terça-feira, 10 de abril de 2018

E se Van Gogh fosse bom de marketing?

"Sorrowing old man" (1890). Pintura de Vincent van Gogh (1853-1890) exposta no Kröller-Müller Museum em Otterlo, nos Países Baixos.
"Sorrowing old man" (1890). Pintura de Vincent van Gogh (1853-1890) exposta no Kröller-Müller Museum em Otterlo, nos Países Baixos.

Van Gogh nasceu no seio de uma família cristã protestante na Holanda. Ele foi um pintor fracassado em vida, confundido com alguém com sérios problemas mentais. Mesmo sem vender um quadro por anos a fio, ele fez mais de dois mil trabalhos.

A imagem acima reproduz uma de suas últimas obras. O velho de sapatos e pijamas tenta se aquecer perto do fogo da lareira. Está curvado com as mãos cobrindo a face. O que vemos é o reflexo do próprio Van Gogh: um homem arrependido, desesperado, inconformado, no ocaso da vida. Podemos ter compaixão dele sem ressalvas.

Do ponto de vista do marketing, esse quadro nunca seria usado para vender margarina ou pasta de dentes. No marketing parece não haver espaço para lamentações, desânimo, solidão - embora tais conceitos tidos como negativos também nos construam como seres humanos.

No marketing, tudo o que parece importar é que devemos ser felizes o tempo todo, pois merecemos isso e somos convencidos disso toda vez que ligamos a TV ou vemos uma vinheta no YouTube antes do nosso vídeo de interesse.

Pouco tempo depois de concluir essa tela, Van Gogh cometeu suicídio. Ele, como cristão protestante, sabia que isso representava uma condenação ao inferno. Van Gogh preferiu rumar para o inferno do que permanecer só e completamente ignorado, incompreendido na sua Arte. Ele deu a sua vida por ela.

Hoje, eu, cristão protestante e sequestrado sem resgate pela minha fé, vejo o velho triste de Van Gogh e tenho vontade de fazer uma prece ao Senhor, para que ele se compadeça do artista e leve sua alma para o paraíso, onde as noites são estreladas como num de seus quadros.

Van Gogh, com toda a sua dor, nos aproxima do divino.

Temo pelos avanços científicos. Um dia, alguém pode inventar a máquina do tempo. Talvez queriam conduzir Van Gogh, do século 19 na Holanda, para Miami no século 21. Quem sabe um encontro poderia ser promovido com Romero Britto. Ou talvez Van Gogh fique disfarçado, como mais um anônimo, para ver uma palestra do renomado artista brasileiro sobre como vender quadros e ganhar dinheiro com pinturas.

As obras de Romero Britto são alegres, supercoloridas, com cada cor isolada por fortes contornos negros, que aprisionam os cacos artificiais de felicidade que ele vende. Do ponto de vista do marketing, Romero Britto é um exemplo a ser seguido.

Van Gogh poderia aprender muita coisa com Romero Britto. Então nunca conheceríamos o seu velho de sapatos com pijamas. E o Banco Santander não usaria seu nome para paparicar clientes que compram telas de Romero Britto. Pois o marketing subverte tudo.

Porém, o marketing não é tudo. A estética não pode ser comprada em separado da ética. Quando cedemos sem questionamentos aos apelos do marketing, perdemos um pouco daquilo que também nos faz seres humanos. E ao invés de consumir coisas, somos consumidos.

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segunda-feira, 9 de abril de 2018

Qual era o plano de negócios de Bach?

Detalhe do retrato de Bach aos 61 anos de idade, pintado por Elias Gottlob Haussmann em 1748, atualmente parte do acervo histórico do compositor em Leipzig, na Alemanha.
Detalhe do retrato de Bach aos 61 anos de idade, pintado por Elias Gottlob Haussmann em 1748, atualmente parte do acervo histórico do compositor em Leipzig, na Alemanha.

As redes sociais espalham feito gripe espanhola o link de reportagem da BBC sobre a palestra da cantora Anitta na Universidade de Harvard nos Estados Unidos, em evento corporativo organizado em parceria com o MIT. Ela não foi lá propriamente para falar de sua música, mas de seu plano de negócios, ofuscando, segundo o relato, a presença do CEO da maior cervejaria do mundo.

Tudo é apresentado de modo a chancelar o talento empresarial da jovem, relevando o seu lado artístico, pois gosto não se discute, embora pareça que todo mundo goste de uma boa história sobre como ganhar dinheiro. No entanto, a mistura de Anitta com Ambev, Harvard, MIT e BBC não me impressiona por uma simples razão: o produto artístico, para mim, ainda importa.

Classe média baixa - quase favela, mas sem apelar.

Os Beatles eram apenas quatro rapazes da classe operária de Liverpool, se apresentando na zona do meretrício de Hamburgo, na Alemanha, quando o empresário Brian Epstein viu algum valor neles. Ele trocou as jaquetas de couro surrado dos músicos por ternos bem cortados, lhe escovou os cabelos e comprou boa parte da prensagem do primeiro single oficial da banda, "Love Me Do", para chamar a atenção da crítica musical.

Quando os Beatles começaram a fazer sucesso na Inglaterra, houve quem dissesse que aquilo era uma coisa arranjada. Não era. Os Beatles eram realmente bons, tanto que compunham as próprias músicas. Brian Epstein cuidava de toda a parte comercial e deixava Lennon, McCartney, Harrison e Starr focados apenas no que eram melhores.

A separação dos Beatles em 1970 não foi por culpa da Yoko Ono. A banda começou a ruir quando Brian Epstein morreu em 1967 e os Beatles resolveram que seriam os empresários deles mesmos. Fundaram a Apple para produzir os próprios discos e incentivar outros artistas. Não deu certo. Em pouquíssimo tempo a boutique deles em Londres quebrou. Não teve liquidação: as roupas foram doadas no último dia de funcionamento da loja.

Então eles arranjaram outro empresário, Allen Klein. Mas já era tarde para evitar o desmanche do grupo. A Apple só se recuperou, anos depois, pois o legado musical dos Beatles é tão grande que permitiu o turnaround nos negócios. Hoje, a marca dos Beatles segue sendo uma das mais lucrativas da música popular.


Sorte semelhante não teve Johann Sebastian Bach (1685-1750). 

Ele foi compositor, regente, mestre de capela, professor, cravista, organista, violinista e violista. Trabalhava para a Igreja Luterana da Alemanha, tendo percorrido várias cidades com a missão de organizar coros, ensinar os mais jovens, compor hinos e, quando sobrava tempo, animava festas de casamento para completar sua renda.

Embora muito talentoso, Bach não era uma celebridade. Compunha com muita frequência, como um jornalista contratado para escrever uma crônica por semana. Quando Bach morreu, foi enterrado numa cova simples. Suas inúmeras partituras foram sendo resgatadas ou descobertas paulatinamente, a ponto de sua genialidade ter sido reconhecida tardiamente. Tanto que tiveram muito trabalho para encontrar seu corpo, para ser transladado até o assoalho do altar da Igreja de São Tomás em Leipzig.

Talvez, se Bach tivesse conhecido alguém como Brian Epstein, sua carreira poderia ter sido diferente, ou talvez nem ter prosseguido. Bach não perseguia a fama ou o dinheiro. Ele poderia ter casado com a filha de um ricaço de sua época, mas recusou: ela era feia.

Ironicamente, se Bach vivesse entre nós, certamente ainda seria um funcionário a serviço de sua igreja. Não seria fonte de matéria para a BBC, pois nunca seria convidado, junto com Ciro Gomes, para palestrar em Harvard. Por essa lógica mercadológica, quantos Bachs estamos deixando de conhecer hoje?


O que podemos aprender com Anitta, Beatles e Bach? 

Que um artista precisa ser artista em tempo integral. Que é muito difícil ser genial nas artes e nos negócios ao mesmo tempo. Que ser apenas genial nas artes não garante retorno financeiro. Que ser apenas genial nos negócios não garante o legado artístico. Que artistas empreendedores precisam de empresários.

Ganhar dinheiro com música ruim não é salvaguarda para atenuarmos o legado musical de Anitta que, a bem da verdade, ainda não gravou qualquer coisa que preste. Anitta, me perdoe por não deixar sua música tocar aqui em casa. Espero que seja feliz e que fique muito rica, a ponto de poder se libertar da lógica atual do mercado, que responde pelo segredo do seu sucesso.

E qual é o segredo de Anitta? É a sua diferença fundamental com Bach.

Bach compunha músicas para agradar Deus. Anitta compõe funks para agradar seus consumidores em potencial. Ela pesquisa o que eles querem ouvir e entrega mastigado numa embalagem ao gosto do cliente. Mais do mesmo. Sem surpresas.


O problema do nosso tempo é que estão tentando matar Deus e, no lugar dele, querem celebrar o culto da mediocridade, onde quem tem uma vida miserável em todos os sentidos se conforta com a mensagem que alguns eleitos pela roda da fortuna passam:

- Você é um zero à esquerda, mas com um plano de negócios, pode chegar lá.

Porém, não avisam que para ficar lá é preciso ter talento. Respondendo a pergunta inicial, Bach não tinha um plano de negócios. Mas ele ainda será lembrado daqui a 250 anos. Que plano de negócios prevê isso?

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terça-feira, 3 de abril de 2018

Mesmo os tempos ruins são bons

"Barcos de Pesca na Praia de Saintes-Maries" (1888).  Pintura de Vincent van Gogh (1853-1890) exposta no Van Gogh Museum em Amsterdã, na Holanda.  [Texto publicado originalmente no grupo da Suno Research no Facebook em 15 de dezembro de 2017.]
"Barcos de Pesca na Praia de Saintes-Maries" (1888).  Pintura de Vincent van Gogh (1853-1890) exposta no Van Gogh Museum em Amsterdã, na Holanda.

Recentemente estava comentando com um amigo que nós devemos ser seletivos com tudo que lemos, ouvimos e assistimos através das diversas mídias, pois o tempo todo estamos num processo de PNL - Programação Neurolinguística.

Se músicas podem ser interpretadas do ponto de vista matemático - no seu ritmo, harmonia e melodia - então a frequência do pensamento resultante de uma audição acaba influenciando o nosso comportamento. O mesmo vale para poemas cadenciados e para a métrica escondida em textos sagrados, a mesma que os cabalistas estudam.

Pessoalmente, cresci ouvindo bandas de Rock: Beatles, Rolling Stones, Led Zeppelin, Pink Floyd... Até hoje tenho preferência por músicas mais antigas, dos anos de 1960 até 1990. Das bandas mais recentes, aprecio Oasis, Blur e Radiohead.

Aos poucos vamos conhecendo bandas que não fizeram tanto sucesso, mas que eram muito boas, como Kinks e Tremeloes - esta última tem uma música com um título sugestivo: "Even The Bad Times Are Good" - onde o sujeito consegue ver o lado bom, mesmo nas situações difíceis.

Para quem não conhece, segue o link para ouvir no Deezer.

Ocorreu-me que esta canção pode ser entoada por aqueles que investem no mercado financeiro através da estratégia dos dividendos, da qual também sou adepto.

Vejamos: nós torcemos para que as cotações das ações das melhores empresas pagadoras de dividendos caiam, pois deste modo o Dividend Yield fica mais atrativo.

Então, se as agências internacionais de classificação de risco rebaixam a nota do Brasil, os investidores estrangeiros tiram dinheiro da Bolsa de São Paulo: as ações caem, mas isto não significa que o valor intrínseco das empresas também vai cair.

Esta é uma notícia ruim para muitos? Sim. Mas para o investidor da estratégia de dividendos ela tem um lado bom.

Quando o Federal Reserve - o banco central dos Estados Unidos - anuncia um aumento de 0,25% nas taxa básica de juros, a Bolsa de São Paulo sofre, pois os investidores mais conservadores levam seu dinheiro para o mercado norte-americano.

Ruim para quem foca no valor patrimonial das ações. Bom para quem deseja comprar ótimas ações de bons indicadores fundamentalistas, com desconto.

Por outro lado, quando dizem que a Reforma da Previdência sairá em breve, o mercado financeiro interpreta isso com bons olhos: as ações se valorizam.

Se, deste modo, fica ruim para quem investe em dividendos, ao menos para quem já está com a posição montada o seu patrimônio aumenta, lhe gerando a necessidade de estocar recursos na renda fixa, para esperar novas oportunidades.

E assim por diante.

Para quem adota a estratégia dos dividendos, não tem tempo ruim. O investidor que segue os passos de Bazin, Barsi, Reis e Wohlers, é como o velejador que sabe ajustar as velas para navegar contra as correntes predominantes dos ventos.

"Mesmo os tempos ruins são bons, desde que eu possa correr para você, meus caros dividendos."

Acompanhando a Suno Research, você tem acesso a conteúdo de valor, que te ensina a velejar contra os ventos no mercado de capitais. Programe-se.

segunda-feira, 5 de março de 2018

Morte súbita e desespero no fundo de uma xícara

Vista superior de uma xícara com restos de comida sendo coletada por formigas (foto de arquivo).
Vista superior de uma xícara com restos de comida sendo coletada por formigas (foto de arquivo).

Mais uma tragédia ocorreu na cozinha da edificação onde nos primórdios havia apenas vegetação sobre o nosso formigueiro, há centenas de milhares de gerações, segundo revelam os historiadores. *

Um exército de formigas estava trabalhando na coleta de alimentos para a próxima estação de inverno, entusiasmadas pela mistura - depositada no fundo de uma xícara - de açúcar com restos de uma substância parecida com o café, embora cientistas afirmem se tratar de um pó sintético com as mesmas propriedades estimulantes.

"Estávamos garimpando a glicose numa laje de cerâmica quando subitamente um hominídeo de grande porte despejou água sobre todas nós" - revelou Salatiel à nossa reportagem.

É a segunda vez, em menos de uma semana, que Salatiel escapa com vida da ação de um hominídeo. A primeira vez foi quando uma hominídea de porte mediano depositou farelos de amido de milho na lata de lixo, de onde poucas formigas conseguem retornar ao formigueiro.

No caso da xícara, dezenas de formigas morreram afogadas na sequência de jatos de água, intercalados com varreduras de esponja encharcada com detergente - um produto que os hominídeos gostam de usar em abundância para neutralizar a adesão dos alimentos em seus utensílios.

As demais mortes não foram confirmadas, mas dezenas de formigas caíram na escura tubulação que conduz diretamente ao "inferno", como se referem as formigas presbíteras à caixa de gordura que inutiliza os restos de alimentos misturados com o mesmo detergente. Trata-se de uma grande catedral subterrânea, uma espécie de formigueiro construído por hominídeos, de onde raras formigas voltaram com vida para compor os poucos relatos de experiências aterrorizantes.

Perguntamos a Salatiel quais são seus projetos futuros, uma vez que a morte lhe acenou de perto em duas ocasiões seguidas:

"Amanhã cedinho retomo o trabalho. Não sei fazer outra coisa" - respondeu, resignada, nossa heroica formiga, pedindo licença para levar mais um grão de chocolate para o estoque do formigueiro.

As autoridades foram cobradas para desenvolver um sistema de alarme para evitar novas tragédias como esta. "Os hominídeos são imprevisíveis" - confidenciou um membro da assembleia federal que pediu para não ser identificado, em função das constantes ameaças que vem sofrendo da oposição. "Do mesmo jeito que desperdiçam comida, eles nos perseguem de tempos em tempos" - completou.

"Tudo que sabemos é que hominídeos de pequeno porte ainda sentem medo de nós. Talvez possamos explorar isso no longo prazo" - afirma Zorobabel, porta-voz do observatório astronômico nacional.

Enquanto soluções não surgem, a orientação para as formigas coletoras é para tomar o maior cuidado possível. Elas nunca sabem se voltarão para casa no final de mais um dia de labuta.

* Da redação de "O Formigueiro Diário"

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quinta-feira, 1 de março de 2018

O Rio de Janeiro quebrou? A culpa também é dos arquitetos

Vista da Cidade Maravilhosa a partir do Cristo Redentor em 1996, quando o Rio ainda respirava sem aparelhos.
Vista da Cidade Maravilhosa a partir do Cristo Redentor em 1996, quando o Rio ainda respirava sem aparelhos.

O Rio de Janeiro quebrou: em todos os sentidos. A intervenção federal na área da segurança, em pleno Carnaval de 2018, lembra a visita de um padre no hospital, para dar a extrema-unção para o paciente.

A imprensa entrevista políticos, militares, policiais, sociólogos,  membros de ONGs. Querem saber o que pode ser feito para salvar a cidade.

Em geral respondem que, onde o Estado não está presente, o crime organizado toma conta.

Ironicamente nunca entrevistam arquitetos. Para o CAU - Conselho de Arquitetura e Urbanismo, todo arquiteto também é urbanista, mas eles nunca são ouvidos.

Porém, o problema está relacionado diretamente com eles. Se o Estado não se faz presente nas comunidades - ou melhor: nas favelas - é sinal que elas não estão urbanizadas.

Querem acabar com a violência no Rio de Janeiro? URBANIZEM A CIDADE!

E cadê os arquitetos e urbanistas? Estão tomando café nas vernissages. Alguns querendo participar de bienais estrangeiras e outros de concursos cujos vencedores nunca verão seus projetos construídos.

Se o Rio de Janeiro e várias outras cidades do Brasil estão na falência, também é culpa de nós, arquitetos e urbanistas. Pecamos por omissão. Permitimos que a politicagem e a especulação imobiliária fizessem o trabalho que era para ser nosso: planejar as cidades.

Disso resulta que a maioria das cidades não tem qualquer planejamento, condenando a maior parte delas ao fracasso quase irreversível.

Somos parte do problema, mas podemos ser parte também da solução, a partir do momento que sairmos dos muros das universidades e dos condomínios - além das páginas das revistas de jardinagem - para apresentarmos propostas para urbanizar este país com redes de água, esgoto, energia, comunicação, endereços regularizados e espaços públicos de qualidade que integrem moradores ao conceito da urbanidade, que vai além do urbanismo, pois passa pela retomada da educação como tema central de uma República.

A gente liga nos programas de debates da TV e só vemos advogados e filósofos fazendo comentários nas bancadas, sobre qualquer assunto. Nos programas voltados para as mulheres, só discursam médicos e psicólogos entre artistas do canal.

Quando um arquiteto aparece, muito de vez em quando, é para dar dicas de decoração do tipo "transformar caixa de feirante em estante de livros que ninguém lê, mas que acumulam poeira pra caramba". Eu fico possesso com isso.

Mas ficar revoltado não resolve. O que resolve é botar a boca no trombone e a minha parte eu comecei a fazer agora.

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sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Não force a barra para falar de investimentos

Cartão postal mostra a Catedral de São Basílio na Praça Vermelha de Moscou em 1917, antes da Revolução Russa. Imagem de domínio público.
Cartão postal mostra a Catedral de São Basílio na Praça Vermelha de Moscou em 1917, antes da Revolução Russa.

Por Jean Tosetto *

Talvez você já tenha passado por isso numa turma onde nem todos são realmente achegados. Aquela pessoa com quem você nunca conversou para valer subitamente engata um papo e logo você percebe que ela é uma grande entusiasta daquele shake emagrecedor.

Então descobre que ela deseja te vender um pote do shake. Em seguida percebe que a mesma mais consome do que vende o produto, para então concluir que ela faz parte de um esquema de marketing parecido com uma pirâmide de consumidores, travestida de rede de revendedores.

Com um pouco de jogo de cintura você se afasta da roda e, no próximo evento social, você evita qualquer aproximação, não por causa do shake, que você nunca saberá se é eficiente de verdade, mas por causa da abordagem irritante feita sobre este produto.

Viajar de ônibus ou trem também nos coloca em algumas saias curtas, especialmente quando alguém ao lado pergunta a sua religião. De cara é melhor responder que você acredita em alguma coisa, mas com certeza a religião do interlocutor daquele diálogo forçado será melhor, ao menos na sua visão.

Então ele começa a falar dos dogmas, dos costumes, das tradições, dos ritos e te convida para conhecer a sua comunidade. A intenção dele é boa: ele quer salvar a sua alma. Ele realmente acredita que está fazendo uma boa ação. Mas, para você, ele está sendo um cara inconveniente.

A sorte dele é que estamos num país laico, com liberdade de expressão e de religião. Em algumas partes do mundo, ainda hoje tem gente que morre só pelo fato de declarar uma fé que não seja reconhecida pela religião oficial daquele Estado.

Durante os anos de chumbo da antiga União Soviética, a prática religiosa era totalmente proibida. Líderes religiosos eram enviados para a Sibéria, sem passagem de volta. Mas os ortodoxos resistiram, encontrando formas de se reunir secretamente, sem cair nas garras dos alcaguetes do governo, infiltrados em cada quarteirão.

Os primeiros cristãos também eram perseguidos por toda a Judeia, antes das seitas primitivas chegarem às catacumbas de Roma. A tradição afirma que um cristão reconhecia outro através de desenhos na areia. Um fazia a silhueta simplificada de um peixe, esperando que o outro espelhasse o símbolo.

Neste ponto você pode indagar: “Não estou aqui para ler sobre religião. Quero saber sobre investimentos!”

Calma. As suas crenças – ou a ausência delas – não estão em questão. Se há uma coisa que respeito é a escolha individual do outro. Por isso mesmo escrevo este artigo.

Nem sempre fui adepto de investir em renda variável. Alias, passei boa parte da minha carreira investindo no mercado imobiliário e em produtos de renda fixa. A baixa no ciclo da construção civil me fez acordar para uma nova realidade.

Ciente de que a recuperação da economia brasileira seria lenta, passei a considerar o mercado de capitais com mais atenção.

Cometi alguns erros de principiante, que não estão em voga no momento. Mais importante é relatar que fui migrando meus recursos, aos poucos, para os investimentos em renda variável, a ponto de equilibrar a minha carteira, com previsão de reforçar os aportes nos ativos financeiros disponíveis na bolsa de valores.

Antes arredio e conservador, mas acima de tudo reacionário a qualquer abordagem relacionada com ações de empresas e cotas de fundos imobiliários, paulatinamente fui me interessando por todo esse mecanismo de geração de renda passiva, a ponto de me apaixonar literalmente pelo assunto.

Entusiasmado, comecei a ler um livro atrás do outro.

Bastaram os primeiros dividendos pingarem na minha conta que o deslumbramento com o mercado de capitais assumiu as rédeas dos meus interesses.

Numa manhã de mormaço estava levando duas tias para um compromisso em São Paulo. Passando pelo cruzamento da Rodovia dos Bandeirantes com a Anhanguera, em Jundiaí, apontei para a fábrica da Klabin, na esquina mais estratégica da América do Sul, e disse:

- Sou sócio dessa empresa.

- Como assim? – Elas não entenderam nada.

- É que comprei ações da Klabin na bolsa de valores.

Elas continuaram boiando. Uma olhou para outra e só faltaram rodar o dedo em torno da orelha. De nada adiantou tentar explicar como funcionava o mercado financeiro.

Na noite de Natal presenteei minha irmã:

- Comprei essa blusa da Hering com os dividendos da Hering. He-he...

- Minha Nossa, Jean. Você agora só fala da bolsa. Até no Natal?

Isso foi a melhor coisa que minha irmã falou para mim em tempos. Logicamente não gostei de ouvir aquilo, mas ela tinha razão. Repentinamente me vi como aquela pessoa tentando vender o tal shake emagrecedor, ou quem sabe tentando salvar a alma do próximo.

Passei a me policiar, desde então, para não expor minha afinidade com a geração de renda passiva. As pessoas do meu círculo social, na maioria das vezes, não querem saber de planos para a independência financeira, investimentos em ações e fundos imobiliários. É um assunto chato. Eu também pensava assim.

Poucos dias se passaram e fomos convidados para uma festa de aniversário num buffet infantil. Fui até o balcão pegar um guaraná e o primo da minha esposa estava lá. Pensei comigo mesmo: “Falo de futebol, reclamo dos políticos ou da crise?”

Resolvi desenhar um cifrão na areia:

- E aí Marcelo, o que tem feito para se proteger da crise?

- Tenho comprado algumas ações.

- Sério?

Não preciso dizer que foi uma longa, agradável e produtiva conversa. Trocamos impressões sobre métodos de análise, empresas que estavam em nosso radar, livros que estávamos lendo, gente que estávamos seguindo na Internet.

Desde então temos contatos frequentes. Os pontos de vista diferentes, baseados nas origens e ofícios de cada um, ajudam a tecer um cenário mais completo. Esse tipo de interação é muito válido entre os investidores e faz parte da rotina de muita gente, inclusive dos mais bem-sucedidos e experientes.

Quando você resolve estudar o mercado financeiro, são várias as lições que aprende. Entre elas que você faz parte de um grupo muito pequeno de pessoas, ao menos no Brasil. Somos quase uma seita clandestina, embora tolerada oficialmente.

Lembremos que na União Soviética nós também seríamos enviados para a Sibéria – o que seria surreal numa nação que preservou templos inclusive na Praça Vermelha de Moscou, mas que fechou completamente o mercado por décadas, em todos os sentidos.

Às vezes você quer emagrecer, então vai procurar uma dieta adequada. Pode ser até baseada naquele shake. Pode ser ainda que você esteja se sentindo vazio ou triste, necessitando de um apoio espiritual ou psicológico. Uma conversa com um amigo será bem vinda.

Com educação financeira ocorre algo semelhante: é o indivíduo que tem que procurar por informações, a partir de suas necessidades. Não funciona quando alguém tenta nos empurrar algo que naquele momento não faz sentido para nós, por melhores que sejam as intenções de todos.

Se você conhece alguém pensando em investir em renda variável, não seja incisivo, mas não deixe de falar do caminho da luz. Conte sobre uma casa independente de pesquisas em investimentos onde não existe imposição de doutrinas ou táticas de marketing piramidal. Esta casa é a Suno Research.

* Publicado originalmente no grupo da Suno Research no Facebook em 06 de dezembro de 2017. Jean Tosetto é coautor do Guia Suno Dividendos, livro escrito em parceria com Tiago Reis e lançado em 08 de dezembro de 2017.


Guia Suno Dividendos disponível na loja da Amazon.
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terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Memórias animadas

O carrinho do Corredor X ao lado do bólido do Speed Racer.
O carrinho do Corredor X ao lado do bólido do Speed Racer.

Há alguns dias levei a minha filha, de quatro anos, para assistir um desenho animado no cinema. "Desenho animado" é um termo anacrônico para definir os novos filmes de animação feitos a partir de computadores: "O Touro Ferdinando", apesar de caricaturado, é feito com técnicas de realidade virtual.

Seus produtores conseguiram representar uma vila no interior da Espanha com notável verossimilhança. As luzes e sombras, a vegetação, as construções vernaculares: tudo nos levava a crer que estávamos realmente na Península Ibérica. Então os touros e cavalos começam uma disputa de rap americano, e todo o encanto da história desaparece.

Por isso, meu desenho animado favorito ainda é "Speed Racer" - uma produção japonesa dos anos de 1960 que poderia ser considerada rudimentar atualmente, se não fosse pela trilha sonora refinada e pelo apelo familiar que supera as disputas automobilísticas.

O personagem principal de "Speed Racer" não é apenas um piloto de corridas: ele tem pai, mãe, uma namorada, um irmão caçula e até um animal de estimação, além de um grande amigo. Porém, ele sente falta de seu irmão mais velho, que brigou com o pai há alguns anos e desapareceu.

Ninguém na história do desenho sabe, mas o irmão de Speed, Rex Racer, é na verdade o Corredor X, que corre mascarado e também trabalha para o serviço secreto. Ele está sempre monitorando o irmão do meio e, apesar de não ter o melhor carro, até o Speed reconhece que o Corredor X é mais piloto.

Quando era criança, não entendia o motivo do Corredor X nunca dizer para o Speed Racer que ele era seu irmão. Eu nunca faria isso na vida real. Até hoje não entendo. O Corredor X apenas falava para o Speed tomar cuidado, pois a próxima corrida seria muito perigosa.

Talvez, por isso, tenha crescido sem me livrar do encanto dos desenhos "toscos" do Speed Racer. Já adulto, com responsabilidades nas costas, comprei as miniaturas dos carros, que na minha época de garoto não tinham para vender no Brasil. Adquiri até um autorama, que agora monto no tapete da sala para brincar com minha filha.

Apesar de não ser o Toretto da série "Velozes e Furiosos", o Tosetto aqui gosta de guiar carros. Como ainda tenho cabelo, sou bem mais suave e comedido na direção.

As vezes estou dirigindo meu conversível sozinho, pelas estradas vicinais. Gosto de imaginar que uma hora meu irmão mais velho vai emparelhar comigo e pedir para reduzir o ritmo. Isso nunca vai acontecer.

Felizmente guardo boas memórias do meu irmão mais velho. Ele sempre foi bom comigo. Quando brincávamos com nossos carrinhos de rolimã na Rua Maria das Dores em Paulínia, ele sempre deixava eu ser o Speed Racer. Meu irmão era o Corredor X, desaparecido há alguns anos. E como a gente não se conforma com isso, seguimos em frente.

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