que fizeram sob as nossas barbas. Por isso não culpemos a defesa do time da CBF, que deixou a Bélgica jogar debaixo e por cima de seus topetes repicados.

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quarta-feira, 27 de junho de 2018

Alemanha sendo Palmeiras

Grandes times vencem e perdem jogando de verde.
Grandes times vencem e perdem jogando de verde.

Tenho um pecado para confessar: torço pelo Palmeiras. O Palmeiras que é o maior campeão brasileiro de todos os tempos e que caiu para a segunda divisão duas vezes. O Palmeiras que venceu a Copa Rio de 1951 - o primeiro campeonato entre clubes de nível mundial que rende mais piadas do que glórias para o torcedor do Verdão, acusado em prosa e verso pelos seus detratores de não ter um Mundial para chamar de seu.

Torcer para o Palmeiras é complicado. A gente ganha do Boca Juniors lá na Bombonera em Buenos Aires e perde para o ASA de Arapiraca aqui na Copa do Brasil. Alguns dizem que jogar de verde dá azar. Não acredito. O Palestra Itália já venceu muitos campeonatos importantes com sua camisa esmeraldina.

Na Copa do Mundo de 2014, a Alemanha se vestiu de rubro-negro, com as cores do Flamengo, para tratorar o Brasil em Belo Horizonte num 7 a 1 traumático para a seleção canarinho. Mas tradicionalmente o segundo uniforme da Alemanha, que normalmente joga vestida de Corinthians, é justamente composto por camisas e meias verdes e calções brancos, assim como o Palmeiras.

E foi assim que a Alemanha entrou em campo na Copa da Rússia contra a Coreia do Sul, a ASA de Arapiraca das seleções nacionais. E de maneira surpreendente a Alemanha perdeu: 2 a 0 para os coreanos - uma goleada em termos de vexame no futebol.

A Alemanha está fora do Mundial. O Palmeiras não tem Mundial. Os alemães vão experimentar o sabor de serem zoados pelos adversários, mas essa é a graça do futebol. Nada que apague a história do Palmeiras. Nada que apague a tradição da Alemanha.

Perder do ASA de Arapiraca ou da Coreia do Sul não é pecado. Pecado é perder a compostura, e quem se veste de verde garante ao menos um porte de elegância que nenhuma outra cor oferta no esporte.

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sábado, 23 de junho de 2018

Alemanha sendo Alemanha

Seleção alemã celebrando a conquista da Copa do Mundo FIFA de 2014 (Danilo Borges/Portal da Copa copa2014.gov.br Licença Creative Commons Atribuição 3.0 Brasil).
Seleção alemã celebrando a conquista da Copa do Mundo FIFA de 2014 (Danilo Borges/Portal da Copa copa2014.gov.br Licença Creative Commons Atribuição 3.0 Brasil).

Hoje cedo trabalhei no escritório já pensando no pedal que faria de tarde. Passei na casa de um colega. Ia começar o jogo da Alemanha contra a Suécia pela Copa da Rússia. Jogão, né? Mas a gente foi andar de bicicleta.

Pegamos uma estradinha de terra entre Paulínia e Barão Geraldo. Foi legal. Nunca tinha passado por ela. Chegamos na Praça do Coco e pedimos um litro de caldo de cana gelado, com limão e gengibre.

Meu amigo, um gole daquilo depois de 40 minutos de bicicleta é muito bom!

A televisão pendurada na árvore - que também sustenta o telhado da venda - anuncia o gol da Suécia. Um sujeito alto, com cara de alemão, jeito de alemão, sotaque de alemão, com um alemãozinho a tiracolo, ficou triste.

Consolei ele:

- A Suécia tirou a Itália da Copa. É jogo duro. Não é surpresa.

Fizemos o caminho de volta, por outra estrada. Tinha um subidão que me queimou as coxas. Estou meio fora de forma.

Cheguei em casa faltando cinco minutos para o jogo acabar. A Alemanha tinha empatado, mas isso não resolvia a situação. Só a vitória interessava.

Foi bonito ver os alemães jogando com organização, determinação, sem desespero, martelando o gol da Suécia - que não conseguia contra-atacar.

Subitamente, falta na lateral da área. Minuto final de jogo.

Estava fazendo alongamento no tapete da sala quando cravei:

- Vai sair gol.

Jogada ensaiada na bacia das almas, com a terra cedendo na beira do abismo.

Golaço no ângulo!

Final de jogo. Deu dó dos suecos. A gente sempre torce para os mais fracos quando não é o nosso time na reta.

Mas temos que tirar o chapéu para os alemães. Nada de choro. Nada de desabafo. Nada de individualização de resultado. Os caras saíram de campo com as facas nos dentes - do jeito que entraram. Uma aula de atitude e equilíbrio emocional.

Quatro anos depois do 7 a 1 contra o Brasil, os alemães seguem tendo muito o que nos ensinar.


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