segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Toninho do PT: onde está a Comissão Nacional da Verdade para você?

Monumento ao prefeito de Campinas Toninho do PT, assassinado na Avenida Mackenzie em 10 de setembro de 2001.
Monumento ao prefeito de Campinas Toninho do PT, assassinado na Avenida Mackenzie em 10 de setembro de 2001.

Nunca fui petista, mas teria votado no Toninho do PT na eleição para prefeito de Campinas no ano 2000, se tivesse domicílio eleitoral naquela cidade. A razão para tanto é muito simples: eu o conhecia pessoalmente. Fui seu aluno na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da PUC. Fui testemunha de seu idealismo político e de seu compromisso com Campinas.

Não ouvi dizer sobre sua honestidade: eu presenciei provas dela inúmeras vezes. O arquiteto, urbanista e professor Toninho recrutava alunos da faculdade para trabalhos voluntários nos fins de semana. Sua equipe engajada fazia levantamentos arquitetônicos nas residências da periferia da grande cidade para que a regularização dos imóveis fosse feita na prefeitura. Comunidades carentes eram beneficiadas com sua iniciativa.

Para ser candidato ao cargo de prefeito de Campinas, ele teve que vencer opositores dentro de seu partido. Ele mesmo conduzia o programa eleitoral gratuito na rádio e TV, falando diretamente com os eleitores da mesma maneira como se dirigia aos seus alunos. Seu desempenho nos debates foi decisivo para o sucesso de sua campanha, que tinha como um de seus símbolos justamente uma pipa. A pipa que foi parar no monumento em sua homenagem.

Vale contextualizar o período. No começo do século 21, o PT era um partido promissor e associado à promessa de valores éticos na política. Lula ainda não havia sido eleito presidente da República e o PT não havia sido protagonista dos escândalos do Mensalão e do Petrolão. Mas o ovo da serpente com o modus operandi da corrupção estava eclodindo em cidades que já eram governadas pelo partido.

Cidades importantes do estado de São Paulo tiveram prefeitos petistas naquele período, como Ribeirão Preto, Santo André e Campinas. Dessas três cidades, apenas Antonio Palocci está vivo para contar a história, preso e protegido numa cadeia, negociando delações premiadas na Operação Lava Jato.

Celso Daniel, prefeito de Santo André, foi torturado antes de ser morto em 18 de janeiro de 2002. Várias testemunhas do inquérito instaurado para investigar o homicídio também faleceram desde então. Uma tese defende que ele sabia de práticas corruptas na prefeitura de sua cidade e teria se colocado contra o desvio de recursos por parte de integrantes do esquema.

O Toninho do PT, prefeito de Campinas, foi assassinado antes, em 10 de setembro de 2001. A notícia de sua morte foi eclipsada na grande mídia, pois no dia seguinte ocorreu o maior atentado terrorista da história ocidental, com a derrubada das torres gêmeas de Nova York por aviões sequestrados por fanáticos religiosos.

A quadrilha do sequestrador Andinho foi relacionada com o crime e dela apenas o chefe permanece vivo, num presídio de segurança máxima - os demais foram mortos em ações policiais. Quase vinte anos depois da morte do Toninho, sua morte permanece sem solução. O inquérito é inconclusivo, embora a família de Toninho acredite piamente na tese de crime político. Ao que parece, Toninho era um homem que sabia demais e, de acordo com indícios, sua morte foi conveniente para agentes corruptos.

O Brasil já viveu sob uma ditadura militar e, anos depois de seu encerramento, uma Comissão Nacional da Verdade foi criada para investigar e propor punições para crimes políticos praticados naquele período tenebroso. Após três décadas de redemocratização do país, está na hora de uma nova Comissão Nacional da Verdade ser criada, desta vez para trazer luz sobre crimes considerados comuns para poucos e atentados políticos para muitos.

O que pessoalmente não compreendo é como a versão oficial destes poucos ainda está prevalecendo.

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