terça-feira, 27 de junho de 2017

Condutores expostos

Condutores expostos - publicado no Facebook em 27 de junho de 2014.

As vezes, quando a gente acaba de resolver um projeto, definindo sua concepção geral para o contratante, ele ainda faz um último pedido: que os condutores das águas de chuva sejam embutidos nas paredes. Muita gente não gosta de ver estes componentes expostos na fachada.

Sempre respondo que, no projeto das instalações hidráulicas, procuro deslocar esse tipo de tubulação para corredores laterais ou lugares mais discretos.

Saliento que não é uma boa ideia embutir um condutor de água de chuva na parede, por causa da manutenção futura. Folhas de árvores levadas pelo vento e a própria fuligem acumulada podem entupir calhas, coletores e condutores de águas pluviais. Se eles tiverem fácil acesso, a limpeza é mais simples, evitando o quebra quebra.

Por vezes, uma questão técnica se sobrepõe à questão estética numa obra. Portanto, o desafio de um arquiteto é conciliar um detalhe técnico com a sua interferência estética no conjunto da mesma.

Em razão disso, fiquei feliz em encontrar esta fotografia de 2011 em meus arquivos. Trata-se de uma antiga edificação de Buenos Aires, reformada e adaptada para os tempos atuais. Vejam que diante de sua simplicidade - com tijolinhos sem reboco e condutores expostos - esta fachada tem o seu charme garantido justamente por não esconder a sua essência.

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segunda-feira, 26 de junho de 2017

Uma conversa sobre preço e valor

Uma conversa sobre preço e valor - por Alberto Costa e Jean Tosetto

Mensagem de Alberto Costa, consultor empresarial, recebida em 19 de junho de 2017:

"Li, nesta tarde, seu post 'Qual é o valor justo de um projeto arquitetônico?'. Ocorreu-me que algo não estava muito claro em seu texto e levei algum tempo para perceber o que era. Daí, lembrei-me de algumas conversas que tive, há bastante tempo, a respeito do significado de valor, com [justamente] um engenheiro do valor, com quem convivi aqui por algum tempo (ele reside em Curitiba, agora).

Essas conversas giraram, então, em torno da ambiguidade com que a palavra valor é normalmente usada e de como isso prejudica a compreensão e o diálogo entre os profissionais de serviços (especialmente) e seus clientes. Com sua licença, portanto, vou fazer uma breve exposição ordenada da questão.

Na relação entre vendedores e compradores, o ponto de conexão se chama preço. Um negócio só é fechado quando ambos, vendedor e comprador, estão concordes quanto ao preço. E essa é, por incrível que pareça, a única concordância que se exige para fechar um negócio.

Há outras 2 variáveis em questão, entretanto: uma delas é o custo, variável só conhecida pelo vendedor e que ao comprador não importa, praticamente; a outra é o valor, variável só aquilatável pelo comprador e sobre a qual o vendedor não tem qualquer domínio.

Uma transação satisfatória ocorrerá sempre que o preço for suficiente, do ponto de vista do vendedor, para cobrir-lhe todo o custo de produção, de comercialização e de oportunidade e, do ponto de vista do comprador, ele for equivalente (pouco mais ou pouco menos) ao valor por ele atribuído ao produto ou serviço.

Quando dizemos que o preço de algo é barato, isso significa que lhe atribuímos um valor maior do que o que é expresso pelo preço. Quando dizemos que é caro, estamos afirmando que o preço é superior ao valor que percebemos no objeto sendo negociado.

É assim que vendedor e comprador podem ter percepções muito diferentes (e conflitantes) a respeito do preço de um produto/serviço: enquanto o vendedor está mentalmente comparando o preço com os seus custos, o comprador está fazendo o mesmo exercício mental, mas comparando o preço com o valor percebido no objeto da negociação.

Com algum esforço, eu consigo entender o que você escreveu em seu post; entretanto, o uso de valor como sinônimo de preço (algo muito comum em qualquer conversa, devo dizer), torna difícil entender o problema que você está acusando e, ainda mais, torna difícil pensar nas ações adequadas para solucioná-lo. Assim, embora seu texto seja suficiente para fazer seus leitores conscientes de que há um problema (aliás, é provável que eles já o soubessem), faz muito difícil para eles deduzirem como devem agir para eliminar o problema recorrentemente presente em suas negociações.

Como eu disse ali no assunto, pretendo que isso se torne uma conversa. Eu lhe sugeriria ler seu texto à luz do que eu escrevi (se é que eu fui suficientemente claro, o que não quero presumir)... Depois disso, eu gostaria de saber o que você acha disso: se não concorda, se concorda, se isso lhe traz problemas a resolver, se isso lhe traz alguma luz, suficiente ou não... Então, teremos uma conversa... O que acha?

Grande abraço e uma excelente semana."

Nossa resposta:

Há um frase icônica do megainvestidor americano Warren Buffett a respeito da noção de preço e valor:

“'O preço é o que você paga; o valor é o que você leva’. Falando de ações ou de meias, eu gosto de comprar mercadoria de qualidade quando está barato.”

Note que ele está associando preço a uma mercadoria. É algo que você paga e leva na hora. Quando você compra uma ação, paga um preço por ela, mas leva para sua carteira de investimento o valor de uma empresa que, via de regra, presta serviços de fabricação ou comercialização de algo.

Pessoalmente, também associo a palavra "preço" a um produto palpável. Quando vou ao supermercado, verifico o preço do quilo do feijão. Mas quando preciso cotar um serviço de manutenção preventiva no meu carro, eu avalio o valor da mão de obra cobrado pelo mecânico.

Num escritório de Arquitetura, o cliente pode até assinar um cheque à vista pelo projeto contratado logo na primeira entrevista, mas levará semanas para ele receber a encomenda. Não se trata de uma transação imediata, por isso trato do valor do projeto e não do preço do projeto.

Um empresário que "valoriza" o seu empregado, não pensa no salário dele em termos de preço, mas de valor. O custo do empregado está relacionado ao valor de sua hora trabalhada, não do preço de tal hora. Precificar um funcionário é desumanizá-lo.

Deste modo espero ter enriquecido nossa conversa.

O retorno:

"Na base da dificuldade de precificar serviços (comparada com a dificuldade de precificar produtos), está exatamente a falta de tangibilidade dos serviços.

Enquanto eu posso entrar na loja de calçados, calçar meia dúzia de pares, escolher os 2 pares que me calçam melhor e, então, pagar o preço que me foi pedido (ou pechinchar e conseguir um preço levemente menor, por estar levando 2 em vez de um), quando eu contrato um arquiteto, um advogado, um consultor, eu estou fazendo uma aposta - até que o serviço seja efetivamente prestado, eu não posso verificar se ele tem o valor presumido por mim quando concordei com o preço a ser pago. Assim, vender serviços demanda mais do que meramente atribuir valor ao serviço - o valor do serviço inclui, por ex., a reputação do prestador de serviços também (o que implica que não basta descrever o serviço - é preciso adquirir crédito, previamente, para a reputação do prestador).

No caso do trabalho, é importante, como você disse, não precificar a pessoa. O que está sendo comprado é o trabalho feito por ela. Um certo número de horas, o desempenho de uma relação de tarefas, alguns comportamentos, certos resultados: isso, sim, tem valor para o contratante. Por isso ele está disposto a pagar um certo preço, descrito como salário. Sem dúvida, é preciso ficar claro que o valor não está na pessoa, que não é comercializável, mas no trabalho e nos resultados que ela entrega. Quando o empregador percebe que o valor recebido, em forma de trabalho e seus resultados, não corresponde ao preço que ele paga, ele a demite (ou começa a reclamar). Quando é o empregado que percebe que o preço pago por seu trabalho é inferior ao custo que ele tem para prestá-lo, ele faz greve, demite-se ou, simplesmente, começa a reclamar.

Creio que estamos acordes nisto."

A conversa está em aberto.


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quarta-feira, 14 de junho de 2017

Mentiras trágicas: crise

Mentiras trágicas: crise (acróstico de Anibal Tosetto)

Acróstico de Anibal Tosetto:

MENTIRAS TRÁGICAS ⬅ ➡ CRISE

Mas, até o Temer mente?
E desmente.
Notório Lula mente?
Também desmente.
Iludem eleitores
Rapinando valores,
Abafando rumores
Segredando fétidos odores.

Tribunos outros, contemporizadores
Rezingando sob refletores
Ácidas farpas e rememores:
Graves rixas anteriores.
Insidiosos, traiçoeiramente
Chancelando acintosamente
As teses criminosamente
Sacrificantes à Nação. Solenemente.
⬇⬆
Crise moral e ética
Refletindo ações e reações
Improbas desde tempos
Sob colonizadores, aventureiros
E até os atuais e insaciáveis corruptos.


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segunda-feira, 12 de junho de 2017

A colcha de retalhos

A colcha de retalhos - Acróstico de Anibal Tosetto

Acróstico de Anibal Tosetto:

Aquela colcha de retalhos que tu fizeste

Costurando, juntando pedaço em pedaço...
O cancioneiro popular - sem dúvida alguma, inspira os
Legisladores fazedores de leis e emendas na
Carta Magna, acionados por oportunidades e malfeitos.
Hábeis em criar e reformar, são precisos ao costurar
As indispensáveis brechas entre os retalhos,

De forma que, à primeira vista, permaneçam ocultas
E, na Corte, quando o mais inspirado e arguto Ator,

Ruborizado de vergonha - ou não, ao saca-las das Leis
E da Magna Constituição, uma das partes interessadas
Terá, naquele exato momento, a plena certeza que
A decisão lhe será favorável. E se a vítima for a Nação?
Logo, as decisões políticas e calcadas nessas brechas,
Horripilam os Valores Morais e Éticos da Nação;
O cinismo, juntado às justificativas, pisca para os
Seletos membros de impunes seitas.

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segunda-feira, 5 de junho de 2017

O Brasil e o dilema do "menos pior"

O Brasil e o dilema do "menos pior" - acróstico de Anibal Tosetto

Acróstico de Anibal Tosetto:

O ufanismo aflorou com a Independência do

Brasil, enfatizando o nacionalismo e menos a
Racionalidade desejável às decisões políticas e
Administrativas do país. Logo, imediatismo e
Soluções improvisadas, em detrimento às ações
Institucionais planejadas e controles eficazes,
Levaram à ineficiência, desperdício e corrupção.

Enfim, o ufanismo deu lugar à baixa estima e,

O nacionalismo, torcidas unidas in the World Cups.

De eleição em eleição, eleitores descrentes ou
Induzidos a votar sem pesar as consequências e
Levados por vãs promessas, ou optando por
Escolher candidatos pelo critério “o menos pior”.
Mas, à cultura do “menos pior”, acrescente-se a
Asquerosa estratégia para conquistar o Poder:

Desestabilizar Instituições e sabotar os acertos para
Otimizar o destrutor princípio “Quanto pior, melhor”.

Maléfico? Sim. Uma nua e crua realidade.
Enquanto o conformismo falar mais alto, a
Nação escaldada e insegura errará mais uma vez:
Optar pelo “ruim com esse, mas capaz”, ou
Será preferível “um sucessor, igualmente corrupto”?

Pelo irrestrito respeito ao Estado de Direito e
Invocando-se imparcialidade à Justiça, ocorreria
O início do Ciclo Virtuoso tão sonhado, que
Raramente sinalizou ser possível? A Hora É Agora?

“A incessante busca pela Excelência aumenta as chances para o Ótimo Desempenho, condição para manutenção de uma Nação no Bom Caminho. A opção sempre pelo menos pior a levará à ruína.” – Anibal Tosetto

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segunda-feira, 29 de maio de 2017

Um relance de felicidade

Publicado originalmente no Facebook em 29 de maio de 2015.

É só um carrinho de ferro, certo?

Nada disso, esse mimo que enchia os olhos da criançada nos anos setenta e oitenta pode representar muita coisa para gente grande, como eu.

Como qualquer moleque de nariz escorrendo, eu adorava brincar de carrinhos, que meu pai comprava no recém inaugurado Carrefour da Rodovia Dom Pedro em Campinas. Tinha uma loja em Paulínia, na esquina da antiga rodoviária, que também vendia esses brinquedos.

As vezes meu pai viajava por causa do trabalho e comprava as miniaturas nos aeroportos. Elas eram todas maravilhosas.

Quando nos mudamos para uma chácara, meu irmão mais velho me pregou uma peça. Ele colocou alguns dos meus carrinhos favoritos num vidro de maionese Hellmann's e enterrou no meio do pomar, ainda em formação, fazendo uma espécie de mapa do tesouro.

Para ter os carrinhos de volta, teria que primeiramente achar o mapa. Meu amigo, vai fazer uns trinta anos que tento encontrar este mapa. Meu irmão nunca disse onde estava e tal segredo se foi com ele para sempre...

Minha mãe certa vez disse que ele havia colocado o mapa sob um taco de madeira, no assoalho da sala. Já levantei vários deles, mas nunca encontrei nada. Com o tempo e a umidade, penso que este mapa já se deteriorou.

Recentemente vi uma foto postada no Facebook pelo Lindeberg de Menezes Jr., que está vendendo sua linda coleção. A imagem mostrava um carrinho igualzinho ao que estava enterrado no quintal de casa. É claro que eu comprei.

Quando abri o pacote, que chegou pelos Correios, senti um sopro de vento vindo do passado. Coloquei o carrinho em minhas mãos e por algumas frações de segundo me senti criança novamente. Parecia que meu irmão estava no quarto ao lado, de novo.

Um momento fugaz de extrema nostalgia. Um relance de felicidade. A mesma que eu sentia, sempre que meu pai voltava para casa com presentes nas mãos.

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quinta-feira, 25 de maio de 2017

O espírito de um ghost-writer

The Spirit, criado por Will Eisner, desenhado aqui por Jean Tosetto.
The Spirit, criado por Will Eisner, desenhado aqui por Jean Tosetto.

O cinema foi cruel com The Spirit, personagem criado por Will Eisner em 1940. Não lhe deram as mesmas condições de Homem-Aranha e Wolverine para brilhar na grande tela. Não importa. The Spirit segue sendo, ao lado de Tintim, meu personagem favorito dos gibis.

Hoje, depois de não sei quantos anos, tentei desenhá-lo novamente. O representei sentado numa escrivaninha, escrevendo algo na máquina de datilografar. Quando Denny Colt combatia o crime em Central City sob a máscara de um herói, ninguém sabia que era ele que se arriscava.

De certo modo, é assim que me sinto hoje, após ver um artigo publicado num site importante, para o qual trabalhei na condição de "ghost-writer" (escritor fantasma). Não que seja arriscado escrever textos em tais condições. Pelo contrário. O anonimato lhe permite divagar com a autoridade que um mero mortal não atingiria tão cedo.

Obviamente não posso revelar qual foi o texto que escrevi. Somente posso afirmar que foi um desafio intelectual vencido com a satisfação de ter entregue um bom trabalho. Satisfação também pelo fato de saber que posso ser remunerado fazendo aquilo que gosto tanto: projetar e escrever.

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