domingo, 11 de dezembro de 2016

Não te aposentarás

Epitáfio de um país moribundo.

Humor negro-verde-amarelo: um anti-conto infantil.

Por Aníbal Hercules Tosetto *

O vovô desligou a TV, olhou para os seus netinhos sentados no piso frio da sala e ávidos por ouvir uma história. O vovô se concentrou por uns instantes, e começou a contar.

"Era uma vez uma terra maravilhosa, verdadeiro paraíso terrestre, habitado por inocentes e felizes nativos, sempre agradecidos e zelosos com a Mãe Natureza... Tudo começou e tem a ver com o que nos acontece, quando os nativos se depararam na praia com inesperados e estranhos visitantes, vindos em três caravelas e mais dez naus. Uma frota de 13 barcos e comandada por Cabral.

Logicamente, os nativos estavam assustados e inseguros. Todos em silêncio e até que foram tomados por uma inédita sensação de êxtase, ao visualizarem aquelas maravilhas que refletiam suas imagens e a luz do Sol. Eram os espelhinhos nas mãos dos visitantes. Passados esses instantes, também notaram outros adornos e quinquilharias que lhes ofereciam.

É tarde da noite, vamos pular alguns séculos dessa história. Lembram-se do que lhes contei, dos 13 barcos da frota do Cabral? Pois é, cinco séculos depois o número 13 foi adotado para identificar um partido político e seus candidatos. Um partido de marcante trajetória, iniciada após o final dos anos de ditatura militar. Elegeu e reelegeu o seu fundador e maior líder para Presidente do país. Algo inédito, um Presidente da República filho do povo sofrido e que se fez respeitado e atuante em prol das causas dos trabalhadores, graças à sua habilidade e destreza como negociador e político, um orador bem ao gosto dos eleitores.

Seu governo apresentou resultados significativos para os mais pobres e, principalmente, para a felicidade dos banqueiros, grandes empreiteiros e capitães da indústria e comércio, que garantiam as finanças dos partidos e os custos das candidaturas para o Executivo e Legislativo. Um período espetacular até para consultores, assessores e estafetas escolhidos a dedo para intermediações e operações de logística necessárias para o sucesso das maracutaias – no início, justificáveis e tudo pela Causa. Não demorou muito para descambar para contas pessoais em paraísos fiscais e empreendimentos em nomes de laranjas.

No entanto, não conseguiram continuar mascarando a realidade da Economia e das Contas Públicas, apesar dos resultados sociais obtidos e exageradamente propagandeados. À medida que começaram a vir à tona intenções e consequentes ilicitudes, denunciadas por algumas autoridades e profissionais experts e atentos, foram inevitáveis as cobranças e ações por parte de certos órgãos da Justiça e Polícia Federal, com o apoio de entidades representativas da Sociedade.

O castigo começou timidamente a ser aplicado ainda no decorrer do primeiro mandato, com o Escândalo do Mensalão. Mas, pelo visto, os ilícitos foram intensificados. Antes de cumprir oito anos governando o país, ele decidiu ter uma espécie de gerente-geral comandando o governo e que deveria ser tratada como se Presidente fosse, enquanto ele – já conhecido e respeitado mundialmente, descansaria e viajaria como “O Cara”, “O Caixeiro Viajante da Pátria e das Empreiteiras Amigas”, sonhando em voltar revigorado, idolatrado e governar o que já considerava dele por Direito de Iluminado Primeiro e Único, que à essas alturas de sua vida, ele já acreditava ser.

Ele não desconfiara que a sua tutelada eleita Presidente seria mais doida que a Maria I de Portugal, A Piedosa, que depois revelou-se Maria, A Louca.

A roubalheira cada vez mais escancarada. Não deu outra, e o castigo começou a galopar cada vez mais célere. Quebraram até a estatal do petróleo, a amazonas gerentona foi impinchada e o seu cavaleiro e tutor já é réu em alguns processos. Castigo para inocentes e pecadores é essa severa Crise, milhões de desempregados e sem perspectivas de retomada do crescimento da Economia, geração de empregos e soluções para resolver graves problemas sociais e de infraestrutura.

Sinto muito, queridos netinhos, já é tarde e estou cansado. Está na hora de dormir. Vou parar por hoje e amanhã continuaremos... Boa noite e durmam como anjinhos críticos e conscientizados, preparados para o que está por acontecer para vocês...”

Os netinhos, preocupados que ficaram sobre a Crise, desempregos e sem garantia de aposentadoria e cidadania dignas, imploraram para o vovô continuar contando.

Ele, cansado e irritado, perdeu o controle e, sem papas na língua, abriu o jogo! E disse, aterrorizando os netinhos, já assustados e inseguros:

“A partir de agora, em pleno século XXI, ano de 2016 e seguintes, a história vai ser outra! Vocês sofrerão os terríveis efeitos dos reflexos daqueles espelhinhos que os nossos antepassados, os inocentes nativos, aceitaram e em troca, entregaram aquele paraíso e deu no que deu. Mais, os efeitos daquele número 13, adotado para identificar o partido fundado e dependente de um único, inédito e exótico líder bon-vivant, Il Capo dei capi, aquele que seria o salvador da pátria.

Um conselho. Não se iludam com alguém que chegar e quiser lhes contar historinhas com final feliz. Vocês não terão os sonhados empregos e vida digna e desejável a todos os cidadãos, ou se tiverem empregos, não conseguirão se aposentar! Eu sou um dos últimos de uma classe de trabalhadores privilegiados, graças à pensão de um salário mínimo pago pelo INSS. Ponto final e não façam essas caras de angustiados. Netinhos, pra cama, já!”

E não falou mais nada. Pior ainda! O vovô agiu como um desalmado: deu uma risadinha sarcástica e asmática, igualzinha àquela do cão Muttley do Kid Vigarista!

* Colaboração feita ao Tosetto.com em 11 de dezembro de 2016.

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