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| O futebol ainda é parte da formação do brasileiro. |
O brasileiro aprende a gostar de futebol desde muito cedo. Muitas vezes, é o pai quem incentiva o filho a torcer pelo mesmo time. Como tantos homens têm dificuldade para expressar verbalmente o quanto amam seus filhos, compartilhar a paixão pelo futebol acaba se tornando uma forma silenciosa de demonstrar afeto. E o filho, que também crescerá com essa mesma dificuldade de colocar sentimentos em palavras, responde do mesmo modo. Quando pai e filho comemoram um gol juntos, muitas vezes estão dizendo, sem perceber, o quanto se amam. É por isso que o futebol se mistura com carinho, afeição e boas lembranças.
Na escola, durante muito tempo, jogar bola no intervalo era uma das atividades mais comuns. Foi nesse ambiente que muitas crianças descobriram seus talentos e suas limitações. Algumas eram escolhidas logo no início para formar os times. Outras jamais eram chamadas entre os primeiros nomes. Algumas acabavam indo para o gol.
Curiosamente, o goleiro exerce uma função diferente: é ele quem ajuda a escolher o time. Desde pequeno, aprende a observar, selecionar e identificar os melhores jogadores. Sem perceber, desenvolve uma habilidade que poderá ser útil na vida adulta. Talvez, um dia, ao se tornar investidor, faça exatamente a mesma coisa: escolher os melhores ativos para compor sua carteira. Afinal, um time vencedor começa na escolha de seus jogadores.
Ao mesmo tempo, quem percebe cedo que não possui talento suficiente para viver do futebol entende que precisará estudar, formar-se, trabalhar ou empreender para construir sua carreira. Nem todos nasceram para ser jogadores profissionais.
As lembranças que permanecem
O futebol sempre alimentou o sonho de mudar de vida. Muitos meninos imaginaram que poderiam sair da pobreza graças ao talento com a bola. Pouquíssimos conseguiram. Os que conseguiram tornaram-se ídolos, reforçando esse sonho nas gerações seguintes.
Mas o futebol também constrói amizades. É jogando bola na rua, no campinho do bairro ou na quadra do condomínio que surgem muitos dos primeiros amigos. Depois vem o futebol de botão na casa do colega, as conversas intermináveis e as tardes compartilhadas.
Mais tarde chega outro momento inesquecível: a primeira ida ao estádio ao lado do pai. Sentado na arquibancada, o filho aprende os cânticos da torcida, os primeiros palavrões e a emoção de acompanhar milhares de pessoas vibrando pelo mesmo time. São memórias afetivas que acompanham o indivíduo por toda a vida.
Quando o esporte se transforma em negócio
O tempo passa, e o futebol deixa de ser apenas um esporte. Torna-se entretenimento e, principalmente, um grande negócio. O torcedor percebe que o clube não pertence à torcida, mas é administrado por empresários, investidores e patrocinadores. Isso parece natural. Afinal, alguém precisa financiar as despesas do clube.
Primeiro aparecem empresas de diversos segmentos estampando suas marcas na camisa. Depois chegam as casas de apostas.
Nesse momento ocorre algo muito delicado. As apostas passam a se apropriar de todas aquelas boas lembranças construídas ao longo da infância. Misturam o afeto pelo futebol com a promessa de dinheiro fácil. Como o futebol sempre representou amizade, família e diversão, apostar também passa a parecer algo inofensivo. O problema é justamente essa associação.
A ilusão da riqueza fácil
Para quem nunca conseguiu viver do futebol, as apostas oferecem uma nova promessa: ainda é possível mudar de vida por meio do esporte. Agora, mesmo aquele antigo "perna de pau" acredita que pode enriquecer acompanhando partidas pela televisão ou pelo celular. Essa ilusão é reforçada diariamente.
Os antigos ídolos fazem propaganda das casas de apostas. Os clubes exibem essas marcas em seus uniformes. Narradores, comentaristas e influenciadores promovem as plataformas durante as transmissões. O próprio Estado regulamenta essa atividade.
Pouco a pouco, aquilo que antes era visto claramente como jogo de azar passa a parecer uma atividade comum. No entanto, existe uma diferença fundamental. O futebol revela os talentos. As apostas escondem a realidade. No futebol, quem possui aptidão e disciplina pode chegar ao alto nível. Nas apostas, cria-se a impressão de que qualquer pessoa pode enriquecer rapidamente apenas com um golpe de sorte.
Quando o jogo deixa de ser diversão
O grande problema é que o sistema não depende de grandes vencedores. Ele depende de jogadores frequentes. Por isso, muitas pessoas conseguem pequenos ganhos no início. Esses ganhos alimentam a confiança e criam o hábito de apostar cada vez mais.
Quando o vício se instala, tudo muda. A pessoa deixa de assistir ao jogo pelo prazer do esporte e passa a enxergar cada partida como uma oportunidade de recuperar o dinheiro perdido. Em alguns casos, chega ao ponto de torcer contra o próprio clube, porque uma derrota pode render uma aposta mais lucrativa.
Diferentemente do futebol, onde sempre existe uma próxima rodada, um novo campeonato ou uma nova temporada, nas apostas o prejuízo desperta um desejo imediato de recuperação. Esse ciclo não possui limite.
Primeiro desaparece o dinheiro destinado ao lazer. Depois vai embora o aluguel, o salário, o automóvel, a casa. Em seguida surgem as dívidas, os conflitos familiares, a perda do emprego e, em muitos casos, o rompimento dos relacionamentos. Algumas pessoas acabam perdendo até a própria vida. Essa é a verdadeira ruína provocada pelo vício em apostas.
Existe um caminho mais sólido
A maioria das pessoas nunca será um grande jogador de futebol. Da mesma forma, poucas criarão empresas bilionárias ou terão uma ideia revolucionária. E não há absolutamente nenhum problema nisso. É perfeitamente possível construir uma vida digna por meio do estudo, do trabalho e da disciplina financeira.
Se não podemos ser o craque do time, talvez possamos ser o goleiro: aquele que sabe escolher. Em vez de apostar, podemos selecionar bons ativos para formar um patrimônio ao longo do tempo.
Há inúmeras alternativas para isso: títulos públicos, fundos imobiliários, Fiagros, ações de empresas sólidas pagadoras de dividendos e outras estratégias voltadas para geração de renda passiva. Para muitas pessoas, esses investimentos parecem arrojados. No entanto, quem segue princípios como o Value Investing e o Buy and Hold sabe que essa postura é, na verdade, uma forma defensiva de atuar dentro de um mercado naturalmente sujeito a riscos.
Colocando cada coisa em seu lugar
O futebol sempre foi uma caixinha de surpresas. As casas de apostas exploram exatamente essa característica para vender a fantasia de que qualquer resultado improvável pode transformar alguém em milionário. Mas nós precisamos colocar o futebol na sua verdadeira caixinha. A caixinha das boas lembranças. A caixinha da amizade. Da convivência entre pais e filhos. Da disciplina, do treinamento, do espírito de equipe e do companheirismo, onde todos vencem juntos e todos perdem juntos.
O futebol não deve ocupar um espaço que pertence aos assuntos realmente importantes da vida.
Se não tivemos talento para ganhar dinheiro jogando bola e conquistar patrocínios milionários, ainda podemos construir algo muito mais sólido. Podemos formar, pouco a pouco, uma carteira de ativos geradores de renda passiva que, no futuro, será a patrocinadora da nossa tranquilidade financeira.
Assim, o futebol continuará ocupando o lugar que sempre deveria ter ocupado: o de uma bela lembrança, capaz de unir pessoas, fortalecer amizades e criar momentos inesquecíveis, sem jamais servir de porta de entrada para a ilusão e para a ruína das apostas.
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