terça-feira, 7 de agosto de 2018

A irmandade que não envelheceu

Os irmãos Grimm retratados por Elisabeth Jerichau-Baumann em 1855.
Os irmãos Grimm retratados por Elisabeth Jerichau-Baumann em 1855.

Quando eu era garoto recebia pares de sapato e roupas de meu irmão mais velho. Ele crescia e eu também. O que não servia mais para ele ia parar na minha gaveta. A sola do calçado vinha pré-moldada e ia se adaptando às plantas dos meus pés. As blusas e camisas tinham um perfume típico que não era artificial, mas remetiam à presença do meu irmão.

Quando a adolescência chegou, fui ficando mais alto que ele e, ao invés de receber suas roupas, a gente compartilhava as peças.

Meu irmão sempre foi carismático e namorador. As meninas gostavam dele e em qualquer festa ele se tornava o centro das atenções. Contava piadas. Ria de um jeito contagiante. Tinha um brilho no olhar.

Quando eu queria ter mais chances numa paquera, pedia conselhos para ele e sua blusa azul marinho de gola fechada. Eu vestia aquela blusa e me sentia mais confiante. Sabia que naquele sábado de noite as coisas dariam certo, mesmo com a minha timidez.

Um dia meu irmão se foi e tivemos que dar suas coisas embora. Separei algumas lembranças para mim. Fiquei com seus discos de vinil do Kiko Zambianchi, da Rita Lee, do Lobão e os Ronaldos, do U2, do Twisted Sister. Fiquei com sua gravata e com um casaco cinza mesclado com botões de pressão.

O casaco fica lá, pendurado no canto do armário. Minha esposa já perguntou se pode doar ele, mas não deixo, mesmo sem usá-lo. Não quero que o perfume do meu irmão se perca, mesmo depois de tantos anos.

Queria saber como é dividir algo com um irmão enquanto envelhecemos. Ir juntos ao estádio para torcer pelo Palmeiras. Combinar um churrasco numa terça-feira de noite sem nada especial para comemorar. Reclamar dos políticos. Ajudar a consertar a maçaneta da porta do carro. Subir no forro da casa para trocar o registro da caixa d'água. Segurar a escada para ele limpar a calha do telhado.

Essas coisas bobas a gente nunca mais vai fazer. Por isso, as vezes me pego lembrando dele fazendo coisas bobas, como hoje, quando ele estaria fazendo 45 anos. Hoje seria uma boa terça-feira para fazer um churrasco, ou uma pizza.

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