terça-feira, 2 de janeiro de 2018

A lasanha com camadas de lembranças

A menina brinca com o pai fazendo lasanha.
A menina brinca com o pai fazendo lasanha.

Chega o fim da ano e a gente começa a remexer nas gavetas, para jogar fora os papéis velhos deixando espaço para novas contas e boletos de pagamento. No meio das camadas de documentos surge um livro de bolso com receitas da cozinha mediterrânea.

- Taí: em 2018 vou aprender a cozinhar! - Prometo para minha esposa.

Montar pizzas ou fazer macarrão e ovo no forno de microondas não valem para o currículo de um mestre cuca. Ter cozinhado feijão e arroz para o meu pai, por uma semana, há não sei quantos anos (quando minha mãe viajou com as irmãs para um casamento na roça), também não.

Era a última manhã de 2017. Então me ocorreu: "Não preciso esperar o ano que vem para começar a cozinhar. Farei isso ainda neste ano."

Folheei o livreto e encontrei uma receita relativamente fácil de fazer: a Lasanha Voadora.

Decorei os ingredientes e fui para o supermercado, pensando que ele estaria vazio. Ledo engano. O estacionamento estava lotado. Parece que todo mundo deixou para comprar a ceia de fim de ano na última hora.

Vou para o açougue e procuro por bandejas de peito de frango, que depois preciso cortar ao meio para deixá-los na forma de bifes a serem batidos com um martelo de madeira.

Empurrando o carrinho, vejo o fotógrafo com quem brincava na infância, na rua da casa da minha avó, ironicamente na mesma rua daquele mercado:

- Há quanto tempo, hein? Como está seu pai?

- Ele morreu já tem uns dois anos.

- Me desculpe. Não fiquei sabendo. Meus pêsames.

Ele compreendeu. Disse que sentia saudades do meu irmão, quando lhe interrompi:

- Você sabe que ainda me perguntam dele? As vezes me nego a dizer que ele morreu. Uma vez contei que ele tinha ido para a Estância de São Pedro. O sujeito afirmou não conhecer aquela cidade e perguntou se era longe. Respondi que era bem longe.

- Ele está num lugar melhor agora.

- Talvez seu pai esteja tentando ensinar ele a jogar beisebol. Vamos ver se agora ele aprende!

A família do fotógrafo sempre jogou beisebol. Teve gente que acabou até na seleção brasileira.

No setor de frios, separei as bandejas de presunto e queijo. O queijo parmesão, para ralar em pedaços grandes, é caro pra Dedéu. Engraçado que o Dedéu nunca paga pelas coisas, então ele não deveria achar nada caro.

O despachante que cuidava do licenciamento do meu carro surgiu na esquina dos espumantes, que não fazem parte da receita da lasanha, mas são obrigatórios durante o foguetório da passagem de ano.

- Tudo bem? Ouvir dizer que você não é mais despachante.

- Isso já tem uns oito anos, Jean. Agora sou eletricista. Inclusive precisava te procurar. Você é engenheiro, né?

- Não. Eu sou arquiteto. Mas está aqui o meu cartão. Vamos manter contato.

Depois que informatizaram o sistema de licenciamento anual dos automóveis, muitos despachantes perderam receita. Ele se reinventou em outra área. Isso nos diz muita coisa: se reinventar num mundo onde as profissões são tão líquidas quanto os espumantes.

Na seção de hortifrútis escolho as folhas de espinafre, as batatas a serem cortadas em rodelas finas com cascas, os tomates italianos e as cebolas.

A moça do banco, que me atende no caixa da prefeitura, onde faço o protocolo dos meus projetos, me avista:

- Oi Jean! Preciso de uma indicação sua: você conhece um bom fornecedor de esquadrias de alumínio?

Espera aí, ela não fez o projeto comigo, mas quer uma recomendação? Sem problemas. Eu faço, mas com todas as ressalvas. As vezes o outro pisa no tomate e a polpa respinga na gente.

Falta providenciar os limões e a pimenta calabresa, para temperar os bifes de frango. Vejo uma senhora meio de lado. Será que ela era a minha professora da quinta série? Putz, lá se vão trinta anos.

Ela olhou para mim com o mesmo sentimento:

- Eu tenho muito orgulho de ter sido sua professora!

E me abraçou.

- Se eu fosse presidente do Brasil, mandava triplicar os salários das professoras, só para começar!

O corretor de imóveis aposentado, de quem não lembro o nome, sorriu diante de nós.

Faltava pagar a conta.

A caixa passava os ingredientes para o empacotador enquanto eu me indagava: "Caramba, sempre venho nesse mercado e nunca vejo ninguém conhecido. Hoje o pessoal antigo da cidade resolveu fazer compras".

Se pudesse, continuaria caminhando entre aquelas gôndolas, encontrando mais gente querida. Mas a receita da lasanha já estava completa.

Saboreei ela antes mesmo de levá-la ao forno.

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2 comentários:

  1. Custódio Saraiva02/01/2018 10:55

    Confesso, amigo,que ao final da leitura já estava com "água na boca".A degustação da lasanha fica para outra ocasião!!!!
    Grande abraço!!
    E que um dia,alguém remexendo velhos papéis na véspera de um novo ano possa encontrar a receita da paz entre os homens!!!!

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    1. Caro Custódio, deixa eu ficar bom nesse negócio de lasanha. Enquanto isso, vou desatando uns nós por aqui. Um dia vamos almoçar juntos, com nossas famílias. Sem agenda, combinado?

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