sábado, 13 de junho de 2026

Setas para Lugar Nenhum: livro de Anibal Tosetto ganha edição atualizada

Setas para Lugar Nenhum: livro de Anibal Tosetto.
Setas para Lugar Nenhum: livro de Anibal Tosetto.

Setas para Lugar Nenhum — Histórias de uma República Surreal Anibal Hercules Tosetto | 4ª Edição | 184 páginas | 2026 

Em tempos de polarização, desorientação e descrença institucional, poucos exercícios são tão necessários quanto o de um cidadão que reflete, olha para trás e registra o que viu. É isso que Anibal Hercules Tosetto faz em Setas para Lugar Nenhum — Histórias de uma República Surreal, obra de não ficção crítica que reuniu décadas de observação atenta sobre a política brasileira.

O título é uma metáfora: as setas que deveriam orientar uma nação — suas instituições, seus líderes, seus valores — frequentemente apontam para direções equivocadas, desviam-se por conveniências e interesses, ou simplesmente não conduzem a lugar algum. O subtítulo acrescenta um tom de ironia e espanto diante de tantos episódios que, embora reais, parecem arrancados da ficção.

Tosetto, após décadas de atuação profissional e marcado por um episódio trágico, decidiu pela aposentadoria e passou a escrever como um cidadão que escolheu não calar. A obra é dedicada ao leitor que "reflete sobre as consequências dos atos políticos na vida do cidadão que age com integridade" — uma dedicatória que já anuncia o público-alvo e o espírito da obra.

O livro organiza-se em seis capítulos, um prefácio e um epílogo, compondo um arco que vai do íntimo ao coletivo. O primeiro capítulo narra a trajetória pessoal do autor, desde a infância vivida em Caçapava (SP) até os anos de trabalho em refinaria de petróleo e na área química, e a aposentadoria antecipada após uma tragédia familiar em 1997 — um acidente rodoviário que vitimou quatro entes familiares. É a partir desse acontecimento, entre dor e luto, que o olhar do autor se alarga e reaviva a consciência cívica: a corrupção e a negligência do Estado passam a ser vistas como causa concreta de mortes, violência e infortúnios à sociedade.

O segundo capítulo adota uma estrutura diferente do restante da obra. Diante de um cenário político em que a mentira contemporânea passa a operar como tecnologia de mobilização emocional — usada para fragmentar a percepção da realidade comum —, o texto recorre a formatos variados. O capítulo reúne textos breves, prosas poéticas, narrativas satíricas e acrósticos. Esses recursos literários, especialmente os acrósticos, funcionam como um exercício de busca por ordem e sentido em meio ao ruído e à exaustão cognitiva do debate público atual. O humor atua como ferramenta de análise e o surrealismo surge como o próprio reflexo do cotidiano político nacional.

Os capítulos seguintes percorrem os governos lulopetistas (2003–2018), o governo Bolsonaro (2019–2022) e o terceiro mandato de Lula, a partir de comentários registrados ao longo dos anos em blogs e fóruns — espaços que testemunharam a transição da política tradicional para a era da pós-verdade e do engajamento de redes. O autor cunhou o termo Lulonarismo para designar a dinâmica atual: a fusão do lulismo, do bolsonarismo e do Centrão, que, segundo ele, tornou o governo Lula um coadjuvante no próprio Executivo.

O capítulo final, o mais analítico, traça um panorama histórico da República desde 1889 e convoca o leitor à participação ativa, ao voto consciente e à vigilância permanente das instituições. O epílogo fecha a obra com um apelo à reconstrução: "Lugar Nenhum não pode ser o destino de uma nação. O caminho precisa ser reconstruído e as setas sinalizadoras devem ser, enfim, confiáveis."

A obra é livre de amarras. Tosetto não se prende a um único gênero: escreve prosa política, memória pessoal, sátira, crônica e poesia. A linguagem é acessível, dando atenção a referências históricas necessárias. O autor não escreve para iniciados, mas para o cidadão comum que acompanha os noticiários e se pergunta como chegamos até aqui.

Quatro eixos temáticos estruturam a argumentação: a corrupção como engrenagem estrutural que atravessa governos; o populismo — tanto o lulismo quanto o bolsonarismo — como uma armadilha psicológica que explora inseguranças profundas, oferecendo narrativas confortáveis em vez de análises complexas; a cidadania ativa como único antídoto real contra o autoritarismo; e a memória como instrumento político indispensável, pois ignorar as lições do passado é condenar-se a repeti-lo.

Publicado em sua 4ª edição em maio de 2026, às vésperas de um novo ciclo eleitoral, Setas para Lugar Nenhum chega em momento oportuno. Não é um livro acadêmico, mas tampouco é panfletário: é o testemunho de um cidadão que observou, registrou e refletiu com seriedade ao longo de décadas. Sua principal virtude é a honestidade intelectual — Tosetto critica Lula e Bolsonaro, o PT e o Centrão, a esquerda e a direita, sem concessões tribais. Seu norte não é partidário, mas ético: a integridade, a competência e a democracia como valores inegociáveis. Para o leitor que deseja compreender o Brasil contemporâneo a partir de uma perspectiva cidadã — sem narrativas prontas, mas com fatos, contexto e reflexão —, Setas para Lugar Nenhum é uma leitura valiosa.

Resenha elaborada com base na leitura integral da 4ª edição, publicada em 16 de maio de 2026.

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