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quarta-feira, 7 de outubro de 2026

A grande defesa de Gianbuffa Spagliafatozzi

A grande defesa de Gianbuffa Spagliafatozzi, por Jean Tosetto

Gianbuffa Spagliafatozzi tinha dezessete anos e um sonho plantado num lugar onde nem grama nasce: vestir a camisa da Lazio e da Squadra Azzurra. Nos treinos do time juvenil, nos arredores de Roma, dizia-se que ele voava. Era um goleiro de reflexos rápidos e de uma fé rígida na própria elasticidade.

Na tarde da final do campeonato, o céu estava sem nuvens e a arquibancada ocupada por pais, tios e vizinhos. O jogo seguia sem gols quando o centroavante adversário bateu cruzado, forte, no ângulo esquerdo. Gianbuffa saltou. Esticou o corpo na diagonal, como nos pôsteres que guardava no quarto, e tocou na bola com a ponta dos dedos. Foi uma ponte espetacular. A torcida se levantou.

Mas o impulso foi maior que o equilíbrio. Ele caiu, rolou uma, duas, três vezes pelo solo e, quando conseguiu erguer a cabeça, a bola, que havia batido na trave e sobrado no meio da área, já estava nos pés do atacante, e o gol, escancarado, parecia um convite para o abraço. Um a zero. Fim de jogo.

Naquela noite, Gianbuffa não jantou. Mas era jovem, e a juventude tem uma teimosia generosa: "ano que vem", pensou. "Ano que vem eu aprendo a cair."

O ano que vem, porém, tinha outros planos. Seu pai, engenheiro de uma multinacional do ramo dos combustíveis, foi transferido para a Venezuela, um país onde o futebol perdia de longe para o beisebol. Não havia time juvenil, nem campo de terra com trave de verdade, nem alguém que soubesse o que era um portiere. Gianbuffa guardou as luvas numa gaveta e, sem bola, voltou-se para os livros.

Estudou Direito. Pensou que, se não podia mais defender o gol, poderia defender pessoas. Formou-se, abriu escritório em Caracas, ganhou causas e dinheiro. Casou-se com a simpática e formosa Maria Ignacia Deslumbranteada. Os dois desfrutavam de uma rotina confortável de jantares longos e viagens curtas. Os filhos não vieram e eles aprenderam a não falar sobre isso.

Então o regime político mudou e a economia do país foi se desmanchando feito biscoito de polvilho no fundo do pacote. Os clientes sumiram e os honorários viraram farelo. Logo, médicos, engenheiros e advogados passaram a fazer fila nas fronteiras. Gianbuffa e Maria Ignacia vieram para o Brasil.

Aquele que sonhara ser portiere na Itália acabou porteiro de um edifício residencial em Campinas. Passou anos de uniforme, abrindo portões, recebendo encomendas, anotando placas e respondendo "bom dia, doutor" a quem nem sabia que ele tinha sido um. Quando juntou algum dinheiro, deu entrada no financiamento de um carro e passou a rodar também como motorista de aplicativo. Dormia pouco, acelerava muito e conhecia, de trás para frente e do avesso, a plenitude do precariado: a nota quatro vírgula nove que ameaçava o cadastro, a prestação que não esperava, o domingo que não existia, a pátria que não era sua.

Por vezes, no retrovisor, olhava para si mesmo e perguntava ao destino: "por quê?"

Depois de meses sem folga, Maria Ignacia, a quase Miss Caracas que virou assistente num salão de beleza perto do aeroporto de Viracopos, convenceu Gianbuffa a tirar um fim de semana para o casal. Ele soubera que Serra Negra tinha inaugurado uma réplica da Fontana di Trevi, e a ideia de jogar uma moeda numa fonte romana, ainda que de segunda mão, despertou o garoto que ainda habitava sua alma. Queria, sobretudo, atenuar a saudade de Roma. Pegaram o próprio carro, o mesmo que tantas vezes serviu a estranhos, e zingraram pelo Circuito das Águas.

A fonte era menor do que ele lembrava, o que não a tornou menos bonita. Gianbuffa jogou a moeda de costas, como manda a tradição, mas não pediu nada, porque o antigo desejo de ser goleiro profissional não se realizara. Depois foram ver a estátua do Cristo Redentor e, para chegar lá, estacionaram o carro sob a linha do miniférico, que leva pessoas do centro da cidade para o alto do morro, e vice-versa, em cadeiras suspensas por cabos de aço.

Foi Maria Ignacia quem respondeu primeiro: um grito por socorro, agudo e longo, vindo do alto.

Gianbuffa ergueu os olhos. Numa das cadeiras, uma mulher desesperada. A criança de colo havia escorregado de seus braços e pendia no vazio, presa apenas pela mão da mãe, que já não tinha força nem ângulo para içá-la. Os dedos começavam a ceder, e todos ao redor viram isso simultaneamente. Uns ficaram paralisados. Outros ligaram a câmera do telefone celular.

Todos, porém, permaneciam passivos, menos um.

Alguma faísca nas sintaxes cerebrais acordou os músculos de Gianbuffa. Os olhos mediram a distância, a velocidade, o ponto exato onde a queda terminaria. Os pés se afastaram na largura dos ombros, os joelhos se dobraram levemente, os braços se abriram. Lá em cima, os dedos da mulher finalmente foram vencidos pela força da gravidade.

E o tempo, de repente, ficou lento como naquela tarde nos arredores de Roma.

Só que, desta vez, não havia bola nem rebote. Não havia segunda chance. Gianbuffa saltou na direção da criança e a recebeu com os dois braços, encaixando-a contra o peito e, sem soltá-la, deixou o próprio corpo cair para trás, arqueando as costas sobre o piso de paralelepípedos. Rolou uma vez. Duas. Três. E parou, com a criança inteira e intacta, embora assustada, aninhada em seu peito.

O silêncio durou um segundo. Depois veio o aplauso de gente que gritava e soluçava diante de um sujeito estendido no chão. Maria Ignacia correu e o abraçou, e ele, olhando para o céu cortado pelos cabos, viu o filme da sua jornada passar em sua mente.

O rebote perdido em Roma, a faculdade em Caracas, as argumentações no tribunal, a portaria, o carro financiado e os anos puxando o arado em Campinas. Tudo soou como preparação. Ele acabara de fazer a defesa de sua vida, defendendo outra.

Naquela noite, na pousada do Bairro dos Leais, Gianbuffa, que já havia pendurado a camisa de goleiro amador, amou Maria Ignacia desprovido de camisa de vênus. Já não havia mais defesa contra o curso da natureza para gerar uma nova vida, que igualmente seria repleta de reviravoltas do destino.

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4 comentários:

  1. As crônicas do Jean são sempre maravilhosas. Tiram a gente das atribulações e garantem alguns preciosos minutos de PAZ

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  2. as crônicas do Jean sempre nos tiram do mundo das atribulações e angústias e nos levam para um parque de diversões com muita criatividade e leveza. São minutos de preciosa paz.

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  3. Iracema Dudek07/10/2026, 15:21

    Emocionei-me lendo este conto! Muito obrigada, Amigo. O seu dom transforma em paz a angústia das pessoas.

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