segunda-feira, 14 de novembro de 2016

A geração que se perdeu e não se importa

Estar num velório não é uma opção que o jovem de hoje considere.
Estar num velório não é uma opção que o jovem de hoje considere.

Uma das primeiras lembranças que tenho da vida é uma das últimas que tenho de meu avô materno. Tinha quatro anos de idade quando fui ao seu velório. Me recordo de passar por baixo de seu caixão para lá e para cá, até levar uma bronca de minha mãe. Aos quarenta anos continuo indo a velórios, para me despedir de entes queridos que não verei mais e para estar perto daqueles com quem compartilhamos a dor de uma perda.

O cheiro das velas, o perfume das flores, o odor da pele do corpo embalsamado. Tudo se traduz em tristeza e, mesmo assim, aprendi que não podemos deixar de vivenciá-la. Portanto, sigo rendendo homenagens em enterros, mas venho observando que os jovens - ao menos aqueles que fazem parte de meu círculo social - estão ignorando este rito de passagem.

A negação da morte é um traço comum entre aqueles que ainda pensam que viverão para sempre. E querer ser jovem para sempre implica em outra negação de rito: muitos jovens de hoje não querem se casar, ou se casam tarde. Vários que se casam não querem mais ter filhos, ou descobrem que eles são necessários tarde demais.

Estamos vivendo uma nova ruptura de comportamentos depois da revolução cultural da década de 1960. Naquela época os jovens consideravam seus pais caretas, mas tardiamente repetiam os seus atos. Já os jovens da década de 2010 não querem mais seguir os caminhos de seus pais. Eles não consideram que sejam passos naturais formar uma família e arcar com as responsabilidades implícitas nisso. Os jovens querem conhecer o mundo, querem conhecer os outros e querem curtir muito, uma vez que a comida e a roupa lavada estão garantidos.

Nossos pais foram criados com respostas simples para problemas simples. "Quer um emprego melhor? Faça uma faculdade." Isso não funciona mais. Nem com pós-doutorado concluído na Europa um jovem - nem mais tão jovem assim - tem a garantia de um bom emprego. Na TV não temos mais apenas quatro canais. A Internet abriu a Caixa de Pandora e libertou dela todos os males, não só do mundo mediterrâneo da antiguidade, mas de todo o universo.

Por isso os pais, que ainda foram educados num ambiente maniqueísta dividido pelo Muro de Berlim, não sabem lidar com o cenário que se apresenta. Os pais também estão enebriados com a profusão de informações que pululam nas telas dos smartphones. A revista Quatro Rodas parou de vender mapas rodoviários nas bancas de jornal, pois o aplicativo Waze nos leva para qualquer lugar - o problema é saber para onde queremos ir.

Quando muitas pessoas não sabem para onde querem ir, elas acabam voltando para os poucos lugares que já conhecem, e ficam sujeitas aos discursos daqueles que, supostamente, lhes descomplicam o mundo de maneira convincente em poucas verdades e poucas certezas. Então vemos surgir líderes populistas que levam todos, inclusive os cínicos e os céticos, para a beira do abismo.

Faço parte da geração que precedeu esta que está aí, vagando feito zumbis pelas ruas, olhando para seus computadores de bolso. Testemunhei o surgimento da Internet e das redes sociais. Eu, que caminhava de casa até a escola, passei a ver os pais levarem seus filhos de carro para o colégio, para depois buscarem seus filhos nas baladas. Passei a ver pais bebendo cerveja com os filhos, se vestindo como eles e morando na mesma casa - pois eles, embora crescidos, não seguiram o próprio rumo.

Quando você ignora ritos de passagem, que em algumas religiões são tratados como sacramentos, está protelando o acerto de contas com o destino. Se tais ritos nos ajudam a ver algum sentido na vida - como estar em comunhão com alguém e saber que um dia tudo acabará - quem passa reto por eles terá o vazio preenchido de outra forma, com as fugas para os parques da Disney e os animais de estimação tratados como filhos, por exemplo.

O que será dessas pessoas quando elas ficarem velhas demais e perderem seus pais? Boa pergunta.

Não sinto que sou tratado pelos mais jovens como alguém ultrapassado, embora seja casado, tenha uma filha e faça a barba duas vezes por semana. Acredito que os jovens estão tão preocupados em ficar bem na próxima selfie que sequer aparentam estar aflitos e ansiosos. Talvez eles estejam, mas não estão sabendo se expressar.

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Um comentário:

  1. Comentário recebido por e-mail da jovem prima Cássia Tosetto, em 14 de novembro de 2016, que subscrevo integralmente:

    "Boa noite.

    Jean, li "A geração que se perdeu e não se importa" e achei impecável.

    Dia dois de novembro sempre foi um dia que ia visitar o cemitério com as tias, não porque acredito que as almas estão ali, porém, talvez era uma maneira de ficar mais perto novamente. Assim como ir ao velório, uma última despedida, uma última lembrança. Bem como um ato de respeito por tudo que passamos.

    Aqui na faculdade, estou observando que a maioria sequer se importa com a dor alheia. Para minha surpresa, fizeram uma festa que toda a cidade foi, que durou o dia todo, cheia de bebidas. Pode ser "chatisse" minha, mas achei uma tremenda falta de educação, fazer uma festa dessas num dia que pra muitos é um dia de relembrar seus entes queridos.

    E... sei que não devo explicações... Mas, quero que saiba que eu sei que trato minha cachorrinha e minha gata como filhinhas. Mas, é porque é meu sonho ser mãe! Como estou estudando e não tenho condições de ter filhos ainda... e ainda tenho tempo para esperar iniciar minha carreira e fazer o famoso "pézinho de meia", fico brincando de mamãe e filhinhas com elas rsrs.

    Obrigada pela atenção :D
    E parabéns pelo texto!!
    Abraços à você, à Renata e a Carol!!

    Cássia Tosetto."

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