sábado, 14 de março de 2020

Nada de novo no formigueiro

“The Ant and the Grasshopper" (1919), ilustração de Milo Winter (1886-1956) pertencente ao acervo do Projeto Gutenberg.
“The Ant and the Grasshopper" (1919), ilustração de Milo Winter (1886-1956) pertencente ao acervo do Projeto Gutenberg.

A linha reta não existe no universo físico, apenas na teoria. A linha reta é um conceito abstrato. Quando ocorre um Circuit Breaker, fica evidente que a renda variável “varia” e que um patrimônio construído sobre estas bases não sobe em linha reta, mas sobe.

Estamos em março de 2020. A Bolsa de São Paulo conta com centenas de milhares de investidores novatos, que estão experimentando os reflexos do primeiro Circuit Breaker de suas jornadas no mercado de capitais. No dia 9, o Ibovespa caiu cerca de 12%: a maior queda em um único dia de todo o século 21. Não é pouca coisa.

O mercado vinha em alta prolongada, mas começou a inverter sua curva com as primeiras notícias do Coronavírus, em sua versão Covid-19, surgida na China. Logo a doença se espalhou por todos os continentes, forçando países a adotarem quarentenas, reduzindo deslocamentos de pessoas e mercadorias.

Quando o componente do petróleo entrou na equação, devido à queda na demanda, Arábia Saudita e Rússia não se entenderam sobre o protocolo a ser seguido para evitar a volatilidade no preço do barril. As Bolsas ao redor do mundo reagiram mal. A Bolsa de São Paulo sofreu mais, assim como o Real, moeda que mais se desvalorizou frente ao Dólar.

Contextos diversos


O último Circuit Breaker que a Bolsa do Brasil havia sofrido foi em 17 de maio de 2017, data que ficou conhecida como “Joesley Day”, devido ao vazamento de conversas pouco republicanas entre o empresário Joesley Batista e o Presidente Michel Temer, que sepultou, na ocasião, o andamento da Reforma da Previdência.

O Circuit Breaker é um dispositivo que as Bolsas usam para interromper pregões eletrônicos sujeitos a volatilidades exageradas, sendo acionado geralmente para conter quedas abruptas.

Se o Circuit Breaker de 2017 teve repercussão limitada ao mercado brasileiro, em função de uma notícia política local que logo foi absorvida – as ações se recuperaram logo; o primeiro Circuit Breaker de 2020 está relacionado a uma conjuntura internacional e provavelmente terá consequências mais duradouras, como pudemos verificar com as demais interrupções das negociações na B3 ao longo da semana decorrente.

O que fazer?


Tenho recebido perguntas a respeito deste momento de turbulência na B3. Em geral, meus contatos querem saber o que fazer. Que ações comprar? O que mudou?

Não mudou nada. Não para quem é adepto do Value Investing e do Buy and Hold: investimento em valor focado no longo prazo. Quem adota estas premissas para comprar renda passiva tem mais é que comemorar.

Investidores que aportam em ativos geradores de renda passiva torcem para que as ações de boas empresas e das cotas de bons fundos imobiliários estejam com preços descontados, para que o Dividend Yield seja mais alto. Sempre é bom lembrar: o Dividend Yield é a relação entre o preço pago por uma ação (ou cota) e o seu retorno nos últimos doze meses, em forma de dividendos.

O exemplo da formiga


Quem investe pensando nos dividendos age como uma formiga: passa o verão coletando alimentos no entorno, para poder consumi-los no conforto do formigueiro, quando o inverno chegar. Por isso, as estratégias relacionadas aos dividendos geram carteiras previdenciárias de investimentos.

Você já observou o funcionamento de um formigueiro durante o verão? Em algumas horas do dia é possível ver filas de formigas, vindas de diversas direções, carregando pedaços de folhas verdes, grãos de arroz, asas de insetos e todo tipo de alimento que elas apreciam.

Vamos além: você já cometeu a maldade de cutucar a borda de acesso de um formigueiro com um graveto, esparramando um pouco da terra disposta em forma de vulcão? Que criança curiosa nunca fez isso?

Neste instante, as formigas entram em alvoroço. Elas parecem ficar desorientadas. Enquanto umas tentam atacar o inimigo (experimente colocar seu dedo indicador no meio da bagunça), outras correm para dentro do formigueiro. Porém, nenhuma formiga se afasta até um canto para se lamuriar.

Em questão de minutos lá estão as formigas retomando sua rotina. Enquanto algumas recompõem a borda de acesso do formigueiro, outras saem para a coleta de alimentos e outras chegam com restos de comida nas costas. Elas não sabem fazer outra coisa. Por não ter espaço para sentir emoções em seus diminutos cérebros, elas seguem apenas seus instintos. As formigas fazem apenas o que foram programadas para fazer.

Menos emoções, mais rendimentos


Nós, investidores de longo prazo, que compramos dividendos para ter um inverno mais confortável, temos que ter humildade para aprender com as formigas. Se a gente colocar as emoções na receita para lidar com a renda variável, não seremos bem-sucedidos.

Como afirmei no livro “Cultivando Rendimentos”, disponível na Amazon (https://amzn.to/2W4eVxN), "dominar as emoções para reagir com sabedoria aos momentos imprevistos e instáveis do mercado financeiro: eis o que ninguém pode ensinar, mas que todo investidor deve aprender."

Então, qual é a nossa programação? Vamos repetir: selecionar boas empresas e bons fundos imobiliários que paguem bons rendimentos com regularidade e comprar estes ativos com desconto, sempre que possível, para reforçar nossas carteiras previdenciárias. Deixemos as emoções para outros aspectos da vida.

Promoção não é liquidação


Um Circuit Breaker causa uma grande promoção na Bolsa de Valores, mas nunca uma liquidação. Os bons ativos não vão quebrar: vão apenas ficar mais baratos. Oba!

Uma empresa ruim não vai ficar boa por causa desse alvoroço. Não adianta perguntar o que muda depois de um evento agudo de crise. Não é hora de comprar ações de uma empresa ruim por que ela ficou mais barata, mas é hora de comprar ações de empresas boas, pelo mesmo motivo. Lógica semelhante se aplica aos fundos imobiliários.

As carteiras da Suno estão repletas de ótimos ativos para compor sua carteira previdenciária, com resiliência para enfrentar as piores tormentas. Já fez a sua assinatura?



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