segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Numa marcenaria de verdade

O blefador elevado a crítico de arte diria: "isto é pós-moderno".
O blefador elevado a crítico de arte diria: "isto é pós-moderno".

Algo me fascinou nesta fotografia. Será que foi o pó de madeira serrada que impregnou a parede, num efeito de pátina irreproduzível? Ou será que foram as fitas crepes encardidas, a fixar recados importantes na porta do armarinho, mas que há muito tempo deixaram de ser urgentes?

Ou seriam as folhas de lixas empilhadas sem critério, resultando num conjunto assimétrico, feito uma cordilheira a separar vales de planaltos? Talvez a lâmpada empoeirada, aguardando a oportunidade de iluminar a esmerilhadeira de bancada?

Você teria coragem de arrumar esta cena? Contaria os pregos e parafusos guardados nas caixinhas de miudezas? Você fecharia a porta para esconder a bagunça do outro cômodo? Você daria uma bronca no marceneiro que trabalha nesta oficina?

Conhecendo ele, como de fato conheço, não moveria um grampo de lugar. Sei que na cabeça dele tudo faz sentido. Sei que do caos e de pedaços de madeira - que recuperam o perfume sempre que confrontados com uma serra circular - ele extrai móveis de beleza ímpar.

Em breve contaremos um pouco de sua história.

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terça-feira, 25 de julho de 2017

Abençoada bagunça

Brinquedos no tapete da sala: criança em casa.

Acordo cedo e, ainda com remelas nos olhos, preparo um café na cozinha. Com a xícara fumegando na mão esquerda, atravesso a sala de estar para destrancar a porta do escritório. Vou desviando dos brinquedos da minha filha, esparramados no tapete. É um malabarismo que me faz sentir como o Indiana Jones vasculhando uma catacumba, evitando pisar nas pedras que abrem um alçapão para um fosso repleto de cobras e lagartos.

Depois que minha filha nasceu, minha casa - e minha vida - nunca mais ficou arrumada. A bagunça começou logo no primeiro dia. Ela nasceu na hora do almoço. Minha primeira refeição, como pai, foi um salgado na cantina da Maternidade. Saí para caminhar pelo centro de Campinas. Percorri a Avenida Francisco Glicério desviando de camelôs, ambulantes e pedintes.

Meus ouvidos eram bombardeados por comerciantes promovendo seus produtos nas portas das lojas, carros buzinando, sirenes de viaturas policiais, ônibus freando e saindo de primeira. Mas os sons, ruídos e barulhos entravam abafados na minha mente. Estava discando uma ligação a cobrar para o Papai do Céu.

Subitamente uma praça se abriu diante de mim. Ao fundo, a Catedral Metropolitana construída por escravos há séculos. Era o Senhor atendendo à minha chamada. Só me lembro de ter flanado em direção à escadaria daquela construção de taipa e pilão.

Meus olhos ficaram embaralhados ao percorrer aquele cenário barroco esculpido em madeira com entalhes dourados. Anjos e santos conversavam freneticamente, mas dezenas de pessoas sentadas e ajoelhadas nos bancos pareciam não escutar, inertes em suas orações.

Então eu disse para Ele:

- Sei que até aqui você sempre me ajudou. Mas agora não peço por mim. Peço por minha filha. Me ajude a tomar conta dela. Não posso deixar que nada falte para minha família. Estou com medo, mas não posso falhar nesta missão. Me ajude.

A resposta veio criptografada. Não entendi as palavras que brotaram no meu coração. Senti que levaria algum tempo para decodificar tudo, enquanto flutuava pelo corredor central da nave. Ao chegar perto do altar, saí por uma porta lateral e continuei caminhando.

Desci até o Mercado Municipal. O alarido era diferente. Ao invés de anjos e santos, era o povão conversando. Gente querendo vender um pacote de biscoitos de polvilho para levar um litro de leite para o barraco alugado no Ouro Verde. Cores em profusões. Cheiro de fumo de rolo misturado com ervas e temperos. Cheiro de peixe fresco. Faces vincadas pelo tempo, aradas pelo trator do trabalho duro.

Quanta gente necessitada neste mundo! Clamei pelo Grande Pai novamente:

- Perdoe meu egoísmo. Fico pedindo as coisas para mim e agora para a minha filha. Mas agora estou vendo que há muito mais pessoas precisando de você. Cuide também delas. Enxugue as lágrimas daquela senhora solitária. Console o garoto que vê o brinquedo na vitrine, e que não pode comprar. Mas não descuide de minha filha.

Com o trato feito, embora não assinado, voltei para a Maternidade. Não foi apenas minha filha que nasceu. Um novo homem nascia naquele dia. Não mais o jovem confiante que projetava o futuro com sua lapiseira Pentel 0.9, mas o matador de leões que também engole sapos, e que mora no meio dessa bagunça que ele chama de casa. Abençoada bagunça.

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segunda-feira, 24 de julho de 2017

Inovare: de Andradas para Paulínia

Cristiano Carlin Trevisan, Jean Tosetto e Horácio Lopes.

A Inovare Móveis Planejados é sediada em Andradas, no sul de Minas Gerais, uma cidade com tradição na fabricação de móveis, em função da presença de imigrantes italianos que chegaram ao Brasil trazendo técnicas de marcenaria.

O Horácio Lopes é o gerente de vendas da empresa, encarregado também de pesquisar novas oportunidades de negócios. Ele entrou em contato conosco para marcar uma visita de apresentação em nosso escritório. Aqui, na medida do possível, recebemos as pessoas para ouvir o que elas tem para falar.

Para um representante de vendas não existe essa história de crise. Se não tem demanda em casa, o jeito é pesquisar o mercado lá fora, nem que seja para atravessar a divisa entre estados. É isso que a Inovare está fazendo, num mercado altamente competitivo como o de móveis planejados.

Quando o interfone tocou, notei que o Horácio estava acompanhado. Era o Cristiano Trevisan, proprietário da empresa. Quando você recebe um empresário na sua sala, precisa valorizar seu tempo. Logo fui alertando que o mercado em Paulínia está num longo momento de entressafra.

As pessoas acham que Paulínia é uma cidade imune à crise econômica e política que se instalou no Brasil desde 2014. Isso não é verdade. Também estamos sofrendo os efeitos das administrações danosas nas diversas esferas do poder, nos últimos anos.

Porém, contatos comerciais nunca são feitos visando retorno imediato. São medidas de longo prazo que estabelecem possibilidades futuras. Isso inclui a expectativa pela retomada do crescimento econômico que, ao que tudo indica, será mais lento do que esperávamos.

Não é hora, porém, de fechar portas e janelas. O sol precisa entrar para iluminar a arrumação dos cômodos. É isso que estamos fazendo. Estamos arrumando a casa e precisaremos trocar os móveis em breve. Eis uma boa notícia para arquitetos, designers, marceneiros e fabricantes.

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quinta-feira, 20 de julho de 2017

Vagando pelo campus

Publicado no Facebook em 09 de novembro de 2012.

Em novembro de 2012, depois de quase 15 anos, voltei ao campus da PUC de Campinas, onde cursei a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo. Fui apresentar documentos para obter a nova carteira do CAU.

Estranhamente não haviam pessoas circulando pelos extensos corredores externos do local, protegidos parcialmente por grandes brises de concreto.

Desse modo, tive a certeza de que o tempo passou, pois sequer pude ter a ilusão de ver meus antigos colegas misturados com aquele mundo de gente jovem que a gente vê nas universidades.

Passei pelo estacionamento e não vi meu Fusquinha azul 1972 debaixo da árvore, onde alguns amigos costumavam fumar depois do almoço.

Na verdade, caminhando ali sozinho, me senti quase como um fantasma, sabendo que ali eu deixei alguns dos melhores anos da minha juventude.

Se o tempo não volta, ao menos tive alguns momentos onde me senti garoto novamente, com aquela sensação de que o futuro era um lugar que eu poderia projetar numa prancheta.

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terça-feira, 27 de junho de 2017

Condutores expostos

Condutores expostos - publicado no Facebook em 27 de junho de 2014.

As vezes, quando a gente acaba de resolver um projeto, definindo sua concepção geral para o contratante, ele ainda faz um último pedido: que os condutores das águas de chuva sejam embutidos nas paredes. Muita gente não gosta de ver estes componentes expostos na fachada.

Sempre respondo que, no projeto das instalações hidráulicas, procuro deslocar esse tipo de tubulação para corredores laterais ou lugares mais discretos.

Saliento que não é uma boa ideia embutir um condutor de água de chuva na parede, por causa da manutenção futura. Folhas de árvores levadas pelo vento e a própria fuligem acumulada podem entupir calhas, coletores e condutores de águas pluviais. Se eles tiverem fácil acesso, a limpeza é mais simples, evitando o quebra quebra.

Por vezes, uma questão técnica se sobrepõe à questão estética numa obra. Portanto, o desafio de um arquiteto é conciliar um detalhe técnico com a sua interferência estética no conjunto da mesma.

Em razão disso, fiquei feliz em encontrar esta fotografia de 2011 em meus arquivos. Trata-se de uma antiga edificação de Buenos Aires, reformada e adaptada para os tempos atuais. Vejam que diante de sua simplicidade - com tijolinhos sem reboco e condutores expostos - esta fachada tem o seu charme garantido justamente por não esconder a sua essência.

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segunda-feira, 26 de junho de 2017

Uma conversa sobre preço e valor

Uma conversa sobre preço e valor - por Alberto Costa e Jean Tosetto

Mensagem de Alberto Costa, consultor empresarial, recebida em 19 de junho de 2017:

"Li, nesta tarde, seu post 'Qual é o valor justo de um projeto arquitetônico?'. Ocorreu-me que algo não estava muito claro em seu texto e levei algum tempo para perceber o que era. Daí, lembrei-me de algumas conversas que tive, há bastante tempo, a respeito do significado de valor, com [justamente] um engenheiro do valor, com quem convivi aqui por algum tempo (ele reside em Curitiba, agora).

Essas conversas giraram, então, em torno da ambiguidade com que a palavra valor é normalmente usada e de como isso prejudica a compreensão e o diálogo entre os profissionais de serviços (especialmente) e seus clientes. Com sua licença, portanto, vou fazer uma breve exposição ordenada da questão.

Na relação entre vendedores e compradores, o ponto de conexão se chama preço. Um negócio só é fechado quando ambos, vendedor e comprador, estão concordes quanto ao preço. E essa é, por incrível que pareça, a única concordância que se exige para fechar um negócio.

Há outras 2 variáveis em questão, entretanto: uma delas é o custo, variável só conhecida pelo vendedor e que ao comprador não importa, praticamente; a outra é o valor, variável só aquilatável pelo comprador e sobre a qual o vendedor não tem qualquer domínio.

Uma transação satisfatória ocorrerá sempre que o preço for suficiente, do ponto de vista do vendedor, para cobrir-lhe todo o custo de produção, de comercialização e de oportunidade e, do ponto de vista do comprador, ele for equivalente (pouco mais ou pouco menos) ao valor por ele atribuído ao produto ou serviço.

Quando dizemos que o preço de algo é barato, isso significa que lhe atribuímos um valor maior do que o que é expresso pelo preço. Quando dizemos que é caro, estamos afirmando que o preço é superior ao valor que percebemos no objeto sendo negociado.

É assim que vendedor e comprador podem ter percepções muito diferentes (e conflitantes) a respeito do preço de um produto/serviço: enquanto o vendedor está mentalmente comparando o preço com os seus custos, o comprador está fazendo o mesmo exercício mental, mas comparando o preço com o valor percebido no objeto da negociação.

Com algum esforço, eu consigo entender o que você escreveu em seu post; entretanto, o uso de valor como sinônimo de preço (algo muito comum em qualquer conversa, devo dizer), torna difícil entender o problema que você está acusando e, ainda mais, torna difícil pensar nas ações adequadas para solucioná-lo. Assim, embora seu texto seja suficiente para fazer seus leitores conscientes de que há um problema (aliás, é provável que eles já o soubessem), faz muito difícil para eles deduzirem como devem agir para eliminar o problema recorrentemente presente em suas negociações.

Como eu disse ali no assunto, pretendo que isso se torne uma conversa. Eu lhe sugeriria ler seu texto à luz do que eu escrevi (se é que eu fui suficientemente claro, o que não quero presumir)... Depois disso, eu gostaria de saber o que você acha disso: se não concorda, se concorda, se isso lhe traz problemas a resolver, se isso lhe traz alguma luz, suficiente ou não... Então, teremos uma conversa... O que acha?

Grande abraço e uma excelente semana."

Nossa resposta:

Há um frase icônica do megainvestidor americano Warren Buffett a respeito da noção de preço e valor:

“'O preço é o que você paga; o valor é o que você leva’. Falando de ações ou de meias, eu gosto de comprar mercadoria de qualidade quando está barato.”

Note que ele está associando preço a uma mercadoria. É algo que você paga e leva na hora. Quando você compra uma ação, paga um preço por ela, mas leva para sua carteira de investimento o valor de uma empresa que, via de regra, presta serviços de fabricação ou comercialização de algo.

Pessoalmente, também associo a palavra "preço" a um produto palpável. Quando vou ao supermercado, verifico o preço do quilo do feijão. Mas quando preciso cotar um serviço de manutenção preventiva no meu carro, eu avalio o valor da mão de obra cobrado pelo mecânico.

Num escritório de Arquitetura, o cliente pode até assinar um cheque à vista pelo projeto contratado logo na primeira entrevista, mas levará semanas para ele receber a encomenda. Não se trata de uma transação imediata, por isso trato do valor do projeto e não do preço do projeto.

Um empresário que "valoriza" o seu empregado, não pensa no salário dele em termos de preço, mas de valor. O custo do empregado está relacionado ao valor de sua hora trabalhada, não do preço de tal hora. Precificar um funcionário é desumanizá-lo.

Deste modo espero ter enriquecido nossa conversa.

O retorno:

"Na base da dificuldade de precificar serviços (comparada com a dificuldade de precificar produtos), está exatamente a falta de tangibilidade dos serviços.

Enquanto eu posso entrar na loja de calçados, calçar meia dúzia de pares, escolher os 2 pares que me calçam melhor e, então, pagar o preço que me foi pedido (ou pechinchar e conseguir um preço levemente menor, por estar levando 2 em vez de um), quando eu contrato um arquiteto, um advogado, um consultor, eu estou fazendo uma aposta - até que o serviço seja efetivamente prestado, eu não posso verificar se ele tem o valor presumido por mim quando concordei com o preço a ser pago. Assim, vender serviços demanda mais do que meramente atribuir valor ao serviço - o valor do serviço inclui, por ex., a reputação do prestador de serviços também (o que implica que não basta descrever o serviço - é preciso adquirir crédito, previamente, para a reputação do prestador).

No caso do trabalho, é importante, como você disse, não precificar a pessoa. O que está sendo comprado é o trabalho feito por ela. Um certo número de horas, o desempenho de uma relação de tarefas, alguns comportamentos, certos resultados: isso, sim, tem valor para o contratante. Por isso ele está disposto a pagar um certo preço, descrito como salário. Sem dúvida, é preciso ficar claro que o valor não está na pessoa, que não é comercializável, mas no trabalho e nos resultados que ela entrega. Quando o empregador percebe que o valor recebido, em forma de trabalho e seus resultados, não corresponde ao preço que ele paga, ele a demite (ou começa a reclamar). Quando é o empregado que percebe que o preço pago por seu trabalho é inferior ao custo que ele tem para prestá-lo, ele faz greve, demite-se ou, simplesmente, começa a reclamar.

Creio que estamos acordes nisto."

A conversa está em aberto.


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quarta-feira, 14 de junho de 2017

Mentiras trágicas: crise

Mentiras trágicas: crise (acróstico de Anibal Tosetto)

Acróstico de Anibal Tosetto:

MENTIRAS TRÁGICAS ⬅ ➡ CRISE

Mas, até o Temer mente?
E desmente.
Notório Lula mente?
Também desmente.
Iludem eleitores
Rapinando valores,
Abafando rumores
Segredando fétidos odores.

Tribunos outros, contemporizadores
Rezingando sob refletores
Ácidas farpas e rememores:
Graves rixas anteriores.
Insidiosos, traiçoeiramente
Chancelando acintosamente
As teses criminosamente
Sacrificantes à Nação. Solenemente.
⬇⬆
Crise moral e ética
Refletindo ações e reações
Improbas desde tempos
Sob colonizadores, aventureiros
E até os atuais e insaciáveis corruptos.


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