quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Ora bolas de gude

Ora bolas de gude - por Jean Tosetto

Em 1985 vivíamos em outro mundo, sem Internet e sem "Diretas Já". Eu tinha apenas 9 anos de idade e fazia coisas impensáveis hoje: ia para a escola estadual. A pé.

Olhava para o meu relógio Champion - que trocava pulseiras de plástico coloridas - e contava os minutos para a hora do recreio. Após o sinal, saía em disparada da sala de aula para a fila da merenda. Era imprescindível pegar um bom lugar para não perder muito tempo.

A gente engolia a comida rapidamente para poder brincar no grande pátio gramado. Cada dia da semana tinha um sabor: polenta com carne moída, arroz doce, canja de galinha, sopa de caldo de feijão com macarrão e cachorro quente.

Enquanto alguns repetiam a pratada - eram pratos de plástico azuis, com colheres de plástico azuis - minha turma ia jogar bolinhas de gude.

Um dia bolei uma estratégia diferente para me colocar em primeiro lugar na fila da merenda: pedi para ir no banheiro pouco antes do sinal tocar. Além de ser o primeiro no balcão, ainda contei para o pessoal de trás que tinha visto a "loira do banheiro", com seus pedaços de algodão pendurados nas narinas.

- Você não ficou com medo? - Disse a garotinha.

- Claro que não. Eu sou muito macho! - Tanto que nem desconfiava que ela gostava de mim. Quando fui atrás dela, na sétima série, já era tarde.

Mas estou aqui por causa das bolinhas de gude. Era meu jogo predileto. Carregava as bolinhas no bolso.

Sob a copa de uma árvore a grama era rarefeita e ali fazíamos as biroscas. Eram cinco buracos cavados na terra, ao todo, como dispostos nos jogos de dados. O objetivo era percorrer primeiro as cinco biroscas, indo e voltando, para ganhar poderes de tirar os adversários da disputa, acertando as bolinhas deles.

As apostas dentro da escola eram proibidas, mas no campinho de baixo, quem perdia as partidas ficava sem as bolinhas também.

Na primeira rodada, cada participante jogava sua bolinha mais perto possível da primeira birosca. A partir da segunda rodada, a ordem de jogar era definida por quem estava mais próximo da primeira birosca. Quem acertava as biroscas seguia jogando. Quem errava passava a vez.

Este é um jogo onde quem está perdendo se alia para prejudicar os líderes, acertando as bolinhas para afastá-las da próxima birosca.

Birosca. Anos depois frequentei muitas, onde se comia cachorro quente antes de voltar para casa nas madrugadas de sábado para o domingo. Depois da balada, a frase corrente era:

- Vamos comer um podrão na birosca?

No jogo de bolinhas de gude, você pode usar a palma da mão para desenhar um arco na terra e posicionar melhor sua bolinha para atingir um alvo: uma birosca ou a bolinha de um oponente.

E o sinal tocava de novo. Voltávamos para a sala de aula suados, com as mãos encardidas e as revanches marcadas para o fim da tarde, lá fora, no campinho de baixo.

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