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| Setas para Lugar Nenhum: livro de Anibal Tosetto. |
Setas para Lugar Nenhum — Histórias de uma República Surreal Anibal Hercules Tosetto | 4ª Edição | 184 páginas | 2026
Em tempos de polarização,
desorientação e descrença institucional, poucos exercícios são tão necessários
quanto o de um cidadão que reflete, olha para trás e registra o que viu. É isso que Anibal Hercules Tosetto faz em Setas para Lugar Nenhum —
Histórias de uma República Surreal, obra de não ficção crítica que reuniu
décadas de observação atenta sobre a política brasileira.
O título é uma metáfora:
as setas que deveriam orientar uma nação — suas instituições, seus líderes,
seus valores — frequentemente apontam para direções equivocadas, desviam-se por
conveniências e interesses, ou simplesmente não conduzem a lugar algum. O
subtítulo acrescenta um tom de ironia e espanto diante de tantos episódios que,
embora reais, parecem arrancados da ficção.
Tosetto, após décadas de atuação
profissional e marcado por um episódio trágico, decidiu pela aposentadoria e
passou a escrever como um cidadão que escolheu não calar. A obra é dedicada ao
leitor que "reflete sobre as consequências dos atos políticos na vida
do cidadão que age com integridade" — uma dedicatória que já anuncia o
público-alvo e o espírito da obra.
O livro organiza-se em seis
capítulos, um prefácio e um epílogo, compondo um arco que vai do íntimo ao
coletivo. O primeiro capítulo narra a trajetória pessoal do autor, desde a
infância vivida em Caçapava (SP) até os anos de trabalho em refinaria de petróleo
e na área química, e a aposentadoria antecipada após uma tragédia familiar em
1997 — um acidente rodoviário que vitimou quatro entes familiares. É a partir
desse acontecimento, entre dor e luto, que o olhar do autor se alarga e
reaviva a consciência cívica: a corrupção e a negligência do Estado passam a
ser vistas como causa concreta de mortes,
violência e infortúnios à sociedade.
O segundo capítulo adota uma
estrutura diferente do restante da obra. Diante de um cenário político em que a
mentira contemporânea passa a operar como tecnologia de mobilização emocional — usada para fragmentar a percepção da
realidade comum —, o texto recorre a formatos variados. O capítulo reúne textos
breves, prosas poéticas, narrativas satíricas e acrósticos. Esses recursos
literários, especialmente os acrósticos, funcionam como um exercício de busca
por ordem e sentido em meio ao ruído e à exaustão cognitiva do debate público
atual. O humor atua como ferramenta de análise e o surrealismo surge como o
próprio reflexo do cotidiano político nacional.
Os capítulos seguintes percorrem
os governos lulopetistas (2003–2018), o governo Bolsonaro (2019–2022) e o
terceiro mandato de Lula, a partir de comentários registrados ao longo dos anos
em blogs e fóruns — espaços que testemunharam a transição da política
tradicional para a era da pós-verdade e do engajamento de redes. O autor cunhou
o termo Lulonarismo para designar a dinâmica atual: a fusão do lulismo,
do bolsonarismo e do Centrão, que, segundo ele, tornou o governo Lula um
coadjuvante no próprio Executivo.
O capítulo final, o mais
analítico, traça um panorama histórico da República desde 1889 e convoca o
leitor à participação ativa, ao voto consciente e à vigilância permanente das
instituições. O epílogo fecha a obra com um apelo à reconstrução: "Lugar
Nenhum não pode ser o destino de uma nação. O caminho precisa ser reconstruído
e as setas sinalizadoras devem ser, enfim, confiáveis."
A obra é livre de
amarras. Tosetto não se prende a um único gênero: escreve prosa política,
memória pessoal, sátira, crônica e poesia. A linguagem é acessível, dando
atenção a referências históricas necessárias. O autor não escreve para iniciados,
mas para o cidadão comum que acompanha os noticiários e se pergunta como
chegamos até aqui.
Quatro eixos temáticos estruturam
a argumentação: a corrupção como engrenagem estrutural que atravessa governos;
o populismo — tanto o lulismo quanto o bolsonarismo — como uma armadilha
psicológica que explora inseguranças profundas, oferecendo narrativas
confortáveis em vez de análises complexas; a cidadania ativa como único
antídoto real contra o autoritarismo; e a memória como instrumento político
indispensável, pois ignorar as lições do passado é condenar-se a repeti-lo.
Publicado em sua 4ª edição em maio de 2026, às vésperas de um novo ciclo eleitoral, Setas para Lugar Nenhum chega em momento oportuno. Não é um livro acadêmico, mas tampouco é panfletário: é o testemunho de um cidadão que observou, registrou e refletiu com seriedade ao longo de décadas. Sua principal virtude é a honestidade intelectual — Tosetto critica Lula e Bolsonaro, o PT e o Centrão, a esquerda e a direita, sem concessões tribais. Seu norte não é partidário, mas ético: a integridade, a competência e a democracia como valores inegociáveis. Para o leitor que deseja compreender o Brasil contemporâneo a partir de uma perspectiva cidadã — sem narrativas prontas, mas com fatos, contexto e reflexão —, Setas para Lugar Nenhum é uma leitura valiosa.
Resenha elaborada com base na
leitura integral da 4ª edição, publicada em 16 de maio de 2026.
Veja também:
Setas Para Lugar Nenhum: a primeira edição

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