sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Não force a barra para falar de investimentos

Cartão postal mostra a Catedral de São Basílio na Praça Vermelha de Moscou em 1917, antes da Revolução Russa. Imagem de domínio público.
Cartão postal mostra a Catedral de São Basílio na Praça Vermelha de Moscou em 1917, antes da Revolução Russa.

Por Jean Tosetto *

Talvez você já tenha passado por isso numa turma onde nem todos são realmente achegados. Aquela pessoa com quem você nunca conversou para valer subitamente engata um papo e logo você percebe que ela é uma grande entusiasta daquele shake emagrecedor.

Então descobre que ela deseja te vender um pote do shake. Em seguida percebe que a mesma mais consome do que vende o produto, para então concluir que ela faz parte de um esquema de marketing parecido com uma pirâmide de consumidores, travestida de rede de revendedores.

Com um pouco de jogo de cintura você se afasta da roda e, no próximo evento social, você evita qualquer aproximação, não por causa do shake, que você nunca saberá se é eficiente de verdade, mas por causa da abordagem irritante feita sobre este produto.

Viajar de ônibus ou trem também nos coloca em algumas saias curtas, especialmente quando alguém ao lado pergunta a sua religião. De cara é melhor responder que você acredita em alguma coisa, mas com certeza a religião do interlocutor daquele diálogo forçado será melhor, ao menos na sua visão.

Então ele começa a falar dos dogmas, dos costumes, das tradições, dos ritos e te convida para conhecer a sua comunidade. A intenção dele é boa: ele quer salvar a sua alma. Ele realmente acredita que está fazendo uma boa ação. Mas, para você, ele está sendo um cara inconveniente.

A sorte dele é que estamos num país laico, com liberdade de expressão e de religião. Em algumas partes do mundo, ainda hoje tem gente que morre só pelo fato de declarar uma fé que não seja reconhecida pela religião oficial daquele Estado.

Durante os anos de chumbo da antiga União Soviética, a prática religiosa era totalmente proibida. Líderes religiosos eram enviados para a Sibéria, sem passagem de volta. Mas os ortodoxos resistiram, encontrando formas de se reunir secretamente, sem cair nas garras dos alcaguetes do governo, infiltrados em cada quarteirão.

Os primeiros cristãos também eram perseguidos por toda a Judeia, antes das seitas primitivas chegarem às catacumbas de Roma. A tradição afirma que um cristão reconhecia outro através de desenhos na areia. Um fazia a silhueta simplificada de um peixe, esperando que o outro espelhasse o símbolo.

Neste ponto você pode indagar: “Não estou aqui para ler sobre religião. Quero saber sobre investimentos!”

Calma. As suas crenças – ou a ausência delas – não estão em questão. Se há uma coisa que respeito é a escolha individual do outro. Por isso mesmo escrevo este artigo.

Nem sempre fui adepto de investir em renda variável. Alias, passei boa parte da minha carreira investindo no mercado imobiliário e em produtos de renda fixa. A baixa no ciclo da construção civil me fez acordar para uma nova realidade.

Ciente de que a recuperação da economia brasileira seria lenta, passei a considerar o mercado de capitais com mais atenção.

Cometi alguns erros de principiante, que não estão em voga no momento. Mais importante é relatar que fui migrando meus recursos, aos poucos, para os investimentos em renda variável, a ponto de equilibrar a minha carteira, com previsão de reforçar os aportes nos ativos financeiros disponíveis na bolsa de valores.

Antes arredio e conservador, mas acima de tudo reacionário a qualquer abordagem relacionada com ações de empresas e cotas de fundos imobiliários, paulatinamente fui me interessando por todo esse mecanismo de geração de renda passiva, a ponto de me apaixonar literalmente pelo assunto.

Entusiasmado, comecei a ler um livro atrás do outro.

Bastaram os primeiros dividendos pingarem na minha conta que o deslumbramento com o mercado de capitais assumiu as rédeas dos meus interesses.

Numa manhã de mormaço estava levando duas tias para um compromisso em São Paulo. Passando pelo cruzamento da Rodovia dos Bandeirantes com a Anhanguera, em Jundiaí, apontei para a fábrica da Klabin, na esquina mais estratégica da América do Sul, e disse:

- Sou sócio dessa empresa.

- Como assim? – Elas não entenderam nada.

- É que comprei ações da Klabin na bolsa de valores.

Elas continuaram boiando. Uma olhou para outra e só faltaram rodar o dedo em torno da orelha. De nada adiantou tentar explicar como funcionava o mercado financeiro.

Na noite de Natal presenteei minha irmã:

- Comprei essa blusa da Hering com os dividendos da Hering. He-he...

- Minha Nossa, Jean. Você agora só fala da bolsa. Até no Natal?

Isso foi a melhor coisa que minha irmã falou para mim em tempos. Logicamente não gostei de ouvir aquilo, mas ela tinha razão. Repentinamente me vi como aquela pessoa tentando vender o tal shake emagrecedor, ou quem sabe tentando salvar a alma do próximo.

Passei a me policiar, desde então, para não expor minha afinidade com a geração de renda passiva. As pessoas do meu círculo social, na maioria das vezes, não querem saber de planos para a independência financeira, investimentos em ações e fundos imobiliários. É um assunto chato. Eu também pensava assim.

Poucos dias se passaram e fomos convidados para uma festa de aniversário num buffet infantil. Fui até o balcão pegar um guaraná e o primo da minha esposa estava lá. Pensei comigo mesmo: “Falo de futebol, reclamo dos políticos ou da crise?”

Resolvi desenhar um cifrão na areia:

- E aí Marcelo, o que tem feito para se proteger da crise?

- Tenho comprado algumas ações.

- Sério?

Não preciso dizer que foi uma longa, agradável e produtiva conversa. Trocamos impressões sobre métodos de análise, empresas que estavam em nosso radar, livros que estávamos lendo, gente que estávamos seguindo na Internet.

Desde então temos contatos frequentes. Os pontos de vista diferentes, baseados nas origens e ofícios de cada um, ajudam a tecer um cenário mais completo. Esse tipo de interação é muito válido entre os investidores e faz parte da rotina de muita gente, inclusive dos mais bem-sucedidos e experientes.

Quando você resolve estudar o mercado financeiro, são várias as lições que aprende. Entre elas que você faz parte de um grupo muito pequeno de pessoas, ao menos no Brasil. Somos quase uma seita clandestina, embora tolerada oficialmente.

Lembremos que na União Soviética nós também seríamos enviados para a Sibéria – o que seria surreal numa nação que preservou templos inclusive na Praça Vermelha de Moscou, mas que fechou completamente o mercado por décadas, em todos os sentidos.

Às vezes você quer emagrecer, então vai procurar uma dieta adequada. Pode ser até baseada naquele shake. Pode ser ainda que você esteja se sentindo vazio ou triste, necessitando de um apoio espiritual ou psicológico. Uma conversa com um amigo será bem vinda.

Com educação financeira ocorre algo semelhante: é o indivíduo que tem que procurar por informações, a partir de suas necessidades. Não funciona quando alguém tenta nos empurrar algo que naquele momento não faz sentido para nós, por melhores que sejam as intenções de todos.

Se você conhece alguém pensando em investir em renda variável, não seja incisivo, mas não deixe de falar do caminho da luz. Conte sobre uma casa independente de pesquisas em investimentos onde não existe imposição de doutrinas ou táticas de marketing piramidal. Esta casa é a Suno Research.

* Publicado originalmente no grupo da Suno Research no Facebook em 06 de dezembro de 2017. Jean Tosetto é coautor do Guia Suno Dividendos, livro escrito em parceria com Tiago Reis e lançado em 08 de dezembro de 2017.


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