segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Notas que tocam

Notas que tocam: texto publicado originalmente no Facebook em 05 de dezembro de 2015.

Dois fachos de luz rasgaram a escuridão daquele túnel. Um crescente assobio denunciava que um fantasma estava esmerilhando os trilhos do metrô. Faltavam nove estações para chegar ao maior terminal rodoviário da América Latina. Um formigueiro de gente.

Contei três minutos por estação. Seriam pelo menos 27 deles até comprar a passagem de volta para casa. Caminhei apressadamente até o guichê. Porém, o ônibus já havia partido. Teria que esperar quase uma hora pelo próximo.

Fui até a banca de jornais mas não me interessei por nada. Não quis sentar nos bancos de espera, com pessoas tristes e carrancudas ao meu lado. Então percorri lentamente aqueles corredores repletos de lojas até ouvir um piano ao fundo, numa cafeteria.

Paguei seis reais num café com leite servido em copo de isopor, só para poder sentar ali perto. O pianista dedilhava algumas notas erradas, mas claramente estava fazendo o seu melhor. A ele se juntou um senhor magro, um tanto grisalho.

Suas feições tinham vincos de expressão que se acentuaram quando ele encostou o queixo no violino. Os dois começaram a tocar "Ave Maria". O violinista olhava firme para o infinito, como se diante de si não houvesse uma parede de concreto armado construída sem um pingo de humanidade.

Uma moça de cabelos encaracolados e pele morena estava passando reto por aquele cenário. Subitamente a sacola de plástico que carregava escorregou de suas mãos. Ela não se abaixou para pegá-la, pois começou a prestar atenção nos músicos.

Ela não piscava. Mesmo assim seus olhos vazios começaram a brilhar, pois ela estava segurando as lágrimas. Não preciso dizer que elas escorreram quando ela cerrou suas pálpebras repentinamente.

A moça colocou a mão esquerda em seu ombro direito, e a mão direita em seu coração. Não sei se era a própria Santa Maria que a estava abraçando. Poderia ser a mãe biológica ou quem sabe uma filha. Com certeza não era um abraço de homem. Havia ternura demais naquele gesto.

Então ela abriu os olhos novamente, soltou os braços e deu um grande suspiro. O pensamento que ela emanou naquele instante seguiu numa frequência tão positiva que até eu pude compreender:

- Não vou desistir. Vou seguir em frente!

Finalmente ela se abaixou, pegou seu fardo e retomou seu caminho. O pianista e o violinista executaram os últimos acordes. Me levantei da mesa batendo palmas. Outras três ou quatro pessoas me copiaram.

Acabara de testemunhar um momento sublime, indo embora dali. Não havia mais nada que eu pudesse fazer.

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