quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Carro de empreiteiro

Carro de empreiteiro é assim: o caos sobre rodas.
Carro de empreiteiro é assim: o caos sobre rodas.

O empreiteiro nem precisou tocar a campainha do escritório. Escutei ele chegando com o escapamento furado. Combinamos de visitar uma construção juntos, na zona rural: mais de dez quilômetros de chão batido e esburacado, de modo que aceitei a carona para poupar os amortecedores do meu carro.

- Bate a porta sem dó.

PAM! Instintivamente abaixei a janela para atenuar o cheiro de capim resultante do estofamento impregnado com o suor de pedreiros e serventes - os passageiros mais comuns daquela Kombi. Sobre o painel, uma pilha de notas fiscais e recibos de materiais, todos amarrotados, amarelados e parcialmente rasgados. Dê uma folha de projeto para um empreiteiro segurar por 15 minutos e ele a fará parecer um documento datado de 1822.

No cinzeiro, diante da alavanca de câmbio, não vejo bitucas de cigarro. A gaveta aberta o tempo todo guarda o controle remoto do portão eletrônico não sei de onde. Mas o empreiteiro fuma, sim. Seu maço de cigarros fica acomodado na manga da camisa. As bitucas ficam jogadas pelo assoalho, mesmo.

Nas lombadas ouço metais batendo com metais. Olho para trás e constato que são as ferramentas de trabalho espalhadas pelo bagageiro, que é também onde ficam os bancos que levam o pessoal da obra. O cenário é de caos total: alicates, martelos e enxadas se mesclam com restos de tubos e conexões de instalações hidráulicas. Os pedaços de fios elétricos podem servir para algo um dia, assim como as dezenas de parafusos e arruelas que esperam por uma chave de fenda. Embalagens diversas misturadas com velhas botinas completam a visão semelhante ao pátio de uma central de reciclagem.

O rádio está sintonizado em amplitude modulada - uma espécie de refúgio para estações que tocam músicas antigas e populares. O locutor de voz grave avisa que a próxima canção foi dedicada pelo Vantuirson, da Vila Samambaia, para a Jandira do Jardim Nova Alvorada.

- Sou eu, seu apaixonado. Sou eu tão alucinado. Sou eu o desesperado, que te ama e quer estar ao seu lado...

As pessoas podem pensar que os arquitetos são aqueles caras que usam lenço no pescoço para dar entrevistas na TV, dando dicas de decoração, ensinando a transformar lâmpadas incandescentes queimadas em bolas coloridas para enfeitar árvores de Natal. Porém, arquitetos são gente comum, que aceita carona em carro de empreiteiro.

E se o empreiteiro coloca a mão na massa, então o rolo de fita isolante esquecido no porta-luvas vira band-aid sempre que ele corta um dedo, serrando a ponta de um caibro que ficou desalinhado na cobertura da casa que você projetou sem imaginar como um sujeito pode trabalhar em cima de uma laje, debaixo de um sol de 40 graus.

Cinco minutos no canteiro de obras e já ficamos com sede. A fome perto da hora do almoço também aperta. Resolvida as questões prementes do dia, vamos embora, mas antes fazemos uma parada no armazém geral daquela roça. E a tubaína gelada desce feito cidra francesa, acompanhando o enrolado de frango desfiado e empanado à milanesa.

- Quando chegar em casa vou tomar um banho.

O empreiteiro engata a primeira marcha com uma mão e a outra segurando o volante de soslaio, pois seu cotovelo está repousando na pingadeira da janela lateral - se é que janela de carro tem pingadeira. Entre os dedos da mão que volta para a direção, uma ponta de cigarro cuja fumaça também invade meus pulmões. Entre uma valeta e outra, o crucifixo pendurado no espelho retrovisor balança em movimentos pendulares, replicando o ritmo da vida.

- A vida segue, apesar do caos.


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4 comentários:

  1. É um prazer ler seus textos.
    Aldo

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    1. Grato, Aldo. Sempre que a ansiedade bate na porta, a gente alivia escrevendo um texto. Vivo ansioso.

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  2. ansiedade... ansiedad,
    ansiedad.... Nat King Cole, anos 50!


    Ansiedad

    Ansiedad, de tenerte en mis brazos
    Musicando, ... palabras de amor
    Ansiedad, de tener tus encantos
    Y en la boca, volverte a besar

    Tal vez este llorando mis pensamientos
    Mis lagrimas son perlas que caen al mar
    Y el eco adormecido, de este lamento
    Hace que este presente en mi soñar

    Quizás este llorando al recordarme
    Estreche mi retrato con frenesi
    Hasta tu oido llegue la melodia selvaje
    Y el eco de la pena de estar sin ti

    Ansiedad, de tenerte en mis brazos
    Musicando, ... palabras de amor
    Ansiedad, de tener tus encantos
    Y en la boca, volverte a besar

    ...

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    1. Essa música poderia tocar na rádio AM da Kombi, mas então o relato soaria inverossímil.

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