segunda-feira, 6 de março de 2017

Fazer cortesia com os livros dos outros custa caro para todos

Poltrona e puff junto de prateleiras: mobiliário comum nas grandes livrarias.
Poltrona e puff junto de prateleiras: mobiliário comum nas grandes livrarias.

Antigamente você queria adquirir um livro, ia até uma livraria de rua, comprava o que tinha em mente e ponto final. Então, as grandes livrarias resolveram inovar o negócio, alugando grandes espaços nos Shoppings, oferecendo também revistas, jornais, CDs, DVDs, jogos, câmeras fotográficas, celulares, brinquedos, artigos de papelaria e café - essa bebida que atrai muita gente que teoricamente compra livros esbarrando neles no caminho do caixa.

Você já reparou nas mordomias que te oferecem nas grandes livrarias? Sempre tem alguma poltrona de design refinado ao seu dispor, com um puff fashion para descansar os pés enquanto se folheia algum livro de arte caríssimo. Você pode ficar duas horas ali que ninguém vai te incomodar. A leitura de cortesia é incentivada nestas grandes lojas pois, segundo seus gestores, isto forma novos adeptos de livros - futuros clientes cativos.

Seria uma ótima ideia se não fosse por um detalhe: os livros que a livraria deixa você ler de graça não são dela, são consignados com as editoras. Para entender melhor: as livrarias recebem os livros das editoras e pagam as mesmas somente após a venda dos exemplares, com atraso mínimo de um mês. Estoque zero e risco diminuído, pois tais livrarias não se responsabilizam por exemplares danificados. Fica por conta da editora fazer a troca sempre que necessário.

Se eventualmente você deixar cair café naquele livro de viagem, ou espirrar no tratado de filosofia, ou ainda, sem querer, rasgar uma página do romance do momento e, quem sabe, deixar cair no chão aquele manual de jardinagem com capa dura, ninguém vai te dar um bronca. O livro será separado junto com outros exemplares sem condição de venda, que serão devolvidos para as editoras, com a logística por conta delas.

Agora vem o dado mais desanimador para quem escreve e edita um livro: as grandes livrarias exigem descontos de 40 a 50% no preço de capa para aceitar os exemplares em consignação. É pegar ou largar. Ou seja, se um livro tem preço de capa arbitrado em R$ 100,00, a livraria, somente após vender o exemplar, vai reembolsar a editora em R$ 50,00 ou no máximo em R$ 60,00. A editora que se vire com todo o custo de edição, revisão, diagramação, gráfica e remessa de exemplares.

Tal prática nociva contaminou as pequenas livrarias, que também estão trabalhando com livros em consignação, sem que isso deixe o livro mais barato para o comprador e prejudicando em última instância os autores, que recebem cada vez menos pelos direitos autorais das editoras, pressionadas por condições adversas.

Vender livros no Brasil parece ser um ótimo negócio para as grandes livrarias e, de fato, foi por muitos anos. Mas a crise chegou, os preços dos livros não acompanharam a inflação e mesmo assim as vendas estão diminuindo ano após ano. O consumidor, sempre muito paparicado, continua frequentando as livrarias, folheando livros e bebendo café gourmet, mas não está levando livros para casa - quando se interessa por algo, realiza a compra pela Internet, com desconto e frete incluso.

O caminho para autores independentes, e mesmo grandes editoras, está em vender diretamente para o consumidor final, através de lojas virtuais e parceiros focados no segmento, como a Amazon. Esta, inclusive, incentiva autores independentes a vender livros no formato eletrônico, ao passo que valoriza as editoras na distribuição de livros físicos, pagando antecipadamente pelos exemplares.

Enquanto isso, a francesa Fnac procura um parceiro para manter sua operação no Brasil, e a Saraiva ensaia a compra da Livraria Cultura - com dinheiro sabe-se lá de quem - para reordenar o tradicional negócio de vender livros, enxugando os pontos de venda e protelando ainda mais os repasses para as editoras.

De nossa parte, estamos com dois livros disponíveis em vivalendo.com: "MP Lafer: a recriação de um ícone" e "Arquiteto 1.0 - Um manual para o profissional recém-formado". É deste modo que estamos viabilizando nossa oferta de conteúdo, aguardando por dias melhores para toda a cadeia literária.

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2 comentários:

  1. Há 18 anos entendi como funciona o comércio de livros no Brasil e quem realmente ganha dinheiro, sem fazer praticamente nada e sem assumir nenhum risco: a livraria.
    Assim que entendi como funciona a coisa, fugi delas. Encerrei qualquer contato com livrarias e livreiros. Estabeleci um canal próprio de venda para os meus livros, através da loja virtual da Editora OitoNoveTrês. Os nossos livros ficaram mais baratos e o autor e a Editora conseguem ver a cor do dinheiro.
    Se alguma livraria, pressionada por alguma demanda, pede um livro nosso, precisa pagar no ato da compra e o desconto nunca é maior do que 25%. Simples.

    O resultado não pode ser considerado ruim: só na internet vendemos cerca de 1500 exemplares por ano -- um número excelente para uma editora pequena, independente e que atua para um público restrito (praticamente apenas arquitetos e engenheiros).

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    1. Eis um depoimento que não me deixa mentir sobre o mercado brasileiro de livros. Nada contra cada um defender o seu lado num negócio, mas a outra parte precisa ser beneficiada também. As grandes livrarias pavimentaram o próprio caminho para o calvário - que se salvem a tempo.

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