sexta-feira, 24 de março de 2017

Com reforma ou sem reforma? Não importa

Com reforma ou sem reforma? Não importa
Toda reforma gera algum transtorno.

O Brasil necessita de várias reformas estruturais, dentre as quais se destacam a reforma da previdência e a reforma trabalhista, que afetam diretamente a vida dos brasileiros.

Toda reforma dá mais trabalho do que inicialmente imaginamos, por isso muitas pessoas preferem deixar as coisas como estão, sendo vítimas do próprio comodismo cedo ou tarde. Devemos saber diferenciar quando reformas são necessárias e quando podemos seguir em frente, independentemente delas.

A reforma previdenciária, por exemplo: sabemos que nos moldes atuais a previdência social não dará conta da demanda crescente em questão de poucos anos. Mas a gritaria é geral para criticar o novo modelo proposto,que fará as pessoas trabalharem até os 65 anos de idade, no mínimo, com descontos crescentes para quem contribuir menos do que 49 anos.

Está ruim? Pode ficar pior? A questão não é essa, pois vai ficar pior de qualquer modo.

Será tanto melhor para o brasileiro descobrir, o quanto antes, que ele simplesmente não deve contar com a previdência social para se aposentar, e que o próprio conceito de aposentadoria deve ser revisto. Ao invés de nos aposentarmos, deveríamos buscar a independência financeira, que nos proporciona a liberdade para fazer aquilo que mais gostamos, inclusive trabalhar.

Não conte com a previdência social. Procure saber como você pode adquirir independência financeira através de investimentos inteligentes.

Outra reforma que preocupa muito as pessoas é a reforma trabalhista. As centrais sindicais são contra a liberação da terceirização plena do trabalho, que elas consideram ser a precarização das relações trabalhistas, reafirmando conceitos maniqueístas que tratam os patrões como vilões e a classe trabalhadora como injustiçada.

Com ou sem reforma trabalhista, os contribuintes estão sendo empurrados para constituírem pessoas jurídicas. Muitos que recebem o salario oficial de uma empresa, já estão recebendo uma quantia "por fora" para que os encargos não se avolumem a cada aumento de salário concedido. Sobra para o assalariado justificar a renda extra na declaração anual do imposto, as vezes fazendo isso na forma de "MEI", quando o micro empreendedor individual não precisa emitir notas fiscais.

Aos poucos, mesmo aqueles que vendem sua mão de obra em troca de um salário com carteira assinada, estão se dando conta de que eles são empresários de si mesmos. E aí está o "X" da questão: não devemos criticar os patrões, pois na prática todos nós somos patrões em algum grau.

Aqui no Brasil, quanto mais cedo aprendermos que estamos por conta própria, melhor vamos reagir diante das adversidades crescentes. Os sindicatos não conseguem nos proteger, os patrões não conseguem gerar empregos para todos e o governo é somente a maior boca que devemos alimentar com o dinheiro que ganhamos.

Com reforma ou sem reforma, estamos sozinhos. Por mais cruel que isso possa parecer, é melhor você saber disso.
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segunda-feira, 20 de março de 2017

Nada contra o outono

Nada contra o outono - por Jean Tosetto

Acordes de violino, executados mentalmente, me acordaram na manhã preguiçosa do último domingo do verão. Por alguma razão que desconheço, acertei a dosagem do café com leite e mel, numa amálgama elevada na temperatura onde o fumegante ainda não queima a língua, entregando um sabor de inspiração.

Seria um desperdício ficar em casa naquele dia. Não precisei pedir duas vezes para a esposa, que prontamente aceitou o convite para almoçar fora, mesmo resfriada.

- Onde?

- No caminho a gente resolve.

Fugindo do agito, fomos para o distrito das casas velhas, nas imediações da zona rural. Para cada restaurante aberto, dois estavam fechados. Para cada porta aberta, outra estava com placa de "vende-se" - e outra com menção de "aluga-se".

Sugeri um lugar que já conhecíamos, mas no meio do caminho vimos a fachada de outro.

- E se for caro?

- Se for caro não voltaremos mais. Não enquanto a nuvem negra sobre o país não se dissipar.

Não respondi exatamente com essas palavras, mas foi no que pensei antes de falar.

A temperatura amena combinava com o azul do céu. Chuviscos ocasionais vinham dele como gotas de orvalho sobre as flores de madeira, que enfeitavam as mesas dispostas diante de um grande quintal, onde crianças brincavam sob as vistas de pais ingressando na meia idade.

Nossa menina sorria despreocupadamente. Eu procurava no cardápio um prato diferente, que não me consumisse tantas horas de trabalho. Antes não atentava para isso, mas agora tal luxo não tem cabimento. Escolhemos um bife recheado com goiabada, a atração principal no teatro de arena onde a plateia era tomada pelo risoto com queijo gorgonzola.

Depois do almoço, a menina não queria ir embora do parquinho. Fui buscá-la perto do balanço. O repórter da TV, em dia de folga, fez algo parecido. Ele me cumprimentou antes que eu pudesse lembrar em que canal estava trabalhando agora.

Não queria voltar para casa tão cedo. Queria respirar ar puro, do alto da montanha, mesmo que isso me custasse para-lamas enlameados. Patinamos num aclive mais acentuado. A menina chorou no banco traseiro. Deixei o carro descer por alguns metros, de ré. Joguei o pneu esquerdo sobre a trilha remanescente de pedriscos. Volante para a esquerda, para a direita e para a esquerda de novo. As rodas tracionando, sem o atrito necessário, quase fizeram o motor ferver. Mas saímos do atoleiro - bela metáfora para lembrar das nuvens negras.

Lá de cima, vimos a grande cidade ao longe, onde as pessoas passavam o último domingo do verão caçando vagas no estacionamento do Shopping, assistindo futebol, ou dedilhando o celular em busca de algo que surpreendesse no Instagram.

O outono está aí, sem o calor radical do verão, sem o chocolate quente do inverno e sem a poesia da primavera. Mas é o que temos por hoje.

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sábado, 18 de março de 2017

A tampa da caixa de gordura

Texto publicado originalmente no Facebook em 18 de março de 2015.

Toda casa precisa ter uma caixa de gordura, no ramal de esgoto, especialmente na saída da cozinha. O excesso de gordura da lavagem de copos, talheres, pratos e panelas fica sobrenadando nesta caixa, sendo consumido por micro-organismos, evitando a poluição ainda maior na rede pública de coleta.

Uma caixa de gordura pode ficar anos esquecida, pois ninguém se importa com ela. Mas se houver um entupimento e ela transbordar, o cheiro e o transtorno são horríveis.

Uma vez um ajudante de jardineiro pisou na tampa de plástico da caixa de gordura lá de casa, e uma lasca dela parou bem no ladrão para a rede geral. A água suja voltou até o ralo da pia e a casa toda ficou fedida. Não teve jeito: tive que limpar a caixa de gordura.

Nunca senti tanta ânsia de vômito como naquele dia. Limpar caixas de gordura é um serviço humilhante, é como fazer uma faxina no Inferno. Coloquei dois sacos plásticos em cada mão e desobstruí a saída de água da caixa, e tudo voltou ao normal. Comprei uma tampa nova - de metal - e por uns bons anos vamos esquecer da caixa de gordura outra vez.

Se tivesse ignorado esse problema, minha casa ficaria inabitável.

O que está acontecendo no Brasil, de um modo geral, é algo parecido. A corrupção é aquela sujeira fedida que fica escondida na caixa de gordura. Ninguém se incomoda pois ela não é visível e seu fedor não escapa para fora.

Mas as vezes é preciso abrir a tampa dessa caixa e encarar uma boa limpeza. Não adianta chamar o vizinho para fazer isso. Não temos noção do tamanho do estrago até ver a situação de frente.

Tem muita coisa para ser passada a limpo neste país e só o povo pode fazer isso. Em todo "panelaço" temos panelas para serem lavadas, mandando a sujeira para a caixa de gordura. Que esta nunca fique entupida novamente.

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terça-feira, 14 de março de 2017

Graças aos nerds

Texto publicado originalmente no Facebook em 14 de março de 2016.

O Brasil deve muito aos nerds. São os nerds que estão combatendo a corrupção que sim, sempre existiu por aqui. Os desvios do dinheiro público sempre abasteceram a máquina que sustenta grande parte dos políticos profissionais que exercem mandatos.

A diferença é que, antes, a maioria da população não desconfiava de nada, pois tudo chegava filtrado e abafado nas mídias tradicionais. Uma campanha eleitoral cara e bem produzia era garantia de vitória para os mesmos de sempre, que se revezam no poder.

Os partidos dominantes contavam com isso desde a redemocratização do Brasil em meados da década de 1980, quando traçaram projetos para assumir o comando da nação, para nunca mais sair dele.

O que deu errado? Os nerds levaram a tecnologia da informação para as transações bancárias, deixando rastros para a Polícia Federal e o Ministério Público seguirem.

Por causa dos nerds, a Internet passou a fazer parte da vida dos cidadãos. Nerds ao quadrado inventaram as redes sociais eletrônicas, e ficaram podres de ricos.

Com todo o lixo que as redes sociais divulgam, elas quebraram o esquema financeiro do marketing das campanhas eleitorais. Mesmo com poucos recursos e pouco tempo na TV, mas com criatividade, até um palhaço pode se eleger hoje em dia, por causa de vídeos que viralizam na Internet.

A imprensa tradicional levou anos, talvez décadas, para conseguir promover as passeatas pelas Diretas Já. Um grupo de garotos, com suas fanpages, fez algo semelhante em questão de meses, para juntar milhões de pessoas contra a corrupção.

"Não adianta tirar os corruptos do poder e colocar outros no lugar" - você pode dizer. É verdade, então teremos que tirar os outros corruptos também, e depois os outros, até que os honestos ocupem os cargos decisivos nas esferas do poder.

Faremos isso com foices e martelos? Não mais. Faremos isso com smartphones. Graças aos nerds.

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segunda-feira, 6 de março de 2017

Fazer cortesia com os livros dos outros custa caro para todos

Poltrona e puff junto de prateleiras: mobiliário comum nas grandes livrarias.
Poltrona e puff junto de prateleiras: mobiliário comum nas grandes livrarias.

Antigamente você queria adquirir um livro, ia até uma livraria de rua, comprava o que tinha em mente e ponto final. Então, as grandes livrarias resolveram inovar o negócio, alugando grandes espaços nos Shoppings, oferecendo também revistas, jornais, CDs, DVDs, jogos, câmeras fotográficas, celulares, brinquedos, artigos de papelaria e café - essa bebida que atrai muita gente que teoricamente compra livros esbarrando neles no caminho do caixa.

Você já reparou nas mordomias que te oferecem nas grandes livrarias? Sempre tem alguma poltrona de design refinado ao seu dispor, com um puff fashion para descansar os pés enquanto se folheia algum livro de arte caríssimo. Você pode ficar duas horas ali que ninguém vai te incomodar. A leitura de cortesia é incentivada nestas grandes lojas pois, segundo seus gestores, isto forma novos adeptos de livros - futuros clientes cativos.

Seria uma ótima ideia se não fosse por um detalhe: os livros que a livraria deixa você ler de graça não são dela, são consignados com as editoras. Para entender melhor: as livrarias recebem os livros das editoras e pagam as mesmas somente após a venda dos exemplares, com atraso mínimo de um mês. Estoque zero e risco diminuído, pois tais livrarias não se responsabilizam por exemplares danificados. Fica por conta da editora fazer a troca sempre que necessário.

Se eventualmente você deixar cair café naquele livro de viagem, ou espirrar no tratado de filosofia, ou ainda, sem querer, rasgar uma página do romance do momento e, quem sabe, deixar cair no chão aquele manual de jardinagem com capa dura, ninguém vai te dar um bronca. O livro será separado junto com outros exemplares sem condição de venda, que serão devolvidos para as editoras, com a logística por conta delas.

Agora vem o dado mais desanimador para quem escreve e edita um livro: as grandes livrarias exigem descontos de 40 a 50% no preço de capa para aceitar os exemplares em consignação. É pegar ou largar. Ou seja, se um livro tem preço de capa arbitrado em R$ 100,00, a livraria, somente após vender o exemplar, vai reembolsar a editora em R$ 50,00 ou no máximo em R$ 60,00. A editora que se vire com todo o custo de edição, revisão, diagramação, gráfica e remessa de exemplares.

Tal prática nociva contaminou as pequenas livrarias, que também estão trabalhando com livros em consignação, sem que isso deixe o livro mais barato para o comprador e prejudicando em última instância os autores, que recebem cada vez menos pelos direitos autorais das editoras, pressionadas por condições adversas.

Vender livros no Brasil parece ser um ótimo negócio para as grandes livrarias e, de fato, foi por muitos anos. Mas a crise chegou, os preços dos livros não acompanharam a inflação e mesmo assim as vendas estão diminuindo ano após ano. O consumidor, sempre muito paparicado, continua frequentando as livrarias, folheando livros e bebendo café gourmet, mas não está levando livros para casa - quando se interessa por algo, realiza a compra pela Internet, com desconto e frete incluso.

O caminho para autores independentes, e mesmo grandes editoras, está em vender diretamente para o consumidor final, através de lojas virtuais e parceiros focados no segmento, como a Amazon. Esta, inclusive, incentiva autores independentes a vender livros no formato eletrônico, ao passo que valoriza as editoras na distribuição de livros físicos, pagando antecipadamente pelos exemplares.

Enquanto isso, a francesa Fnac procura um parceiro para manter sua operação no Brasil, e a Saraiva ensaia a compra da Livraria Cultura - com dinheiro sabe-se lá de quem - para reordenar o tradicional negócio de vender livros, enxugando os pontos de venda e protelando ainda mais os repasses para as editoras.

De nossa parte, estamos com dois livros disponíveis em vivalendo.com: "MP Lafer: a recriação de um ícone" e "Arquiteto 1.0 - Um manual para o profissional recém-formado". É deste modo que estamos viabilizando nossa oferta de conteúdo, aguardando por dias melhores para toda a cadeia literária.

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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Reconhecer-se pequeno é um grande gesto

Os donos destes calçados formam uma pequena família.
Os donos destes calçados formam uma pequena família.

Sonhar grande não é pecado. Querer fazer parte de um grande projeto, empreender uma grande viagem, realizar um grande feito. Quem nunca pensou, ao menos uma vez na vida, em sentar no sofá do Jô Soares para contar sobre uma façanha alcançada?

A imaginação não tem limites, mas as circunstâncias sim. E não é fácil aceitar as limitações que estão além do nosso controle. A casa no alto da montanha, as férias na Tailândia: tudo isso, muitas vezes, é trocado por um pequeno apartamento na periferia e um fim de semana na Praia Grande.

É preciso saber quando um sonho te empurra para frente, ou te aprisiona numa gaiola de ilusões, no quintal das frustrações. Particularmente me libertei de tais grilhões ao ver a sandalinha da minha filha no pé da cama, e troquei o projeto da nova capital da Utopia pela oportunidade de ficar velho a ponto de ver minha menina crescer.

Então percebi que a felicidade não está num banho proibido na Fontana di Trevi, mas na brisa suave que entra pela janela da cozinha, enquanto você almoça vendo sua menina brincando no telefone celular, ignorando a mãe que tenta lhe enfiar uma colherada de purê de batata na boca.

A mãe fica brava mas você agradece, em silêncio, sabendo que tudo aquilo é passageiro.

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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

O que é ser jovem?

Publicado originalmente no Facebook em 22 de fevereiro de 2016.

Ser jovem é acreditar que o melhor ainda está por vir.

Quando você olha para trás e nota que o seu auge já passou, então você está ficando velho.

Eis a beleza do ofício da Arquitetura: cada projeto exige a energia da juventude para ser realizado.

E todo projeto deve ser melhor do que o anterior.

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