quinta-feira, 12 de julho de 2018

Isso aconteceu há vinte anos

Jovem floresce para a vida no topo do mundo, no domo de Firenze.
Jovem floresce para a vida no topo do mundo, no domo de Firenze.

O ano de 1998 foi determinante na minha trajetória: foi meu último ano na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Comecei em alto estilo, com uma viagem de estudos para a Itália, entre janeiro e fevereiro, como aluno informal de iniciação científica numa pequena comitiva formada por um professor doutor e uma aluna de mestrado.

Foram dias luminosos entre Roma, onde vi a Capela Sistina de Michelangelo no Vaticano, Florença, Siena, Verona, Veneza, Mantova, Padova e Milão. Há um livro inteiro a ser esculpido desta viagem e não começarei este trabalho agora.

Naquele tempo era um aluno super dedicado, pois isso mantinha minha cabeça ocupada, longe de lembranças de um trauma que afligiu a parte remanescente da minha família. O professor doutor, a quem sou grato e tenho em grande estima até hoje, me deixou as portas abertas para ingressar no mestrado, tão breve me formasse naquele ano.

Porém, assim que voltei para o Brasil, fiquei com o coração apertado. Algo me dizia que seguir a carreira universitária não era exatamente o caminho a trilhar. No primeiro fim de semana em casa, fui na quermesse da paróquia local. No lugar do teto da Capela Sistina, vi uma estrutura metálica coberta com telhas de zinco no barração de festas da comunidade - um grande contraste me assustava: será que tinha passado pelo clímax da minha vida?

Decidi que não queria passar os anos seguintes estudando sobre a Arquitetura do passado. Havia muita coisa nova para ser construída na minha cidade, embora não estivesse claro na minha mente. Tive que comunicar isso para o meu professor, entregando cópias das fotos magníficas que havia capturado com a velha câmera Olympus OM-10 que meu pai havia me emprestado. De certo modo, representei uma decepção para ele.

Mas o semestre começou a tratei de me empenhar para conseguir ótimas notas no Trabalho de Graduação Interdisciplinar. Ao final daquele período, pensei que finalmente teria um mês de férias. Porém, o farol do carro deu problema e meu pai me pediu para cuidar do conserto. Levei ele para o eletricista.

Essa parte da história já contei no capítulo final do livro "Arquiteto 1.0": o eletricista me encomendou o projeto de sua casa, no loteamento que estava sendo implementado ali mesmo no bairro, onde o teto do barração da igreja não tinha qualquer pintura.

Nunca mais tive férias

As férias haviam sido canceladas, mas fiquei feliz da vida. Pedi ajuda para meu tio que era engenheiro. Ele me ensinou muitas coisas no escritório que organizei às pressas, na edícula da chácara de meus pais.

Um projeto puxou o outro. Num tempo onde poucas pessoas tinham telefone celular, as redes sociais eram analógicas e bem reais. O boca a boca correu solto. O jovem Jean, filho do Seu Niba e da Dona Lice, estava desenhando plantas "no lado de cá da ponte do Rio Atibaia". Fui pioneiro numa região carente em serviços na pequena cidade de Paulínia. O João Aranha era apenas um bairro de feições rurais, que sequer distrito tinha condições de ser.

Fui levando a faculdade com os projetos residenciais até o fim do ano, oficialmente trabalhando para meu tio, que me permitia fazer contato direto com os primeiros clientes. Tudo era tratado com muita transparência.

O loteamento onde fiz meus primeiros projetos era o Residencial São José, que tinha lotes pequenos, de apenas 200 metros quadrados. A Prefeitura de Paulínia só aceitou receber os projetos para análise no final de janeiro de 1999, praticamente na mesma semana em que recebi o diploma e o registro profissional. Portanto, tive a satisfação de formalizar meus primeiros projetos por conta própria.

Vinte anos depois de receber a primeira encomenda de projeto, você pode perguntar se tenho saudades daquela época. Responderei que não. Foram bons tempos, com certeza: tinha mais cabelos, bem menos peso, um rosto definido e muita energia. Mas não tinha minha filha, minha esposa, meu lar e o conhecimento que tenho hoje.

Quando faço um projeto, estou sempre pensando em oito, nove, dez meses na frente - ou mais de um ano - que é o prazo médio de conclusão de uma obra após seu início. Também redijo os contratos com os clientes e costumo facilitar o pagamento dos serviços através de parcelas, que por vezes já alcançam o ano seguinte. Meu trabalho é olhar para frente.

Poderia publicar uma imagem do meu primeiro projeto aqui, mas confesso que não tive coragem de abrir as pastas do arquivo. Ainda não é hora de ficar lembrando com minúcias de um passado cada vez mais distante.

No entanto, para marcar os vinte anos do meu primeiro projeto, encerro esta mensagem com uma ironia:

- Foi um farol quebrado que iluminou meu caminho.

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